O que Salvador Allende temia antes do golpe
Quase cinco décadas após sua
eleição, Salvador Allende permanece um
ícone do socialismo. Vencendo por uma margem estreita as eleições presidenciais
de 1970 como líder da coalizão Unidad Popular, ele lançou um
ambicioso programa de nacionalizações para colocar os trabalhadores no comando
da economia. A reação foi feroz, desde a fuga de capitais até a sabotagem
total. Apontando Allende como um inimigo implacável, o presidente dos EUA,
Richard Nixon, disse em uma reunião com o Conselheiro de Segurança Nacional,
Henry Kissinger, que seu objetivo era “fazer a economia gritar”.
Nixon e
Kissinger conseguiram o que queriam em 11 de setembro de
1973,
quando Allende, eleito democraticamente, foi deposto por um golpe militar apoiado pela
CIA. Após a morte de Allende, milhares de socialistas, comunistas e ativistas
trabalhistas foram assassinados pelo regime do general Augusto Pinochet, que
logo se tornou um campo de testes para a terapia de choque neoliberal. No
entanto, antes de se tornar um exemplo sombrio da disposição das elites em
destruir a democracia, o experimento de Allende foi, em si, um farol para a
esquerda internacional.
Um ano
após a chegada de Allende à presidência, em outubro de 1971, Rossana Rossanda o
entrevistou para o diário comunista italiano Il Manifesto. Essa
entrevista reflete a esperança da esquerda internacional na experiência
chilena, mas também a percepção de quão frágil ela era diante da oposição do
exército. Como dizia um subtítulo sombriamente agourento no Il
Manifesto na época: “Se os oficiais vencerem, não será uma troca da
guarda palaciana, mas um banho de sangue.”
“Exceto
por certos floreios nos comícios eleitorais, a maneira como se fala de política
em Santiago não se parece em nada com a visão clichê da América Latina. Não há
muita retórica, os epítetos são usados com parcimônia e há
uma tendência notável a não
fazer promessas exageradas. O Chile parece estar à espera, cauteloso
como um gato, mas certamente não como um gato
adormecido. Você pode perguntar a qualquer um —
um intelectual, um trabalhador, um taxista ou uma balconista —
por que todos são “politizados”, e ninguém pode lhe dar uma resposta
definitiva. Mas isso não ocorre porque, como alguns gostam de afirmar, os
chilenos possuam naturalmente uma “mentalidade institucional” e, portanto,
sejam plácidos. Em vez disso, é que eles sabem que a situação é instável — e
não escondem isso. A resposta mais categórica que recebi foi do maior chileno
de todos, Salvador Allende Gossens. Ele, como todos os seus compatriotas, mede
suas palavras, mas fala com crescente segurança. Pois ele precisa jogar suas
cartas com convicção — e com pressa.
Conversei
longamente com Allende durante o café da manhã no palácio presidencial. Eu
havia sido convidada para lá, juntamente com Paul Sweezy e Michel Gutelman, que
as duas universidades de Santiago haviam convidado para participar de um
seminário sobre “sociedades em transição”. Nossa presença irritou os comunistas
chilenos, que desertaram do seminário e nos atacaram de forma
extraordinariamente crua em seu jornal não oficial… nos chamaram de “gringos
ignorantes” e renegados “pró-Pequim”. Assim, quando o presidente nos convidou —
apesar de seus sólidos vínculos com o Partido Comunista —, isso lhes ensinou
uma grande lição. Ele sabia que nenhum de nós havia minimizado nossas dúvidas
ou distorcido nossas posições apenas por causa do convite. Poucos minutos depois
de nos sentarmos, ele me perguntou: “Há algo neste país que você considere
convincente, camarada?”
“O que
o senhor está tentando fazer aqui é importante, senhor Presidente” (e ele me
interrompe imediatamente — “‘Sr. Presidente’, não! Me chame de ‘camarada’. Sou
um camarada como você”). “Mas acho que há um longo caminho daqui até o
socialismo.” Não é uma resposta que o agrade particularmente, mas ele admite:
“Sim, é um caminho difícil”. Mas ele não está interessado em se deter nisso:
para ele, o que importa é que entendamos como as coisas se movem, o que ele
quer fazer e, acima de tudo, as dificuldades que enfrenta. E ele não tem
intenção de disfarçá-las com otimismo.
Assim
que entrou na sala onde o esperávamos, Allende — um homem baixo, mais gordinho
do que parece nas fotos, mas também mais radiante — estava visivelmente
cansado. Mas se dirigiu a nós diretamente, com um jeito firme: “Obrigado por
terem vindo. Vocês são formadores de opinião em seus países, então é muito
importante que conheçam o Chile de hoje e o mostrem a todos.” E depois de um
pouco de autoindulgência (“Sou médico, não sou político por opção”), fomos
direto ao ponto. E falamos sobre as dificuldades atuais do Chile.
Dificuldades
em nível internacional? “Nós também temos”, ele responde. “Temos 4.000 km de
fronteiras, ninguém poderia defendê-las. Estamos sozinhos aqui no fundo do
continente. E incomodamos muita gente.” A referência óbvia e não mencionada
aqui, como em toda a América Latina, é ao Brasil; poderoso, violento e
expansionista, dirigiu o golpe de Estado na Bolívia e, assim, removeu um
possível aliado de Allende. “Não acho que haverá um ataque militar. Mas é
essencial que não estejamos isolados. Foi o presidente argentino Alejandro
Agustín Lanusse quem abriu as portas para os países do Pacto Andino. Claro…” —
e aqui ele me olha de relance, pois sabe o que os exilados argentinos no Chile
pensam sobre isso — “… ele também tinha interesse nesta operação. Mas, por
enquanto, somos nós que mais nos beneficiamos”.
E ele
tem razão: ao chegar a um acordo com Lanusse, fortaleceu sua posição em relação
aos Estados Unidos e retirou um possível território para a direita chilena. Não
escondeu que contava com hierarcas militares neste imenso Estado vizinho,
encostado ao Chile ao longo da Cordilheira dos Andes. “Agora podemos dizer que
estamos seguros no Cone Sul, mesmo que o golpe de Estado na Bolívia tenha sido
uma reviravolta grave.” Uma reviravolta grave, mas que pode acabar até jogando
a favor de Allende: quando o coronel boliviano Hugo Banzer, imprudentemente,
desfez a antiga demanda por uma saída marítima às custas do Chile, isso, de um
só golpe, restaurou a unidade do exército chileno — ainda o ponto mais incerto
nos planos de Allende — em torno do presidente.
<><>
Uma ameaça real
Mas e
os estadunidenses? Como Allende avalia as declarações do secretário de Estado
dos EUA, Bill P. Rogers, depois que o governo chileno se recusou a indenizar os
proprietários das minas nacionalizadas? Rogers estava apenas com raiva ou isso
foi uma ameaça real?
“Uma
ameaça real”, insiste Allende. “Muito mais séria do que qualquer um parece ter
percebido, aqui ou em qualquer outro lugar.” E ele repete o argumento que já
havia apresentado em uma resposta contundente ao Departamento de Estado. Como
ele mesmo afirma, os Estados Unidos não aceitarão que um Estado recupere a
riqueza que lhe foi roubada (ainda mais considerando que o caso chileno é um
precedente perigoso), e assim, em resposta, os Estados Unidos chantageiam toda
a América Latina.
Mas, ao
contrário do que a Newsweek (e, ainda mais hipocritamente, o
grande jornal de Santiago, El Mercurio — um inimigo de
Allende) declarou, o governo da Unidad Popular não só não busca uma ruptura,
como age com extrema cautela. Essencialmente, tem como alvo apenas aquelas
questões — como as minas — onde inegavelmente tem a justiça do seu lado.
A
operação para calcular a compensação devida à Anaconda e à Kennecott [empresas
de mineração, cujas participações foram nacionalizadas por Allende], deveria
ter terminado com um clamoroso “Não só não lhes devemos nada, como são vocês
que ainda nos devem cerca de US$ 400 milhões”. No entanto, foi conduzida sem
alarde, com recurso mínimo a bravatas e com a máxima supervisão de
especialistas internacionais.
Para
Allende, “os Estados Unidos podem nos prejudicar muito. Todas as peças de
reposição necessárias para a indústria do cobre vêm dos Estados Unidos. E
também os agentes químicos de que precisamos. Eles podem interromper a produção
da noite para o dia.” E isso vai acontecer? “Espero que não. Mas é por isso que
precisamos de apoio internacional.”
Quais,
pergunto, são as dificuldades mais sérias a curto prazo? Aqui, também, Allende
é direto: “Moedas estrangeiras e garantia de suprimentos”. O Chile sempre
precisou importar alimentos e outros bens de consumo: e com um aumento salarial
real calculado em cerca de 40%, houve um consequente aumento na demanda por
estes últimos. E eles têm que vir do exterior: quase US$ 300 milhões este ano e
mais no ano que vem. Então, o Chile tem que pagar US$ 360 milhões por ano para
cobrir sua dívida externa, que disparou desde que as minas foram
nacionalizadas. E não é mistério que as reservas cambiais estão se esgotando,
agora não passam de US$ 100 milhões. “Você realmente tem que pagar?” Allende me
olha de soslaio: “O Chile pagará o que lhe é devido”. Estamos falando dos
grandes bancos globais — e torná-los inimigos significaria problemas.
“Precisamos
de crédito”, explica Allende — e não finge já tê-lo encontrado. “Tudo ainda
precisa ser decidido, levantamos o problema com os países socialistas e estamos
negociando, mas tudo ainda está sendo discutido — nada foi selado.” Há a Europa
também, mas é distante e, como eu descobriria mais tarde, a FIAT — que parecia
interessada em facilitar as relações para instalar uma grande fábrica no Chile
— foi subitamente coberta por mil garantias do governo italiano. Há a Alemanha.
Há o Japão, com todos aqueles milhões de dólares arrecadados neste verão:
precisa investi-los em algum lugar. E, de fato, o Chile conversou com o Japão.
Mas, claramente, até agora, diante da irritação estadunidense — e talvez da
incerteza quanto ao destino doméstico de Allende — ninguém apostou em conceder
crédito significativo ao Chile. Sua reconversão industrial levará mais do que
alguns dias e, por um tempo, a reforma agrária custará mais do que arrecada. E
a cautela soviética é evidente.
Allende
não esconde que este é o seu principal problema: tem certeza de que, se
conseguir resolver este, poderá resolver todo o resto, à sua esquerda e à sua
direita. À sua direita, ele agora está em desacordo com os democrata-cristãos —
“Todos se uniram contra tudo”. “Mas [o democrata-cristão progressista] Radomiro
Tomic se comportou de forma diferente no início, não?” — “Sim, mas hoje estão
todos do outro lado”. Ele diz isso com raiva, amargura, mas também com um meio
sorriso, insinuando os limites da oposição de direita. “Mas o exército foi
neutralizado por enquanto”.
O
exército chileno — ele me diz, como todos aqui — não é o instrumento
tradicional de golpes de Estado: é a expressão de uma camada da classe média
com fortes laços institucionais. No entanto, ao contrário de outros, o camarada
presidente não parece alimentar muitas ilusões: é cauteloso nos adjetivos que
usa e, por enquanto, se contenta com a “neutralidade” do país. Para tanto,
precisa de uma política de compras externas que não aliene as classes médias,
restringindo o consumo, nem forneça uma base de massa para agitações à direita,
que tem muito mais filiais do que apenas o partido de Jorge Alessandri
[candidato presidencial derrotado em 1970].
Ainda
mais considerando que um confronto se aproxima em torno do famoso projeto de
lei para determinar as áreas de intervenção estatal. Allende apressou-se em
nacionalizar indústrias antes que a maior parte do capital pudesse fugir. Mas é
óbvio que, sob a atual tempestade de granizo, apenas pequenas e médias empresas
protegidas estão investindo, e os democrata-cristãos buscam limitar até onde as
expropriações governamentais podem ir — nisso, auxiliados pela falta de maioria
da Unidad Popular no Congresso. Allende propôs, portanto, listar as áreas de
passíveis de intervenção estatal, as áreas de intervenção mista e aquelas
deixadas para o setor privado. Ele me conta sobre o mecanismo desenvolvido para
isso, insistindo que, se nenhum acordo for alcançado, mas o projeto for
aprovado, ele o vetará por decreto presidencial e, em vez disso, realizará um
referendo. O objetivo: reduzir a margem de apoio popular de seus adversários. E
seus adversários sabem disso.
O jogo
se desenrola em um curto espaço de tempo e é óbvio que Allende está preocupado.
Enquanto fala comigo em voz baixa e com frases curtas (nossa mesa é grande
demais para não se dividir em uma série de diálogos entre vizinhos), Allende
come muito pouco e não parece inclinado a expressar nada em termos
excessivamente diplomáticos. “Como você tem achado o humor das pessoas?”, ele
me pergunta. Respondo que o país parece sem tensão: as maiores paixões se
encontram entre os jovens recrutas convocados pelo governo e depois no
Movimiento de Izquierda Revolucionária (MIR). Não se vê a participação do
povão, das classes baixas.
“Podemos
mobilizar as massas quando quisermos”, explica. “Mas não é importante que elas
se mobilizem sozinhas? Se houver uma situação difícil, não seria melhor que as
massas tivessem suas próprias ferramentas para intervir?” Aqui Allende não
entra na brincadeira, embora um momento depois um sorriso surja em seus olhos e
ele interrompa: “Então a camarada é ultraesquerdista!”. Ele acrescenta: “Cabe
aos partidos mobilizar e organizar as massas. Existem partidos e sindicatos. O
que você achou do Partido Socialista?” Achei-o interessante como uma esponja
absorvendo diferentes forças, menos fechada que o Partido Comunista e mais
capaz de refletir as pressões contrastantes de uma base política diante de uma
nova situação. Allende — com razão — o considera pouco organizado. Ele me diz
que não tem tempo para se ocupar disso, embora participe de reuniões do partido
todas as quartas e sextas-feiras.
Mas é
claro que algo mais o preocupa, justamente por ultrapassar seu próprio
horizonte político. E este é o primeiro surgimento de uma presença massiva, ou
de classe — aquela convocada pelo MIR com as ocupações de terra, que não
obedecem às regras do jogo político-institucional. Essas massas (e o MIR), que
às vezes rompem com qualquer ritmo combinado, também precisam ser
“neutralizadas” ou pelo menos “canalizadas” — embora Allende não diga isso
abertamente. Não por acaso, ele me garante que suas relações com o MIR são
excelentes, no nível pessoal: sua irmã Laura, médica, explica ele, tem um filho
que é quadro do MIR e sempre o recebe com seus companheiros em sua casa. No
Chile, esses laços contam.
Pouco
depois, terminado o café da manhã, sinto-me envergonhada por ter monopolizado o
presidente — e tento deixar os outros conduzirem seus temas. Mas o tom logo
muda. A discussão se volta para o julgamento que Allende iniciou contra um
sobrinho seu no MIR, que foi ainda mais longe nas críticas ao exército, nas
páginas do jornal do partido, o Rebelde. “Você precisa
entender, o fato de ele ser meu sobrinho não muda nada!” O presidente adota um
tom mais ríspido: “Não se deve brincar com fogo. Não permitirei provocações
irresponsáveis. Se alguém acredita que no Chile um golpe de Estado do Exército
se desenrolaria como em outros países latino-americanos, com uma simples troca
de guarda aqui em La Moneda [o palácio presidencial em Santiago], está
redondamente enganado. Aqui, se o Exército rompe a legalidade, significa guerra
civil. Foi o que aconteceu na Indonésia. Você acredita que os trabalhadores
deixariam que a indústria lhes fosse tirada? Ou os camponeses, a terra? Haverá
cem mil mortos, um banho de sangue. Não permitirei que ninguém brinque com
isso.”
Ele
realmente acredita nisso. Mas, mais uma vez, assim como no relacionamento com
as massas, a única garantia que ele vê está no tempo que ele próprio
estabeleceu para a operação, seu estilo de “ofensiva legalista” combinado com
uma rara capacidade de fragmentar a frente inimiga. Cada ofensiva de classe
mais direta e incisiva corre o risco de desequilibrar a balança. Duvido que seu
sobrinho vá para a cadeia: mas pressionar o MIR agora é de rigueur, assim
como chamar os trabalhadores à ordem, quando necessário.
Enquanto
nos preparávamos para encerrar, por volta das 14h30, Allende nos conta que está
indo para o Norte, para a grande mina de cobre de Chuquicamata, onde os
trabalhadores reivindicaram um enorme aumento salarial — um aumento entre 50% e
70%. “Eles não podem fazer isso, e eu vou lá para dizer isso a eles. Contra
quem eles estão em guerra? Eles agora são os donos da mina.” “Não são eles os
donos, camarada presidente, mas o Estado.” O Dr. Allende me encara como um
paciente recalcitrante: “o povo é o dono.” “Bem, camarada presidente…” — “É.
Será!” Um momento depois, depois de nos despedirmos, ele me liga de volta. “Eu
sei que amanhã você vai para Concepción, fico feliz, é importante que você vá
para lá, quero conversar sobre isso depois, com calma.” O fato é que o convite
para Concepción vem de uma universidade “pró-MIR”, e é lá que o movimento
organizou ocupações de terra. Allende, que já me surpreendeu ao mostrar que
sabe o que é il manifesto, acredita na virtude do debate, quer
convencer, defender “seu” Chile, sua linha, conquistar a todos — inclusive os
“ultraesquerdistas”.
Mas não
haverá um “depois” e não verei o Dr. Allende novamente. Há apenas um dia entre
o retorno de Concepción e minha partida, e na noite anterior a isso um enorme
escândalo estoura. Por ocasião da Feira Agrícola Latino-Americana, realizada
com a presença de ministros e embaixadores, a direita agrária decide
incautamente denunciar o “estatismo” do governo, acusando-o de minar os valores
da propriedade e da iniciativa camponesa. Allende, que deveria comparecer à
Feira, só vê o discurso de Benjamin Matte — que talvez pensasse ter costas
quentes por ser presidente do Instituto para as Relações com Cuba — uma hora
antes de seu discurso. Enfurecido, o presidente não só desiste de abrir a
Feira, como também pede a Matte que leia antes de seu discurso uma carta do
próprio Allende, chamando-o de irresponsável em termos inequívocos. A Feira
começa em uma atmosfera extraordinária, com pessoas aplaudindo freneticamente a
carta de Allende e Matte tentando se fazer ouvir em meio aos assobios e gritos
de “momio, maricón!” (“múmia, viadinho!”), enquanto
embaixadores e ministros se retiram e países amigos fecham seus pavilhões mais
cedo. No dia seguinte, há sensacionalismo nos jornais, uma reunião de gabinete
e uma discussão violenta com os democrata-cristãos. É impossível ver o
presidente — e entendemos o porquê.
Mas
este episódio também faz parte do retrato: de fato, a personalidade é talvez o
terreno em que ele é mais forte, imbatível até. A razão pela qual amigos e
inimigos à esquerda e à direita o respeitam. Falam dele — “El Chicho” —
com uma mistura de afeto e rancor. Listam seus defeitos, mas com alguma
reserva. Pode-se adotar posições radicalmente diferentes, como o MIR, mas
ninguém nega que a determinação de Allende é a de um político de grande
estatura: um velho socialista que — contrariamente ao costume de socialistas e
presidentes na América Latina e em outros lugares — não quer ter rabo preso. O
Dr. Allende fez três tentativas de entrar no governo para realizar seu
experimento: e agora não o negociará com ninguém. O que resta avaliar é a
estabilidade interna de seu projeto: se está destinado a perdurar, ou se
penderá para a derrota ou para a revolução que Allende acredita já ter
alcançado.
Fonte: Por
Rossana Rossanda / Tradução Pedro Silva, na Jacobin Brasil

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