A
era do controle do fundador
No mês
passado, a SpaceX realizou a maior oferta pública inicial (IPO) da história,
avaliada em US$ 1,77 trilhão. Somando-se às suas ações na Tesla, a participação
acionária de Musk na SpaceX, de cerca de 42%, o tornou o primeiro trilionário.
Investidores de capital de risco como Peter Thiel, que investiram cedo na
SpaceX, devem lucrar muito quando puderem vender suas ações nos próximos meses.
Mas,
além da obscena concentração de riqueza capitalista nas mãos dos bilionários da
tecnologia do Vale do Silício, o IPO da SpaceX destaca outra tendência
alarmante que muitas vezes passa despercebida: a ascensão meteórica de
monopólios tecnológicos controlados por seus fundadores.
Embora
as ações da SpaceX agora sejam negociadas na bolsa de valores, Musk mantém o
controle total da empresa. Isso porque ele detém uma classe especial de ações
com direito a voto múltiplo, que lhe conferem 82,4% dos votos. A maioria dos
acionistas possui ações com um voto; Musk possui dez. A SpaceX — empresa que
domina o lançamento de foguetes e é proprietária de satélites, da plataforma de
mídia social X, do chatbot Grok e de uma vasta infraestrutura de inteligência
artificial — tem como principal executivo um homem que não pode ser destituído
por nenhuma votação de acionistas.
O
controle dos fundadores não se restringe a Musk. O mesmo padrão se aplica a
Mark Zuckerberg na Meta/Facebook e a Larry Page e Sergey Brin na
Alphabet/Google. Estamos testemunhando uma concentração sem precedentes do
controle corporativo nas mãos de bilionários da tecnologia responsáveis por
inteligência artificial, bem como por vastas áreas como mídias sociais, buscas
na internet, data centers e, agora, infraestrutura espacial.
Mas
como chegamos a este ponto? Desde o início do século XX, Wall Street e as
elites políticas estadunidenses têm promovido a ideologia liberal da democracia
acionária: o princípio de que a propriedade de ações confere voz. Todos
deveriam investir suas economias no mercado de ações, para que todos se
beneficiassem. E cada acionista teria voz na gestão das empresas. Ou pelo menos
é o que se diz. Infelizmente, essa história sempre foi um mito. A maioria das
pessoas no planeta nunca teve condições de investir em ações. E aqueles que
tiveram — principalmente as classes médias ocidentais — nunca tiveram uma
influência real sobre como seus fundos de pensão investiam. Nem esses
investidores institucionais tinham poder sobre as grandes corporações
multinacionais. Quem detinha esse poder eram os CEOs poderosos e os acionistas
bilionários. A expansão massiva do capital de risco desde a bolha da internet
impulsionou essa tendência e levou à concentração do controle corporativo nas
mãos de bilionários da tecnologia.
O
controle por parte dos fundadores não é um resultado acidental do mundo das
finanças. Também não é produto da ideologia cada vez mais tecno-autoritária do
Vale do Silício. É uma consequência da acirrada competição entre os
investidores de capital de risco que buscam maximizar os retornos. Após a bolha
da internet, uma nova geração de investidores de capital de risco insurgentes
rompeu com o establishment do Vale do Silício ao oferecer direitos de voto
privilegiados, o que permitiu aos fundadores manter o controle mesmo após o
IPO.
Quando
Musk ainda estava construindo a SpaceX do zero, seus primeiros investidores — o
Founders Fund de Thiel, a rede PayPal Mafia e, eventualmente, a empresa de
capital de risco Andreessen Horowitz — fizeram uma aposta calculada: oferecer a
fundadores como Musk o controle permanente e fechar o negócio. Deu certo. Eles
ganharam os negócios e faturaram bilhões.
A
maioria das pessoas presume que o processo de IPO resolve esse desequilíbrio de
poder. (Em outras palavras, que bancos, reguladores e investidores
institucionais impõem responsabilidade aos fundadores em troca de acesso aos
mercados de capitais públicos.) Essa suposição está errada. Vejamos o caso da
SpaceX novamente. Quando o Goldman Sachs e o Morgan Stanley entraram em cena,
já era tarde demais. Os bancos competiam ferozmente para garantir o negócio
mais lucrativo da história do mercado de ações. Eles não contestaram o controle
de Musk sobre os 82% dos votos. Eles o aceitaram. E tentaram vendê-lo a um
preço exorbitante para praticamente todos os fundos de pensão e investidores
individuais do planeta.
Este
tem sido o caso em todos os principais IPOs de tecnologia das últimas duas
décadas. Meta, Alphabet, Airbnb, Palantir e agora SpaceX: a mesma estrutura, o
mesmo resultado. Os insiders — fundadores e seus primeiros investidores de
capital de risco — fazem fortuna vendendo ações em um mercado público
supervalorizado e mantêm o controle dos monopólios tecnológicos. Os
investidores comuns, por meio de seus fundos de pensão, ISAs e fundos de
índice, fornecem o capital que gera essas fortunas. Em troca, recebem ações sem
direito a voto significativo e não têm voz sobre como seu dinheiro é usado.
Isso ajuda a explicar por que o capitalismo agora é dominado por uma pequena
fração de bilionários que administram monopólios tecnológicos.
A
SpaceX é o ponto culminante de um projeto de vinte anos dos capitalistas de
risco do Vale do Silício para entregar o controle permanente aos fundadores de
empresas de tecnologia. Dizem-nos que é preciso ter oligarcas da tecnologia no
controle total da IA e das tecnologias espaciais para o bem público. No
entanto, os recentes protestos contra a IA e o apoio popular aos socialistas
democráticos nos EUA indicam que a maioria das pessoas nunca acreditou nessa
narrativa.
Mas
conter o poder dos bilionários da tecnologia e deter a tendência rumo a um
regime tecno-autoritário de vigilância total exige um movimento de massas
internacional e organizado com o objetivo de derrubar o capitalismo. Por mais
assustadora que essa tarefa possa parecer, assumi-la é mais urgente do que
nunca.
Fonte:
Por David Kampmann - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

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