Postou,
sem saber, sobre uma festa de Daniel Vorcaro no Madame Satã e sua vida sofreu
um terremoto
Quando
a conta @anatrackid desapareceu do Instagram, em 10 de novembro de 2023, a
contadora Ana Raquel dos Santos Ribeiro havia acabado de transformar em
profissão um projeto iniciado três anos antes.
Como
influenciadora e criadora de conteúdo sobre música eletrônica, ela reunia
notícias, datas de eventos, escalações de DJs e venda de ingressos. O perfil já
tinha cerca de 13 mil seguidores e alcançava mais de 425 mil contas.
Em
setembro daquele ano, antes da suspensão da conta, Ana havia deixado o emprego
de contadora para se dedicar ao perfil. Sua renda vinha de comissões sobre a
venda de ingressos, divulgação de festas e criação de conteúdo.
A
suspensão, portanto, não significava apenas perder fotografias e vídeos:
significava ficar sem o principal canal de trabalho.
No dia
1º de novembro de 2023, antes da suspensão, ela havia publicado um vídeo de uma
festa na boate Madame Club, conhecida como Madame Satã em São Paulo.
"Quando eu for rico, haverá sinais", dizia a legenda.
Ana não
fazia ideia de que a postagem irritaria um dos homens que se tornaria, anos
depois, o pivô de um dos maiores escândalos financeiros e políticos da história
recente do Brasil: o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Segundo
reportagem da revista Piauí, a festa tinha sido articulada por Vorcaro e tinha
restrição explícita para que ninguém levasse celulares.
O
objetivo era manter o evento longe dos holofotes — a festa contou, segundo a
revista, com 20 homens e 120 mulheres.
Ana não
esteve na festa mostrada no vídeo. Ela disse à BBC News Brasil que apenas
noticiou o ocorrido depois de acessar o material por meio de um técnico de som
que teria trabalhado e publicado sobre o evento.
"Na
época ninguém entendia do que se tratava", afirmou.
"Todas
as páginas de música eletrônica postaram por conta da popularidade dos artistas
contratados e por ser um evento privado."
Com a
suspensão do sigilo dos documentos das investigações sobre o Banco Master que
tramitam no STF, Ana descobriu só agora o que pode ter sido o motivo da
suspensão de seu perfil: um pedido do próprio Vorcaro.
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'Só consigo entender tudo agora'
As
informações sobre a suspensão da conta de Ana constam de uma ação judicial
apresentada em 2023 contra Facebook Serviços Online do Brasil Ltda., empresa do
grupo Meta que figurou como ré no processo. A BBC News Brasil teve acesso à
íntegra dos autos.
Depois
que a conta caiu, o Instagram informou que ela deveria recorrer e provar que
não era um robô.
Ana
cumpriu as etapas de verificação, mas recebeu a informação de que a conta
estava suspensa definitivamente. A comunicação não apontava uma publicação
específica nem explicava em detalhes qual regra havia sido desrespeitada.
Ela
então decidiu entrar na Justiça em 13 de novembro de 2023. A ação foi
apresentada contra Facebook Serviços Online do Brasil Ltda.
A
liminar para reativação imediata foi inicialmente negada. O juiz entendeu que
era necessário ouvir a empresa e apurar o motivo do bloqueio.
Em sua
defesa, o Facebook Brasil afirmou que o perfil havia sido temporariamente
indisponibilizado para a análise de uma possível violação às políticas do
Instagram.
Os
autos resumem a justificativa como relacionada à "integridade e identidade
autêntica". A empresa, porém, não indicou qual ação concreta de Ana teria
violado as regras.
A conta
acabou restabelecida em 28 de novembro.
O juiz
Paulo Bernardi Baccarat considerou a explicação da empresa genérica. Na
sentença, escreveu que a empresa se limitou a citar termos de uso e diretrizes
e "deixou de apontar quais foram as violações específicas" no caso.
A
companhia foi condenada a manter a conta ativa e a pagar R$ 3 mil por danos
morais, além das despesas do processo e dos honorários advocatícios.
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'Derrubar esse'
A
mensagem sobre a publicação de Ana foi encontrada durante uma investigação
muito mais ampla sobre Daniel Vorcaro e o Banco Master.
O
celular do banqueiro foi apreendido pela Polícia Federal em novembro de 2025,
durante a primeira fase da Operação Compliance Zero.
A
investigação apurava suspeitas de fraudes na venda de cerca de R$ 12 bilhões em
carteiras de crédito do Banco Master para o Banco de Brasília, o BRB.
A
análise do aparelho deu origem a um relatório de 126 páginas da Polícia
Federal. O documento foi incorporado a uma petição, que tramita no Supremo
Tribunal Federal, e se tornou público após o levantamento do sigilo das
investigações relacionadas ao caso Master.
O
relatório não trata especificamente de Ana.
Os
investigadores analisavam conversas mantidas por Vorcaro com Luiz Phillipi
Machado de Moraes Mourão, identificado no celular como "Felipe
Mourão", também conhecido como Sicário.
Segundo
a Polícia Federal, Mourão atuava como executor de determinações de Vorcaro. O
documento reúne indícios sobre acesso a informações sigilosas, intimidação de
pessoas e tentativas de controlar conteúdos publicados na internet.
Mourão
morreu dois dias após a PF informar que ele tentou suicídio em suas instalações
onde estava preso.
A
postagem de Ana aparece em uma seção intitulada "Monitoramento e
manipulação de perfis em redes sociais". Nesse trecho, a PF apresenta
diferentes situações em que Vorcaro pede a Mourão que acompanhe, retire ou
tente derrubar conteúdos considerados inconvenientes.
Em 3 de
novembro de 2023, Vorcaro encaminhou a Mourão o link do vídeo publicado dois
dias antes por Ana.
"Derrubar
esse", escreveu o banqueiro. Mourão respondeu "Bom dia" e
"Sim".
Vorcaro
esclareceu que não queria a remoção de todo o perfil de Ana:
"Só
o post."
Mourão
afirmou que já havia feito um pedido relacionado ao Instagram, mas Vorcaro
voltou a corrigi-lo: "Insta não. Só o post".
Na
continuação da conversa, os dois demonstraram dúvida sobre a necessidade de
retirar a publicação. Vorcaro observou que o vídeo não dizia "nada
demais" e que a tentativa de removê-lo poderia gerar mais repercussão.
Também comentou que o perfil tinha poucos seguidores.
Sete
dias depois daquela conversa, a conta inteira de Ana foi suspensa pelo
Instagram.
O
relatório afirma que, em outros episódios, o grupo ligado a Vorcaro teria
recorrido indevidamente a canais destinados a pedidos de autoridades para
tentar retirar perfis das redes sociais.
Segundo
a PF, documentos com aparência oficial teriam sido usados para induzir as
plataformas a derrubar contas.
O
documento não demonstra que esse método tenha sido utilizado contra Ana. Também
não comprova que Mourão tenha feito uma solicitação à Meta relacionada ao
perfil dela ou que a suspensão tenha sido consequência do pedido de Vorcaro.
"Nunca
soube, e eles não conseguiram provar quais foram as diretrizes que eu havia
infringido", disse Ana à BBC News Brasil. "Só consigo entender tudo
agora, três anos depois."
Procurada,
a Meta, dona do Instagram e do Facebook, disse que não iria comentar a
reportagem.
Fonte:
BBC News Brasil

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