Nota sobre o poder acadêmico
Há uma questão incômoda, mas inevitável, que
acompanha a história das ideias: o que devemos fazer com a obra de um escritor,
filósofo, cientista, economista ou intelectual cuja vida tenha sido marcada por
delitos, crimes, violência, abuso de poder ou comportamentos moralmente
condenáveis? Devemos abandonar seus livros? Retirá-los das bibliotecas? Proibir
sua leitura? Deixar de citar seus conceitos? Ou devemos, ao contrário, separar
integralmente a obra da pessoa e continuar a tratá-la como se nada tivesse acontecido?
Nenhuma dessas respostas, tomada de maneira
absoluta, parece intelectualmente satisfatória. A primeira pode conduzir a uma
espécie de iconoclastia retrospectiva; a segunda, à absolvição simbólica do
autor pelo simples fato de sua obra possuir valor intelectual. Entre esses dois
extremos existe uma posição mais difícil, mas também mais rigorosa: a obra pode
permanecer objeto de leitura, crítica e utilização intelectual, enquanto seu
autor responde integralmente pelos atos que praticou.
Essa distinção parece simples, mas possui
consequências profundas. O conhecimento produzido por uma pessoa não se
transforma automaticamente em falsidade porque essa pessoa cometeu um crime.
Uma teoria econômica não deixa de possuir capacidade explicativa porque seu
autor foi moralmente abjeto; um conceito filosófico não perde necessariamente
sua potência analítica porque aquele que o formulou teve uma vida privada
condenável; uma pesquisa sociológica não se torna metodologicamente falsa
porque seu autor abusou de sua posição institucional.
Confundir validade intelectual com virtude
moral seria aceitar uma concepção quase sacerdotal do conhecimento, segundo a
qual somente indivíduos moralmente exemplares poderiam produzir ideias
verdadeiras ou relevantes.
A história intelectual desmente essa
expectativa. Grandes obras foram produzidas por pessoas profundamente
contraditórias, politicamente comprometidas com regimes autoritários, racistas,
antissemitas, colonialistas ou pessoalmente envolvidas em relações de
dominação. O problema não é descobrir uma humanidade moralmente pura entre os
autores que lemos. Essa humanidade provavelmente não existe. O problema
consiste em determinar quando e como a conduta do autor deve modificar nossa
relação com sua obra.
É aqui que se torna necessário abandonar uma
falsa alternativa: ou canonizar integralmente o autor, ou cancelar
integralmente sua produção. Entre a idolatria e o apagamento existe a crítica.
Ler criticamente não significa absolver.
Significa justamente o contrário. Significa retirar do autor a proteção que
durante muito tempo o prestígio intelectual ofereceu a determinadas pessoas. O
professor admirado, o filósofo celebrado, o escritor premiado, o pesquisador
internacionalmente reconhecido e o intelectual publicamente comprometido com
causas progressistas continuam sendo pessoas submetidas às mesmas normas
jurídicas e éticas que qualquer outra pessoa. A excelência intelectual não
constitui circunstância excludente de responsabilidade.
Esse princípio é especialmente importante no
mundo acadêmico. A universidade produz conhecimento, mas também produz
hierarquias. O professor orienta, avalia, recomenda, publica, contrata, indica
para bolsas, controla redes de reconhecimento e pode abrir ou fechar portas
profissionais.
Quando uma pessoa situada nesse lugar utiliza
sua autoridade para constranger, assediar, humilhar, explorar ou sexualizar
subordinados, não estamos diante de uma simples transgressão da vida privada.
Existe uma dimensão institucional e política do problema. O poder acadêmico
pode transformar uma relação aparentemente pessoal em uma relação
estruturalmente assimétrica.
É precisamente por isso que casos envolvendo
intelectuais consagrados precisam ser examinados com ainda maior rigor, e não
com menor. Quanto maior o capital simbólico de uma pessoa, maior pode ser sua
capacidade de produzir silêncio em torno de seus próprios comportamentos. O
prestígio funciona, nesse caso, como uma espécie de escudo. A admiração
acumulada ao longo de décadas pode fazer com que colegas hesitem em acreditar
nas vítimas, instituições protejam sua reputação e estudantes temam
consequências profissionais caso falem.
O caso de Boaventura de Sousa Santos torna
essa contradição particularmente evidente. O sociólogo português construiu uma
obra de enorme influência internacional sobre epistemologias do Sul, sociologia
crítica, direito, democracia, colonialismo e emancipação. Seu pensamento
tornou-se referência para inúmeros pesquisadores e movimentos sociais. Ao mesmo
tempo, a partir de 2023, vieram a público denúncias de assédio sexual e moral,
abuso de poder e outras formas de violência no contexto do Centro de Estudos Sociais
da Universidade de Coimbra, instituição que dirigiu durante muitos anos. O caso
ganhou dimensão internacional e provocou manifestações de solidariedade às
denunciantes, além de intenso debate sobre poder, gênero e silenciamento na
universidade.
A existência dessas denúncias não autoriza,
por si só, que se escreva retrospectivamente que todos os crimes alegados foram
judicialmente comprovados. Essa distinção deve ser preservada. O direito possui
procedimentos próprios de investigação, produção de provas, contraditório e
julgamento. A crítica intelectual não pode substituir o tribunal. Mas o
princípio inverso é igualmente importante: a ausência de uma condenação
criminal não transforma automaticamente uma acusação em inexistente nem impede
uma instituição de examinar criticamente relações de poder, assédio e
violência. São planos distintos de responsabilidade.
Esse ponto é decisivo porque a justiça não se
resume ao direito penal. Há responsabilidade jurídica, responsabilidade
institucional, responsabilidade ética, responsabilidade política e
responsabilidade intelectual. Um comportamento pode não configurar crime e,
ainda assim, ser eticamente inadmissível ou institucionalmente incompatível com
uma posição de autoridade. Do mesmo modo, uma prática pode configurar crime e,
portanto, exigir a atuação das instituições competentes do sistema de justiça.
Não devemos colocar todos esses planos dentro de uma única categoria chamada
simplesmente de “culpa”.
A própria investigação independente
encomendada pelo Centro de Estudos Sociais, apresentada em 2024, relatou
padrões de abuso de poder e assédio por indivíduos situados em posições
hierarquicamente superiores. Isso é relevante porque desloca a discussão da
personalidade individual para a estrutura de poder. O problema deixa de ser
apenas “quem é esse homem?” e passa a incluir uma pergunta muito mais
importante: que condições institucionais permitiram que determinadas práticas
fossem normalizadas, silenciadas ou toleradas?
Essa pergunta nos leva ao problema da
dissociação entre o pensador e a pessoa comum. É preciso, sim, dissociá-los em
determinado sentido. O autor de uma teoria e o indivíduo que vive no mundo são
objetos distintos de análise. Mas não devemos dissociá-los completamente. A
obra não existe fora da história. Ela é produzida por sujeitos situados em
relações sociais, instituições, conflitos e estruturas de poder. A biografia
pode iluminar a obra, revelar contradições e expor limites que antes não
percebíamos. O que não pode fazer é substituir a análise da obra.
Portanto, a posição mais consistente não é
“separar o autor da obra” como se eles não tivessem nenhuma relação, mas
distinguir analiticamente a obra, a pessoa e as condições sociais de produção
da obra, mantendo-as simultaneamente em relação crítica.
Essa distinção permite evitar dois erros
simétricos. O primeiro consiste em dizer: “ele escreveu coisas brilhantes,
portanto não pode ter feito aquilo”. Trata-se de uma falácia de autoridade
aplicada à moral. O segundo consiste em dizer: “ele fez aquilo, portanto tudo o
que escreveu é falso ou intelectualmente inútil”. Trata-se de uma espécie de
falácia genética. Uma proposição não se torna falsa porque seu autor é
moralmente condenável. Sua validade precisa ser examinada por seus próprios
fundamentos, evidências, argumentos e consequências.
Isso não significa, entretanto, que a vida do
autor seja irrelevante. Há casos em que a conduta pessoal entra diretamente em
contradição com o conteúdo da obra e essa contradição constitui um objeto
intelectual relevante. Um pensador que escreve sobre emancipação e exerce
sistematicamente dominação sobre seus subordinados produz uma contradição que
merece ser investigada. Não para demonstrar que suas ideias são necessariamente
falsas, mas para perguntar como foi possível sustentar determinadas ideias no
plano discursivo enquanto práticas incompatíveis com elas eram realizadas no
plano cotidiano.
Nesse sentido, a contradição entre pensamento
e prática não invalida automaticamente o pensamento. Ela pode, porém,
requalificar a maneira como o lemos. Talvez seja essa a posição
intelectualmente mais adulta diante do legado de figuras controversas: não
apagar, não canonizar, não desculpar e não esquecer.
Podemos continuar lendo Martin Heidegger sem
ocultar seu envolvimento com o nazismo. Podemos estudar autores que defenderam
posições racistas sem reproduzir seus preconceitos. Podemos utilizar categorias
produzidas por pensadores politicamente conservadores, autoritários ou
pessoalmente contraditórios sem transformar essa utilização em homenagem.
Podemos estudar uma obra literária extraordinária escrita por alguém cuja
conduta pessoal foi abominável sem converter sua leitura em absolvição moral.
A biblioteca não é um tribunal. Mas também
não deve ser um santuário. Essa formulação é importante porque livros não
precisam ser tratados como monumentos intocáveis. Uma obra pode permanecer
disponível e, simultaneamente, ser acompanhada de uma leitura crítica de seu
contexto, das posições políticas de seu autor, de suas relações de poder e das
violências que atravessaram sua trajetória. Em determinados casos, talvez seja
necessário até mesmo modificar a maneira como ensinamos essa obra. Não
necessariamente retirando-a do currículo, mas deixando de apresentá-la como
produto de uma genialidade isolada e incontestável.
É particularmente importante fazer essa
distinção quando estamos diante de intelectuais progressistas. Há uma tentação
perigosa de acreditar que alguém que defende publicamente a democracia, os
direitos humanos, o feminismo, os povos indígenas, os trabalhadores ou a
justiça social estaria, por coerência, imunizado contra práticas de dominação.
A história mostra justamente o contrário: não existe correspondência necessária
entre a radicalidade política de um discurso e a qualidade ética das relações
pessoais de quem o profere.
O caso Boaventura é perturbador também por
isso. A crítica às estruturas de poder não imuniza ninguém contra o exercício
abusivo do poder. Conhecer teorias feministas não transforma automaticamente
alguém em feminista na vida cotidiana. Defender epistemologias subalternizadas
não impede automaticamente alguém de produzir formas de silenciamento.
Escrever sobre emancipação não impede ninguém
de exercer dominação. Essa constatação não torna inúteis os conceitos
produzidos pelo autor. Torna indispensável submetê-los a uma leitura ainda mais
rigorosa.
Há, inclusive, uma dimensão epistemológica
nessa questão. Se a universidade pretende reconhecer a pluralidade dos sujeitos
produtores de conhecimento, não pode aceitar que o prestígio intelectual de um
homem funcione como mecanismo de desqualificação da palavra de mulheres que
ocupam posições hierarquicamente inferiores. O problema não é apenas moral. É
também epistemológico: quem tem sua palavra considerada conhecimento e quem
precisa provar continuamente que merece ser ouvido?
As denúncias envolvendo Boaventura provocaram
justamente esse debate sobre as estruturas acadêmicas de poder e sobre os
mecanismos de silenciamento. A literatura produzida a partir do caso analisou,
entre outros aspectos, as relações entre assédio, injustiça epistêmica e
hierarquia acadêmica.
Há, portanto, uma consequência que não
devemos evitar: talvez seja necessário abandonar definitivamente a ideia de que
grandes intelectuais precisam ser tratados como figuras moralmente
excepcionais. O intelectual não é um santo secular. É uma pessoa. Pode ser
brilhante e mesquinho, generoso e autoritário, revolucionário em suas ideias e
conservador em seus afetos, crítico da dominação e simultaneamente praticante
de formas de dominação. Isso não constitui uma exceção. É uma possibilidade
humana.A responsabilidade intelectual começa justamente quando abandonamos a
necessidade de transformar nossos autores preferidos em heróis. Podemos
reconhecer o que uma pessoa produziu sem lhe conceder imunidade moral. Podemos
agradecer a uma obra sem prestar culto ao autor. Podemos utilizar um conceito
sem endossar a biografia de quem o formulou. Podemos reconhecer uma
contribuição científica e, simultaneamente, condenar um crime. Podemos
preservar um livro e retirar de seu autor o pedestal.
Essa posição é especialmente importante para
uma cultura democrática. Uma democracia madura não precisa de heróis
intelectuais intocáveis. Precisa de instituições capazes de investigar, julgar
e responsabilizar pessoas independentemente de sua reputação, e de uma cultura
intelectual capaz de avaliar ideias sem submissão à autoridade pessoal de quem
as produziu.
Por isso, a resposta à pergunta “devemos
continuar utilizando a obra de alguém que cometeu crimes?” não pode ser
simplesmente sim ou não. Deve ser: depende da natureza da obra, da natureza dos
atos, da relação entre ambos e das condições sob as quais a obra será
utilizada. Em alguns casos, a conduta do autor será tão intrinsecamente ligada
à produção intelectual que uma leitura sem essa dimensão seria intelectualmente
desonesta.
Em outros, a relação será muito mais
distante. Em todos eles, porém, permanece uma regra fundamental: a obra deve
ser julgada por seus argumentos, evidências e consequências, enquanto a pessoa
deve responder por seus atos perante as instâncias apropriadas.
O que não devemos aceitar é que a grandeza da
obra seja utilizada como argumento para diminuir a gravidade do crime. Tampouco
devemos aceitar que a gravidade do crime seja utilizada automaticamente para
decretar a inexistência de toda contribuição intelectual anterior.
Uma pessoa pode ser culpada e sua obra
continuar sendo intelectualmente valiosa. Uma obra pode ser valiosa e seu autor
continuar sendo moralmente condenável. As duas afirmações podem ser verdadeiras
ao mesmo tempo. Talvez essa seja uma das tarefas mais difíceis da maturidade
intelectual: aprender a sustentar simultaneamente verdades que preferiríamos
manter separadas.
Não precisamos escolher entre a crítica da
obra e a responsabilização do autor. Precisamos fazer as duas coisas. E talvez
seja precisamente aí que esteja a diferença entre uma cultura de pensamento e
uma cultura de culto. A primeira preserva livros, conceitos, argumentos e
descobertas para submetê-los continuamente à crítica. A segunda preserva
pessoas, reputações e hierarquias, mesmo quando os fatos exigem sua revisão.
Não se trata de cancelar a obra. Trata-se de
cancelar a imunidade do autor. A grandeza intelectual não concede salvo-conduto
moral ou jurídico: quem comete um delito ou crime deve responder por seus atos
perante a Justiça.
Fonte: Por Carlos José Saldanha Machado, em A
Terra é Redonda

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