Após
25 anos do 11 de setembro de 2001, o que mudou no tabuleiro da geopolítica?
Os
atentados do 11 de setembro mudaram os rumos da geopolítica global. Após 25
anos dos ataques às Torres Gêmeas em Nova York, que mataram mais de 3 mil
pessoas, analistas ouvidos pelo Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, comentam
as principais mudanças que se sucederam até aqui.
Algumas
alterações profunda no cenário global ocorreram a partir daquele fatídico dia,
apontaram os especialistas. A principal delas na visão do professor de relações
internacionais do IBMEC, Márcio Sette Fortes foi a transição da
antiga ordem mundial unipolar que para o mundo multipolar, ainda "que
fragmentado".
"O
que nós temos hoje é a ascensão de potências consideradas rivais pelos Estados
Unidos, como a China e a Rússia. Então, ao mesmo tempo, um certo desgaste
da hegemonia norte-americana, com custos muito altos de guerra que foram
empreendidos ao longo desses anos todos."
Já o
professor de relações internacionais da Universidade de Brasília
(UnB), Roberto Goulart de Menezes, destaca outro aspecto: o aumento
substantivo do gasto em defesa empreendido pelos Estados Unidos a partir
daquele momento.
"O
11 de setembro significou um aumento da percepção, me parece, das ameaças no
mundo que os Estados Unidos consideram da sua presença no mundo."
O que
se viu, de lá para cá, foi o início de uma incursão da Casa Branca no Oriente
Médio, o que ficou conhecido como guerra ao terror. Incursões foram efetuadas
no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, além de ataques
contra a Síria e a própria Palestina. Todas, feitas por Washington a partir do
11 de setembro, foram para justificar sua defesa pelos ataques sofridos naquele
dia.
A
partir daí, segundo Sette Fortes, os EUA passam adotar o que ficou conceituado
como guerra preventiva, ou seja, lançam mão do direito de atacar antes que
sejam atacados. O que se passa na sequência é invasão ao Afeganistão
iniciada como
uma caça a Osama Bin Laden e que durou cerca de 20 anos.
Outro
caso emblemático foi a associação feita por Washington do Iraque com o homem acusado de
coordenar os ataques ao território norte-americano. Além disso, haviam
acusações de que Bagdá desenvolvia armas de destruição em massa. "A partir
de fevereiro de 2003, os Estados Unidos trabalharam nas Nações Unidas, no
Conselho de Segurança da ONU, para tentar vincular o Saddam Hussein ao 11 de setembro",
relembra Menezes.
Para
levar a incursão à frente, os Estados Unidos precisaram mexer no organograma
institucional e remover peças que diziam o contrário das acusações dos EUA. Um
deles, o brasileiro José Bustani, então diretor-geral da Organização
para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ). Anos depois ficou provado que
de fato o Iraque não desenvolvia armas de tal calibre.
Ao fim
e ao cabo, todo esse grande avanço militar dos EUA no Oriente Médio deixou um
legado de expansão militar na região.
"As
bases norte-americanas acabam sendo expandidas para termos ali um conceito mais
arraigado de vigilância global", comenta o professor do IBMEC.
Outro
apontamento feito pelo especialista em relação ao pós 11 de setembro é que
desde então há uma "normalização doutrinária", ou seja "o
conceito de eliminar alvos em territórios estrangeiros sem declarar uma guerra
formal foi totalmente normalizado pelas superpotências".
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Mudanças também ocorreram dentro dos EUA
Desde o
11 de setembro os Estados Unidos redobraram seu esquema de segurança interno e
passaram a agir no cenário internacional de forma mais "unilateral",
atesta Menezes.
No
âmbito doméstico, os serviços de checagem nos aeroportos e controle de
imigração, que eram até então terceirizados, voltaram a ser estatizados. Além
disso, o reforço do
imaginário do árabe como inimigo ou perigoso ficou cada vez mais
sedimentado na sociedade norte-americana.
"Os
Estados Unidos seguem reforçando esse imaginário, ainda no cinema, quando a
gente vê aviões que são sequestrados e os sequestradores são árabes, navios que
são sequestrados e os sequestradores são árabes. Então, [eles são] vistos como
essa ameaça ao estilo de vida, ao 'mundo ocidental', mas que nós sabemos que é
derivada de racismo e de xenofobia", comenta Menezes.
Um
exemplo clássico desse episódio ocorreu recentemente, no governo do presidente
Donald Trump. Durante a Copa da
Mundo,
atletas de países africanos, do Irã e do Iraque passaram por revistas severas
no aeroporto, com jogadores e funcionários passando horas junto ao serviço de
migração respondendo perguntas. Entre os casos mais emblemáticos que marcaram
negativamente o torneio está a proibição do governo norte-americano ao árbitro
somali Omar Atan que foi impedido de trabalhar na competição.
Ao
mesmo tempo, Sette Fortes comenta que já há um desgaste interno da população
norte-americana com guerras que duram mais do que esperado. Demonstração deste cansaço foi visto na
pesquisa Reuters/Ipsos publicada no final de agosto, que revelou que quatro a
cada cinco norte-americanos acreditam que o conflito no Irã se prolongará.
Consequência disso, o levantamento mostra que 63% dos entrevistados
desaprovam a condução do presidente Donald Trump da situação com Teerã. Além
disso, o índice de rejeição do chefe da Casa Branca é de 62%.
Ao ser
questionado se o ciclo geopolítico aberto em 2001 chegou ao fim, Menezes
responde que sim, embora algumas marcas ainda estejam latentes.
"Creio
que já chegou ao fim, porque nós tivemos depois a crise de 2008. Então, tendo
os Estados Unidos como epicentro, eles não conseguiram, inclusive, por conta
disso, manter os altos gastos na defesa. Também a sociedade, parte da sociedade
nos Estados Unidos passou a questionar, dizendo: onde está a ameaça?"
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Imagens que constroem mundos: 25 anos após o 11 de
setembro. Por Francirosy Campos Barbosa
Era uma
terça-feira. Eu estava no Laboratório de Imagem e Som em Antropologia, para uma
reunião do Grupo de Antropologia Visual, da Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas da USP, ambos coordenados por Sylvia Caiuby Novaes, quando
Mariana Vanzolini nos avisou sobre o que estava acontecendo. Foi impactante
para todos nós que estávamos ali. Quando ouvi as primeiras notícias atribuindo
os atentados a árabes/muçulmanos, liguei imediatamente para uma amiga da
comunidade islâmica.
Eu
havia depositado minha dissertação de mestrado poucos dias antes, e a defesa
estava marcada para 2 de outubro. Naquele momento, tive a sensação de que tudo
o que eu havia escrito talvez já não valesse para muita coisa. Ledo
engano. Imagem oculta:
reflexões sobre a relação entre os muçulmanos e a imagem fotográfica, minha dissertação,
tratava justamente das fotografias que os muçulmanos produziam de si mesmos,
das imagens por meio das quais se apresentavam e construíam suas próprias
narrativas, assim como das formas pelas quais a imprensa e eu mesma, como
pesquisadora os representava. Este tema seria ainda mais importante para
direcionar as minhas pesquisas futuras.
De
repente, o mundo passaria a produzir outras imagens sobre os muçulmanos e sobre
o Islam. E uma delas se imporia com uma força devastadora: a imagem do terror.
Minha
pesquisa e a de outros colegas antropólogos foram profundamente impactadas.
Mudou também nossa forma de estar no ambiente acadêmico. Passamos a receber
e-mails, mensagens e contatos, alguns indiretos, vindos de diferentes setores.
Certa vez, conversando com um colega que pesquisava o mesmo tema, comparamos as
mensagens que estávamos recebendo. Chegavam, inclusive, propostas para estudar
nos Estados Unidos, com bolsas e bons financiamentos para pesquisar os
muçulmanos.
Há 25
anos, os muçulmanos se tornaram um dos alvos preferenciais da mídia, das
manchetes e do discurso de ódio internacional. A islamofobia cresceu de tal
maneira que eu, depois de décadas estudando imagens, performances e as formas
pelas quais os muçulmanos constroem suas próprias representações, precisei me
voltar também para os estudos sobre
islamofobia.
Era necessário compreender não apenas as imagens que as pessoas produziam de si
mesmas, mas também aquelas que passaram a ser produzidas contra elas.
Nós,
pesquisadores do Islam – e acredito poder falar também a partir da experiência
compartilhada com muitos colegas –, sabemos o quanto aquele período foi
doloroso para a comunidade islâmica no Brasil. Foi avassalador. Em alguma
medida, esse impacto seria depois atenuado pela novela O Clone, que
estreou em 1º de outubro de 2001 e colocou em circulação outras imagens e
narrativas sobre muçulmanos, árabes e o Islam. Mas não foi suficiente para
desfazer uma imagem que foi construída tão violentamente no imaginário das
pessoas.
Presenciei,
no trabalho de campo, a dor de 2001. Depois, a de 2002, de 2003 e dos anos que
se seguiram. Presenciei as marcas deixadas pelas suspeitas, pelos estereótipos,
pelos preconceitos e pelas diferentes formas de violência dirigidas a pessoas
muçulmanas que nada tinham a ver com os atentados de 11 de setembro.
Vinte e
cinco anos depois, continuamos produzindo etnografias, formando e orientando
novos pesquisadores e investindo o máximo que podemos em pesquisas sobre o
Islam e sobre comunidades islâmicas, no Brasil, em contextos de diáspora e no
Oriente Médio.
Passei
boa parte da minha trajetória acadêmica estudando e produzindo imagens sobre o
contexto islâmico no Brasil. O 11 de setembro me mostrou, de maneira brutal,
que as imagens não apenas representam o mundo. Elas também constroem mundos,
produzem imaginários, alimentam medos e ajudam a definir quem será visto como
semelhante e quem será transformado em ameaça.
Após o
11 de setembro, países de maioria muçulmana foram submetidos a guerras e a
inúmeras formas de violência. Afeganistão e Iraque são exemplos incontornáveis.
Assistimos também ao silenciamento em torno da violência sexual contra mulheres
durante a Guerra do Iraque. Carmen Rial aborda essa questão em Guerra de imagens e
imagens da guerra: estupro e sacrifício na Guerra do Iraque. O artigo analisa o
silenciamento da mídia global sobre os estupros de mulheres muçulmanas
cometidos por soldados e mercenários norte-americanos no Iraque. A partir de
uma perspectiva antropológica, Rial discute as imagens e também os silêncios e
as ausências de imagens produzidas em torno dessas violências, refletindo sobre
a presença e a representação das mulheres nesse espaço predominantemente
masculino que é a guerra.
Há, por
fim, um paradoxo que não pode ser ignorado: ao mesmo tempo que, após o 11 de
setembro, os muçulmanos passaram a ser sistematicamente associados ao
terrorismo no imaginário midiático internacional, populações muçulmanas
estiveram entre as principais vítimas
do próprio terrorismo.
Organismos internacionais já chamaram a atenção para o fato de que uma parcela
expressiva das vítimas do terrorismo é muçulmana, realidade que se evidencia
pela concentração dessa violência, nas últimas décadas, em países como Iraque,
Afeganistão, Paquistão e Síria e, mais recentemente, em regiões africanas com
expressiva população muçulmana. Uma das perversidades do pós-11 de setembro foi
justamente essa inversão: populações profundamente atingidas pelo terrorismo
foram transformadas, pelas imagens, pelas manchetes e pelos discursos, de
vítimas em suspeitas, alimentando estereótipos, preconceitos e a islamofobia.
Falar
sobre esse dia é importante porque nos conecta a um passado cujas consequências
foram e continuam sendo profundamente dolorosas para os muçulmanos em
diferentes partes do mundo.
Desde
então, estereótipos que representam as mulheres muçulmanas como submissas e os
homens muçulmanos como terroristas passaram a ocupar de forma recorrente a
mídia impressa, televisiva e, mais recentemente, as redes sociais, reforçando
preconceitos e alimentando diferentes formas de islamofobia.
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Os 25 anos do 11 de Setembro: marcos que redefiniram a
geopolítica do Oriente Médio
Os
atentados de 11 de setembro de 2001 deram início a uma profunda transformação
na política externa dos Estados Unidos e desencadearam uma série de
intervenções militares que alteraram o equilíbrio de poder no Oriente Médio e
em outras regiões, que verberam até hoje.
A
Sputnik Brasil listou os principais marcos que redefiniram o Oriente Médio,
após 25 anos do atentado, que começou com a invasão do Afeganistão em
2001:
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Invasão do Afeganistão (2001)
Após os
atentados, os EUA identificaram a Al-Qaeda (organização terrorista proibida na
Rússia e em vários outros países), liderada por Osama bin Laden, como responsável
pelos ataques. Como a organização mantinha bases no Afeganistão sob proteção do
regime Talibã, Washington iniciou uma intervenção militar em 7 de outubro
de 2001 com o apoio do Reino Unido e outros aliados, mas não conseguiu capturar
Bin Laden nem eliminar a Al-Qaeda.
Apenas
dez anos depois, em 2011, Bin Laden foi morto pelos Estados Unidos em uma
operação a 120 km da capital do Paquistão, Islamabad.
O
conflito se transformou em uma longa guerra e se tornou um dos principais
símbolos da chamada "Guerra ao Terror" com consequências que
ultrapassaram as fronteiras do país. A presença militar americana se estendeu
por duas décadas, enquanto o Talibã recuperava gradualmente sua força.
Em
agosto de 2021, após a retirada das tropas estadunidenses, o grupo retomou
o controle de Cabul e voltou ao poder. O episódio influenciou
profundamente a política do Oriente Médio, contribuindo para a criação de um
ambiente que posteriormente incluiria a invasão do Iraque, em 2003.
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Invasão do Iraque (2003)
Dois
anos depois da invasão do Iraque, em março de 2003, os EUA, novamente com apoio
principalmente do Reino Unido, invadiram o Iraque sob a justificativa de que
o governo do presidente Saddam Hussein possuía armas de destruição em
massa.
Sem o
aval do Conselho de Segurança da Organização das
Nações Unidas (ONU),
a operação derrubou o governo iraquiano e levou à captura de Hussein,
mas as supostas armas nunca foram encontradas. A ocupação provocou o
enfraquecimento das instituições do Estado, o aumento da violência sectária
entre sunitas e xiitas e o surgimento de uma forte insurgência contra as forças
estrangeiras e o novo governo iraquiano.
O
enfraquecimento do Iraque, durante décadas uma das principais potências
militares árabes, abriu espaço para o crescimento da influência do Irã na
região e contribuiu para a expansão de grupos jihadistas, que posteriormente
favoreceriam o surgimento do Estado Islâmico (organização terrorista
proibida na Rússia e em vários países). Além disso, a invasão deteriorou a
imagem dos EUA em grande parte do mundo árabe e alimentou novas tensões
políticas e religiosas.
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Primavera Árabe (2010–2012)
A
Primavera Árabe foi uma onda de protestos e mobilizações populares que começou
no final de 2010, na Tunísia, e rapidamente se espalhou por países do Oriente
Médio e do Norte da África. Governos de longa duração foram derrubados na
Tunísia e no Egito, enquanto países como Líbia, Síria e Iêmen mergulharam em
conflitos e guerras civis.
Em 19
de março de 2011, tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN)
realizaram uma intervenção militar
na Líbia.
A intervenção foi justificada para proteger a população local com aval do
Conselho de Segurança da ONU. As ações entretanto culminaram na queda e na
morte do líder do país, Muammar Kadhafi, assassinado após ser espancado por uma
multidão.
A guerra civil na
Síria transformou-se
em um conflito internacional envolvendo diferentes potências e grupos armados.
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Acordos de Abraão (2020 em diante)
Anunciados
em 2020, os acordos buscaram normalizar as relações entre Israel e países
árabes. Inicialmente, os Emirados Árabes
Unidos e o Bahrein anunciaram acordos diplomáticos com Israel,
acompanhados pelo Marrocos e pelo Sudão.
A nova
arquitetura regional alterou as alianças tradicionais do Oriente Médio. Também
normalizaram relações com Israel também, Turquia, Egito e Jordânia. Entretanto,
o conflito entre Hamas e Israel, iniciado em 7 de outubro de 2023, e a
destruição da Faixa de Gaza recolocaram a questão palestina no centro da
política regional, dificultando novas iniciativas de normalização.
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Do Iraque ao Irã (2026)
O
evento mais recente que dá seguimento à geopolítica orquestrada pelos EUA desde
o atentado do 11 de Setembro, diz respeito ao confronto do atual governo de
Donald Trump, com o Irã, que provocou a morte da sua principal liderança,
o aiatolá Ali Khamenei, em mais uma intervenção direta que acirrou as tensões
em todo o Oriente Médio.
Em mais
uma medida intervencionista no Oriente Médio, os Estados Unidos iniciaram a
guerra contra o Irã, que provocou a morte de Khamenei no primeiro dia de
operação, mas que também levou a uma reação que Washington não calculava,
pois em vez de desestabilizar o regime, e pese as limitações militares, os
episódios tem apontado para o fortalecimento do governo persa e enfraquecimento do
governo Trump.
Fonte:
Sputnik Brasil/Jornal da USP

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