De Vorcaro às emendas: os dois caminhos por
trás do dinheiro de Dark Horse
A operação da Polícia Federal deflagrada na
quinta-feira (10) e a decisão do ministro Flávio Dino que autorizou as buscas
jogaram nova luz sobre os fluxos financeiros no entorno de Dark Horse, filme
sobre Jair Bolsonaro. A investigação detalha como dinheiro público destinado a
projetos sociais circulou por uma rede de entidades e empresas até chegar à Go
Up Entertainment, produtora do longa.
É uma nova trilha financeira que se soma a
outra já investigada no Supremo Tribunal Federal (STF): a dos cerca de US$ 13
milhões ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro e ao financiamento de Dark Horse,
em um caso sob a relatoria de André Mendonça.
Os dois caminhos partem de lugares
diferentes. No caso de Mendonça, a investigação busca esclarecer a origem e a
movimentação dos recursos privados associados a Vorcaro e ao financiamento do
filme. Na frente sob Dino, a PF seguiu dinheiro público destinado por emendas
parlamentares e encontrou uma cadeia de repasses entre entidades e empresas que
alcançou a Go Up.
Não há, até agora, comprovação de que os
recursos das duas trilhas tenham se misturado. A operação desta quinta, porém,
permite enxergar com mais detalhes a movimentação financeira ao redor da
produtora e ajuda a entender por que a PF considera necessário seguir o
dinheiro para além dos destinatários originais das emendas.
É uma história que envolve 29 pessoas e 14
empresas. Para compreendê-la, é preciso acompanhar o caminho percorrido pelo
dinheiro.
<><> Dinheiro público entra pelo
ICB
A primeira ponta está no Instituto Conhecer
Brasil (ICB), presidido por Karina Gama. A entidade recebeu recursos públicos e
foi beneficiada por emendas do deputado Mário Frias (PL-SP).
A PF passou então a seguir o dinheiro depois
que ele entrou no instituto.
Os dados de inteligência financeira mostram o
ICB como o principal captador de recursos da rede investigada. De lá, os
valores eram distribuídos a um grupo relativamente restrito de empresas que
aparecem repetidamente nas comunicações financeiras analisadas pela PF.
Entre as principais estão Complexsys,
Fastfuture, Ultra IP e Urban Connect. A Complexsys, por exemplo, recebeu R$ 9,9
milhões do ICB entre outubro de 2024 e abril de 2026.
Mas o caminho não terminava nessas empresas.
Segundo a PF, algumas delas funcionavam
também como redistribuidoras: recebiam valores do ICB e depois faziam novas
transferências para outros integrantes da rede.
É esse segundo movimento que transforma uma
sequência de pagamentos em uma rede financeira mais complexa.
A Academia Nacional de Cultura (ANC), também
presidida por Karina Gama, aparece repetidamente recebendo recursos de
diferentes empresas que haviam sido abastecidas pelo ICB. Somados, esses
repasses chegaram a R$ 6,17 milhões.
Para a PF, essas movimentações apresentam
“fortes indícios de retorno dos recursos públicos pagos ao ICB para a esfera de
disponibilidade dos próprios responsáveis” pela entidade. Os investigadores
também identificaram dinheiro direcionado a bancas de advogados que atuam para
Frias, justamente o parlamentar responsável pelas emendas destinadas ao
instituto.
É a partir dessa circulação que a PF fala em
um “circuito financeiro fechado”: em vez de o dinheiro simplesmente sair do
poder público, pagar uma empresa e resultar na entrega de um serviço ou
produto, os valores continuavam circulando entre empresas, entidades e pessoas
conectadas ao mesmo núcleo.
Segundo os investigadores, o padrão seria
característico da “circulação, fragmentação e reintrodução de valores entre
integrantes de um mesmo núcleo de atuação”.
<><> O dinheiro era pago, mas
faltava comprovar a entrega
Outro ponto ajuda a entender por que essa
circulação chamou a atenção.
Os recursos públicos deveriam financiar
projetos concretos. Um deles, chamado “Lutando pela Vida”, previa atendimento a
500 beneficiários e a compra de materiais para atividades esportivas.
A auditoria da Controladoria-Geral da União
(CGU), reproduzida na decisão de Dino, encontrou um descompasso entre o que
havia sido pago e aquilo que efetivamente estava comprovado.
Os documentos não demonstravam o atendimento
regular dos 500 beneficiários, a entrega dos materiais pagos nem a execução
integral dos serviços contratados.
A CGU destacou, por exemplo, que não havia
comprovação da entrega de quimonos, coquilhas e outros materiais esportivos e
equipamentos de proteção que haviam sido faturados. Também apontou pagamento
integral antes da entrega e um documento de recebimento que teria sido
contestado pela própria fornecedora.
Em outro projeto financiado por R$ 1 milhão
de emenda parlamentar, a situação encontrada também chamou a atenção. O
dinheiro foi repassado ao ICB em fevereiro de 2025, mas, depois de encerrado o
prazo do projeto, a própria entidade informou que ainda precisaria organizar
atividades, preparar espaços e atender as crianças previstas.
Segundo a documentação, os 250
multiplicadores não haviam sido capacitados e os 2.250 estudantes previstos
ainda não tinham sido atendidos. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação
acabou rejeitando as contas por frustração do objeto pactuado.
Para a PF, há suspeitas de pagamentos sem
comprovação suficiente dos serviços, contratações simuladas e até produção
posterior de contratos e orçamentos para dar aparência de regularidade ao uso
dos recursos.
Ou seja: enquanto a execução dos projetos
apresentava problemas, o dinheiro continuava circulando.
<><> Como essa trilha chega à
produtora de Dark Horse
É nesse ponto que aparece a conexão com a Go
Up.
A PF identificou que duas empresas do grupo
empresarial de Heric Dias — Dinâmica Editora e Instituto Super Poder
Educacional — receberam juntas aproximadamente R$ 700 mil do ICB em um dos
projetos financiados com dinheiro público.
Depois disso, a NTT Brasil, também ligada a
Heric Dias, transferiu R$ 750 mil para a Go Up.
A proximidade dos valores chamou a atenção
dos investigadores.
A própria PF faz uma ressalva importante: os
dados disponíveis não permitem afirmar que os R$ 750 mil enviados pela NTT à Go
Up eram exatamente o mesmo dinheiro que havia saído do ICB.
Mas há dois elementos considerados relevantes
pelos investigadores. O primeiro é a semelhança dos valores. O segundo é que,
quando ocorreram essas movimentações, o projeto financiado pelo termo de
fomento ainda não apresentava execução substancial.
A hipótese registrada pela PF é justamente a
de que recursos associados a contratos do ICB, repassados a empresas do grupo
de Heric Dias, possam posteriormente ter sido direcionados pela NTT para a Go
Up.
É aqui que o dinheiro das emendas se aproxima
do universo de Dark Horse.
<><> Os R$ 19 milhões da Go Up
Quando os investigadores olharam para as
contas da Go Up, encontraram uma movimentação muito maior.
Entre 10 de novembro e 30 de dezembro de
2025, em apenas 51 dias, a produtora movimentou R$ 19,03 milhões: R$ 8,95
milhões entraram nas contas e R$ 10,07 milhões saíram.
Os R$ 19 milhões, portanto, não correspondem
ao valor das emendas nem significam que todo esse dinheiro seja suspeito de ter
origem pública. É o volume total movimentado pela empresa no período analisado.
A importância está em entender quem colocou
dinheiro na conta e para onde ele foi.
Entre os principais remetentes aparecem a
Moneycorp Banco de Câmbio, com R$ 3,92 milhões; a GO7 Assessoria, outra empresa
ligada a Karina Gama, com R$ 2,61 milhões; Marcello de Oliveira Lopes, com R$ 1
milhão; a NTT Brasil, com os R$ 750 mil; e o próprio Mário Frias, que enviou R$
645,4 mil.
Na saída, a Go Up pagou R$ 906,7 mil ao Hotel
Unique, R$ 896,6 mil à BAW Facilitadora de Pagamentos, R$ 653,1 mil à Foodflix
Alimentação, R$ 264,7 mil à J D da Silva Produções e R$ 227,5 mil à Mazal
Produções, entre outros destinatários.
E há uma coincidência temporal relevante.
As filmagens de Dark Horse ocorreram entre
outubro e dezembro de 2025. A movimentação financeira considerada atípica pela
PF vai de 10 de novembro a 30 de dezembro daquele ano.
Os investigadores destacam que, justamente
nesse período, a Go Up fazia pagamentos a empresas de hotelaria, alimentação,
eventos e produção audiovisual — tipos de despesas compatíveis, em tese, com
uma produção cinematográfica.
Isso não prova que o dinheiro público tenha
financiado Dark Horse. A própria PF não chega a essa conclusão.
O que a investigação estabelece é uma
sequência que agora precisa ser esclarecida: dinheiro público entra no ICB → empresas contratadas recebem os recursos → empresas ligadas ao mesmo grupo redistribuem
valores → a NTT envia
R$ 750 mil à Go Up → a produtora movimenta R$ 19 milhões
justamente durante o período de filmagens de Dark Horse.
<><> Outro caminho: os milhões
ligados a Vorcaro
É justamente nesse ponto que a investigação
sob Dino encontra uma história financeira que já vinha sendo apurada em outra
frente no STF.
No caso sob a relatoria de André Mendonça, a
PF investiga recursos ligados a Daniel Vorcaro e destinados ao financiamento de
Dark Horse.
Uma perícia privada obtida pelo ICL Notícias
calculou em aproximadamente US$ 13,4 milhões os custos da produção no Brasil e
nos Estados Unidos. A prestação de contas analisada concentra na Heavengate
aportes equivalentes ao custo do projeto.
Nesse caso, a pergunta é mais direta: de onde
vieram os milhões utilizados para financiar o filme e qual foi a participação
de Vorcaro nessa estrutura?
É um caminho diferente daquele descoberto na
investigação das emendas.
De um lado, portanto, está o dinheiro privado
associado a Vorcaro e ao financiamento de Dark Horse. Do outro, dinheiro
público que saiu de emendas, percorreu uma rede de entidades e empresas e
chegou ao entorno financeiro da Go Up.
Até agora, não há comprovação de que essas
duas trilhas tenham se misturado.
Mas a decisão de Dino acrescenta uma
informação importante ao quebra-cabeça: no mesmo período em que Dark Horse era
filmado, sua produtora movimentava milhões e recebia dinheiro de uma empresa
inserida numa cadeia que a PF relaciona aos recursos públicos investigados.
Agora, para saber onde termina uma trilha e
começa a outra, será necessário seguir os dois caminhos do dinheiro.
• Grupo
de Vorcaro acessou dados do MPF sobre Master e BRB: ‘Quero tudo’, diz mensagem
obtida em investigação
Um grupo ligado ao ex-banqueiro Daniel
Vorcaro obteve informações de processos sigilosos por meio de consultas
registradas nos logins funcionais de servidores do MPF (Ministério Público
Federal), segundo a Polícia Federal. Em um dos episódios descritos pelos
investigadores, um documento atribuído ao órgão foi usado para obter
informações sobre quem havia contratado um helicóptero que teria sobrevoado a
casa do ex-banqueiro na Bahia.
As informações constam de relatório da PF
enviado ao STF (Supremo Tribunal Federal). Mensagens reproduzidas no documento
mostram que Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário e
identificado como Felipe Mourão nas conversas, encaminhava a Vorcaro resultados
de consultas a sistemas internos.
De acordo com as investigações, Sicário
integrava o núcleo conhecido como A Turma, suposta milícia que que servia para
monitorar e intimidar pessoas consideradas adversárias ou ligadas às apurações
sobre o banco. Mourão se enforcou na cela da Superintendência da PF de Minas
Gerais em 4 de março, logo após ser preso durante operação, e teve a morte
confirmada dois dias depois.
A PF relata que Sicário recebia R$ 1 milhão
por mês pelo trabalho, que incluia acesso de informações sigilosas, coação e
fabricação de dossiês.
Segundo a investigação, Mourão oferecia a
Vorcaro a possibilidade de pesquisar pessoas e empresas e compartilhava
documentos relativos a investigações, inclusive procedimentos protegidos por
sigilo.
Em junho de 2024, ele enviou uma lista com
nomes de pessoas e empresas e afirmou que Vorcaro poderia acrescentar outros
“pra puxar os sigilosos”, mostram mensagens que constam do relatório da PF. Em
outra conversa, perguntou quais documentos o então banqueiro desejava receber.
“Todos, obviamente”, respondeu Vorcaro.
No dia seguinte, Mourão disse que poderia
buscar outras informações porque estava com “acesso total e ilimitado” aos
sistemas do MPF, mas afirmou não saber até quando as consultas estariam
disponíveis.]Parte dos documentos encaminhados estava registrada no login
funcional de uma servidora do MPF. O relatório aponta a utilização recorrente
dessa conta em consultas a processos, inclusive sigilosos.
A PF também identificou uma busca feita em 23
de julho de 2024 com o CPF de Vorcaro. A consulta localizou 15 procedimentos
relacionados ao ex-banqueiro, dos quais 11 eram sigilosos, e estava registrada
no login funcional de outro servidor.
Os investigadores afirmam que ainda é
necessário esclarecer se as consultas foram realizadas pelos próprios
servidores, se as credenciais foram cedidas ou se os acessos ocorreram sem o
conhecimento deles. O relatório não atribui participação consciente aos
titulares das contas. No caso de um deles, o relatório levanta suspeita de
tentativa de ocultar a identidade do servidor e diz que chamou a atenção o fato
de o nome do responsável pela consulta aparecer apenas na segunda página do
documento.
Segundo o relatório, em julho de 2025 Mourão
teria compartilhado nova consulta feita nos sistemas do MPF utilizando as
palavras “BRB AND MASTER”. De acordo com a investigação, Vorcaro responde de
imediato: “Quero tudo. Atenção total”. Em seguida, Mourão responde: “Sim! Então
vou mandar puxar geral. Ok”.
O episódio do helicóptero ocorreu em janeiro
de 2025. No dia 13 daquele mês, Vorcaro enviou a Mourão uma imagem da aeronave
e afirmou que ela havia sobrevoado sua casa na Bahia durante 40 minutos na
sexta-feira anterior, dia 10.
“Fazendo todo perímetro”, escreveu o
banqueiro, que disse pretender apresentar uma queixa formal à polícia.
Mourão respondeu que seria necessário
descobrir quem havia alugado o helicóptero e quem estava a bordo, segundo a
investigação. “E pedir para a turma ir em cima”, acrescentou.
Às 14h41 do mesmo dia, Mourão encaminhou um
arquivo e escreveu: “Ofício está pronto para encaminhar mediante sua
autorização”.
Com brasão e identificação do MPF, o
documento era classificado como “URGENTE/SIGILOSO” e dirigido a uma empresa de
serviços aéreos.
O pedido abrangia a identificação do
contratante, os itinerários, os horários de decolagem e pouso e a lista de
passageiros, se disponível. Solicitava ainda que o contratante não fosse
informado, sob a justificativa de que o sigilo seria necessário ao êxito das
investigações.
O documento não tinha assinatura digital nem
manuscrita. Para a PF, a ausência causa estranheza, especialmente porque o
ofício estava classificado como urgente e sigiloso.
Em 16 de janeiro, Mourão encaminhou a Vorcaro
uma resposta atribuída à empresa de serviços aéreos. O texto citava o número do
ofício e informava que a requisição havia sido recebida no dia 14.
A empresa descrevia um primeiro voo destinado
à verificação de equipamentos, sem passageiros, e informava o contratante e os
itinerários de outro voo. Depois de encaminhar a resposta, Mourão perguntou a
Vorcaro se seria necessário consultar os nomes dos passageiros.
Para a PF, a resposta da empresa indica que o
ofício chegou a ser enviado. As páginas analisadas, porém, não apresentam
confirmação do MPF sobre a autenticidade da requisição nem mostram autorização
expressa de Vorcaro para que Mourão a encaminhasse.
Na conclusão do relatório, a PF afirma que o
grupo ligado ao ex-banqueiro acessava de forma recorrente e irregular
procedimentos sigilosos em andamento no MPF e em outros órgãos. Segundo os
investigadores, as informações eram obtidas por meio de logins funcionais de
terceiros, extração de documentos e consultas não autorizadas a sistemas
internos.
A publicação dos documentos foi determinada
por pelo ministro André Mendonça a pedido de Edson Fachin, presidente do STF,
em meio à grave crise institucional na Corte. Mendonça retirou o sigilo de 14
procedimentos, além do principal, que deu origem aos demais.
Fonte: ICL Notícias

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