sábado, 12 de setembro de 2026

Após 25 anos do 11 de setembro de 2001, o que mudou no tabuleiro da geopolítica?

Os atentados do 11 de setembro mudaram os rumos da geopolítica global. Após 25 anos dos ataques às Torres Gêmeas em Nova York, que mataram mais de 3 mil pessoas, analistas ouvidos pelo Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, comentam as principais mudanças que se sucederam até aqui.

Algumas alterações profunda no cenário global ocorreram a partir daquele fatídico dia, apontaram os especialistas. A principal delas na visão do professor de relações internacionais do IBMEC, Márcio Sette Fortes foi a transição da antiga ordem mundial unipolar que para o mundo multipolar, ainda "que fragmentado".

"O que nós temos hoje é a ascensão de potências consideradas rivais pelos Estados Unidos, como a China e a Rússia. Então, ao mesmo tempo, um certo desgaste da hegemonia norte-americana, com custos muito altos de guerra que foram empreendidos ao longo desses anos todos."

Já o professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Roberto Goulart de Menezes, destaca outro aspecto: o aumento substantivo do gasto em defesa empreendido pelos Estados Unidos a partir daquele momento.

"O 11 de setembro significou um aumento da percepção, me parece, das ameaças no mundo que os Estados Unidos consideram da sua presença no mundo."

O que se viu, de lá para cá, foi o início de uma incursão da Casa Branca no Oriente Médio, o que ficou conhecido como guerra ao terror. Incursões foram efetuadas no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, além de ataques contra a Síria e a própria Palestina. Todas, feitas por Washington a partir do 11 de setembro, foram para justificar sua defesa pelos ataques sofridos naquele dia.

A partir daí, segundo Sette Fortes, os EUA passam adotar o que ficou conceituado como guerra preventiva, ou seja, lançam mão do direito de atacar antes que sejam atacados. O que se passa na sequência é invasão ao Afeganistão iniciada como uma caça a Osama Bin Laden e que durou cerca de 20 anos.

Outro caso emblemático foi a associação feita por Washington do Iraque com o homem acusado de coordenar os ataques ao território norte-americano. Além disso, haviam acusações de que Bagdá desenvolvia armas de destruição em massa. "A partir de fevereiro de 2003, os Estados Unidos trabalharam nas Nações Unidas, no Conselho de Segurança da ONU, para tentar vincular o Saddam Hussein ao 11 de setembro", relembra Menezes.

Para levar a incursão à frente, os Estados Unidos precisaram mexer no organograma institucional e remover peças que diziam o contrário das acusações dos EUA. Um deles, o brasileiro José Bustani, então diretor-geral da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ). Anos depois ficou provado que de fato o Iraque não desenvolvia armas de tal calibre.

Ao fim e ao cabo, todo esse grande avanço militar dos EUA no Oriente Médio deixou um legado de expansão militar na região.

"As bases norte-americanas acabam sendo expandidas para termos ali um conceito mais arraigado de vigilância global", comenta o professor do IBMEC.

Outro apontamento feito pelo especialista em relação ao pós 11 de setembro é que desde então há uma "normalização doutrinária", ou seja "o conceito de eliminar alvos em territórios estrangeiros sem declarar uma guerra formal foi totalmente normalizado pelas superpotências".

<><> Mudanças também ocorreram dentro dos EUA

Desde o 11 de setembro os Estados Unidos redobraram seu esquema de segurança interno e passaram a agir no cenário internacional de forma mais "unilateral", atesta Menezes.

No âmbito doméstico, os serviços de checagem nos aeroportos e controle de imigração, que eram até então terceirizados, voltaram a ser estatizados. Além disso, o reforço do imaginário do árabe como inimigo ou perigoso ficou cada vez mais sedimentado na sociedade norte-americana.

"Os Estados Unidos seguem reforçando esse imaginário, ainda no cinema, quando a gente vê aviões que são sequestrados e os sequestradores são árabes, navios que são sequestrados e os sequestradores são árabes. Então, [eles são] vistos como essa ameaça ao estilo de vida, ao 'mundo ocidental', mas que nós sabemos que é derivada de racismo e de xenofobia", comenta Menezes.

Um exemplo clássico desse episódio ocorreu recentemente, no governo do presidente Donald Trump. Durante a Copa da Mundo, atletas de países africanos, do Irã e do Iraque passaram por revistas severas no aeroporto, com jogadores e funcionários passando horas junto ao serviço de migração respondendo perguntas. Entre os casos mais emblemáticos que marcaram negativamente o torneio está a proibição do governo norte-americano ao árbitro somali Omar Atan que foi impedido de trabalhar na competição.

Ao mesmo tempo, Sette Fortes comenta que já há um desgaste interno da população norte-americana com guerras que duram mais do que esperado. Demonstração deste cansaço foi visto na pesquisa Reuters/Ipsos publicada no final de agosto, que revelou que quatro a cada cinco norte-americanos acreditam que o conflito no Irã se prolongará. Consequência disso, o levantamento mostra que 63% dos entrevistados desaprovam a condução do presidente Donald Trump da situação com Teerã. Além disso, o índice de rejeição do chefe da Casa Branca é de 62%.

Ao ser questionado se o ciclo geopolítico aberto em 2001 chegou ao fim, Menezes responde que sim, embora algumas marcas ainda estejam latentes.

"Creio que já chegou ao fim, porque nós tivemos depois a crise de 2008. Então, tendo os Estados Unidos como epicentro, eles não conseguiram, inclusive, por conta disso, manter os altos gastos na defesa. Também a sociedade, parte da sociedade nos Estados Unidos passou a questionar, dizendo: onde está a ameaça?"

¨      Imagens que constroem mundos: 25 anos após o 11 de setembro. Por Francirosy Campos Barbosa

Era uma terça-feira. Eu estava no Laboratório de Imagem e Som em Antropologia, para uma reunião do Grupo de Antropologia Visual, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, ambos coordenados por Sylvia Caiuby Novaes, quando Mariana Vanzolini nos avisou sobre o que estava acontecendo. Foi impactante para todos nós que estávamos ali. Quando ouvi as primeiras notícias atribuindo os atentados a árabes/muçulmanos, liguei imediatamente para uma amiga da comunidade islâmica.

Eu havia depositado minha dissertação de mestrado poucos dias antes, e a defesa estava marcada para 2 de outubro. Naquele momento, tive a sensação de que tudo o que eu havia escrito talvez já não valesse para muita coisa. Ledo engano. Imagem oculta: reflexões sobre a relação entre os muçulmanos e a imagem fotográfica, minha dissertação, tratava justamente das fotografias que os muçulmanos produziam de si mesmos, das imagens por meio das quais se apresentavam e construíam suas próprias narrativas, assim como das formas pelas quais a imprensa e eu mesma, como pesquisadora os representava. Este tema seria ainda mais importante para direcionar as minhas pesquisas futuras.

De repente, o mundo passaria a produzir outras imagens sobre os muçulmanos e sobre o Islam. E uma delas se imporia com uma força devastadora: a imagem do terror.

Minha pesquisa e a de outros colegas antropólogos foram profundamente impactadas. Mudou também nossa forma de estar no ambiente acadêmico. Passamos a receber e-mails, mensagens e contatos, alguns indiretos, vindos de diferentes setores. Certa vez, conversando com um colega que pesquisava o mesmo tema, comparamos as mensagens que estávamos recebendo. Chegavam, inclusive, propostas para estudar nos Estados Unidos, com bolsas e bons financiamentos para pesquisar os muçulmanos.

Há 25 anos, os muçulmanos se tornaram um dos alvos preferenciais da mídia, das manchetes e do discurso de ódio internacional. A islamofobia cresceu de tal maneira que eu, depois de décadas estudando imagens, performances e as formas pelas quais os muçulmanos constroem suas próprias representações, precisei me voltar também para os estudos sobre islamofobia. Era necessário compreender não apenas as imagens que as pessoas produziam de si mesmas, mas também aquelas que passaram a ser produzidas contra elas.

Nós, pesquisadores do Islam – e acredito poder falar também a partir da experiência compartilhada com muitos colegas –, sabemos o quanto aquele período foi doloroso para a comunidade islâmica no Brasil. Foi avassalador. Em alguma medida, esse impacto seria depois atenuado pela novela O Clone, que estreou em 1º de outubro de 2001 e colocou em circulação outras imagens e narrativas sobre muçulmanos, árabes e o Islam. Mas não foi suficiente para desfazer uma imagem que foi construída tão violentamente no imaginário das pessoas.

Presenciei, no trabalho de campo, a dor de 2001. Depois, a de 2002, de 2003 e dos anos que se seguiram. Presenciei as marcas deixadas pelas suspeitas, pelos estereótipos, pelos preconceitos e pelas diferentes formas de violência dirigidas a pessoas muçulmanas que nada tinham a ver com os atentados de 11 de setembro.

Vinte e cinco anos depois, continuamos produzindo etnografias, formando e orientando novos pesquisadores e investindo o máximo que podemos em pesquisas sobre o Islam e sobre comunidades islâmicas, no Brasil, em contextos de diáspora e no Oriente Médio.

Passei boa parte da minha trajetória acadêmica estudando e produzindo imagens sobre o contexto islâmico no Brasil. O 11 de setembro me mostrou, de maneira brutal, que as imagens não apenas representam o mundo. Elas também constroem mundos, produzem imaginários, alimentam medos e ajudam a definir quem será visto como semelhante e quem será transformado em ameaça.

Após o 11 de setembro, países de maioria muçulmana foram submetidos a guerras e a inúmeras formas de violência. Afeganistão e Iraque são exemplos incontornáveis. Assistimos também ao silenciamento em torno da violência sexual contra mulheres durante a Guerra do Iraque. Carmen Rial aborda essa questão em Guerra de imagens e imagens da guerra: estupro e sacrifício na Guerra do Iraque. O artigo analisa o silenciamento da mídia global sobre os estupros de mulheres muçulmanas cometidos por soldados e mercenários norte-americanos no Iraque. A partir de uma perspectiva antropológica, Rial discute as imagens e também os silêncios e as ausências de imagens produzidas em torno dessas violências, refletindo sobre a presença e a representação das mulheres nesse espaço predominantemente masculino que é a guerra.

Há, por fim, um paradoxo que não pode ser ignorado: ao mesmo tempo que, após o 11 de setembro, os muçulmanos passaram a ser sistematicamente associados ao terrorismo no imaginário midiático internacional, populações muçulmanas estiveram entre as principais vítimas do próprio terrorismo. Organismos internacionais já chamaram a atenção para o fato de que uma parcela expressiva das vítimas do terrorismo é muçulmana, realidade que se evidencia pela concentração dessa violência, nas últimas décadas, em países como Iraque, Afeganistão, Paquistão e Síria e, mais recentemente, em regiões africanas com expressiva população muçulmana. Uma das perversidades do pós-11 de setembro foi justamente essa inversão: populações profundamente atingidas pelo terrorismo foram transformadas, pelas imagens, pelas manchetes e pelos discursos, de vítimas em suspeitas, alimentando estereótipos, preconceitos e a islamofobia.

Falar sobre esse dia é importante porque nos conecta a um passado cujas consequências foram e continuam sendo profundamente dolorosas para os muçulmanos em diferentes partes do mundo.

Desde então, estereótipos que representam as mulheres muçulmanas como submissas e os homens muçulmanos como terroristas passaram a ocupar de forma recorrente a mídia impressa, televisiva e, mais recentemente, as redes sociais, reforçando preconceitos e alimentando diferentes formas de islamofobia.

¨      Os 25 anos do 11 de Setembro: marcos que redefiniram a geopolítica do Oriente Médio

Os atentados de 11 de setembro de 2001 deram início a uma profunda transformação na política externa dos Estados Unidos e desencadearam uma série de intervenções militares que alteraram o equilíbrio de poder no Oriente Médio e em outras regiões, que verberam até hoje.

A Sputnik Brasil listou os principais marcos que redefiniram o Oriente Médio, após 25 anos do atentado, que começou com a invasão do Afeganistão em 2001:

<><> Invasão do Afeganistão (2001)

Após os atentados, os EUA identificaram a Al-Qaeda (organização terrorista proibida na Rússia e em vários outros países), liderada por Osama bin Laden, como responsável pelos ataques. Como a organização mantinha bases no Afeganistão sob proteção do regime Talibã, Washington iniciou uma intervenção militar em 7 de outubro de 2001 com o apoio do Reino Unido e outros aliados, mas não conseguiu capturar Bin Laden nem eliminar a Al-Qaeda.

Apenas dez anos depois, em 2011, Bin Laden foi morto pelos Estados Unidos em uma operação a 120 km da capital do Paquistão, Islamabad.

O conflito se transformou em uma longa guerra e se tornou um dos principais símbolos da chamada "Guerra ao Terror" com consequências que ultrapassaram as fronteiras do país. A presença militar americana se estendeu por duas décadas, enquanto o Talibã recuperava gradualmente sua força.

Em agosto de 2021, após a retirada das tropas estadunidenses, o grupo retomou o controle de Cabul e voltou ao poder. O episódio influenciou profundamente a política do Oriente Médio, contribuindo para a criação de um ambiente que posteriormente incluiria a invasão do Iraque, em 2003.

<><> Invasão do Iraque (2003)

Dois anos depois da invasão do Iraque, em março de 2003, os EUA, novamente com apoio principalmente do Reino Unido, invadiram o Iraque sob a justificativa de que o governo do presidente Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa.

Sem o aval do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), a operação derrubou o governo iraquiano e levou à captura de Hussein, mas as supostas armas nunca foram encontradas. A ocupação provocou o enfraquecimento das instituições do Estado, o aumento da violência sectária entre sunitas e xiitas e o surgimento de uma forte insurgência contra as forças estrangeiras e o novo governo iraquiano.

O enfraquecimento do Iraque, durante décadas uma das principais potências militares árabes, abriu espaço para o crescimento da influência do Irã na região e contribuiu para a expansão de grupos jihadistas, que posteriormente favoreceriam o surgimento do Estado Islâmico (organização terrorista proibida na Rússia e em vários países). Além disso, a invasão deteriorou a imagem dos EUA em grande parte do mundo árabe e alimentou novas tensões políticas e religiosas.

<><> Primavera Árabe (2010–2012)

A Primavera Árabe foi uma onda de protestos e mobilizações populares que começou no final de 2010, na Tunísia, e rapidamente se espalhou por países do Oriente Médio e do Norte da África. Governos de longa duração foram derrubados na Tunísia e no Egito, enquanto países como Líbia, Síria e Iêmen mergulharam em conflitos e guerras civis.

Em 19 de março de 2011, tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) realizaram uma intervenção militar na Líbia. A intervenção foi justificada para proteger a população local com aval do Conselho de Segurança da ONU. As ações entretanto culminaram na queda e na morte do líder do país, Muammar Kadhafi, assassinado após ser espancado por uma multidão.

A guerra civil na Síria transformou-se em um conflito internacional envolvendo diferentes potências e grupos armados.

<><> Acordos de Abraão (2020 em diante)

Anunciados em 2020, os acordos buscaram normalizar as relações entre Israel e países árabes. Inicialmente, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein anunciaram acordos diplomáticos com Israel, acompanhados pelo Marrocos e pelo Sudão.

A nova arquitetura regional alterou as alianças tradicionais do Oriente Médio. Também normalizaram relações com Israel também, Turquia, Egito e Jordânia. Entretanto, o conflito entre Hamas e Israel, iniciado em 7 de outubro de 2023, e a destruição da Faixa de Gaza recolocaram a questão palestina no centro da política regional, dificultando novas iniciativas de normalização.

<><> Do Iraque ao Irã (2026)

O evento mais recente que dá seguimento à geopolítica orquestrada pelos EUA desde o atentado do 11 de Setembro, diz respeito ao confronto do atual governo de Donald Trump, com o Irã, que provocou a morte da sua principal liderança, o aiatolá Ali Khamenei, em mais uma intervenção direta que acirrou as tensões em todo o Oriente Médio.

Em mais uma medida intervencionista no Oriente Médio, os Estados Unidos iniciaram a guerra contra o Irã, que provocou a morte de Khamenei no primeiro dia de operação, mas que também levou a uma reação que Washington não calculava, pois em vez de desestabilizar o regime, e pese as limitações militares, os episódios tem apontado para o fortalecimento do governo persa e enfraquecimento do governo Trump.

 

Fonte: Sputnik Brasil/Jornal da USP

 

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