"Eles pegaram um agiota e transformaram
em um banqueiro", diz Lula sobre Vorcaro
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva
comentou neste sábado (12/9) a divulgação das investigações sobre o Banco
Master. Durante comício na Boca Maldita, em Curitiba, o petista afirmou que é
preciso expor os responsáveis pelo caso e disse que quem cometeu
irregularidades deve ser desmascarado. “Vamos deixar nu para saber quem é que
está por detrás disso (...) quem fez putaria vai ser desmascarado”, afirmou.
Lula afirmou que "eles pegaram um agiota e transformaram em um
banqueiro", ao se referir a Daniel Vorcaro. O chefe do Executivo defendeu
a apuração rigorosa e a transparência total nas investigações sobre as
irregularidades apontadas no sistema bancário.
Lula também criticou a divulgação seletiva de
informações pelo relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF). Sem citar
nominalmente o ministro André Mendonça, responsável pela relatoria, o
presidente afirmou que um juiz não deveria divulgar apenas as informações que
lhe interessassem. “Não era possível o cidadão que é o juiz relator ficar
soltando matéria, pensando somente aquilo que interessava a ele”, disse.
As declarações ocorrem em meio à crise na
Corte provocada pela divulgação de informações relacionadas à ação que trata da
relação entre Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o ministro Alexandre de
Moraes. Diante do desgaste envolvendo o STF, o discurso da campanha petista
passou a defender mudanças no Judiciário e a adoção de um “padrão de
comportamento” para magistrados.
“Ninguém pode ser ministro da Suprema Corte
para ficar rico. Aquilo é um sacerdócio. A pessoa tem que se dedicar porque é a
Corte Suprema e, se tomar uma decisão, ninguém pode mudar. Então as pessoas têm
que ter um padrão de comportamento acima da média da sociedade”, afirmou Lula.
<><> Críticas a Bolsonaro
O presidente também tentou vincular a
trajetória de expansão do Banco Master ao governo do ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL). Segundo Lula, o banco foi criado e fortalecido durante a gestão
anterior, enquanto seu governo teria atuado para investigar e fechar a
instituição. “Em 2019 pegaram um agiota e o transformaram em banqueiro. Agora
tem esse Vorcaro que corrompeu muita gente. Eles criaram esse banqueiro e nós
prendemos. Eles criaram um banco e nós fechamos”, disse.
Lula afirmou ainda que as investigações sobre
o caso Master ocorreram durante seu governo. A fala segue a estratégia do
presidente de atribuir à gestão petista a reação às suspeitas envolvendo a
instituição financeira.
<><> "No meu mandato, ele
virou prisioneiro", diz Lula sobre Vorcaro
Durante um comício em Porto Alegre (RS), o
presidente Lula (PT) comentou sobre os recentes desdobramentos do caso Master,
nesta sexta-feira (11/9). Em discurso, o líder petista afirmou que o governo de
Jair Bolsonaro (PL) gerou as atividades criminosas do ex-banqueiro Daniel
Vorcaro e do que chamou de “a quadrilha do INSS”.
Um dia após o ministro do Supremo Tribunal
Federal (STF) Edson Fachin pedir a liberação dos sigilos de inquéritos do Banco
Master, Lula classificou o escândalo como “o maior golpe da história do país” e
acusou a direita de tentar associar o governo do Partido dos Trabalhadores ao
caso.
“Eles (o governo Bolsonaro) criaram um
banqueiro em 2019. Na época deles, o bandido virou banqueiro. No meu mandato,
ele virou prisioneiro”, declarou.
O presidente também destacou a atuação da
base governista na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS no
Congresso Nacional e as ações de reparação do governo.
“Nós pagamos R$ 3,5 bilhões a todos os 5
milhões de aposentados e pensionistas que foram roubados na previdência e já
tomamos mais de R$ 100 bilhões do patrimônio dos ladrões, que a gente vai
ressarcir à União com os bens que nós tomamos deles”, disse.
Ao longo do comício, Lula também abordou
temas como programas de educação, o combate à violência de gênero, o legado de
Leonel Brizola e a soberania nacional.
• Haddad
afirma ter recusado encontros com Vorcaro: "Tentou me cercar"
O ex-prefeito e candidato ao governo de São
Paulo, Fernando Haddad, declarou ter recusado repetidos pedidos de reunião com
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A declaração ocorreu em um vídeo de
campanha publicado nas redes sociais. Segundo Haddad, a equipe técnica
responsável preveniu sobre os riscos de contato com o empresário devido a
suspeitas em torno da instituição financeira.
"O Vorcaro tentou me cercar de várias
maneiras, por vários caminhos, e eu sempre me recusei a receber o dono do
Master", detalhou.
Haddad afirmou que priorizou o interesse
público ao evitar audiências com Vorcaro, ressaltando que nem todas as reuniões
permitidas são oportunas na vida pública. Além de defender as investigações e o
esclarecimento dos fatos pela Justiça, o candidato pediu a derrubada do sigilo
de todos os inquéritos relacionados ao Banco Master antes das eleições de 4 de
outubro, garantindo transparência ao eleitorado.
"Eu defendo que todos os inquéritos do
Master tenham o seu sigilo levantado. Não é justo o país ir para as urnas no
dia 4 de outubro sem saber o que cada um fez", completou.
¨
Quem está usando Karina
Gama? Por Joaquim de Carvalho
A denúncia feita pela produtora Karina
Ferreira da Gama de que estaria sofrendo pressões para fazer uma delação
premiada contra Flávio Bolsonaro acrescentou mais um capítulo político a uma
investigação que já envolve cifras milionárias, o filme Dark Horse e
suspeitas sobre a origem e o destino dos recursos utilizados no projeto.
Karina registrou em cartório uma declaração
na qual relata abordagens de três pessoas: o empresário Fernando Sarney, um
pastor evangélico e um jornalista. Segundo sua versão, os contatos teriam como
pano de fundo a possibilidade de que ela fizesse uma delação premiada. O
documento, porém, é uma declaração da própria produtora: registra formalmente
sua narrativa, mas não constitui, por si só, prova de que tenha ocorrido
coação.
Conheço uma parte dessa história por ter
conversado diretamente com um dos personagens mencionados por Karina: o pastor
citado por ela.
Meu contato com ele começou depois de um
encontro casual em um evento em Brasília, quando lhe passei meu telefone.
Alguns dias depois, ele me ligou. O assunto da conversa era justamente Karina.
O pastor disse estar preocupado com ela.
Contou que a conhecera em reuniões religiosas, num período em que a produtora
enfrentava dificuldades pessoais. Fez orações com ela e, a partir daí,
estabeleceu-se uma relação de amizade.
Desde nossa primeira conversa, o relato que
ouvi foi diferente da ideia de alguém empenhado em conduzi-la a uma delação. O
pastor dizia considerar interessante que Karina desse uma entrevista. E
argumentava justamente que uma delação não lhe parecia o melhor caminho, porque
não tinha segurança de que os agentes públicos envolvidos no caso atuariam com
a necessária independência.
Na visão dele, seria melhor que Karina
apresentasse publicamente sua versão dos fatos a um jornalista que considerasse
sério. Disse que me incluía nesse grupo.
Respondi que faria a entrevista.
Independentemente de qualquer avaliação sobre Karina ou sobre os demais
envolvidos, havia evidente interesse público em ouvir uma personagem central de
uma investigação dessa dimensão e permitir que ela respondesse às suspeitas
levantadas contra si.
Um dia depois, o pastor voltou a entrar em
contato. Disse que havia procurado Karina, mas encontrara resistência. Segundo
ele, ela considerava distorcida a cobertura da imprensa e sustentava que não
havia cometido irregularidades.
Foi então que me disse:
“Penso que ela ainda acredita que esse
pessoal do Flávio Bolsonaro vai protegê-la. Acredito que ela está iludida,
porque a corda arrebenta do lado mais fraco, e eu me preocupo com ela. Vou ser
sincero: eu gosto dela, acho que ela foi usada.”
É uma declaração importante para compreender
o contexto em que ocorreu aquela aproximação.
Na declaração registrada em cartório,
entretanto, o episódio ganhou outra dimensão. Karina afirmou que o pastor teria
mencionado proximidade com integrantes do governo e ministros do Supremo
Tribunal Federal. A imprensa noticiou o relato como parte da suposta pressão
para que ela fizesse uma delação.
Ao tomar conhecimento da interpretação de que
teria “entrada” no Supremo, o pastor reagiu com espanto:
“Que eu tenho entrada no Supremo, coitado de
mim… Que loucura.”
Essa divergência de versões precisa ser
investigada, naturalmente. Mas também exige que se faça uma distinção
elementar: uma ata ou declaração registrada em cartório documenta que
determinada pessoa fez determinada afirmação. Não transforma automaticamente
essa afirmação em fato comprovado.
O contexto é especialmente relevante porque
Karina não é uma personagem periférica do caso. Ela é dona da Go Up
Entertainment, responsável por Dark Horse, e preside o Instituto
Conhecer Brasil. Investigações da Polícia Federal examinam movimentações
financeiras relacionadas à produção e possíveis irregularidades envolvendo
recursos públicos. Karina e sua defesa sustentam a regularidade de sua atuação
e dizem colaborar com as autoridades.
Há, portanto, duas questões distintas que não
deveriam ser artificialmente misturadas.
A primeira é legítima e precisa ser apurada:
alguém efetivamente coagiu Karina Gama a produzir uma delação contra Flávio
Bolsonaro ou qualquer outro investigado? Se houve ameaça, promessa indevida de
proteção ou utilização do nome de autoridades para constrangê-la, os fatos
precisam ser esclarecidos e os responsáveis, identificados.
A segunda é saber se a narrativa de pressão
está sendo usada politicamente para deslocar o centro do debate.
Porque existe um risco evidente de inversão
de papéis: uma pessoa investigada por suspeitas graves passa a ocupar, de
repente, o lugar de vítima de uma grande conspiração, enquanto as questões
sobre movimentações financeiras, origem de recursos e relações entre os
envolvidos ficam em segundo plano.
Até a gênese da declaração cartorial merece
esclarecimento. Se, como sustentam pessoas que acompanharam os acontecimentos,
a iniciativa de produzir o documento não partiu espontaneamente de Karina, é
relevante saber quem sugeriu sua elaboração, com qual orientação e em que
circunstâncias. Sem essa comprovação, porém, não é possível afirmar como fato
que a ata tenha sido concebida por terceiros ou como parte de uma estratégia
política.
O mesmo cuidado vale para a atuação
institucional provocada pelo documento. O ministro André Mendonça, do Supremo
Tribunal Federal, tem sob sua relatoria uma das frentes relacionadas ao
financiamento de Dark Horse. Qualquer utilização da declaração de
Karina para fundamentar providências destinadas a investigar uma suposta
pressão sobre ela precisa ser examinada com rigor, justamente para que uma
alegação ainda não comprovada não adquira, pela simples intervenção do Estado,
aparência de verdade estabelecida.
O paradoxo do episódio é esse.
Karina pode, de fato, estar sendo usada. Mas
talvez não exatamente da maneira sugerida pela narrativa que agora circula.
Uma mulher que está sob investigação e tem
todo o direito de se defender pode também estar sendo transformada em
personagem de uma disputa política maior do que ela.
A extrema direita brasileira já demonstrou
habilidade para transformar investigações em narrativas de perseguição e para
deslocar o debate dos fatos investigados para supostos abusos dos
investigadores. Se a declaração de Karina estiver sendo empregada dessa
maneira, o resultado será produzir ruído suficiente para que o público deixe de
discutir a questão original – de onde veio o dinheiro e, principalmente, para
onde foi dinheiro que Flávio Bolsonaro pediu a Daniel Vorcaro.
Nesse cenário, o pior serviço que as
instituições poderiam prestar seria antecipar conclusões. Se uma declaração
unilateral passar a ser tratada como comprovação de uma trama antes que seus
personagens sejam ouvidos e as conversas sejam confrontadas com evidências, o
Estado terá ajudado a produzir exatamente a inversão que deveria evitar:
transformar automaticamente uma investigada em vítima e uma alegação em fato.
Karina tem direito à presunção de inocência.
Tem direito de denunciar qualquer pressão que considere indevida. E tem direito
de contar sua versão.
Mas os brasileiros também têm direito de
saber quem sugeriu a ata, o que efetivamente foi dito nas conversas mencionadas
por ela e, sobretudo, o que aconteceu com o dinheiro que está no centro das
investigações.
É essa história — e não a narrativa mais
conveniente — que precisa ser esclarecida.
Fonte: Correio Braziliense/Brasil 247

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