sábado, 12 de setembro de 2026

A era do controle do fundador

No mês passado, a SpaceX realizou a maior oferta pública inicial (IPO) da história, avaliada em US$ 1,77 trilhão. Somando-se às suas ações na Tesla, a participação acionária de Musk na SpaceX, de cerca de 42%, o tornou o primeiro trilionário. Investidores de capital de risco como Peter Thiel, que investiram cedo na SpaceX, devem lucrar muito quando puderem vender suas ações nos próximos meses.

Mas, além da obscena concentração de riqueza capitalista nas mãos dos bilionários da tecnologia do Vale do Silício, o IPO da SpaceX destaca outra tendência alarmante que muitas vezes passa despercebida: a ascensão meteórica de monopólios tecnológicos controlados por seus fundadores.

Embora as ações da SpaceX agora sejam negociadas na bolsa de valores, Musk mantém o controle total da empresa. Isso porque ele detém uma classe especial de ações com direito a voto múltiplo, que lhe conferem 82,4% dos votos. A maioria dos acionistas possui ações com um voto; Musk possui dez. A SpaceX — empresa que domina o lançamento de foguetes e é proprietária de satélites, da plataforma de mídia social X, do chatbot Grok e de uma vasta infraestrutura de inteligência artificial — tem como principal executivo um homem que não pode ser destituído por nenhuma votação de acionistas.

O controle dos fundadores não se restringe a Musk. O mesmo padrão se aplica a Mark Zuckerberg na Meta/Facebook e a Larry Page e Sergey Brin na Alphabet/Google. Estamos testemunhando uma concentração sem precedentes do controle corporativo nas mãos de bilionários da tecnologia responsáveis por inteligência artificial, bem como por vastas áreas como mídias sociais, buscas na internet, data centers e, agora, infraestrutura espacial.

Mas como chegamos a este ponto? Desde o início do século XX, Wall Street e as elites políticas estadunidenses têm promovido a ideologia liberal da democracia acionária: o princípio de que a propriedade de ações confere voz. Todos deveriam investir suas economias no mercado de ações, para que todos se beneficiassem. E cada acionista teria voz na gestão das empresas. Ou pelo menos é o que se diz. Infelizmente, essa história sempre foi um mito. A maioria das pessoas no planeta nunca teve condições de investir em ações. E aqueles que tiveram — principalmente as classes médias ocidentais — nunca tiveram uma influência real sobre como seus fundos de pensão investiam. Nem esses investidores institucionais tinham poder sobre as grandes corporações multinacionais. Quem detinha esse poder eram os CEOs poderosos e os acionistas bilionários. A expansão massiva do capital de risco desde a bolha da internet impulsionou essa tendência e levou à concentração do controle corporativo nas mãos de bilionários da tecnologia.

O controle por parte dos fundadores não é um resultado acidental do mundo das finanças. Também não é produto da ideologia cada vez mais tecno-autoritária do Vale do Silício. É uma consequência da acirrada competição entre os investidores de capital de risco que buscam maximizar os retornos. Após a bolha da internet, uma nova geração de investidores de capital de risco insurgentes rompeu com o establishment do Vale do Silício ao oferecer direitos de voto privilegiados, o que permitiu aos fundadores manter o controle mesmo após o IPO.

Quando Musk ainda estava construindo a SpaceX do zero, seus primeiros investidores — o Founders Fund de Thiel, a rede PayPal Mafia e, eventualmente, a empresa de capital de risco Andreessen Horowitz — fizeram uma aposta calculada: oferecer a fundadores como Musk o controle permanente e fechar o negócio. Deu certo. Eles ganharam os negócios e faturaram bilhões.

A maioria das pessoas presume que o processo de IPO resolve esse desequilíbrio de poder. (Em outras palavras, que bancos, reguladores e investidores institucionais impõem responsabilidade aos fundadores em troca de acesso aos mercados de capitais públicos.) Essa suposição está errada. Vejamos o caso da SpaceX novamente. Quando o Goldman Sachs e o Morgan Stanley entraram em cena, já era tarde demais. Os bancos competiam ferozmente para garantir o negócio mais lucrativo da história do mercado de ações. Eles não contestaram o controle de Musk sobre os 82% dos votos. Eles o aceitaram. E tentaram vendê-lo a um preço exorbitante para praticamente todos os fundos de pensão e investidores individuais do planeta.

Este tem sido o caso em todos os principais IPOs de tecnologia das últimas duas décadas. Meta, Alphabet, Airbnb, Palantir e agora SpaceX: a mesma estrutura, o mesmo resultado. Os insiders — fundadores e seus primeiros investidores de capital de risco — fazem fortuna vendendo ações em um mercado público supervalorizado e mantêm o controle dos monopólios tecnológicos. Os investidores comuns, por meio de seus fundos de pensão, ISAs e fundos de índice, fornecem o capital que gera essas fortunas. Em troca, recebem ações sem direito a voto significativo e não têm voz sobre como seu dinheiro é usado. Isso ajuda a explicar por que o capitalismo agora é dominado por uma pequena fração de bilionários que administram monopólios tecnológicos.

A SpaceX é o ponto culminante de um projeto de vinte anos dos capitalistas de risco do Vale do Silício para entregar o controle permanente aos fundadores de empresas de tecnologia. Dizem-nos que é preciso ter oligarcas da tecnologia no controle total da IA e das tecnologias espaciais para o bem público. No entanto, os recentes protestos contra a IA e o apoio popular aos socialistas democráticos nos EUA indicam que a maioria das pessoas nunca acreditou nessa narrativa.

Mas conter o poder dos bilionários da tecnologia e deter a tendência rumo a um regime tecno-autoritário de vigilância total exige um movimento de massas internacional e organizado com o objetivo de derrubar o capitalismo. Por mais assustadora que essa tarefa possa parecer, assumi-la é mais urgente do que nunca.

 

Fonte: Por David Kampmann - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

 

Nenhum comentário: