Memórias do Jornalismo: A ditadura arreganha
os dentes
Em 1968 a resistência à ditadura se ampliava,
com as primeiras ações armadas da guerrilha urbana, e a repressão endurecia.
Financiada pelo empresariado, a OBAN, Operação Bandeirantes, já prendia e
torturava. Em outubro foram presos cerca de 800 estudantes durante um congresso
da União Nacional de Estudantes, UNE, que se pretendia clandestino, na
cidadezinha de Ibiúna, vizinha a São Paulo. Que clandestinidade era essa quando
acontecia a compra de milhares de pães nas padarias da vizinhança? Foram presos
inclusive o dirigente da UNE, Luís Travassos, que era da Ação Popular, e
Vladimir Palmeira, seu opositor, da juventude do PCB.
Em 13 de dezembro o general ditador Costa e
Silva decretou o Ato Institucional no. 5, o Ato 5, alegando enfrentar uma
guerra revolucionária. Era a medida mais violenta, que suprimia todos os
direitos do cidadão, como o habeas corpus e o prazo legal para prisão
preventiva, de modo que uma pessoa podia ficar presa por tempo indeterminado
sem processo legal. Porta aberta para a tortura e assassinatos de opositores, o
que aconteceu em escala crescente, como todos sabem.
A Ação Popular tinha uma célula de
jornalistas por um tempo dirigida por mim, umas cinco pessoas, da Folha
de S. Paulo e da Editora Abril. Em algum momento de
1969, a coordenação da célula foi transferida para um militante não jornalista,
que havia vindo foragido de Pernambuco.
Por que a direção fez essa indicação de
alguém que não tinha qualquer vivência do setor? Ele foi preso (ou era um
infiltrado?) e entregou à polícia todos os nossos nomes. Sergio de Sousa,
Narciso Kalili, Ruy Barbosa e não lembro se houve outros, foram chamados ao
Dops. Tiveram que contar tudo que faziam, militância inclusive, fichados e
liberados com ameaças de que na próxima vez ia ser pior. Ainda tenho um
exemplar da ficha de Narciso Kalili no Dops.
Fui chamado também, mas não compareci. Disse
que não ia. O militar que estava na investigação me mandou dizer por meio de
Ruy Barbosa que na próxima vez iria me buscar com uma metralhadora. Sabendo
isso, o colega José Hamilton Ribeiro me mandou um chiste: “Se entrega Corisco;
eu não me entrego não!”
A partir daí foi expedida uma ordem de prisão
contra mim que nunca se cumpriu, felizmente. Ainda tenho comigo o documento
divulgado pelo Dops. Estava na clandestinidade, com documentos falsos de
péssima qualidade. Mas nunca fui abordado por policiais. Em geral eu procuro
ter uma postura discreta que não provoca suspeitas.
Em meados de 1968 minha companheira me diz
que está grávida. Estava me envolvendo cada vez mais com a militância política
e não planejava ampliar a família. Discutimos e decidimos fazer um aborto.
Fomos a um hospital e acertamos com um médico.
Lembro bem. Ele estava com uma seringa na mão
com o remédio para a anestesia. Notei um desconforto de Maria Lucia. Perguntei:
o que é? Respondeu: “queria ficar…” Olhei para ela, estava de olhos baixos,
humilde. Eu disse: “tá bom, então vamos ficar!” O médico riu, disse que não
havia nada a pagar. Comentou: “é preciso ocupar a Amazônia!” No dia 21 de março
de 1969 iria nascer a muito amada Ana!
Como minha função era fazer o Libertação,
fui poupado de ir para uma fábrica, o que, aliás, eu não seria capaz de
assumir, mas em 1969 tive que ir morar em Osasco, na Vila São José, um bairro
dormitório operário. Levei a família, a companheira Maria Lucia e os três
filhos, Rogério (14 anos), Luciano (4) e Ana, recém-nascida. Para morar numa
casa de fundos de quintal, sem poder fazer contato com os moradores locais. A
ideia é que a gente se tornasse revolucionário morando na pobreza. Para mim a
única utilidade foi ficar escondido da ação repressiva.
Estávamos vivendo na pobreza, apenas com o
necessário para sobreviver, inclusive com a ajuda de minha mãe e da mãe de
Maria Lucia, a bondosa Julia de Morais Carmo e de sua generosa cunhada, Maria
José da Silva Carmo. Andávamos de ônibus para ir até a Lapa e dali para outras
partes da cidade. Uma ocasião fui me encontrar com algum companheiro. Estava só
com o dinheiro da passagem do ônibus para ir até à Lapa. Eu lembrava que ia
precisar pedir dinheiro para o companheiro para poder voltar para casa.
Na hora de voltar me dei conta de que havia
esquecido de pedir dinheiro da passagem para o companheiro. Aflição. Anoitecia.
Resolvi sair procurando moedas pelas ruas em torno do Mercado da Lapa.
Inacreditável! Num tempo entre meia hora e quarenta minutos fui achando moedas
pelo meio fio, misturadas com papéis e lixo. Mas não consegui juntar dinheiro
suficiente. A passagem custava algo como, por exemplo, 2 cruzeiros. Tinha
reunido 1,80. Decidi subir no ônibus mesmo assim. Disse ao cobrador que não
tinha dinheiro suficiente. Respondeu: “passa na catraca! Outro dia você me
paga!” Foi generoso. Mas acho que também valeu eu ser um cara sério, com jeito
de trabalhador, de 30 anos, branco… No mais, eu andava muito a pé. Basta dizer
que gastava a sola de dois pares de sapatos Vulcabrás por ano!
Nesse período, o jornalista Raimundo
Rodrigues Pereira, sua notável companheira, a socióloga Sizue Imanishi e as
quatro filhas de nomes bíblicos, Ana, Lia, Ruth e Raquel, moravam no Alto da
Lapa. Com uma certa frequência eu ia visitá-lo para trocar ideias e, às vezes,
almoçar. Ele estava deixando a revista Veja. Insatisfeito,
procurava reunir outros jornalistas discutindo o projeto de um jornal.
Participei de uma ou outra dessas reuniões. Infelizmente não lembro o nome dos
outros, exceto de seu colega da USP, o arquiteto Antônio Carlos Ferreira, o
Tonico, e sua namorada, futura esposa, Teia Magalhães, e Arlindo Mungioli. Ali
germinava a ideia do jornal Opinião.
A repressão estava se abatendo duramente
contra militantes de AP em Pernambuco. Fui mandado para Recife a fim de
levantar informações e fazer um Libertação especial
denunciando esses crimes da ditadura. Viajei por 48 horas num ônibus precário
que partiu do bairro do Brás em São Paulo. Em um sinal de nosso voluntarismo
fui quase sem dinheiro. Tinha encontro marcado com um companheiro em Recife
que, eu supunha, tivesse meios para me sustentar. Eu só tive dinheiro para me
hospedar por uma noite num hotel humilde na rua do Sol. E para comer um Agulha, um
peixinho frito com um pão, numa barraca.
No dia seguinte fui ao ponto e me encontrei
com um estudante. Era Luciano Siqueira, que se tornou dirigente do PCdoB, foi
deputado e vice-prefeito por diversas gestões. Na época era um rapaz simpático
e solidário. Entretanto, disse que o dinheiro era pouco, mas ia se virar para
me sustentar enquanto eu preparava o jornal.
O trabalho demorou duas semanas entre
levantar as informações e redigir o jornal, que depois foi impresso por
estudantes. Na maior pobreza, dormia cada dia em um local, seja nos fundos de
uma igreja, seja em velhas casas de bairro. Em poucos dias já me deslocava
sozinho, a pé ou de ônibus. Adorei a cidade e a relação com as pessoas do povo,
cordiais e divertidas.
Luciano e eu estávamos sempre juntos, criando
uma amizade que perdura até hoje. Comíamos pratos feitos –
arroz, feijão, um pedaço de carne ensopada e farinha de mandioca.
Um episódio inesperado. Estava andando pela
avenida principal, perto do Palácio do Governo. De repente, um taxi parou em
frente ao portão e dele desceu com pressa o jornalista Dirceu Brizola, meu
conhecido da revista Veja. Estava como eu levantando informações sobre as
torturas que, sob a editoria de Raimundo Rodrigues Pereira, a revista iria
publicar em seguida com grande repercussão. Não me viu e eu me encolhi, não
olhei para ele, fazendo como sempre faço quando não quero ser reconhecido.
Voltei para São Paulo de ônibus trazendo um
casal de militantes e sua filhinha que hospedei em casa por semanas enquanto a
organização lhe preparava destino. Pouca comida e logo a seguir Maria Lucia e
Ana pegaram rubéola e ficaram de cama. Após uma semana levei-as para a casa da
avó para se recuperarem em melhores condições.
Em seguida, um problema grave. Esquecendo as
orientações de não revelar o próprio endereço a ninguém, cometi um erro que
felizmente não teve graves consequências para mim e minha família. Algum tempo
antes havia levado até nossa casa o companheiro Marcos Arruda. Ele estava
integrado na produção, trabalhando como operário na Sofunge, uma
metalúrgica da Lapa. Por determinação da organização, não devia saber meu
endereço.
Marcos foi denunciado por algum dedo duro e
preso pela polícia política. Levado para o Dops sofreu bárbaras torturas por
semanas. A mãe de Marcos escreveu um livro contando essa história: “Esquecer?
Nunca mais” sobre o qual publiquei uma resenha no site da Fundação
Grabois em julho de 2025.
O relato dela: os militares recusavam a
visita por ser esse seu comportamento padrão, mas também e principalmente
porque não queriam revelar que Marcos havia sido tão cruelmente torturado que
esteve à beira da morte e inclusive recebeu extrema unção de um padre. Os
torturadores estavam frustrados porque o prisioneiro resistiu heroicamente a
todos os suplícios e jamais lhes deu qualquer informação que prejudicasse
outros combatentes da resistência à ditadura.
Marcos estava fisicamente destroçado após
seis horas no pau-de-arara, o que lhe custou a perda motora de um dos braços, a
total paralisia da perna direita, e mal conseguia abrir os olhos e falar. Mas
moralmente estava vitorioso sobre a crueldade bestial.
Temendo que Marcos dissesse onde eu morava, a
organização me mandou mudar imediatamente. Maria Lucia, sempre muito
competente, transportou a nossa mobília para um guarda-móveis e nos mudamos em
pouco mais de 24 horas para a casa da mãe dela, no Ipiranga. Depois eu soube
que teria sido desnecessário porque o heroico Marcos nada disse aos malditos
torturadores. Gratidão eterna!
Em agosto de 1969 o ditador general Costa e
Silva teve um derrame cerebral. Iria se iniciar ali uma luta interna agressiva
entre os generais de várias tendências que se digladiavam pelo poder. Ele
morreu em dezembro e o general gaúcho Garrastazu Medici foi o vencedor da
disputa, iniciando o período mais sangrento da ditadura.
Mudamos para a Vila Pauliceia, bairro
operário, na vizinhança da fábrica da Mercedes Benz, em São Bernardo do Campo.
Eu já vivia como clandestino.
No ano de 1970 recebi reforços para o setor
de Propaganda da AP. Dois jovens militantes, Bernardo Joffily e Jô Morais
vieram trabalhar comigo e aprender a escrever matérias. Fazíamos o Libertação.
E, sob a direção de Duarte Pereira, fizemos o histórico Livro Negro da
Ditadura, com denúncias das torturas e assassinatos. A capa era do
companheiro Elifas Andreato, uma caveira com quepe de general. Ficou famosa.
Alguns meses depois o meu amigo Raimundo
Rodrigues Pereira estava na direção da produção da monumental Realidade
Amazonia, e me convidou para escrever sobre os indígenas. Aceitei e
fui conversar com o Vlado Herzog, que era editor-chefe da revista Visão, e
também combinei fazer uma matéria para ele.
Para o improvável leitor pode parecer
estranho, mas mesmo vivendo como clandestino, eu arriscava viagens e outros
eventos em que atuava de surpresa sem condições de a repressão me alcançar.
Além do mais, não estava sendo ativamente procurado como os militantes da
guerrilha urbana.
Mais uma vez deixei Maria Lucia e as crianças
sozinhas e peguei um voo para Brasília. Ali contatei um funcionário da Funai,
que estava temeroso da repressão, mas me deu informações. Aluguei um taxi aéreo
(isso era possível, em que pese a ditadura ninguém pedia documentos), e
aterrisei no Parque Indígena do Xingu, no posto Diauarum, onde me encontrei com
o amigo indigenista Claudio Villas Boas.
Ele estava precisando levar um índio doente
ao setor de saúde do Posto Leonardo, e me fui junto, de bote a motor. Ali quem
comandava era seu irmão mais velho, Orlando Villas Boas. Este me deu uma bronca
por eu chegar no Parque sem autorização. Fiquei chateado, fui dormir sem
jantar. Peguei as informações para a matéria sobre a estrada que o governo
estava projetando fazer até o Xingu abrindo caminho para a invasão das terras
indígenas. E fiquei esperando passar o avião do Correio Aéreo Nacional, da FAB,
para voltar.
Hoje eu reconheço que Orlando tinha razão em
me criticar, porque a ditadura estava investigando sinais de guerrilha na
região, e desconfiava de todo mundo. Na manhã seguinte, Claudio, que havia
percebido que fiquei chateado com a bronca, me convidou para ir até a aldeia
dos iaulapitis, cujo cacique Canato era meu conhecido. Antes eu havia feito uma
reportagem para Realidade (Indinho brinca de índio, título
horroroso que Paulo Patarra inventou), contando como se preparava um guerreiro,
tendo como personagem seu filho Aritanã, que no futuro viria a ser um chefe
importante da tribo e defensor do Parque do Xingu.
Depois de citado na Realidade o
nome Aritanã, reduzido para Aritana ficou popular, Diversos meninos foram assim
batizados.
Por sugestão de Claudio a tribo fez uma
homenagem para mim, dançando e cantando. O cacique me deu uma linda panela de
barro em forma de tartaruga que eu tenho até hoje (2026).
Interrompemos a cerimônia ao ouvir o ronco do
avião do Correio Aéreo Nacional. Corri para embarcar. Naqueles sertões
embarcava quem precisasse. Ninguém pedia documento.
Voltei a São Paulo, estava tudo bem em nossa
casa humilde da Vila Pauliceia. Maria Lucia trabalhando fora. Rogerio estudando
para torneiro mecânico no Senai (ele se formou). Luciano, no primeiro ano do
primário. Aninha tinha dois anos. Ficava aos cuidados de uma vizinha. Eu a
surpreendi andando pelas ruas empoeiradas, com outras crianças, de sandalinha
havaiana e os pés sujos. Fiquei com um misto de carinho e sentimento de culpa,
abracei-a e a carreguei no colo para casa.
Fiz as matérias para as duas revistas. A
matéria de Realidade Amazonia teve o título A guerra
de quatro séculos, referindo-se ao etnocídio contra os povos indígenas.
Ganhei algum dinheiro e retornei para a
militância. Fui a um ponto de encontro para combinar com Bernardo e Jô Morais a
elaboração de um outro Libertação. Nós três habitualmente
também fazíamos reunião andando pelas ruas ou numa praça como aquela do jardim
em frente ao Museu do Ipiranga. Acho que pelo menos em uma ocasião nos reunimos
entre as sepulturas do cemitério da Quarta Parada. Não há lugar mais sossegado.
Com ordem de prisão emitida, não poderia
apresentar meus documentos caso fosse parado pela polícia. Precisava de outros
documentos. Conversei com companheiros do setor de documentação e eles foram
procurar documentos para mim e Maria Lucia. Com características semelhantes. No
nosso caso, brancos, trinta anos.
Sabe improvável leitor como obtinham esses
documentos? Iam à garage de uma linha de ônibus urbana e lá diziam: “Perdi meus
documentos, acho que foi num ônibus dessa linha”. Alguém mostrava um armário
cheio de documentos extraviados. “Procura aí, veja se acha o seu”. E ia fazer
outra coisa. O militante vasculhava o monte buscando as características
indicadas. Branco, 30 anos…
Para mim trouxeram uma certidão de nascimento
com o nome de Marcos João Rovaris, branco, mesma idade, nascido em Criciúma,
Santa Catarina. Para Maria Lucia uma certidão de branca, mesma idade, nome:
Maria Pedro. Não me lembro do local de nascimento. Mas, como não era procurada
nem tinha meu sobrenome (não éramos casados no papel), manteve sua própria
identidade, Maria Lúcia Morais Carmo.
Em seguida tirei uma Carteira de Trabalho com
o nome de Marcos João Rovaris.
(Sobre ele tenho um registro curioso: em
1983, já de volta à vida legal, eu estava trabalhando como repórter no programa
de TV Globo Rural (TV Globo). Viajando de avião de Porto Alegre para São Paulo,
houve uma escala em Santa Catarina quando foram oferecidos jornais dali aos
passageiros. Num jornal havia uma notícia que me causou surpresa. Dizia algo
assim: “Marcos João Rovaris, quadro do PMDB catarinense etc. etc., está sendo
processado por corrupção…” Pode uma coincidência dessa?)
Quando já estávamos morando em Campinas,
Maria Lucia apresentou-se em um cartório e, alegando que os filhos ainda não
tinham documentos e precisavam deles para ir à escola, conseguiu obter cópias
de certidão de nascimento para Luciano e Ana com o sobrenome Carmo Rovaris,
nascidos em Jardim, uma distante cidadezinha do Mato Grosso do Sul. Com esses
documentos os dois puderam ser matriculados no curso primário em Campinas.
Luciano teve de perder um ano já cursado com seu nome verdadeiro. E Ana foi à
escola pensando que seu sobrenome era mesmo Rovaris.
Fonte: Por Carlos Azevedo, em Outras Palavras

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