Bactéria 'H. pylori' é associada ao câncer
colorretal em pesquisa
Conhecida principalmente pela relação com
gastrite, úlcera e câncer de estômago, a bactéria Helicobacter pylori (H.
pylori) pode estar associada a um em cada cinco casos de tumores colorretais em
todo o mundo, segundo uma revisão de 43 artigos envolvendo 48,7 milhões de
participantes. A pesquisa, conduzida pela Universidade da Califórnia em San
Diego, não afirma que o micro-organismo causa a doença, mas os autores
acreditam que, se a relação for comprovada em pesquisas futuras, será possível
estabelecer novas estratégias de prevenção, especialmente em países com alta
prevalência de infecção pelo patógeno.
Shailja Shah, pesquisadora da Divisão de
Gastroenterologia, Universidade da Califórnia em San Diego e principal autora
do artigo, explica que a relação entre a bactéria e o câncer colorretal é
controversa, mas diz que há cada vez mais estudos demonstrando uma associação
estatística significativa. Após a revisão dos artigos sobre o tema, cientistas
desenvolveram um modelo computacional que estimou o risco global em 22%. “Mas
encontramos muitas variações regionais, sendo o oeste do Pacífico a região com
maior associação”, conta. Nas Américas, a estimativa é que 10,9% dos casos da
doença tenham ligação com a exposição à bactéria H.pylori.
Shah lembra que o número de casos de câncer
colorretal está aumentando globalmente. Em 2022, 1,93 milhão de pacientes foram
diagnosticados, e estima-se que, em 2040, as novas ocorrências cheguem a 3,2
milhões. Por isso, a pesquisadora reforça a importância de se buscar
estratégias complementares de prevenção. A eliminação da H.pylori do organismo
seria uma delas. “Em relação à saúde pública, o controle da bactéria na
população pode ajudar a prevenir não apenas o câncer gástrico. Caso a
associação com o câncer colorretal seja confirmada, seria possível reduzir a
carga dessa doença em áreas de alta prevalência do micro-organismo e do tumor”,
diz.
<><> Mutações
Lucas Nacif, cirurgião do aparelho digestivo
e membro do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva (CBCD), esclarece que o
câncer colorretal tem diversos fatores de risco, como consumo excessivo de
carnes vermelhas, ingestão de álcool, tabagismo, sedentarismo e excesso de
peso. “Embora diversos fatores possam aumentar a probabilidade de desenvolver a
doença, ainda não se conhece completamente suas causas específicas”, diz.
Segundo o médico, geralmente, os tumores se desenvolvem a partir de mutações
genéticas que surgem em lesões benignas do intestino, os pólipos.
No artigo, publicado na revista
eGastroenterology, os autores destacam possíveis mecanismos biológicos que
poderiam estabelecer uma relação causal entre a H.pylori e o câncer colorretal.
Alterações da microbiota causadas pela presença do micro-organismo é uma das
hipóteses biológicas. “A alteração da comunidade bacteriana poderia favorecer
um ambiente associado à carcinogênese”, explicam. A publicação também menciona
inflamações e resposta imunológica à bactéria: “A infecção poderia provocar
alterações na resposta imune, mantendo um estado inflamatório capaz de
contribuir, ao longo do tempo, para alterações celulares”, escreveram.
Citando pesquisas com células e animais, o
coloproctologista Danilo Munhóz, de Brasília, esclarece que múltiplos fatores
são plausíveis. “Se essa relação sugerida no estudo realmente for causal, ela
parece depender de uma interação entre a bactéria, suas características, o
organismo do paciente, a genética e outros fatores ambientais. Mas vários
desses mecanismos ainda precisam ser confirmados em seres humanos.”
<><> Tempo
Para os autores do artigo, o fator tempo pode
ser uma peça importante na possível relação entre a bactéria e o câncer
colorretal. Os cientistas encontraram poucos trabalhos que demonstram o impacto
da erradicação da H.pylori e o risco da doença: em dois deles, que acompanharam
os participantes por mais de 10 anos, eliminar o micro-organismo foi associado
a uma redução de risco de 10%. Porém, isso não aconteceu nas pesquisas que
seguiram os voluntários por menos de uma década.
Segundo Shailja Shah, isso sugere que, se, de
fato, a infecção contribuir para o desenvolvimento do câncer colorretal, o
processo pode ser muito lento. “Uma exposição ocorrida décadas antes poderia
contribuir para alterações que só se manifestariam posteriormente. Isso ajuda a
explicar por que estudos de curto prazo podem não detectar um eventual efeito
preventivo da erradicação”, acredita.
Caso as descobertas forem confirmadas, os
pesquisadores acreditam que a infecção por H. pylori poderá representar um
fator de risco potencialmente modificável, como ocorre, hoje, com o câncer de
estômago. Eles lembram, porém, que ainda não é possível recomendar a eliminação
do patógeno como estratégia preventiva nem que, ao ser diagnosticado com o
micro-organismo, o paciente precisa automaticamente fazer a colonoscopia antes
do recomendado. “Ainda não temos evidências suficientes para mudar as recomendações
clínicas”, reforça Shailja Shah.
Por enquanto, o rastreamento é uma das
principais ferramentas preventivas do câncer colorretal, porque permite
identificar as lesões precursoras e os tumores em fases iniciais. O
gastroenterologista Lucas Nacif ressalta a importância dos exames periódicos,
especialmente quando há histórico familiar. “A prevenção sempre será o melhor
remédio, somado a uma alimentação equilibrada e vida saudável com atividade
física”, ensina.
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Três perguntas para Danilo Munhóz, coloproctologista da Clínica Primazo,
em Brasília
• A
associação encontrada no estudo permite afirmar que a H. pylori causa câncer
colorretal?
Não. Esse é provavelmente o ponto mais
importante para interpretar o estudo. Encontrar uma associação entre a infecção
pela H. pylori e uma maior ocorrência de câncer colorretal não significa,
automaticamente, demonstrar que a bactéria é a causa desses tumores. Quando
falamos que uma determinada proporção dos casos poderia estar relacionada à
exposição ao H. pylori, estamos falando de uma estimativa epidemiológica; isso
não significa que 22% das pessoas infectadas desenvolverão a doença. O câncer
colorretal é uma doença multifatorial, influenciada por idade, genética,
alimentação, obesidade, sedentarismo, álcool, tabagismo, doenças inflamatórias
intestinais, entre diversos outros fatores. O que os trabalhos recentes fazem é
aumentar a suspeita de que o H. pylori possa ser mais uma peça desse
quebra-cabeça.
• Como
uma bactéria que coloniza principalmente o estômago poderia estar associada ao
desenvolvimento de um câncer no intestino?
Não precisamos imaginar necessariamente que a
H. pylori saia do estômago, chegue ao intestino grosso e provoque diretamente
um tumor. As hipóteses mais interessantes envolvem as repercussões que uma
infecção crônica no estômago pode produzir em todo o trato gastrointestinal. A
H. pylori pode modificar a produção de ácido e de gastrina, alterar a resposta
imunológica e favorecer mudanças na composição da microbiota intestinal. A
redução da acidez gástrica observada em algumas pessoas infectadas, por exemplo,
modifica uma importante barreira contra micro-organismos e pode permitir
alterações nas populações de bactérias que chegam ao intestino. Ao mesmo tempo,
níveis elevados de gastrina vêm sendo estudados porque esse hormônio pode
estimular a proliferação de células da mucosa intestinal.
Outra possibilidade envolve a inflamação
crônica e a resposta imunológica desencadeadas pela bactéria.
• Pessoas
com H. pylori devem antecipar exames de rastreamento do câncer colorretal?
Nesse momento, não há evidência suficiente
para recomendar que uma pessoa faça colonoscopia mais cedo simplesmente porque
recebeu o diagnóstico de H. pylori. A decisão continua baseada principalmente
na idade, no histórico pessoal e familiar de pólipos ou câncer colorretal, na
presença de síndromes hereditárias, em doenças inflamatórias intestinais e em
outras condições de maior risco. Mas também não significa que o diagnóstico de
H. pylori deva ser ignorado. A bactéria tem uma relação causal muito bem estabelecida
com gastrite, úlcera e, principalmente, câncer gástrico, e por isso a infecção
diagnosticada deve ser adequadamente tratada e sua erradicação posteriormente
confirmada.
>>>> Palavra de especialista -
Adriano Colares Tolentino, médico gastroenterologista-endoscopista do Hospital
Anchieta
# Benefício a longo prazo
Os
estudos mostram que as pessoas com H. pylori têm mais câncer de cólon, mas
nenhum deles mostra a causalidade diretamente. É possível haver algum fator
comum: por exemplo, quem tem H. pylori geralmente tem mais infecções
intestinais, pior flora intestinal e, consequentemente, maior risco de câncer
de intestino. Mas, ainda sem uma relação direta, o tratamento para H. pylori
acaba por ter um efeito positivo para a microbiota intestinal, o que, a longo
prazo, induz um menor risco de câncer intestinal. Não existe um protocolo para
fazer colonoscopias de rotina em pacientes com H. pylori, mas, em pacientes com
indicação de colonoscopia (mais de 45 anos, história familiar etc) está cada
vez mais claro o beneficio de se fazer os dois procedimentos ao mesmo tempo.
Logo, temos indicado a endoscopia em pacientes que se submeterão a
colonoscopia.
Fonte: CorreioBraziliense

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