O
insulto homofóbico
Há
palavras que não apenas ofendem: elas procuram ferir, diminuir, humilhar e
expulsar pessoas do território da dignidade. A injúria homofóbica não é um
simples excesso verbal, uma palavra infeliz pronunciada em momento de
exaltação. É uma forma de violência simbólica e moral que procura reduzir gays,
lésbicas e trans à condição de inferiores, indignos de respeito, de autoridade
e de cidadania plena.
Durante
séculos, gays, lésbicas e trans foram perseguidos, silenciados, ridicularizados
e obrigados a esconder aquilo que eram. Palavras como “viado”, “viadinho”,
“sapatão” e tantas outras foram transformadas em armas de humilhação. Quando
utilizadas como insulto, não pretendem simplesmente nomear: pretendem rebaixar.
O insulto homofóbico não diz quem é aquele que o recebe; revela, antes de tudo,
o preconceito daquele que o profere.
E o que
dizer quando essa violência acontece justamente dentro de uma universidade,
espaço que deve ser, por excelência, território do conhecimento, do pensamento
crítico, da pluralidade e do respeito à dignidade humana?
O que
dizer quando o fato ocorre numa universidade e, dirigindo-se ao seu chefe,
alguém que intenta, a todo custo, “farmar aura” de “militante de direitos
humanos”, vocifera em um corredor de seu local de trabalho: “Não recebo ordens
de viado!”? E acrescenta: “Você não passa de um viadinho!”?
Não se
trata de uma divergência profissional. Não se trata de crítica a uma decisão
administrativa. Tampouco se trata de uma simples discussão entre colegas, mas
de abjeta agressão. Quando ser gay é convertido em instrumento de
desqualificação, estamos diante de uma agressão homofóbica. Pretende-se dizer
que ser gay torna alguém menor, ridículo, desprezível ou incapaz de exercer
autoridade. É precisamente esse discurso de ódio que precisa ser denunciado e
eliminado de nossas sociedades.
Há,
porém, algo ainda mais danoso nessa cena: tais agressões foram testemunhadas,
embora não apenas, por também um jovem gay e por uma jovem lésbica. O que terão
pensado ao ouvir, dentro de uma universidade, palavras que pertencem ao velho
vocabulário do preconceito, do obscurantismo, do pensamento reacionário,
machismo, masculinista, que a antropologia e todas as demais ciências humanas
buscaram e buscam combater até aqui?
Talvez,
por um instante, tenham se perguntado para que serviram tantas décadas de luta.
Talvez tenham pensado que nossas conquistas não valeram a pena, se ainda é
possível ouvir tamanha injúria e presenciar tamanha agressão justamente no
ambiente universitário.
É por
eles e por todos os demais jovens gays, lésbicas e trans que nós, professores
universitários críticos, engajados autenticamente nas lutas pela emancipação
social, cultural e política da sociedade, não podemos nos calar e deixar de
educá-los contra todas as formas de preconceito.
E
sobretudo aqueles professores e intelectuais públicos que, como eu, Luiz Mott,
James Green, Peter Fry, o escritor João Silvério Trevisan, Herbert Daniel,
entre tantos outros, ainda no período da ditadura militar, lutamos pela
organização de gays, lésbicas e transexuais, apoiamos e participamos de suas
lutas, precisamos dizer a todos os mais jovens, e a todas as pessoas, que valeu
a pena! Valeu a pena lutar!
Em
Natal, onde resido, quando ainda não havia a institucionalização do casamento
gay no Brasil, como há hoje, fui “Juiz de Paz” de uniões estáveis de casais
lésbicos, para assentamento de suas uniões nos Livros de suas ONGs, em
cerimônias perante testemunhas, para que esses casais pudessem usufruir de
direitos. Era o que, à época, ficou conhecido como Livros de Contratos de União
Estável ou Livro de Registro Público de União Estável entre Pessoas do mesmo
sexo.
No
país, o livro pioneiro foi criado, em 2002, pelo Grupo Gay da Bahia. Embora
fosse um registro simbólico e de uma entidade civil (ONG), esses livros
desempenharam um papel político e jurídico fundamental. O INSS e alguns juízes
de vanguarda passaram a aceitar as certidões extraídas desses livros como fonte
de prova de união estável para conceder benefícios como pensão por morte e
inclusão em planos de saúde.
Valeu a
pena cada pessoa que enfrentou o medo para assumir seu legítimo desejo, sua
legítima sexualidade. Valeu a pena cada voz que se levantou quando o silêncio
parecia mais seguro. Valeu a pena cada manifestação, cada movimento social,
cada batalha jurídica, cada pesquisa, cada aula, cada livro, cada gesto
cotidiano contra o preconceito. Valeu a pena cada conquista que permitiu que
gays, lésbicas e trans deixassem de pedir tolerância para exigir aquilo que
lhes pertence por direito: respeito, igualdade e dignidade.
Vale a
pena lutar por direitos e pela dignidade humana universal. Valeu a pena. E
valerá sempre a pena!
É
justamente porque houve luta que hoje podemos reconhecer a injúria como
injúria, o preconceito como preconceito e a violência como violência. Aquilo
que durante tanto tempo foi tratado como “brincadeira”, “opinião” ou “modo de
falar” pode e deve ser chamado pelo seu nome: preconceito, discriminação e
crime!
A
universidade tem responsabilidade ainda maior nesse enfrentamento. Nenhum
título acadêmico, nenhuma posição funcional e nenhuma produção intelectual
podem servir de salvo-conduto para a discriminação, para a prática da violência
homofóbica ou qualquer outra.
Uma
instituição dedicada ao conhecimento contradiz sua própria missão se permite e
naturaliza a humilhação de alguém por suas escolhas, em sua autonomia erótica,
por seu desejo. Não pode haver excelência acadêmica na universidade se nela a
dignidade humana seja considerada secundária.
Por
isso, diante da homofobia, não devemos aceitar a pedagogia do silêncio, nem a
coação de testemunhas e denunciadores. É preciso denunciar, registrar,
repudiar, educar… e, na lei, responsabilizar. Não por vingança, mas porque a
convivência democrática exige limites claros diante da discriminação que visa
excluir, marginalizar.
Como
tantas vezes ensinei aos meus alunos a filosofia da pensadora Nancy Fraser, não
há verdadeira democracia quando, por valorações depreciativas, rebaixamento
de status, busca-se estorvar a igualdade participativa de todos.
Sem a igualdade na participação social, não há democracia. O preconceito, a
discriminação impede a efetiva participação igualitária de todos, pois excluem
alguns e atribuem privilégios a outros, por meio de construções ideológicas que
tornam pessoas mais dignas de existência e participação, enquanto excluem
outras.
Aos
jovens gays, lésbicas e trans que eventualmente testemunhem cenas como a que
analiso aqui, é preciso deixar uma mensagem inequívoca: não confundam a
persistência do preconceito com o fracasso de nossas lutas. Se a homofobia
ainda existe, isso não significa que lutamos em vão. Significa que nossa luta
ainda não terminou.
Marx e
Engels, no século XIX, escreveram: “Proletários de todos os países, uni-vos!”;
é assim como terminam o Manifesto Comunista. Aqui, eu (re)escrevo:
gays de todo o mundo, uni-vos! Uni-vos contra a humilhação e contra o medo.
Uni-vos em defesa daqueles que ainda não conseguem levantar a própria voz.
Uni-vos para que nenhum jovem gay, lésbica ou trans atravesse os corredores de uma
universidade acreditando que precisa esconder quem é para ser respeitado.
Uni-vos para que a dignidade conquistada por tantas gerações jamais seja
negociada!
Lutar
valeu a pena. Lutar vale a pena. E lutar por direitos, por igualdade e por
dignidade valerá sempre a pena!
Fonte:
Por Alipio DeSousa Filho, em A Terra é
Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário