Por que estão “chutando o balde”!? Eleições
de 2026 no Brasil e disrupções das extremas direitas
É
plausível valorar o fim da escala de trabalho 6 x 1, sem redução de salários,
como um marco histórico da “Nova República”, sobretudo quando se consideram,
com centralidade, as raízes coloniais, escravocratas, latifundiárias da
formação social brasileira, bem como a prevalência de uma modernização
concentradora de renda e riqueza, infensa à participação popular,
eivada de truculências e “soluções” (golpistas) pelo alto. Um passo crucial
nessa direção foi dado no dia 2 de setembro de 2026, com a aprovação na
Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal. O próximo passo seria
pautar a matéria no plenário. Entretanto, irrompeu no meio disso uma “chutação
de balde” perpetrada por um Ministro do STF (organicamente vinculado ao
bolsonarismo), que capturou o “debate” público e provocou uma “cacofonia” cujas
consequências foram abafar o supracitado passo crucial e a magnitude desse
marco histórico. Aliás, no embalo dessa cacofonia, o candidato oficial do
bolsonarismo, que é Senador da República, arregimentou a sua “tropa de choque”
e arrancou mais uma procrastinação no trâmite da matéria, evitando que fosse
levada ao plenário.
O fato
é que a aprovação de uma matéria apoiada por cerca de 78% da população foi
obstaculizada e a repercussão social de um tema referente ao cotidiano de
milhões de pessoas no Brasil ficou marginalizada. De roldão, a referida
“chutação de balde” ministerial, que tirou o lawfare da
cartucheira e reeditou alguma coisa do modus operandi lavajatista,
em meio ao fervor de disputas eleitorais atravessadas pela intervenção
estadunidense, além de favorecer o travamento da aprovação do fim da escala 6 x
1, propiciou o alastramento daquela representação social difusa do “nada presta
no Brasil”. A rigor, mais do que representação: trata-se também de uma forma de
experiência da sociedade brasileira atual, que vem servindo como combustível
(anti)político das interpelações bolsonaristas.
De
estrondo em estrondo, as extremas direitas vão se nutrindo e se espraiando.
Essa acumulação de estrondos remete, em larga escala, ao ativismo digital (que
abordarei em textos subsequentes). Por “debaixo da ponte” do ativismo digital,
entretanto, “corre muita água”. As extremas direitas “esticam as cordas”,
“chutam os baldes”, “chutam os paus das barracas”, impulsionadas por metas,
métodos e instrumentos disruptivos que, todavia, não corroboram a
autoproclamação de “antissistema”. Esse debate acerca do atributo
“antissistêmico” requer empenho de complexificação, posto que volumosas cargas
disruptivas compõem o miolo do “sistema” econômico e político vigente.
Posicionando o foco no segmento hegemônico do campo da extrema direita
brasileira, no repertório de tecnologias bolsonaristas de militância e
governança constam boicotes, esvaziamentos, desmantelamentos, mas também
invectivas, esculhambações, menosprezos, desferidos contra um conjunto amplo de
instituições do regime político erguido no pós-ditadura de 1964-1985.
Coetaneamente, esse repertório alberga termos relevantes da política
tradicional – fator condizente com a própria formação do bolsonarismo, que
aglutinou características oligárquicas, fisiológicas, entreguistas e golpistas
das “velhas” direitas e os pedaços espalhados da emergência de uma “nova”
direita, na esteira das jornadas de junho de 2013, recebendo uma
significativa alavancagem no contexto das maquinações em torno do impeachment
da Presidenta Dilma Rousseff.
Segundo
consta, pelo menos desde as duas últimas semanas do mês de agosto, verifica-se
uma ciranda de subida do dólar e queda da Bolsa. A Faria Lima já procede a tal
“precificação” da eleição presidencial, com vistas a exigir da candidatura
lulista uma “camisa de força” fiscal e um “cabresto” sobre o Banco
Central. Pari passu, acompanha, amiúde, os desdobramentos do
supracitado estrondo oriundo do STF, dada a convergência de gramática econômica
e de revestimentos políticos entre o mercado financeiro e o campo da extrema
direita no Brasil, modulada e abastecida por dispositivos
de espoliação/expropriação de fundo público, ativos públicos, recursos
naturais e socioculturais. Esses dispositivos armazenam munições disruptivas.
Por exemplo, o binômio combinado dólar nas alturas/real
depreciado constitui um dispositivo econômico-político com munição
disruptiva, suscetível de provocar turbulências sociais. Diante do pano de
fundo sócio-histórico global de superacumulação de capital na forma monetária,
predomínio de fluxos econômicos com procedência
financeiro-rentista-especulativa, desregulamentações financeiras abrangentes,
volatilidade do câmbio, cadeias globais de valor atreladas ao dólar,
turbulências cambiais engendram turbulências sociais, na medida em que suscitam
inflacionamento do preço dos alimentos e de insumos industriais. A ameaça de se
promover turbulência cambial municia o emparedamento do governo federal em nome
da blindagem do escoadouro de fundo público, via pagamento de juros da dívida
pública que, entre julho de 2025 e julho de 2026, atingiu cerca de R$ 1,15
trilhão.
Logo,
disrupção não é algo estranho ao mercado financeiro. É possível verificar
propensões disruptivas incrustadas nas próprias bases de funcionamento do
sistema financeiro vigente. No Brasil atual, um reservatório de geração de
turbulências econômicas, políticas e sociais encontra-se alojado em um tipo
usual de operação no mercado financeiro, chamada carry trade, que
consiste, resumidamente, em prospectar, buscar e captar dinheiro a custo quase
zerado (em países com taxas básicas de juros próximas a zero, como Japão,
alguns países europeus e EUA) para aplicar/investir em ativos financeiros de
curtíssimo prazo, por aqui, atraído pela taxa básica de juros exorbitante do
Banco Central. Diante do mencionado pano de fundo composto por superacumulação
de capital na forma monetária, desregulamentação financeira ostensiva,
dolarização econômica, volatilidades cambiais, basta uma milimétrica elevação
da taxa básica de juros do Federal Reserve, o Banco Central estadunidense, para
provocar uma ávida sucção dos dólares que aqui circulam em busca de ganhos
financeiros imediatistas na esteira dos tais carry trades. Uma
saída abrupta e volumosa de dólares do país engendra a combinação de dólar nas
alturas e real depreciado. Como consequência social turbulenta, é capaz de
provocar pressão inflacionária sobre alimentos e insumos, conforme já pontuado.
Movimentação e efeitos análogos acontecem quando a tal “taxa de carry” do
Brasil discrepa perante a de países periféricos ou semiperiféricos, como México
e África do Sul. Para segurar dólares no país e reter a disparada do câmbio, a
taxa básica de juros definida pelo Banco Central é manuseada como ferramenta de
gestão da rentabilidade do tal carry trade.
Essas
propensões disruptivas ficam, ainda, suscetíveis de recrudescimento pela
atuação orgânica da Faria Lima (ou, pelo menos, de setores expressivos da Faria
Lima) que, escorada (ou escorados) nos efeitos sociais disruptivos que uma
turbulência cambial pode provocar, instrumentaliza o câmbio como arma
político-econômica e empareda o governo federal para garrotear
gastos/investimentos públicos, manter a Taxa Selic nas alturas e blindar spreads bancários
abusivos. No bojo da tal “precificação” da eleição presidencial, o anúncio de
um aumento do salário mínimo acima da inflação, em proporção maior do que a
projetada pelo mercado, está servindo como um pretexto recente para a
“milionésima” coação fiscal perpetrada pela Faria Lima. Por conta do anúncio de
um aumento de 121 reais no salário mínimo, o mercado ficou “nervoso”, conforme
a proclamação do mainstream empresarial e midiático (que,
aliás, imputa afetos ao mercado). Segundo alardeou o referido mainstream,
esse aumento não somente “atrapalharia” a formação do tal “superávit primário”,
mas “incrementaria” a formação do tal “déficit primário” – uma aferição fiscal
que não leva em conta o gasto com juros da dívida pública (de longe, o
principal sorvedouro de fundo público).
A
propósito, para sublinhar o peso disruptivo da instrumentalização do câmbio
como arma econômica, é importante resgatar um aspecto (pouco considerado) na
guerra estadunidense-sionista perpetrada contra o Irã. Na prévia dos
bombardeios de mísseis, já em meio ao assassinato de autoridades, foram
desferidos bombardeios econômicos, instrumentalizando o câmbio como arma. O
próprio Secretário do Tesouro dos EUA admitiu que promoveu manipulação cambial
no Irã (mais especificamente, “escassez de dólares”) para provocar turbulências
sociais. “Criamos uma escassez de dólares – bancos colapsaram, a moeda entrou
em colapso. A inflação explodiu e o povo iraniano foi para as ruas”, sentenciou
o Secretário. De fato, em dezembro de 2025, pulularam protestos de rua naquele
país.
Fornecendo
mais um passo no percurso apresentado no texto, vale ressaltar: o que subjaz à
hipertrofia financeiro-rentista-especulativa do capitalismo vigente são
dispositivos de espoliações e expropriações (não apenas de fundo público, mas
também de ativos públicos, recursos naturais e socioculturais), sobretudo nos
países e regiões periféricas do sistema. No âmbito dessas balizas, atualiza-se
e evidencia-se um caráter (indelével) da “lumpenburguesia” brasileira:
abdicação/boicote a redesenhos de projetos de desenvolvimento nacional (no que
for possível, diante da elevada fronteira tecnocientífica), sobretudo
se pautados por objetivos de distribuição direta de
renda/riqueza e ampliação da participação popular como vetor de
governabilidade. Com isso, agrava-se o atrelamento do país à especialização
primário-exportadora de commodities e à financeirização
econômica. Nos parâmetros supracitados, reside um elo significativo entre a
extrema direita brasileira (com ênfase no bolsonarismo) e as classes dominantes
(nas suas diversas frações). O travamento da aprovação do fim da escala 6 x 1,
sem redução de salários, e a cisma secular perante uma política de valorização
continuada do salário mínimo constituem exemplos.
Esse
elo entre o bolsonarismo e as classes dominantes enseja ganchos para se abordar
a intervenção dos EUA nas eleições brasileiras (mantendo, ainda, como fio
condutor o empenho de análise dos sentidos e funções das propensões disruptivas
das extremas direitas). É nítido que os EUA “estão de olho” nas reservas de
terras raras brasileiras, no Pix e estão intervindo, descaradamente, no
processo eleitoral brasileiro. Aliás, o candidato oficial do bolsonarismo à
Presidência da República já franqueou ao governo estadunidense as reservas de
terras raras e até a equipe governamental de transição, em caso de vitória no
pleito presidencial de outubro/novembro de 2026. Em movimentos coordenados,
agentes políticos do trumpismo (que ocupam posições governamentais) e do
bolsonarismo requentaram invectivas contra o sistema eleitoral brasileiro.
O
trumpismo está empreendendo uma disrupção global, “jogando para o alto o
tabuleiro” que os próprios EUA criaram e implementaram. Descartando qualquer
véu ideológico “universalista”, ataca ingredientes da tal “globalização”
econômica, abalada pela crise de 2008, e posiciona, diretamente, a “alça de
mira” na tal da “governança global”, composta pelos tais organismos
multilaterais, cujos alicerces remontam ao contexto de reconstrução capitalista
do pós-Segunda Guerra, sob a égide da hegemonia estadunidense. Os EUA
retiraram-se, segundo consta, de 66 instituições desse tipo. Organismos como,
por exemplo, a Organização Mundial de Saúde, a Organização das Nações Unidas
para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e acordos, como o de Paris. Até
a OTAN e os históricos aliados europeus não escaparam das “bordoadas”
trumpistas. Os EUA não se retiraram da OTAN, mas a tensionaram e a
vilipendiaram. Tripudiando a Organização Mundial de Comércio, desferem
bombardeios tarifários para acuar o mundo e, sob os impactos desse acuamento,
arrancar “renegociações” bilaterais. “Coisa linda de se ver”, declarou
Trump sobre os tarifaços.
Sintetizando
a argumentação entabulada no texto, o “sistema” engendra disrupções e, enquanto
tal, conflui para vias “antissistêmicas”. Essas vias “antissistêmicas”, por sua
vez, confluem para os direcionamentos disruptivos “sistêmicos”. O que se
convenciona nomear como “antissistêmico” nas extremas direitas, a rigor, não é
o “outro” da lógica imanente do sistema econômico em vigência (que carrega
propulsores de disrupção econômica, política, cultural, afetiva e ecológica). O
trumpismo, por exemplo, catalisa e espalha “ingovernanças” e “desgovernanças”,
mobilizando ferramentas disruptivas econômicas, geopolíticas, militares,
culturais. No mesmo compasso, mantém-se aferrado a um dos baluartes da
“governança” capitalista do pós-Segunda Guerra – a hegemonia do dólar (cujo
lastro, a propósito, não se ancora em fatores econômicos, mas no maquinário de
guerra). Defender, a qualquer custo, a hegemonia do dólar é um posicionamento
mais do que “sistêmico” – é “ultrassistêmico”. O contexto estrutural de crise
econômica (que se desdobra em crise social e ecológica) catalisa formas
(auto)destrutivas de vivências (anti)sociais e de interação com a natureza.
A
extrema direita “estica a corda”, “chuta o balde”, “chuta o pau da barraca”,
impulsionada por metas, métodos e instrumentos disruptivos. Com isso, fornece
algum tipo de representação, mimetização desse ethos destrutivo “sistêmico”,
passível de ser “agarrado” por milhões de pessoas. Cabe frisar, entretanto, que
a postulação dessas interfaces entre trumpismo e bolsonarismo precisa de
acuidade metodológica: se, por um lado, há vínculos e um jogo recíproco de
espelhamentos entre ambos, por outro, há subalternização do bolsonarismo
perante o trumpismo e distâncias quilométricas. Enquanto no trumpismo, por
exemplo, há ativismo estatal na corrida tecnológica e na política industrial,
no bolsonarismo há ativismo nos bloqueios e abdicações a qualquer esboço de projeto
de desenvolvimento nacional (sintonizado com o caráter prevalecente da
“lumpenburguesia” brasileira), que atinge o nível rebaixado de franquear as
terras raras (in natura, mesmo) aos EUA.
Precificações,
lavajatismos, bombardeios algorítmicos perfazem um emaranhado de
“governalidades” e “in/desgovernalidades” e uma teia de
disrupções/conturbações/estrondos, atrelados às metas capitalistas
prevalecentes de expropriação/espoliação. Para o “andar de cima”, o
bolsonarismo tem a oferecer balizamentos
e ferramentas para o atrelamento ao capitalismo
de pilhagem. Mas, e quanto aos milhões de pessoas comuns dos “andares de
baixo”, o que tem a oferecer!? Como um trajeto plausível de resposta, cabe tomar
como ponto de partida a avaliação de que um dos principais combustíveis do
bolsonarismo decorre das representações/sensações difusas de desconfiança
(anti)social. Essas representações/sensações não estão soltas no ar: encontram
lastro no caráter (estrutural) de descomprometimentos/desimplicações sociais
abrangentes e seculares, circunscritos no sistema categorial da formação social
brasileira.
As
tecnologias bolsonaristas de (des)governança e militância não somente abdicam
de apontar caminhos de ultrapassagem dos fatores objetivos que permeiam o
caráter (estrutural) de descomprometimentos/desimplicações sociais, mas
recrudescem tais fatores. Ato contínuo, galvanizam as representações de
desconfiança (anti)social e fixam enquadres particularistas de se experienciar
a sociedade. Assim, oferecem “entrincheiramentos” hiperindividualistas e
“farrapos” de conexões entre essas pessoas “entrincheiradas” (visto que, mesmo
“entrincheiradas”, não abdicam, por completo, de demandas por conexões,
socializações, reconhecimentos). Acumulação de metas e métodos disruptivos
tendem a provocar, imantar vivências da sociedade mediadas por
“entrincheiramentos” subjetivos. De conturbação em conturbação, as extremas
direitas vão se nutrindo e se capilarizando. Porém, por mais
“entrincheiramentos” que favoreçam, as necessidades/demandas materiais e
afetivas das pessoas comuns ainda urgem e clamam por respostas. Assim, a gramática
das políticas sociais públicas não se tornou completamente estranha. Ao
contrário.
Cabe,
então, insistir no questionamento: nas eleições que se aproximam, o fim da
escala 6 x 1, sem redução de salário, cujo apoio alcança cerca de 78% da
população, vai perfurar os bloqueios disruptivos!?
Fonte: Por Felipe Brito, no Blog da Boitempo

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