quarta-feira, 16 de setembro de 2026

A rede do crime que agasalha Flávio Bolsonaro

O que Fabrício Queiroz, Adriano da Nóbrega, Frederick Wassef, Daniel Vorcaro, Mário Frias, Karina Gama e um contador preso na investigação das fraudes do INSS têm em comum?

Em momentos diferentes, todos entraram no raio de relações políticas, pessoais, profissionais, empresariais ou financeiras de Flávio Bolsonaro e de seu entorno. Alguns foram condenados. Outros, denunciados ou investigados. Há também empresários e operadores que aparecem em investigações ainda em andamento.

O que importa aqui não é uma relação isolada. É a recorrência. São mais de duas décadas em que personagens envolvidos com rachadinhas, milícias, lavagem de dinheiro, Banco Master, recursos públicos e, mais recentemente, fraudes contra aposentados aparecem, desaparecem e reaparecem ao redor da trajetória política de Flávio Bolsonaro.

Agora ele disputa a Presidência da República. E alguns personagens do passado voltaram à cena enquanto novos nomes entram no mapa. A questão, portanto, deixou de interessar apenas à biografia do candidato.

Interessa ao futuro do país.

<><> Queiroz nunca foi apenas Queiroz

Fabrício Queiroz é o personagem que melhor atravessa essa história. Amigo antigo de Jair Bolsonaro, ex-policial militar e assessor de Flávio, foi apontado pelo Ministério Público como operador financeiro do esquema das rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Em novembro de 2020, o MP denunciou Flávio, Queiroz e outras 15 pessoas por organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita. Segundo a acusação, servidores devolviam parte dos salários e Queiroz recolhia e movimentava o dinheiro.

Flávio não foi absolvido dessas acusações em julgamento de mérito. As principais provas foram anuladas por questões processuais, o que esvaziou a investigação.

Queiroz também não foi banido do círculo político de Flávio. Em 2024, recebeu seu apoio público ao disputar uma vaga de vereador em Saquarema. Em 2026, voltou a apoiar o amigo na campanha presidencial.

<><> De Adriano às 527 homenagens

Queiroz conduz diretamente a Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do Bope apontado pelo Ministério Público como liderança da milícia de Rio das Pedras e associado ao Escritório do Crime.

A relação com Flávio foi extensa. Queiroz apresentou Adriano a ele; Adriano deu-lhe instrução de tiro; recebeu de Flávio uma moção e teve posteriormente proposta pelo deputado a Medalha Tiradentes. Flávio e Jair Bolsonaro o visitaram na prisão. Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano, e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, sua então mulher, trabalharam no gabinete de Flávio. Segundo o MP, Danielle transferiu pelo menos R$ 150 mil para Queiroz, parte dos recursos passando por contas controladas por Adriano.

A sequência é reveladora: Queiroz Adriano familiares de Adriano gabinete de Flávio dinheiro Queiroz.

Adriano tampouco foi um caso solitário. Levantamento da revista Piauí encontrou 495 moções e 32 medalhas concedidas por Flávio a integrantes das forças de segurança durante seus quatro mandatos de deputado estadual: 527 homenagens. Ao menos 23 homenageados tornaram-se réus ou condenados por crimes que iam de homicídio a lavagem de dinheiro, organização criminosa e fraude em licitação.

Entre eles estão Ronald Paulo Alves Pereira, posteriormente apontado como liderança da milícia de Rio das Pedras e alvo da Operação Intocáveis, e Edson Alexandre Pinto de Góes, posteriormente condenado por lavagem e ocultação de bens.

Uma coincidência pode ser coincidência.

Vinte e três já formam um padrão que merece ser explicado.

<><> Wassef estava lá

Quando a investigação das rachadinhas apertou o cerco sobre Queiroz, outro personagem do círculo Bolsonaro entrou definitivamente na história: Frederick Wassef.

Foi numa propriedade utilizada por Wassef, em Atibaia, que Queiroz foi localizado e preso em junho de 2020. O advogado já atuava para Jair e Flávio Bolsonaro.

Passaram-se seis anos. Em julho de 2026, Wassef subiu ao palco no lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, em São Paulo.

O passado estava de volta à campanha.

<><> Do gabinete ao Banco Master

Se Queiroz, Adriano e Wassef formam o núcleo histórico, Banco Master e Dark Horse abriram uma dimensão financeira muito maior.

Flávio procurou Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, para captar recursos destinados à cinebiografia de Jair Bolsonaro. Documentos e mensagens reunidos pela Polícia Federal mostram negociações de aproximadamente US$ 24 milhões e remessas superiores a US$ 12 milhões, por meio de uma cadeia de operadores e empresas no Brasil e nos Estados Unidos.

A PF investiga suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros crimes. Dark Horse, porém, não termina em Vorcaro.

A investigação alcançou Mário Frias, roteirista e produtor-executivo do filme; Karina Gama, responsável pela Go Up Entertainment e dirigente de entidades que receberam recursos públicos; emendas parlamentares; intermediários financeiros; e empresas abastecidas por um contrato da Prefeitura de São Paulo que, depois de um aditivo, chegou a aproximadamente R$ 157 milhões.

Cerca de 5 mil páginas da investigação paulista tiveram o sigilo levantado em setembro. Elas revelaram uma extensa circulação de recursos entre o Instituto Conhecer Brasil, dirigido por Karina, empresas subcontratadas e outras entidades ligadas ao mesmo núcleo.

O caso do filme começava a revelar algo muito maior que um filme.

<><> As redes começam a se cruzar

Uma empresa contratada pelo ICB relaciona-se a um homem apontado pelo Ministério Público paulista como integrante do PCC. Outra empresa atingida pela investigação de Dark Horse, a Recovery Black, também aparece nas apurações sobre as fraudes do INSS.

A Polícia Federal procura reconstruir esses circuitos e determinar a origem e o destino dos recursos. O que já aparece documentalmente é uma sucessão de empresas, entidades, contratos públicos, emendas e transferências que convergem para o mesmo ambiente empresarial e político da produção de Dark Horse.

A conexão com o INSS chega ainda mais perto de Flávio. Alexandre Caetano dos Reis, contador de seu escritório de advocacia, foi preso na investigação das fraudes contra aposentados. A empresa contábil de Alexandre também atendia companhias relacionadas a Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. E Letícia Caetano, irmã de Alexandre, administra o escritório de Flávio.

Há ainda a Bravo Grafeno, empresa da qual Flávio foi sócio e que compartilhou endereço em Brasília com empresas relacionadas ao Careca do INSS.

O mapa continua crescendo.

<><> O problema não é uma fotografia. É o mapa

Queiroz poderia ser tratado como um caso. Adriano, como outro. Wassef, como um terceiro. O Banco Master poderia ser apresentado separadamente de Dark Horse. O contador preso no caso do INSS poderia ser considerado apenas mais uma coincidência.

É exatamente assim que essa história costuma aparecer: fragmentada.

Quando as peças são colocadas sobre a mesma mesa, surge outra imagem.

Queiroz operou o gabinete. Adriano foi homenageado e teve familiares empregados por Flávio. Outros policiais homenageados acabaram envolvidos em organizações criminosas e crimes graves. Queiroz foi preso numa propriedade usada por Wassef. Wassef reapareceu no lançamento da candidatura. Flávio procurou Vorcaro para financiar Dark Horse. O dinheiro atravessou operadores e empresas no Brasil e nos Estados Unidos. A produção se conecta a entidades abastecidas por recursos públicos. E o contador do escritório de Flávio foi preso na investigação do INSS.

Não estamos mais diante de uma fotografia.

Estamos diante de um mapa.

<><> Quem entra pela mesma porta?

E o mapa ganha outro significado quando Flávio Bolsonaro deixa de disputar apenas uma cadeira no Senado e passa a disputar a Presidência da República.

Um presidente não chega sozinho ao Palácio do Planalto. Chega acompanhado das relações de confiança que construiu, de seus operadores políticos, advogados, empresários, financiadores, assessores, familiares e aliados.

Flávio apresenta-se ao eleitorado prometendo segurança e combate ao crime. Ao mesmo tempo, Queiroz continua aliado, Wassef reapareceu no lançamento de sua candidatura e investigações envolvendo Dark Horse, Banco Master, recursos públicos e pessoas de seu entorno poderão continuar abertas quando o próximo presidente tomar posse, em 1º de janeiro de 2027.

Por isso, o passado de Flávio Bolsonaro não é apenas passado.

É também uma pista sobre as relações que poderão cercar o poder presidencial.

E deixa a pergunta que abre esta série: quem dessa rede está chegando com Flávio Bolsonaro às portas do Palácio do Planalto?

•        Dark Horse: Eduardo usa possível adulteração de provas pela polícia de Tarcísio para pedir anulação do caso

reação de Eduardo Bolsonaro à divulgação de documentos do caso Dark Horse vem sendo considerada reveladora por usuários das redes sociais: investigado pela Polícia Federal (PF), ele passou a defender a nulidade do caso com base em uma possível adulteração de provas que estavam sob responsabilidade da Polícia Civil de São Paulo, comandada pelo governo de Tarcísio de Freitas, aliado da família Bolsonaro.

“É TUDO NULO”, escreveu Eduardo nas redes sociais, na noite deste domingo (13), após o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), levantar o sigilo de documentos da investigação paulista e determinar o compartilhamento do material com a Polícia Federal.

“Preparem-se para mais baixaria. Após atropelar Mendonça, que preside o inquérito de Dark Horse, agora Dino atropela o TJSP e vai usar provas que podem ter sido fraudadas sem qualquer pudor”, afirmou.

<>< Entenda

Documentos divulgados pelo STF mostram que o Instituto de Criminalística de São Paulo recusou inicialmente 27 dispositivos apreendidos pela Polícia Civil na investigação: 13 pen-drives, nove notebooks e cinco celulares.

Embora os lacres numerados estivessem intactos, as embalagens apresentavam aberturas que permitiam acessar os equipamentos sem rompê-los.

Em um dos registros, a perícia apontou “vão suficiente para entrada de cabo de alimentação e transferência de dados”, o que tornava possível conectar aparelhos e acessar seu conteúdo antes do exame pericial.

Em outros casos, a abertura permitiria até retirar pen-drives das embalagens sem romper o lacre.

Os documentos não comprovam que houve adulteração dos dados. Mostram, porém, que a forma de acondicionamento não garantia a preservação integral dos equipamentos.

O material havia sido apreendido em 1º de junho e chegou à perícia nos dias seguintes. Após a recusa, os dispositivos voltaram à Polícia Civil, foram reacondicionados e receberam novos lacres antes de retornar ao Instituto de Criminalística.

<><> Eduardo usa falha da polícia de aliado contra investigação

É justamente essa vulnerabilidade que Eduardo agora usa para pedir a anulação do caso.

No tuíte, o filho de Bolsonaro afirma que Dino pretende utilizar “provas que podem ter sido fraudadas”. Mas, se houve qualquer manipulação dos equipamentos — algo que até agora não está comprovado —, a vulnerabilidade ocorreu enquanto o material estava sob responsabilidade dos órgãos de segurança de São Paulo.

A situação provocou ironias nas próprias respostas à publicação.

“Como que 17 dispositivos sob a custódia da Polícia da gestão Tarcísio de Freitas teve os lacres violados?”, escreveu um usuário da rede X.

Outro apontou a contradição: “Polícia Civil de SP = governador Tarcísio = aliados do Flávio Bolsonaro, seu irmão”.

Ao tentar atacar Dino e questionar a validade das provas, Eduardo acaba, portanto, lançando suspeitas sobre a forma como os equipamentos foram preservados pela polícia de um governo aliado e sinaliza, inclusive, uma possível antecipação de defesa caso o conteúdo dos equipamentos apreendidos o comprometa ainda mais nas investigações.

<><> Dino manda material para a PF

Ao retirar o sigilo do inquérito, Dino determinou à Secretaria da Segurança Pública de São Paulo que encaminhe à Polícia Federal todo o material bruto extraído dos aparelhos apreendidos pela Polícia Civil.

Também determinou o compartilhamento de outros documentos e informações financeiras reunidos na investigação paulista.

Dino conduz uma das frentes relacionadas ao Dark Horse, envolvendo suspeitas sobre o uso e possível desvio de recursos públicos ligados a empresas relacionadas à produção do filme.

Outra investigação, sob relatoria do ministro André Mendonça, apura o financiamento do Dark Horse e movimentações relacionadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

<><> Caso chegou a Eduardo Bolsonaro

A reação ocorre justamente quando documentos tornados públicos colocaram Eduardo diretamente no centro das apurações.

Ele e Flávio Bolsonaro estão entre os investigados no caso relacionado ao financiamento do filme.

Mensagem apreendida no celular de Vorcaro revelou ainda que os dois irmãos pediram uma reunião com o então banqueiro para tratar do Dark Horse em 18 de março de 2025, no mesmo dia em que Eduardo anunciou que permaneceria nos Estados Unidos.

O relatório não afirma que a reunião tenha ocorrido, e Eduardo diz nunca ter se encontrado ou conversado com Vorcaro.

A Polícia Federal também apura a destinação dos recursos enviados aos Estados Unidos para financiar a produção e se parte do dinheiro pode ter relação com despesas de Eduardo no exterior. Ele nega essa hipótese.

É nesse cenário que o filho de Bolsonaro passou a pedir a nulidade do caso com base justamente em uma falha ocorrida na preservação de provas pela Polícia Civil do governo Tarcísio.

Até o momento, não há comprovação de adulteração. Mas a tentativa de Eduardo de usar essa possibilidade como saída para a investigação acaba colocando sob suspeita a atuação da polícia comandada por um dos principais aliados políticos do bolsonarismo.

 

Fonte: Por Benedito Tadeu César, em Brasil 247/Fórum

 

Nenhum comentário: