Turnê de Rubio amplia cerco dos EUA sobre a
América do Sul
O secretário de Estado dos Estados Unidos,
Marco Rubio, realizou nesta semana um giro por três países da América do Sul:
Colômbia, Equador e Peru. A viagem combinou acordos comerciais, operações
militares com o pretexto de combater o narcotráfico, expansão do chamado Escudo
das Américas e uma ofensiva para conter a presença da China em setores
estratégicos da região.
Segundo o Departamento de Estado dos EUA,
Rubio pretende fortalecer alianças consideradas prioritárias por Washington,
aprofundar a cooperação contra o chamado “narcoterrorismo” e ampliar as
relações comerciais com os três países,por isso mesmo o secretário se deslocou
a países sob governos de extrema direita e alinhados com a atual administração
estadunidense liderada por Donald Trump.
Embora o combate ao narcotráfico seja
apresentado como eixo central da agenda, a viagem tem alcance mais amplo.
Washington procura consolidar uma faixa de governos subordinados à sua
estratégia hemisférica, assegurar acesso privilegiado a petróleo, minerais
críticos, portos e infraestrutura logística e reduzir o espaço econômico
conquistado pela China nas últimas duas décadas.
Rubio resumiu o caráter ideológico da missão
antes de embarcar. “Vamos visitar três países estreitamente alinhados com os
Estados Unidos”, afirmou. Ele também declarou esperar “fechar acordos
comerciais sólidos e benéficos com os três países em um futuro próximo”.
A escolha de Colômbia, Equador e Peru não é
casual. Os três países ocupam posições estratégicas na costa do Pacífico,
possuem recursos naturais cobiçados e oferecem acesso a rotas marítimas,
corredores comerciais e áreas próximas à Amazônia. Seus atuais governos também
integram, em diferentes graus, o campo direitista que Trump pretende
transformar em base política regional.
<><> Colômbia como plataforma
militar, energética e mineral
A primeira escala de Rubio ocorreu em 8 de
setembro, na Colômbia, onde ele se reuniu, em Barranquilla, com o
recém-empossado presidente Abelardo de la Espriella. A pauta incluiu combate ao
narcotráfico, cooperação militar, energia, comércio e reconstrução das áreas
atingidas pelo terremoto de agosto.
Os dois governos alinharam estratégias mais
rigorosas contra cartéis e organizações classificadas como narcoterroristas. A
Colômbia também formalizou sua entrada no Escudo das Américas, coalizão
regional promovida pelos Estados Unidos para ampliar o compartilhamento de
inteligência, a cooperação judicial e a coordenação de ações de segurança.
O encontro ocorreu depois que o governo
colombiano autorizou operações conjuntas com forças norte-americanas em
território nacional. O comandante do Comando Sul dos EUA, Francis Donovan, já
havia visitado o país para discutir a ampliação da cooperação militar.
De la Espriella manifestou interesse em obter
equipamentos e treinamento dos Estados Unidos, incluindo aviões, radares e
drones, mas negou que o acordo envolva a instalação de tropas norte-americanas
no país. O governo dos EUA pretende utilizar a Colômbia como ponto de apoio
para ações de vigilância no Pacífico, operações nas fronteiras e intercâmbio de
informações na área de segurança.
Rubio e o chanceler colombiano também
assinaram instrumentos de cooperação sobre energia nuclear para fins civis e
cadeias de suprimentos de minerais críticos. Bogotá procura ainda obter dos
Estados Unidos medidas de facilitação tarifária para reduzir os efeitos do
desastre natural sobre sua economia.
Os acordos colocam setores estratégicos
colombianos no centro da disputa entre Washington e Pequim. A cooperação
nuclear civil abre espaço para a entrada de tecnologia e empresas
norte-americanas, enquanto o entendimento sobre minerais críticos busca aproximar
a produção colombiana das cadeias industriais controladas pelos Estados Unidos.
A Colômbia é historicamente o principal
parceiro militar norte-americano na América do Sul. O novo ciclo de cooperação,
entretanto, amplia o risco de que o combate ao narcotráfico volte a servir como
justificativa para ingerência política, operações externas e militarização de
conflitos internos.
O modelo remete ao Plano Colômbia, lançado no
fim dos anos 1990. Embora apresentado como programa antidrogas, o projeto
fortaleceu a presença militar dos Estados Unidos, direcionou bilhões de dólares
à compra de armamentos e associou a política de segurança colombiana aos
interesses estratégicos de Washington.
<><> Equador amplia operações
navais com os Estados Unidos
Em 9 de setembro, Rubio se reuniu com o
presidente Daniel Noboa, em Quito. Segurança, comércio, extradição, migração e
atuação conjunta contra organizações criminosas dominaram a agenda.
O combate ao crime transnacional foi o
principal eixo da reunião. Os dois governos discutiram o reforço das operações
navais conjuntas no Oceano Pacífico, com participação de forças
norte-americanas e equatorianas na interceptação de embarcações associadas ao
tráfico de drogas.
As ações integram uma nova estratégia dos
Estados Unidos para atuar ao lado de governos aliados e adaptar as operações às
legislações nacionais. Apesar disso, Rubio declarou que Washington continuará
recorrendo à destruição de embarcações quando considerar necessário.
Os Estados Unidos também mantêm equipes
especializadas trabalhando com forças equatorianas e procuram obter do
Congresso norte-americano mais verbas para ampliar as ações militares no
combate ao narcotráfico. A estrutura contempla equipamentos, treinamento,
vigilância, inteligência e apoio a operações no Pacífico e em outras
áreas.
Rubio anunciou ainda a classificação da
facção Los Tiguerones como “organização terrorista estrangeira e terrorista
global especialmente designada”. A medida amplia as possibilidades de bloqueio
de ativos, sanções financeiras e ações de segurança contra integrantes ou
apoiadores do grupo.
A decisão segue o padrão adotado
anteriormente contra Los Lobos e Los Choneros. Ao converter quadrilhas em
organizações terroristas, Washington passa a aplicar instrumentos originalmente
desenvolvidos para conflitos internacionais a problemas de segurança pública
latino-americanos.
Essa mudança não é apenas jurídica. Ela abre
caminho para operações militares, ações clandestinas e uso de força letal sob
comando ou influência dos Estados Unidos. Ao aceitar essa arquitetura, o
governo equatoriano transfere parte de sua capacidade de decisão soberana a uma
potência estrangeira.
Noboa e Rubio também discutiram o controle
dos fluxos migratórios irregulares e a situação das fronteiras regionais. O
governo Trump procura vincular os acordos de segurança à política
norte-americana de contenção migratória, atribuindo aos países latino-americanos
responsabilidades crescentes na interceptação e deportação de migrantes.
Na frente jurídica, os dois governos
avaliaram a modernização do tratado bilateral de extradição e o aprofundamento
da coordenação entre forças policiais, militares e serviços de inteligência. O
objetivo declarado é facilitar o envio aos Estados Unidos de chefes de
organizações criminosas que atuam no Equador.
A agenda econômica incluiu demandas
comerciais pendentes apresentadas por Quito, possibilidades de investimentos
norte-americanos e a revisão de barreiras tarifárias. Os dois países também
avaliaram parcerias nos setores de tecnologia, infraestrutura digital e cadeias
produtivas.
Em setembro de 2025, durante outra visita de
Rubio, Washington já havia anunciado recursos para equipamentos de segurança e
tecnologia de drones. A atual viagem consolida o Equador como um dos principais
pontos de apoio dos Estados Unidos no litoral sul-americano do Pacífico.
<><> Peru: minerais críticos e
disputa pelo porto de Chancay
A passagem de Marco Rubio pelo Peru reuniu de
forma mais evidente os objetivos comerciais, geopolíticos e antichineses da
turnê sul-americana. O secretário de Estado dos Estados Unidos chegou a Lima em
9 de setembro e, no dia seguinte, reuniu-se com a presidente Keiko Fujimori,
empossada poucas semanas antes. Durante a visita, Rubio também participou de um
encontro na Câmara de Comércio Americana do Peru.
A adesão do Peru ao Escudo das Américas
ocupou o centro das conversas. Após o encontro no Palácio do Governo, Fujimori
confirmou a entrada do país na coalizão liderada por Washington para ampliar a
cooperação militar, policial, judicial e de inteligência contra o crime
organizado e o chamado narcoterrorismo. A incorporação também foi confirmada
por Rubio.
A decisão acrescentou uma estrutura regional
de segurança à relação bilateral. Ao anunciar a adesão, Rubio classificou o
Peru como um importante aliado dos Estados Unidos fora da Organização do
Tratado do Atlântico Norte, “aliado extra-Otan”, condição associada à ampliação
da cooperação militar, ao acesso a equipamentos e à participação em programas
de defesa norte-americanos.
Rubio integrou o Peru à estratégia militar do
Hemisfério Ocidental elaborada pelo governo de Donald Trump. A iniciativa prevê
compartilhamento de informações, treinamento, combate a redes criminosas
transnacionais e coordenação de políticas de segurança. Fujimori afirmou que a
participação permitirá ao país obter dados com maior rapidez e agir diretamente
contra organizações criminosas que operam além das fronteiras.
A agenda da viagem também envolveu
investimentos, comércio e setores estratégicos. Em fevereiro de 2026, Peru e
Estados Unidos assinaram um memorando sobre minerais críticos.
A ofensiva de Washington para assegurar
cadeias de abastecimento na América do Sul está inserida na disputa tecnológica
e industrial com Pequim.
O Peru também abriga o porto de Chancay,
construído com capital chinês e controlado pela estatal Cosco Shipping.
Localizado ao norte de Lima, o terminal de águas profundas encurta o tempo de
transporte entre a América do Sul e a Ásia e fortalece a possibilidade de o
país se consolidar como centro logístico do comércio transpacífico.
Em fevereiro, o governo norte-americano
acusou empresas chinesas de ameaçar a soberania peruana sobre Chancay. A
manifestação expôs a disputa entre Washington e Pequim pela influência sobre
infraestrutura, minerais e decisões estratégicas no Peru. Durante a viagem,
Rubio voltou a criticar os investimentos chineses e apresentou o capital
norte-americano como uma alternativa para o país.
Fujimori busca aprofundar os vínculos
políticos e de segurança com Washington sem romper as relações comerciais com a
China, um dos principais parceiros econômicos do Peru. Após o encontro com
Rubio, a presidente afirmou que o país continuará aberto ao comércio com outras
regiões, em meio à pressão do governo Trump para limitar a presença chinesa em
áreas como infraestrutura, telecomunicações, mineração e logística.
<><> Escudo das Américas
institucionaliza bloco de direita
O Escudo das Américas foi lançado por Trump
em março de 2026, durante uma reunião com presidentes latino-americanos na
Flórida. Oficialmente, a iniciativa pretende combater cartéis, imigração
irregular e organizações criminosas transnacionais.
A adesão da Colômbia e o anúncio da entrada
do Peru ampliam a presença do mecanismo na América do Sul. O Brasil e o México
permanecem fora da iniciativa, enquanto governos de direita aproximam suas
estruturas de segurança dos Estados Unidos.
Na prática, o mecanismo procura organizar uma
coalizão política, militar e ideológica liderada por Washington. O grupo
oferece aos Estados Unidos novos canais para compartilhar inteligência,
promover operações militares e condicionar políticas comerciais e diplomáticas.
A formação desse eixo constitui uma tentativa
de desenvolver alianças reacionárias na América Latina. O critério de
aproximação não se limita à disposição de enfrentar o crime organizado: envolve
adesão ao programa de Trump, hostilidade aos governos de esquerda, abertura a
empresas norte-americanas e afastamento progressivo da China.
O combate ao narcotráfico oferece uma
narrativa conveniente porque transforma problemas sociais complexos em ameaças
militares. Com isso, pobreza, desigualdade e polarização política deixam de
ocupar o centro do debate, enquanto se legitimam operações especiais,
vigilância estrangeira e expansão das Forças Armadas em alinhamento com os EUA.
<><> Uma extensa ofensiva
diplomática sobre a região
A viagem aos três países andinos faz parte de
uma movimentação iniciada logo após Rubio assumir o Departamento de Estado. Em
sua primeira missão internacional, em fevereiro de 2025, ele percorreu Panamá,
El Salvador, Costa Rica, Guatemala e República Dominicana.
No mês seguinte, visitou Jamaica, Guiana e
Suriname. Em setembro daquele ano, esteve no México e no Equador. Somadas às
atuais escalas em Colômbia e Peru, essas viagens mostram que Rubio passou por
pelo menos 12 países da América Latina e do Caribe como secretário de Estado.
As pautas se repetem: migração, narcotráfico,
minerais críticos, energia, portos, telecomunicações e pressão contra empresas
chinesas. No Panamá, Washington atacou a presença de companhias chinesas nas
proximidades do canal. Na Costa Rica, pressionou contra fornecedores chineses
de tecnologia 5G. Na Guiana, ampliou a cooperação militar em uma área rica em
petróleo e disputada pela Venezuela.
Essa sequência demonstra que está em curso
uma ofensiva destinada a reconstruir uma esfera de influência norte-americana
no hemisfério, agora sob linguagem mais agressiva, comercialmente coercitiva e
militarizada.
<><> Estratégia de segurança
recupera lógica da Doutrina Monroe
O fundamento político da ofensiva aparece na
Estratégia de Segurança Nacional publicada pela Casa Branca em dezembro de
2025. O documento colocou o Hemisfério Ocidental entre as prioridades do
governo Trump e defendeu a recuperação da “preeminência” dos Estados Unidos na
região.
A estratégia criou o chamado “Corolário
Trump” à Doutrina Monroe. Entre seus objetivos está impedir que concorrentes de
fora do hemisfério controlem ativos estratégicos, infraestrutura, portos ou
capacidades consideradas ameaçadoras por Washington.
Na linguagem da Casa Branca, o principal
concorrente é a China. Pequim tornou-se o maior parceiro comercial de países
como Brasil, Chile e Peru, financiou obras de infraestrutura e ampliou sua
participação nos mercados de energia, mineração, agricultura e tecnologia.
O problema para Washington não é uma suposta
defesa abstrata da soberania latino-americana, mas a perda de sua antiga
exclusividade sobre a região. A doutrina norte-americana reivindica, na
prática, o poder de determinar quais países podem investir, financiar projetos
ou manter relações estratégicas com as nações do continente.
Essa visão é imperialista e neocolonialista
porque trata a América Latina como território subordinado aos interesses
econômicos e militares dos Estados Unidos. É hegemonista porque não reconhece
aos países latino-americanos o direito de diversificar suas parcerias e
construir uma política externa autônoma.
<><> O Brasil está diretamente
ameaçado
Para o Brasil, o avanço dessa estratégia
representa um perigo concreto. O país não participou do lançamento do Escudo
das Américas e mantém uma política externa baseada na defesa da soberania, na
integração sul-americana, no Brics, na defesa do multilateralismo e em uma
relação econômica profunda com a China.
A China é o maior parceiro comercial
brasileiro e um mercado decisivo para produtos como soja, minério de ferro,
petróleo e carnes. Empresas chinesas também investem em energia elétrica,
infraestrutura, indústria, telecomunicações e tecnologia. Por isso, qualquer
tentativa de Washington de obrigar os países da região a escolher entre Estados
Unidos e China atingirá diretamente os interesses nacionais brasileiros.
Há ainda uma dimensão militar. Colômbia, Peru
e Equador cercam áreas próximas à Amazônia e podem integrar uma rede de
inteligência, vigilância aérea, monitoramento por satélite e operações
especiais liderada pelos Estados Unidos. A expansão dessa estrutura aproximaria
capacidades militares estrangeiras das fronteiras brasileiras e de uma das
regiões mais estratégicas do planeta.
A Amazônia reúne água, biodiversidade,
minerais, petróleo e terras raras, além de ocupar posição central no debate
climático. Uma arquitetura de segurança regional definida em Washington pode
converter o combate ao narcotráfico, a proteção ambiental ou a defesa de
minerais críticos em justificativas para pressionar o Brasil sobre o uso de seu
próprio território.
Também existe o risco de isolamento
diplomático. Ao construir um cinturão de governos de direita e subservientes a
Trump, os Estados Unidos procuram enfraquecer organismos de integração
autônoma, limitar a influência brasileira e dividir a América do Sul em blocos
ideológicos.
A turnê de Marco Rubio, portanto, deve ser
compreendida como parte de uma disputa maior pelo comando político e econômico
do continente. Sob o discurso de segurança, comércio e combate ao crime,
Washington articula governos aliados, incorpora forças locais à sua estratégia
militar e tenta bloquear a presença chinesa.
Para o Brasil, responder a esse movimento
exige preservar a soberania e fortalecer a integração regional. O risco central
não está apenas em uma visita diplomática, mas na consolidação de uma ordem
hemisférica em que decisões sobre segurança, recursos naturais e relações
comerciais voltem a ser condicionadas pelos interesses dos Estados Unidos.
Fonte: Por José Reinaldo Carvalho, em Brasil
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