Resgatar o respeito
Já temos constatado neste espaço que a erosão
da ética que atinge todos os âmbitos da vida. O mesmo se pode dizer da falta de
respeito entre as pessoas, as sociedades e as nações. Fatos gritantes são o
desrespeito completo das forças de Israel cometendo genocídio a centenas de
crianças inocentes da Faixa de Gaza. O mesmo ocorre no Sudão e em outros
lugares de guerra. Tais tragédias pertencem à crise civilizatória atual.
Temos que resgatar o respeito ilimitado como
valor fundamental. Não apenas entre os humanos. Com a nova consciência
ecológica e as new sciences ligadas à vida, à natureza, ao cérebro e à nova
cosmologia, entendida como “cosmogênese”, vale dizer, o universo ainda em
expansão, o respeito à Terra, à natureza e a todo ser é imperativo, pois todos
estão dentro da dinâmica do processo evolutivo e possuem história, bem como
certa subjetividade e direitos que devem ser respeitados.
Para esta tarefa, sirvo-me de alguém que,
além de médico, dedicou toda a sua vida a pensar o respeito. Refiro-me a Albert
Schweitzer (1875-1965), oriundo da Alsácia. Desde cedo apresentou traços de
genialidade. Tornou-se famoso exegeta bíblico com vasta obra especialmente
sobre questões ligadas à possibilidade ou não de se fazer uma biografia
científica de Jesus. Era também um exímio organista e concertista das obras de
Bach, por toda a Europa.
Em consequência de seus estudos sobre a
mensagem de Jesus, especialmente do Sermão da Montanha, com sua centralidade no
pobre, no faminto e sedento, resolveu abandonar tudo e estudar medicina.
Formado, em 1913 foi para a África como médico em Lambarene, no Gabão belga,
exatamente para aquelas regiões que foram dominadas e exploradas pelos
colonizadores europeus.
Diz explicitamente numa carta: “O que
precisamos não é enviar para lá missionários que queiram converter os
africanos, mas pessoas que se disponham a fazer para os pobres o que deve ser
feito, caso o Sermão da Montanha e as palavras de Jesus possuam algum valor. Se
o Cristianismo não realizar isso, perdeu seu sentido. Depois de ter refletido
muito, isso ficou claro para mim: minha vida não é nem a ciência nem a arte,
mas tornar-me um simples ser humano que, no espírito de Jesus, faz alguma
coisa, por pequena que seja” (Schweitzer, p. 25-26).
Em seu hospital, especialmente para
hansenianos (leprosos) no interior da floresta tropical, entre um atendimento e
outro de doentes, tinha tempo para refletir sobre os destinos da cultura e da
humanidade. Considerava a falta de uma ética humanitária como a crise maior da
cultura moderna. Dedicou anos no estudo das questões éticas que ganharam corpo
em vários livros, sendo o principal deles O respeito diante da vida (Ehrfurcht
vor dem Leben).
Tudo em sua ética gira ao redor do respeito,
da veneração, da compaixão, da responsabilidade e do cuidado para com todos os
seres, especialmente, para com aqueles que mais sofrem. Ponto de partida para
Albert Schweitzer é o dado primário de nossa existência, a vontade de viver que
se expressa: “Eu sou vida que quer viver no meio de vidas que também querem
viver” (Wie wir überleben können, p. 73). À vontade de poder (Wille zur Macht)
de Friedrich Nietszche, Albert Schweitzer contrapõe a vontade de viver (Wille
zum Leben).
E continua: “A ideia-chave do bem consiste em
conservar a vida, desenvolvê-la e elevá-la ao seu máximo valor; o mal consiste
em destruir a vida, prejudicá-la e impedi-la de se desenvolver. Este é o
princípio necessário, universal e absoluto da ética” (p. 52 e 73).
Para Albert Schweitzer, as éticas vigentes
são incompletas porque tratam apenas dos comportamentos dos seres humanos face
a outros seres humanos e esquecem de incluir a natureza e todas as formas de
vida que se nos apresentam. O respeito que devemos à vida “engloba tudo o que
significa amor, doação, compaixão, solidariedade e partilha” (p. 53). Numa
palavra: “a ética é a responsabilidade ilimitada por tudo que existe e vive”
(Wie wir überleben, p. 52 e Was sollen wir tun, p. 29).
Como a nossa vida é vida com outras vidas, a
ética do respeito à vida deverá ser sempre um con-viver e um con-sofrer
(miterleben und miterleiden) com os outros. Numa formulação suscinta afirma:
“Tu deves viver convivendo e conservando a vida, este é o maior dos mandamentos
na sua forma mais elementar” (Was sollen wir tun?, p. 26).
Daí derivam-se comportamentos de grande
compaixão e cuidado. Interpelando seus ouvintes numa homilia conclama:
“Mantenha teus olhos abertos para não perder a ocasião de ser um salvador. Não
passe ao largo, inconsciente, do pequeno inseto que se debate na água e corre
risco de se afogar. Tome um pauzinho e retire-o da água, enxugue-lhe as asinhas
e experimente a maravilha de ter salvo uma vida e a felicidade de ter agido a
cargo e em nome do Todo-poderoso. O verme que se perdeu na estrada dura e seca
e que não pode fazer o seu buraco, retire-o e coloque-o no meio da grama. ‘O
que fizerdes a um desses mais pequenos foi a mim que o fizestes’”.
Esta palavra de Jesus não vale apenas para
nós humanos mas também para as mais pequenas das criaturas” (Was sollen wir
tun, p. 55).
A ética do respeito de Albert Schweitzer une
inteligência emocional e cordial num esforço de tornar a ética um caminho de
salvaguarda de todas as coisas e de resgate do valor que elas possuem em si
mesmas.
O maior inimigo desta ética é o embotamento
da sensibilidade, a inconsciência e a ignorância que fazem perder de vista o
dom da existência e a excelência da vida em todas as suas formas. O ser humano
é chamado a ser o guardião de cada ser vivo. Ao realizar esta missão, ele
alcança o grau maior de sua humanidade. As Escrituras são claras: ele é feito
cuidador e guardador do jardim do Éden, da Terra-Mãe.
Concluímos com a seguinte observação: ou
vivemos o respeito incondicional a todo o ser, especialmente ao ser vivo e em
particular ao ser humano, ou então perdemos a base que sustenta o empenho pela
dignidade e pelos direitos humanos. Outro seria o caminho da modernidade se
este ideal fosse assumido como central e não a vontade de potência.
Se não respeitarmos todo ser, acabaremos não
respeitando o ser humano, homem e mulher, o ser mais complexo e misterioso da
criação. Mas também o mais vulnerável, quando pobre, doente e discriminado. Sem
o respeito e a veneração perdemos também a memória do Sagrado e do Divino que
perpassam o universo e que emergem na consciência humana.
Fonte: Por Leonardo Boff, em A Terra é
Redonda

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