Os
dilemas da nova descoberta de petróleo na Amazônia brasileira
m 14 de
agosto de 2026, a Petrobras anunciou a identificação de hidrocarbonetos no poço
exploratório Morpho, localizado no bloco FZA-M-59, na bacia da Foz do Amazonas,
ao largo da costa do Amapá. O poço situa-se a cerca de 175 quilômetros da
costa, em uma lâmina d’água de 2.886 metros de profundidade e a quase 500
quilômetros da foz do rio Amazonas. Perfis elétricos e amostras de rocha
indicaram a presença de um intervalo com potencial petrolífero. A Petrobras,
proprietária e operadora exclusiva do bloco, prosseguiu com a perfuração para
avaliar o que existe abaixo e a extensão da ocorrência.
Embora
se trate de uma descoberta importante, é fundamental ser preciso quanto ao que
a Petrobras encontrou. Magda Chambriard, presidente da Petrobras, foi clara: há
petróleo, mas a empresa ainda não sabe em que quantidade. A Petrobras planeja
perfurar poços adicionais para determinar o verdadeiro potencial da região. A
produção só poderá começar após a delimitação das reservas e a elaboração de um
projeto de desenvolvimento — etapas que, segundo estimativas de Chambriard,
levarão de seis a sete anos.
Os
números elevados que circulam na imprensa se referem, por sua vez, a
estimativas geológicas para a bacia como um todo ou para toda a Margem
Equatorial. Relatos anteriores se basearam em estimativas da Empresa de
Pesquisa Energética (EPE), que situavam os recursos recuperáveis da bacia da
Foz do Amazonas em aproximadamente 5,7 bilhões de barris. Um estudo posterior
da EPE estimou a existência de 6,2 bilhões de barris de petróleo na porção
noroeste da bacia, com o potencial total de recursos recuperáveis atingindo 10
bilhões de barris de óleo equivalente.
Essas
estimativas dizem respeito à bacia, e não à descoberta Morpho em si. Para toda
a Margem Equatorial, as estimativas citadas em relatórios brasileiros variam de
30 bilhões de barris (ANP) a 41 bilhões de barris, conforme o PDE 2035 da EPE.
São números impressionantes, mas que, naturalmente, representam expectativas, e
não petróleo efetivamente extraído.
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Um único sistema geológico, várias fronteiras políticas
AMargem
Equatorial do Brasil estende-se por mais de 2.200 quilômetros, do Amapá ao Rio
Grande do Norte, e abrange cinco bacias sedimentares. Suas áreas ao norte
integram a mesma vasta província petrolífera do período Cretáceo que
proporcionou descobertas espetaculares na costa da Guiana e do Suriname.
Quando
a América do Sul e a África se separaram, formaram-se bacias de águas
profundas, rochas geradoras marinhas, canais, leques submarinos e reservatórios
em ambos os lados do Atlântico Equatorial. O petróleo não respeita as
fronteiras traçadas posteriormente por impérios e Estados, embora o direito de
extraí-lo certamente o faça.
É por
isso que a descoberta do poço exploratório de Morpho deve ser compreendida como
parte de um arco petrolífero, e não como uma reserva isolada. A noroeste do
Brasil, situam-se as descobertas do Suriname e o bloco Stabroek, na Guiana,
onde a ExxonMobil e suas parceiras encontraram mais de 11 bilhões de barris de
recursos recuperáveis. Mais a oeste, encontra-se a zona marítima afetada pela
histórica reivindicação da Venezuela sobre Essequibo, uma disputa que tramita
atualmente na Corte Internacional de Justiça.
Embora
os sistemas petrolíferos possam estar interligados ao longo daquela margem
continental, os respectivos regimes jurídicos não estão. Morpho situa-se na
jurisdição marítima brasileira, em um bloco concedido pela Agência Nacional do
Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em 2013. A área não está
localizada na zona de disputa entre Guiana e Venezuela, nem sua exploração
depende da resolução desse conflito, tampouco deve haver qualquer atrito com a
vizinha Guiana Francesa.
A faixa
petrolífera certamente atravessa fronteiras políticas, estendendo-se das águas
brasileiras às venezuelanas. No entanto, não há dúvida de que a descoberta
feita pela Petrobras situa-se integralmente em águas brasileiras, cabendo ao
Brasil a soberania sobre o destino dessa descoberta. Nem Washington nem
qualquer companhia petrolífera (como a ExxonMobil, que lidera as operações na
região) possuem qualquer direito de supervisão sobre o segmento brasileiro
dessa faixa petrolífera.
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O argumento ambiental
Odebate
público é frequentemente apresentado como uma simples disputa entre
desenvolvimento e natureza. Essa é uma visão simplista demais. A bacia da Foz
do Amazonas situa-se nas proximidades de uma das regiões ecologicamente mais
sensíveis do planeta. O Amapá abriga vastas áreas protegidas, imensos
manguezais, zonas de pesca das quais dependem as populações costeiras e
comunidades indígenas cujos direitos não podem ser tratados como algo
secundário.
As
operações em águas ultraprofundas envolvem riscos reais. Em janeiro de 2026, um
vazamento de fluido de perfuração interrompeu as atividades no projeto Morpho;
em consequência, o Ibama — Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do
Clima (MMA) — multou a Petrobras em R$ 2,5 milhões. O órgão regulador ambiental
classificou o impacto do projeto no nível mais elevado utilizado para o cálculo
de compensações e exigiu informações adicionais antes de conceder licenças para
novos poços.
Esses
fatos exigem uma regulamentação rigorosa, estudos científicos transparentes,
consultas efetivas, a maior capacidade disponível de resposta a vazamentos e a
responsabilização efetiva por eventuais danos. A soberania não é uma licença
para a negligência; ela significa que as diversas instituições brasileiras
(desde o Ibama até sindicatos e comunidades afetadas) devem definir as
condições sob as quais o país utilizará — ou decidirá não utilizar — a
descoberta de petróleo.
Uma
reportagem de Gabriela Sá Pessoa, da Associated Press, destaca os riscos na
região de Oiapoque, incluindo a pressão sobre a habitação e os serviços
públicos, bem como os receios dos moradores indígenas (como os membros da
comunidade Galibi Kali’na). Trata-se de questões sérias, e Pessoa realizou um
excelente trabalho jornalístico sobre o tema (ela se junta a um grupo notável
de jornalistas brasileiros — como Elaíze Farias e Kátia Brasil, da Amazônia
Real; Lúcio Flávio Pinto, do Jornal Pessoal; e Eliane Brum, da Sumaúma — que
têm revelado o tratamento injusto dispensado à natureza e à humanidade pelas
megacorporações que operam na região amazônica).
Não há
razão para duvidar da apreensão quanto ao futuro desse enorme empreendimento.
Os benefícios chegarão à população? A natureza será protegida na medida do
possível? Ou será este mais um presente para as grandes corporações e, em
particular, para as empresas petrolíferas dos Estados Unidos?
Há uma
pressão internacional inegável contra a abertura, pela Petrobras, da fronteira
petrolífera da Foz do Amazonas, embora ela não se manifeste na forma de uma
ordem documentada do governo americano. O presidente francês, Emmanuel Macron,
prometeu tentar convencer Lula a abandonar o projeto; o Greenpeace e
organizações aliadas buscaram na Justiça o cancelamento da licença de operação;
a Avaaz organizou um abaixo-assinado global dirigido ao presidente brasileiro;
e a WWF, o Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável e a World
Benchmarking Alliance pediram o fim de novas licenças de exploração e uma
redefinição do mandato da Petrobras.
A mídia
internacional e redes de avaliação de desempenho climático reforçaram essa
pressão ao apresentar o projeto como um teste para a credibilidade climática do
Brasil. O presidente do Congresso brasileiro, Davi Alcolumbre, descreveu tais
intervenções como tentativas de outros países de “tutelar” o futuro do Brasil.
O que os registros públicos ainda não apontam é a existência de uma campanha
direta do governo dos Estado Unidos, do Congresso americano ou dos principais
acionistas da Petrobras para cancelar o projeto Morpho.
A
pressão é real, mas não deve ser exagerada a ponto de ser vista como um
ultimato sem registro oficial. Ela opera por meio da construção de
legitimidade: o petróleo da ExxonMobil em Essequibo é visto como investimento e
segurança energética, enquanto o petróleo da Petrobras é tratado como uma
agressão à Amazônia, mesmo quando o poço brasileiro está situado a centenas de
quilômetros da foz do rio.
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A Petrobras e a memória do pré-sal
OBrasil
tem motivos para reconhecer esse padrão. A descoberta do pré-sal, em 2006 e
2007, alterou o horizonte estratégico do país. Nos governos anteriores de Lula,
o Brasil criou regras que conferiam à Petrobras um papel operacional central e
destinavam parte da renda petrolífera à saúde e à educação. O recurso era visto
não apenas como uma commodity, mas como uma alavanca pública: um meio de
financiar direitos sociais, fortalecer a engenharia nacional, construir
capacidade industrial e reduzir a subordinação ao capital estrangeiro.
O
desmantelamento do modelo do pré-sal começou com a Operação Lava Jato (iniciada
em 2014), que se apresentava como uma cruzada anticorrupção, mas que devastou
as empresas brasileiras de construção e engenharia, destruiu empregos e
prejudicou a capacidade da Petrobras de coordenar o desenvolvimento nacional. A
deposição da presidente Dilma Rousseff, em 2016, foi seguida — durante as
gestões dos presidentes Michel Temer (2016-2018) e Jair Bolsonaro (2019-2023) —
por alterações no regime do pré-sal.
Os
governos Temer e Bolsonaro abriram ativos estratégicos a empresas estrangeiras
e venderam ou esvaziaram partes do sistema integrado da Petrobras. O Brasil
manteve-se como um grande produtor de petróleo bruto, mas continuou a enfrentar
o absurdo colonial de exportar óleo cru enquanto importava derivados de maior
valor agregado.
Diante
do horizonte restrito da Petrobras, a Morpho levanta uma questão mais ampla do
que a simples lucratividade de um campo offshore: uma nova província
petrolífera reforçará a Petrobras como empresa pública verticalmente integrada,
bem como a indústria naval, a engenharia, o refino, a petroquímica e o
investimento público no Brasil? Ou o Brasil apenas injetará mais um fluxo de
petróleo bruto no mercado mundial, deixando a tecnologia, as finanças, o
transporte marítimo e a maior parte do valor agregado em mãos estrangeiras? A
titularidade nacional da licença é essencial, mas representa apenas o início da
soberania.
O
momento estratégico é igualmente importante. Cerca de quatro quintos da atual
produção brasileira provêm do pré-sal, cuja produção deve atingir o pico e,
posteriormente, entrar em declínio na década de 2030. A Petrobras argumenta que
precisa repor reservas para evitar que o Brasil volte a depender da importação
de petróleo. Um país com mais de 200 milhões de habitantes não pode planejar
seu futuro energético partindo do pressuposto de que o abastecimento estará
sempre garantido por um mercado mundial pacífico. As guerras, sanções,
confiscos e bloqueios dos últimos anos destruíram essa ilusão.
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O petróleo: riscos, oportunidades e dilemas.
Aconduta
de Washington no Caribe e no norte da América do Sul revela duas doutrinas.
Onde uma corporação americana controla a produção, o desenvolvimento
petrolífero é defendido com base em argumentos de contratos, estabilidade e
integridade territorial. A ExxonMobil declarou que permanecerá na Guiana,
apesar da contestação da Venezuela, e os Estados Unidos alertaram Caracas
contra interferências.
Onde
uma empresa estatal soberana poderia controlar uma nova e vasta província
petrolífera, mobilizam-se pressões ambientais e financeiras para restringir sua
margem de manobra. O equilíbrio internacional de poder determina quais
preocupações ecológicas ganham destaque e quais desaparecem. Os Estados Unidos,
ainda o maior produtor de petróleo do mundo, não têm autoridade moral para
exigir que o Brasil mantenha seus recursos intocados enquanto empresas
americanas expandem a produção em outras áreas da mesma margem geológica.
Existem
preocupações ambientais legítimas que exigem respostas da Petrobras e do Ibama.
O argumento mais sólido a favor do desenvolvimento não pode ser simplesmente
que o Brasil tem o direito soberano de imitar as piores práticas das grandes
petroleiras. Deve ser, antes, que o Brasil pode utilizar um recurso finito para
promover uma transição planejada para além dele. Lula chamou a descoberta no
Amapá de “passaporte para o futuro” e insistiu que o Brasil pode proteger o
meio ambiente enquanto desenvolve sua indústria petrolífera. Essa frase só
ganhará sentido se a renda gerada for direcionada pelo poder público tanto para
o uso energético quanto para a transição para além dos combustíveis fósseis.
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Isso requer vários compromissos, por exemplo:
• 1. A Petrobras deve permanecer como
operadora e principal beneficiária do campo, mas precisa retomar os setores de
trabalho que foram privatizados.
• 2. O petróleo deve estar vinculado à
expansão da capacidade nacional de refino e petroquímica, em vez de ser tratado
principalmente como matéria-prima bruta para exportação.
• 3. Os contratos devem maximizar o uso de
tecnologia, equipamentos, construção naval, mão de obra qualificada e pesquisa
brasileiros.
• 4. Uma parcela definida das receitas
deve ser destinada ao Amapá e a outros estados do Norte para saneamento,
habitação, hospitais, escolas e infraestrutura resiliente, com salvaguardas
contra a desordem especulativa que já começa a surgir em Oiapoque.
• 5. Comunidades indígenas e costeiras
devem participar das decisões e receber proteção efetiva e garantida, não
apenas promessas de relações públicas.
• 6. A renda do petróleo deve financiar a
transição: sistemas públicos de energia renovável, transporte coletivo
elétrico, restauração ecológica e adaptação aos danos climáticos causados
desproporcionalmente pelos países ricos. É uma falsa escolha contrapor a
austeridade imposta do exterior em nome do clima à exploração doméstica
imprudente de petróleo, que reproduz o enriquecimento privado e estrangeiro.
A
batalha em torno de Morpho está apenas começando. O poço pode revelar-se menor
do que as manchetes sugerem, ou pode confirmar que a Margem Equatorial é a
próxima grande província petrolífera do Brasil. Qualquer um dos resultados deve
ser estabelecido por meio de avaliação científica, e não por entusiasmo
financeiro ou slogans políticos. Os riscos ambientais devem ser investigados
com total transparência, e a Petrobras deve cumprir padrões mais elevados
justamente por atuar em nome do povo brasileiro.
Contudo,
o princípio norteador já está claro. O petróleo encontra-se em águas
territoriais brasileiras, a licença foi concedida sob a legislação brasileira e
a empresa com 100% de participação no bloco é a Petrobras. As decisões sobre
exploração e produção cabem ao Brasil. Nenhuma potência externa pode alegar, de
forma plausível, que a ExxonMobil tem o direito de perfurar em ritmo acelerado
ao largo da Guiana — sob a sombra de uma perigosa disputa territorial —,
enquanto a Petrobras deve recuar de um bloco brasileiro cuja soberania é
incontestável. Tal regra não seria ambientalismo; seria a velha hierarquia do
hemisfério vestida de verde: o Norte extrai, financia e comanda; o Sul
preserva, importa e obedece.
O
Brasil deve rejeitar essa hierarquia. Deve desenvolver Morpho se o reservatório
for comercialmente viável e se os rigorosos requisitos ambientais e sociais
brasileiros puderem ser atendidos. Deve fazê-lo por meio da Petrobras,
vinculando o petróleo à industrialização nacional, ao investimento social e a
uma transição energética acelerada. Soberania não é apenas o direito de
perfurar. É o poder de decidir, de regular, de reter o valor e de transformar
um patrimônio natural em capacidade coletiva. O petróleo sob o Atlântico
Equatorial não pertence a Washington, nem à ExxonMobil, nem a conselhos
editoriais estrangeiros. Pertence ao Brasil, e cabe ao Brasil decidir que
futuro construir a partir dele.
Fonte:
Por Vijay Prashad e Miguel Stedile, em Jacobin Brasil

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