A universidade pune quem pensa devagar
Uma universidade pode premiar a publicação de
um pensamento e punir o tempo necessário para pensá-lo. A contradição começa
quando a pesquisa ainda não terminou, mas o período de avaliação já está
fechando. Há documentos por confrontar, uma hipótese que deixou de convencer,
resultados que exigem nova interpretação. O trabalho avançou justamente porque
encontrou dificuldades que antes não conseguia formular. No formulário,
entretanto, esse avanço pode aparecer como ausência. Falta o produto que o
tornaria reconhecível. O pesquisador precisa então decidir se acompanha o
movimento de seu objeto ou antecipa uma conclusão para atender ao calendário.
Nesse intervalo, aparentemente pequeno, instala-se uma questão política: quem
tem autoridade para determinar quanto tempo o conhecimento pode levar? A
resposta decide o destino de pesquisas, orientações e trajetórias. Também
decide quais perguntas chegarão a existir dentro da instituição que deveria
acolhê-las.
Pensar devagar não significa possuir uma
inteligência lenta. Significa admitir que a velocidade de uma investigação deve
responder às dificuldades que ela encontra. Há descobertas rápidas e textos
longamente preparados que nada acrescentam. A demora não concede certificado de
qualidade a ninguém. O que precisa ser protegido é a possibilidade de trabalhar
no ritmo exigido pelo problema em cada investigação, incluindo o direito de
descobrir que o caminho escolhido estava errado. Uma ciência incapaz de reconhecer
esse trabalho recompensa a segurança retrospectiva: depois de encontrar, o
pesquisador escreve como se sempre tivesse sabido aonde chegaria. O projeto
apresenta uma trajetória sem acidentes; o relatório confirma sua execução; o
currículo registra o resultado. Entre esses documentos pode desaparecer
precisamente aquilo que fez da atividade uma pesquisa: a resistência do mundo
ao que se pretendia dizer sobre ele.
Não é preciso imaginar uma ordem
administrativa mandando alguém deixar de pensar. O governo do tempo acadêmico
pode operar por procedimentos ordinários, aprovados em colegiados e
apresentados como necessários à continuidade de um programa. Uma janela de avaliação
delimita o que será considerado; um requisito define a produção esperada; o
resultado condiciona a possibilidade de continuar orientando. A punição, nesse
caso, precisa ser entendida em seu sentido institucional: perda ou restrição de
condições para exercer o trabalho. Nem toda cobrança produz esse efeito, e
nenhuma regra, isoladamente, demonstra a extensão nacional do problema. Mas a
passagem entre avaliação e acesso às condições de pesquisa pode ser
documentada. É por ela que devemos começar, antes de atribuir intenções a
gestores ou transformar uma experiência individual em retrato de toda a
universidade brasileira.
A Norma Complementar 001/2019 do Programa de
Pós-Graduação em Educação da UFSCar, aprovada pelo colegiado em dezembro de
2019 e pela comissão de pós-graduação em junho de 2020, oferece um registro
dessa passagem. O artigo 6º vincula os quatro anos do credenciamento ao
relatório quadrienal da Capes. O artigo 13 inclui produção qualificada entre os
requisitos de recredenciamento. Nos artigos 20 e 21, o descumprimento das
exigências pode levar ao descredenciamento, após apreciação colegiada, com
impedimento de abrir vagas e oferecer disciplinas, preservada a conclusão das
orientações em andamento. A norma também considera pesquisa, ensino e
participação administrativa, além de admitir carta de aceite como publicação.
Trata-se de um documento daquele período, não de uma afirmação sobre a regra
atualmente vigente. Seu interesse é mostrar que a produção registrada pode
participar da decisão sobre quem continuará dispondo de determinadas condições
de trabalho (UFSCar, 2019/2020, arts. 6º, 13, 20 e 21).
Esse vínculo não prova que um professor
determinado tenha sido penalizado por realizar uma pesquisa difícil. Para
chegar a essa conclusão seriam necessários o processo de avaliação, o parecer,
a trajetória da investigação e as condições oferecidas para desenvolvê-la. A
distinção importa porque a crítica perde força quando atribui ao documento
aquilo que ele não contém. O que se pode formular, a partir dessa organização,
é um problema a investigar: como o pesquisador escolhe seus projetos quando
sabe que sua permanência dependerá de resultados reconhecíveis dentro de um
intervalo? A regra não precisa mencionar os temas. Basta que altere os riscos
de escolhê-los. Uma investigação cujo resultado é incerto pode tornar-se
profissionalmente mais perigosa do que outra capaz de alimentar, com
regularidade, o registro da produção. O controle alcança a pergunta antes de
alcançar a resposta.
O livro ajuda a perceber essa diferença. Há
obras cuja contribuição depende de uma arquitetura que só se torna inteligível
quando suas partes se encontram. Um capítulo desloca o anterior, uma
documentação tardia obriga a refazer o início, a conclusão modifica o problema
de partida. Publicar resultados parciais pode enriquecer esse processo,
submetendo-os ao debate. Também pode fragmentá-lo quando cada parte precisa
justificar sua existência como unidade autônoma de desempenho. Não é o número
de capítulos ou artigos que decide a questão. É a relação entre a forma da
publicação e a necessidade da investigação. Se a divisão acompanha descobertas
efetivas, ela faz o conhecimento circular. Se antecipa artificialmente
conclusões para multiplicar registros, a forma de reconhecimento começa a
comandar a forma do pensamento. O livro aparece como conjunto de produtos antes
de conseguir existir como obra.
A objeção mais séria precisa entrar aqui, sem
caricatura. Uma universidade pública tem de prestar contas. Recursos, bolsas,
laboratórios e jornadas de trabalho não podem ficar protegidos por uma
declaração indefinida de que algo importante está amadurecendo. A invocação da
complexidade pode encobrir negligência; o prestígio de um professor pode
transformar tolerância institucional em privilégio. Há estudantes que esperam
respostas de orientadores ausentes e equipes sobrecarregadas pelo trabalho que
outros deixam de realizar. Defender o tempo da pesquisa exige enfrentar essas
situações, inclusive quando envolvem colegas próximos. A pergunta não é se
devemos avaliar, mas como distinguir trabalho difícil, impedimento material e
abandono de responsabilidade. Uma contagem pode indicar que há algo a examinar.
Ela se torna insuficiente quando pretende resolver sozinha o exame, dispensando
a leitura do que foi feito e das condições em que se trabalhou.
Uma avaliação substantiva precisaria
reconhecer o percurso. Que fontes foram reunidas? Qual hipótese foi abandonada,
por que razão e com quais consequências? Que dificuldade técnica permanece? O
que os estudantes aprenderam, quais materiais ficaram disponíveis, que
colaboração tornou a investigação possível? Essas perguntas não dispensam
prazos nem resultados; tornam mais exigente sua apreciação. Permitem cobrar de
quem se omite e sustentar quem enfrenta um problema real. Exigem, porém, tempo
dos próprios avaliadores. Ler um projeto, acompanhar suas alterações e
confrontar relatórios demanda trabalho que a instituição precisa reconhecer.
Caso contrário, pede-se avaliação qualitativa a pessoas pressionadas a concluir
rapidamente dezenas de pareceres. O indicador reaparece como atalho. A
universidade declara que deseja julgar o conteúdo, mas organiza o julgamento de
tal modo que conhecer esse conteúdo se torna uma dificuldade adicional.
A crítica de Maurício Tragtenberg à
delinquência acadêmica permanece fecunda justamente por deslocar a atenção para
a relação entre saber, poder e finalidade social. Na leitura de Fabiana de
Cássia Rodrigues, a separação entre meios e fins ocupa posição central nessa
crítica: ensino e produção de conhecimento podem continuar funcionando sem
interrogar radicalmente para quem e para quê funcionam (RODRIGUES, 2022). Isso
nos permite formular uma pergunta incômoda para o presente: o que acontece
quando uma instituição demonstra eficiência em procedimentos cujo sentido já
não consegue discutir? A delinquência acadêmica não deve virar insulto de
ocasião contra um dirigente, nem explicação universal para qualquer decisão da
qual discordamos. Seu alcance crítico depende de reconstruir relações e
consequências. Uma palavra dura sem demonstração apenas substitui o exame pela
indignação. O problema exige mais: descobrir como o cumprimento regular das
obrigações pode conviver com o abandono das finalidades que deveriam orientá-las.
Essa possibilidade alcança a própria
comunidade científica. Seria cômodo atribuir tudo a uma burocracia exterior,
como se os pesquisadores permanecessem intactos diante das regras que aplicam.
Participamos de comissões, classificamos trabalhos, aconselhamos estudantes,
disputamos recursos e redigimos pareceres. Podemos criticar a produtividade
abstrata numa conferência e, na reunião seguinte, perguntar quantos artigos um
colega publicou antes de perguntar o que investigou. A contradição não
desaparece pela sinceridade de nossas convicções. Ela entra nos critérios
práticos pelos quais reconhecemos competência. A autocrítica começa quando
examinamos esses critérios em nossos próprios atos. Quem defende a liberdade
intelectual precisa responder pelo tempo que concede aos outros, pela abertura
que oferece à divergência e pelo cuidado com que distingue um trabalho
inconcluso de um trabalho inexistente. O poder acadêmico também se exerce
naquilo que aprendemos a não ler.
Os gestores ocupam uma posição específica
nessa trama. Precisam responder a exigências externas, distribuir recursos
escassos e preservar condições de funcionamento. Essas responsabilidades são
reais; não autorizam, entretanto, a tratar toda escolha interna como execução
inevitável de uma ordem superior. Entre a agência e o professor existem
regulamentos, comissões, interpretações e decisões colegiadas. Nesse percurso
podem ser criadas salvaguardas, reconhecidas circunstâncias e negociadas
mudanças. Também podem ser endurecidas exigências, eliminadas exceções
fundamentadas e convertidas recomendações em barreiras automáticas. A análise
institucional deve localizar cada uma dessas operações. A explicação pela
pressão externa fica incompleta quando deixa de perguntar por que determinados
agentes aderem ao critério, que segurança encontram nele e quais alternativas
recusam. A necessidade de defender o programa pode tornar atraente uma
conformidade que transfere ao pesquisador os custos da própria defesa.
Há ainda uma desigualdade dentro do tempo
disponível. Dois professores podem ter jornadas formalmente equivalentes e
condições profundamente distintas para pesquisar. Preparar uma disciplina nova,
responder pela manutenção de um laboratório, acompanhar estudantes em
dificuldades e assumir tarefas administrativas ocupa horas concretas. Fora da
instituição, cuidado familiar, deslocamentos e condições de saúde também
participam da duração possível do trabalho. Não se trata de deduzir o
desempenho de uma identidade ou de presumir a trajetória de cada pessoa.
Trata-se de exigir que a comparação conheça aquilo que compara. Quando
condições desiguais desaparecem da avaliação, o resultado pode apresentar como
mérito individual uma vantagem de infraestrutura e como insuficiência pessoal
uma sobrecarga institucional. A justiça exige tornar visível a distribuição do
trabalho necessário à universidade, inclusive daquele que oferece a outros a
tranquilidade para produzir.
O estudante conhece essa disputa por outra
entrada. Uma bolsa permite organizar a vida por determinado período; o prazo de
defesa estabelece um horizonte; o projeto dá forma a uma expectativa. Tudo isso
é necessário. Mas basta que uma condição material falhe para que o calendário
deixe de ser simples instrumento de organização. Um equipamento indisponível, o
acesso interrompido ao campo ou a demora de uma autorização pode consumir meses
sem que a dificuldade decorra de desinteresse. Numa situação assim, encurtar a
pergunta talvez seja a única maneira de concluir. Isso pode ser feito com
rigor, desde que a instituição reconheça a alteração e seu motivo. O problema
aparece quando o atraso institucional é devolvido ao estudante como
incapacidade individual. A universidade preserva sua aparência de regularidade
e entrega à pessoa o peso de explicar por que não conseguiu trabalhar nas
condições que lhe faltaram.
A espera adquire, então, uma dimensão
política. Ela não é apenas o estado de quem ainda não recebeu alguma coisa. É
uma relação entre quem pode decidir e quem precisa suspender sua atividade até
que a decisão aconteça. Um processo pode permanecer parado enquanto a bolsa
continua correndo; a compra pode não chegar enquanto o prazo permanece intacto.
Nesses casos, diferentes instâncias controlam partes de uma duração que só o
pesquisador precisa recompor como totalidade. A análise deve perguntar onde o
tempo ficou retido, por qual procedimento e com qual possibilidade de recurso.
Também deve reconhecer que algumas esperas protegem direitos e qualidade:
avaliação ética e fiscalização não são obstáculos descartáveis. O que precisa
ser combatido é a irresponsabilidade temporal que cobra pontualidade de quem
não dispõe dos meios para determinar quando poderá começar.
Chamo de controle do tempo histórico a
capacidade socialmente desigual de decidir quais atividades terão continuidade
e quais deverão se ajustar à duração imposta por outros. Essa formulação não
pretende transformar qualquer atraso em dependência nem substituir a
investigação das relações econômicas por uma metáfora do relógio. Seu valor
depende de identificar agentes, instrumentos e efeitos. No caso universitário,
a pergunta é precisa: quem pode assegurar a duração de uma pesquisa e quem pode
interrompê-la, abreviá-la ou condicionar sua continuidade? O controle pode
passar por financiamento, vínculo de trabalho e critérios de reconhecimento.
Para que a categoria acrescente explicação, é necessário demonstrar como essas
mediações modificam o futuro praticável da instituição. Não basta que o tempo
passe depressa. É preciso que a capacidade de dispor dele esteja distribuída de
modo desigual e produza consequências que possamos reconstruir.
Essa perspectiva também exige cuidado ao
aproximar avaliação acadêmica e capital fictício. Um indicador de publicação
não é um título financeiro; um coordenador de programa não se converte em
agente do mercado de capitais porque cobra um relatório. A ligação, quando
existe, precisa atravessar as formas de financiamento do Estado, as prioridades
do fundo público, as restrições orçamentárias e sua tradução em decisões
universitárias. A semelhança entre calendários curtos não demonstra identidade
entre processos. O ponto de investigação é outro: em que condições a obrigação
de preservar compromissos financeiros restringe a capacidade pública de
sustentar atividades cujo retorno social não cabe no mesmo horizonte? Somente
depois dessa reconstrução poderemos mostrar como uma determinação econômica
alcança a duração da pesquisa. A crítica ganha densidade quando permite
verificar a mediação, em vez de fazer do conceito uma resposta anterior ao
documento.
Seria igualmente equivocado escrever como se
nada mudasse na avaliação. Em notícia de maio de 2025, reproduzida pela Agência
de Bibliotecas e Coleções Digitais da USP, a Capes anunciou para o ciclo
2025–2028 uma ampliação dos procedimentos de classificação da produção
intelectual. O foco passa aos artigos, com possibilidades de uso de indicadores
bibliométricos e análise qualitativa, conforme as escolhas das áreas. Entre os
procedimentos, permanece uma modalidade apoiada nos indicadores dos veículos;
outra combina informações do periódico e do artigo; uma terceira admite
apreciação qualitativa definida pela área (CAPES, 2025). Reconhecer essa
mudança é uma obrigação da crítica. Seu alcance dependerá da aplicação:
apreciar melhor um resultado não equivale, por si só, a assegurar as condições
para que resultados difíceis amadureçam. A pergunta sobre o conteúdo precisa
encontrar a pergunta sobre a duração que tornou esse conteúdo possível.
A Declaração de São Francisco sobre Avaliação
da Pesquisa, conhecida como DORA, oferece outro ponto de apoio. Suas
recomendações rejeitam o uso das métricas dos periódicos como substituto da
qualidade de trabalhos individuais e defendem a consideração de contribuições
diversas, inclusive para além dos artigos. Também dirigem responsabilidades às
instituições e aos próprios pesquisadores, não apenas às agências (DORA, 2012).
O debate, portanto, não precisa começar do zero. Há critérios públicos para
discutir os limites da avaliação por aproximações. Mas uma declaração só se
realiza quando altera decisões: seleção, progressão, financiamento e
reconhecimento do trabalho. A adesão simbólica não informa como um parecer foi
escrito, que material foi examinado ou por que uma trajetória foi interrompida.
O teste de uma mudança está no tratamento oferecido ao caso que antes seria
descartado sem leitura suficiente.
Uma política universitária capaz de proteger
o pensamento precisaria articular duração e responsabilidade. Projetos longos
poderiam ser acompanhados por etapas pertinentes ao objeto, sem que cada etapa
tivesse de simular uma descoberta publicável. Um acervo organizado, um
procedimento corrigido ou um resultado negativo bem demonstrado poderia receber
apreciação substantiva, com critérios explícitos. Impedimentos provocados pela
própria instituição precisariam entrar na decisão sobre os prazos. A carga de
ensino, orientação e administração deveria ser considerada na distribuição das
condições de pesquisa. Nada disso pode depender apenas da benevolência de um
coordenador: favores são revogáveis, direitos requerem procedimentos. O
objetivo é tornar possível exigir trabalho e, ao mesmo tempo, impedir que a
instituição destrua as condições do trabalho que exige. A autonomia se
materializa quando uma decisão coletiva consegue sustentar esse compromisso
para além da disposição ocasional de seus dirigentes.
Uma universidade precisa saber reconhecer o
momento em que continuar trabalhando é mais responsável do que anunciar um
resultado. Precisa também saber cobrar a entrega quando a demora se tornou
abandono. A dificuldade desse julgamento é parte de sua responsabilidade
pública; não pode ser transferida integralmente a uma planilha. Quando a medida
decide antecipadamente o que merece existir, a avaliação começa a selecionar as
perguntas que a instituição será capaz de fazer. O futuro acadêmico vai sendo
organizado por aquilo que consegue apresentar comprovante dentro do período,
enquanto o restante precisa justificar sua permanência. É aí que a autonomia se
decide: na possibilidade de sustentar uma investigação antes que ela disponha
do prestígio de seu resultado. A universidade que só reconhece o pensamento
depois de publicado pode terminar premiando uma obra que suas próprias regras
não teriam permitido escrever.
Fonte: Por João dos Reis Silva Júnior, em A
Terra é Redonda

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