Desestabilização como projeto
A análise do momento político atual, a menos
de 30 dias das eleições presidenciais, exige que se recorra à experiência
recente do Brasil, particularmente ao período iniciado em 2012-2013, para que
se estabeleçam os paralelos necessários à compreensão do cenário em curso.
No presente estágio da disputa eleitoral, a
candidatura de Lula explicita a necessidade premente de alteração da política
econômica. Tal diretriz encontra-se consignada em seu programa de governo e em
pronunciamentos em cadeia nacional. O candidato sustenta que a solução para a
dívida pública reside no crescimento econômico, o qual, por sua vez, seria
viabilizado pela redução dos juros da dívida pública.
Essa posição implica uma ruptura com a lógica
do capital financeiro, cujo programa preconiza que o orçamento da União seja
destinado totalmente ou prioritariamente ao pagamento dos juros da dívida e que
propaga, como justificativa, a tese de uma suposta explosão inflacionária. Tal
alegação, contudo, constitui um erro, uma inverdade e um mito, tanto sob a
perspectiva da história brasileira quanto em comparação com a realidade
internacional, e serve unicamente para respaldar a manutenção ou elevação dos juros
reais no patamar elevado em que se encontra desnecessariamente no país.
O Brasil vive atualmente um momento econômico
positivo: registra a menor taxa de desemprego dos últimos catorze anos, a mais
baixa inflação dos últimos doze anos e dispõe de reservas cambiais superiores a
300 bilhões de dólares.
Não há, portanto, justificativa para a
manutenção da taxa Selic em 14% ao ano, patamar que inviabiliza investimentos
privados na economia e que direciona a maior parte dos recursos orçamentários
para a rolagem da dívida pública, comprometendo áreas como saúde, educação,
habitação, assistência, cultura e a reindustrialização.
As metas de inflação, embora cumpridas, são
metas irrealistas. O essencial é que o país possa investir em um projeto
nacional de desenvolvimento, o qual deve abranger a reindustrialização verde, a
transição energética, o complexo econômico-industrial da saúde, a transição
digital da indústria, os setores aeroespacial e de defesa, cidades resilientes.
Essa reindustrialização, contudo, somente se
tornará viável com um Estado dotado de capacidade de planejamento de longo
prazo e de investimento, o que exige uma taxa de juros não mais próxima dos
14%, mas situada na ordem de 7% a 8% ao ano, de modo a convergir para os
patamares internacionais. Não se advoga o juro zero, mas sim um juro compatível
com a realidade global.
O Brasil apresenta condições objetivas para
alinhar seu crescimento do PIB ao de nações como China e Índia, mas vê essa
potencialidade sabotada pela ausência de planejamento estatal de longo prazo,
pela insuficiência de investimento público e pela incapacidade de estimular o
setor privado a investir no setor produtivo, mantendo-o refém do capital
financeiro.
Esse diagnóstico está posto pelo candidato
Lula, especialmente quando propõe que o Brasil supere sua condição de mero
agroexportador e exportador de minerais, industrialize as terras raras no
território nacional e gere empregos de qualidade, meta alcançável apenas
mediante a industrialização, e não por meio de uma economia
primário-exportadora. O processo eleitoral caminhava para aprovar esse projeto
nacional.
Nesse contexto, a estratégia iniciada na
semana passada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal,
procura deslocar o eixo do debate programático, qual seja, a política econômica
e o modelo de desenvolvimento nacional com um Estado planejador e investidor,
capaz de executar um projeto de nação para os próximos 30 ou 50 anos.
A manobra de André Mendonça consiste em
recolocar o debate para o terreno já conhecido da Lava Jato, em torno do
suposto combate à corrupção, quando, na verdade, a maior parte da corrupção
decorre do bolsonarismo, que estimulou e consolidou o esquema de Daniel
Vorcaro. Ao fazê-lo, não se busca a depuração democrática das instituições, mas
sim sua deslegitimação genérica, jogando STF, Executivo e Legislativo em uma
vala comum de descrédito.
Dessa forma, fortalece-se o discurso da
ultradireita segundo o qual a democracia é ineficaz, o Estado nacional é
corrupto por natureza e tudo o que é público e estatal deve ser destruído, em
favor do privado, do “empreendedorismo” e do alinhamento aos Estados Unidos e à
nova doutrina Trump. A estratégia não visa apenas impulsionar a campanha de
Flávio Bolsonaro, mas alterar inteiramente os termos do debate nacional,
aprisionando-o nessa falácia.
Cabe estabelecer um paralelo com o governo de
Dilma Rousseff. Em 2012 e 2013, Dilma Rousseff reduziu os juros reais
(diferença entre a Selic e a inflação) para cerca de 2% e naquele momento o
capital financeiro foi para o ataque. Hoje, com Selic a 14% e inflação em torno
de 5%, o juro real atinge 9%, drenando o orçamento da União para o pagamento da
dívida pública e tornando o Estado brasileiro o principal financiador do
capital rentista.
Observa-se, assim, uma reedição do momento em
que Dilma Rousseff enfrentou o capital financeiro ao mesmo tempo em que
defendeu a exploração do pré-sal pela Petrobras, a destinação dos royalties a
um fundo soberano e a soberania nacional. Naquela ocasião, o capital financeiro
aliou-se aos interesses dos Estados Unidos, conforme denunciou Edward Snowden
ao revelar a espionagem contra Dilma Rousseff, seus ministros e a Petrobras,
indicando que o Brasil estava na rota da desestabilização patrocinada por Washington.
O campo popular talvez não tenha percebido, à época, que essa articulação
culminaria na Lava Jato, cujo propósito foi destruir a ousadia de reduzir os
juros e construir uma indústria nacional.
O conflito já irrompeu, por iniciativa de
André Mendonça, no âmbito do STF, com o objetivo de desestabilizar as
instituições brasileiras. Essa desestabilização institucional visa não apenas
favorecer a eleição de Flávio Bolsonaro, mas também preparar uma nova ruptura
institucional, caso ele não seja eleito, e estabelecer as bases para um cerco
pelos Estados Unidos no período pós-eleitoral.
O Brasil tornou-se, nesse processo, o país
mais importante para a definição da geopolítica mundial, uma vez que a Ásia
está sob influência de Rússia e China, e a África caminha para a libertação do
neocolonialismo europeu. Os Estados Unidos, por sua vez, reeditam sua doutrina
Monroe e consideram prioritário manter a América Latina sob seu domínio.
O discurso de André Mendonça, de Flávio
Bolsonaro e da extrema direita brasileira volta-se, portanto, à
desestabilização das instituições democráticas, à ruptura institucional e à
afirmação de que STF, Presidência e Congresso estão insustentáveis. O objetivo
último é estabelecer a vassalagem do Brasil aos Estados Unidos, destruir a
soberania nacional, entregar as riquezas nacionais, paralisar a
reindustrialização, revogar o marco das terras raras e o mínimo constitucional
para saúde e educação, e submeter o país aos interesses americanos.
Assim, o grande debate eleitoral deve ser o
projeto nacional: que Brasil queremos? Inspiramo-nos em Juscelino Kubitschek e
Getúlio Vargas, nos projetos de desenvolvimento nacional que urbanizaram,
industrializaram e integraram o país, com planejamento de longo prazo. Hoje,
esse projeto é subvertido pela lógica do curtíssimo prazo, inflação, superávit
fiscal e primário, taxa Selic, que enfraquece o Estado e favorece
privatizações. Devemos olhar para China, Coreia do Sul, Vietnã e Índia, que
demonstram que a soberania nacional exige desenvolvimento social e econômico
com Estado forte e planejador, com capacidade de projetar 30, 40 ou 50 anos
adiante.
O interesse nacional reclama soberania, paz,
reforma das instituições globais e transformação da economia agroexportadora e
exportadora de minerais em uma economia industrializada verde, tendo ciência,
tecnologia, inovação e biotecnologia como eixos centrais, com o Brasil
tornando-se potência ambiental inclusive com a preservação da Amazônia.
O campo democrático e popular deve assumir
também uma retórica antissistema, não há nada mais antissistema do que combater
a política econômica que privilegia o capital financeiro, o pagamento de juros,
a Selic elevada e o superávit primário, em detrimento do crescimento, da
cidadania, da distribuição de renda, da reindustrialização e da autonomia
estatal. Essa é a questão central, e exige-se um discurso forte e radicalizado
pela transformação do Estado e pela soberania nacional.
Esse discurso deve afirmar, com clareza, que
o atual governo Lula denunciou e desmantelou o esquema do Banco Master, e que
não compactua com essa corrupção. Deve-se anunciar a mudança radical do
Judiciário, a condenação de todos os atos ilícitos de ministros do STF e de
outras autoridades sem qualquer acobertamento ou proteção, com a máximo rigor,
e respeitando o devido processo legal no Estado de Direito. Deve-se propor uma
mudança profunda nas instituições, inclusive acabar com o sequestro do orçamento
da União pelo parlamento.
Deve-se defender o combate rigoroso ao crime
organizado, lembrando que a Operação Carbono Oculto foi a maior ação já
realizada contra essa criminalidade, revelando suas conexões com a Faria Lima e
com o grande capital, demonstrando como o dinheiro do crime era lavado na
economia formal. É fundamental que o campo progressista encarne, em discurso e
simbolismo, o que já pratica na realidade: o combate ao crime organizado, às
desigualdades e à corrupção.
Caso contrário, o discurso de Flávio
Bolsonaro, ligado a milícias e ao crime organizado, prevalecerá. Na política, o
discurso e o simbólico tem peso decisivo, na verdade o simbólico é a política.
Fonte: Por Penildon Silva Filho em A Terra é
Redonda

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