Tings Chak: 50 anos depois de Mao - um legado
que mudou o curso da história
A série
de televisão chinesa Perguntando à Vasta Terra começa com uma cena
em que um jovem Mao Tsé-Tung nada no rio Xiang, que está cheio devido às fortes
chuvas. Um pescador grita da margem para o nadador solitário: “Seu tolo, você
está pedindo para morrer! O rio está turbulento depois da tempestade — há barcos,
por que você está nadando?” Mao ri e responde: “Não importa o quão violenta a
água esteja. Quando você entende o temperamento dela, consegue lidar com ela.
Assim como você com sua pesca — onde a pesca é fácil, não há peixes. Onde nadar
é fácil, não há alegria.” Criada para comemorar o 130º aniversário do
nascimento de Mao, a série buscou mostrar
ao jovem público chinês “não uma estátua de bronze, mas um jovem da mesma idade
deles tentando entender as coisas”. Já no primeiro mês, recebeu uma nota de 8,8
no site Douban, enquanto discussões online relacionadas alcançaram
4,31 bilhões de visualizações, conquistando um público especialmente entre
pessoas nascidas muito tempo depois da morte de Mao. Nesses mesmos anos,
as Obras Selecionadas de Mao subiram para o primeiro
lugar na lista de empréstimos da biblioteca da Universidade de Tsinghua em 2019
e têm voltado repetidamente a
essa posição desde então; padrões semelhantes de
alta demanda surgiram em várias outras universidades de ponta. Há um fio
condutor que liga a imagem do jovem Mao estudando a correnteza enquanto nada no
rio aos jovens chineses que hoje estudam o Pensamento de Mao Tsé-Tung. Meio
século se passou desde a morte de Mao, em 9 de setembro de 1976. A maioria
desses leitores e espectadores nasceu décadas depois, após as reformas
econômicas que transformaram a China na chamada “fábrica do mundo”; alguns até
nasceram após sua entrada histórica na Organização Mundial do Comércio, em
2001. Eles não conseguem se lembrar da sociedade em que Mao viveu. Herdaram uma
China cuja modernização contínua repousa, em parte, sobre os alicerces
políticos, industriais e sociais criados durante as primeiras décadas da
construção socialista.
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A Revolução continua presente
Seria
incorreto dizer que Mao está de volta ou que foi ressuscitado, pois Mao sempre
permaneceu como um alicerce político da República Popular. Após sua morte, o
Partido Comunista da China (PCC) enfrentou uma questão cujos desdobramentos iam
muito além do julgamento de um único homem. Como poderia extrair as lições
necessárias dos erros da Revolução Cultural e, ao mesmo tempo, preservar a
revolução que unificou o país, derrotou a dominação imperialista e fundou a
Nova China? A histórica resolução de 1981
respondeu que “os méritos de Mao são primários e seus erros, secundários”. Ela
condenou a Revolução Cultural, distinguiu os erros de Mao do Pensamento de Mao
Tsé-Tung — entendido como a conquista teórica coletiva do Partido — e preservou
a Revolução Chinesa como a base a partir da qual o país poderia corrigir seu
rumo. Seu sucessor, Deng Xiaoping, expurgado duas vezes durante aquele período, afirmou claramente o
parâmetro político em sua entrevista de 1980 com Oriana Fallaci: “Não faremos
com o presidente Mao o que Khrushchev fez com Stalin.”
A
reforma e a abertura transformaram a China em uma escala que poucas sociedades
experimentaram. A maior ênfase política voltou-se para a modernização, o
desenvolvimento das forças produtivas e o aprendizado com o Norte Global,
enquanto Mao aparecia na vida pública sobretudo como o fundador da Nova China.
No entanto, o período revolucionário deixou mais do que uma imagem fundadora.
Ele criou instituições, expectativas sociais e formas de trabalho político que
continuaram a atuar na sociedade construída sobre elas. No início de sua
presidência, Xi Jinping deu a essa
continuidade uma formulação concisa: os períodos anteriores e posteriores à
reforma e à abertura não podem ser usados para se negarem mutuamente. A
resolução do Partido de 2021 reafirmou a avaliação de
1981, ao mesmo tempo em que deu maior peso ao período de Mao como o alicerce
político e institucional para tudo o que se seguiu. “A melhor maneira de
homenagear o camarada Mao Tsé-Tung”, disse Xi no 130º
aniversário do nascimento de Mao, “é continuar levando adiante a causa que ele
iniciou”. Essa mudança não se limitou às páginas dos documentos ou discursos do
Partido, mas também assumiu forma concreta em todo o país — em salas de reunião
e casas de aldeia restauradas, antigos campos de batalha e áreas-base
revolucionárias, clubes de trabalhadores, cemitérios de mártires e nas rotas
outrora percorridas pelo Exército Vermelho.
A China
conta agora com mais de 1.600 museus revolucionários e memoriais, que receberam mais de 2,8
bilhões de visitas entre 2018 e 2023. Crianças os visitam em grupos escolares,
membros do Partido em delegações organizadas e famílias durante feriados
nacionais. O programa das
Quatro Histórias incorporou
as histórias do Partido, da Nova China, da reforma e abertura e do
desenvolvimento socialista à educação em toda a sociedade. Planos nacionais
financiaram a proteção de locais revolucionários, e a produção cultural tem se
voltado repetidamente ao povo e a história por meio dos quais a revolução foi
feita. Esse imenso trabalho de memória é conscientemente organizado pelo Estado
socialista, em um esforço para incentivar o estudo da “história vermelha”,
estimular o “turismo vermelho” e construir a confiança nacional por meio da
“cultura vermelha”. Mas a memória não se transfere mecanicamente da instituição
para o visitante, nem da tela para o espectador, de cima para baixo. As
instituições estatais podem fornecer recursos, espaço público e continuidade à
cultura revolucionária, mas são os milhões de chineses que lhe conferem vida
social. Séries de televisão e filmes de grande sucesso recentes deixaram de
lado os retratos monumentais dos líderes revolucionários para se voltarem para
o processo de sua formação: como eles liam e discutiam, organizavam-se e
sofriam derrotas, e se transformavam por meio da luta.
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Da memória ao método
Como
sugerem as listas de empréstimos das universidades, além dos museus, telas e
memoriais, há um envolvimento renovado com os próprios textos de Mao. Em fóruns
online, jovens leitores frequentemente se referem a Mao como “Professor” de
quem ainda se pode aprender um método: como identificar as contradições dentro
de uma situação, distinguir sua aparência superficial de seu movimento
subjacente e situar a experiência individual no âmbito de forças sociais mais
amplas. A famosa declaração de Mao de 1930 — “Sem investigação, não há direito
de falar” — em Contra a Adoração de Livros, foi escrita contra aqueles
que tentavam comandar a realidade a partir da distância de fórmulas herdadas.
Investigação significava entrar na vida social, apreender sua textura e
permitir que as condições concretas testassem a teoria política. Em 2023, o
Comitê Central do PCC lançou uma campanha em todo o
Partido para promover a investigação e a pesquisa, no espírito da formulação de
Mao. Ela direcionou os quadros para algumas das contradições mais prementes da
China, desde a autossuficiência tecnológica e o risco financeiro até as disparidades
entre as áreas urbanas e rurais, o emprego, a educação, a saúde e a habitação.
Seu método de trabalho
para os quadros do partido era direto: sem aviso prévio, sem alerta antecipado,
sem briefings preparados e sem recepções elaboradas — ir até a base e ir
diretamente ao povo.
Esse
método atingiu sua maior escala recente durante a campanha para erradicar
a pobreza extrema, concretizada em 2020, às vésperas do centenário da fundação
do PCC. A investigação começou na porta das casas, em comunidades rurais por
todo o país. Na fase inicial, 800 mil quadros foram enviados a 128 mil aldeias
para compreender não apenas quem eram os pobres, mas também as condições
específicas que geravam a pobreza em cada família: doença ou deficiência, falta
de terra, isolamento geográfico, custos com educação e outras realidades
detalhadas que as estatísticas nacionais não conseguiam revelar. Estudar a
realidade, no entanto, foi apenas o começo; o objetivo sempre foi
transformá-la. Como parte da campanha de Alívio Direcionado da Pobreza, lançada
em 2014, 255 mil equipes de trabalho nas aldeias e mais de três milhões de
primeiros secretários e quadros foram enviados ao interior. Durante anos, eles
viveram e trabalharam entre famílias e comunidades rurais para traçar um
caminho de saída da pobreza. Até o final de 2020, os 98,99 milhões de pobres
rurais restantes na China, de acordo com o padrão nacional, haviam sido tirados
da pobreza extrema. Mais de 1.800 quadros morreram durante a campanha. Por trás
desses números nacionais estavam milhões de encontros, repetidos de família em
família, de aldeia em aldeia, de quadro em quadro.
A
campanha se baseou nas capacidades acumuladas ao longo de décadas de construção
socialista: a organização do Partido Comunista estendida até as aldeias, a
mobilização de diferentes setores da sociedade em direção a um objetivo comum,
as finanças públicas e os bancos estatais, o planejamento, as instituições
coletivas e a autoridade para concentrar recursos nacionais em um objetivo
social. Os instrumentos haviam mudado enormemente desde o período
revolucionário, mas a exigência política permanecia reconhecível: conhecer as
condições do povo — ser como “peixe na água” — a fim de transformá-las. Esse é
o movimento que Mao descreveu por meio da linha de massa: “das massas, para
as massas”, e de volta novamente após o teste da prática, que foi revivido e
fortalecido nos últimos anos por meio dessas campanhas.
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Entre o derrotismo e o triunfalismo
A
investigação começa com a recusa em confundir a superfície dos eventos com a
direção em que a história está se movendo. É também isso que tem levado os
leitores de volta a Sobre a
Guerra Prolongada
nos últimos anos, como forma de compreender a conjuntura atual. Mao escreveu o
texto em 1938, dez meses após o início da invasão em grande escala do Japão à
então China semicolonial e semifeudal, durante a Guerra Mundial Antifascista
que custou a vida de 24 milhões
de chineses. Diante de um Japão que detinha vantagens decisivas em armamento,
capacidade industrial e organização militar, a derrota parecia, para muitos, a
única conclusão sensata.
Mao
lutou contra duas posições aparentemente opostas. A teoria da inevitável
“subjugação nacional” via o avanço do Japão e declarava a resistência como
fútil. A teoria da “vitória rápida” transformou a certeza de que a China
deveria vencer na crença de que venceria em breve. Em uma visão, o inimigo é
invencível; na outra, está prestes a entrar em colapso. Ambas deixaram de
questionar como uma força mais fraca poderia preservar-se, acumular força e
transformar as condições por meio das quais um povo poderia conquistar sua
libertação. Entre a rendição e a fantasia, situava-se o difícil trabalho da
guerra prolongada: preservar as forças, construir áreas de base, organizar o
povo e empreender o trabalho lento, paciente e oneroso de mudar as condições
sob as quais a luta seria decidida. É por isso que um texto militar escrito em
meio a uma invasão e durante condições históricas drasticamente diferentes pode
ter um alcance que vai além de seu campo de batalha e contexto originais.
A Qiushi, principal revista teórica do Partido, publicou “Como reler
‘Sobre a Guerra Prolongada’ hoje” em 2025, enquanto o texto volta a
circular entre as obras que os jovens estão novamente lendo e discutindo.
Em maio
de 2026, o Instituto Chinês de Relações Internacionais Contemporâneas, uma
influente instituição de pesquisa de Pequim, publicou um artigo descrevendo as
relações entre a China e os EUA como tendo entrado em um “novo estágio de
impasse estratégico”. Publicado na véspera da cúpula entre Xi e Trump em
Pequim, o artigo utiliza a linguagem de Sobre a Guerra Prolongada para
descrever a conjuntura atual como uma transição na qual a velha ordem está se
dissolvendo, enquanto a nova ainda não se cristalizou. Ele alerta para a
“selvagenização” das relações internacionais, à medida que uma potência
hegemônica recorre cada vez mais à coerção quando não pode mais contar com o
domínio econômico. Para uma esquerda global que oscila com demasiada facilidade
entre o derrotismo e o triunfalismo — entre a convicção de que o imperialismo
norte-americano é inabalável e a declaração de que a “multipolaridade” de
caráter anti-imperialista já chegou —, Mao oferece um método para lidar com uma
longa transição. O imperialismo, em sua fase hiperimperialista, está em declínio e
continua extremamente perigoso, buscando compensar seu relativo declínio
econômico por meio da coerção militar, política e financeira. A supremacia
militar inigualável dos Estados Unidos — e sua disposição de utilizá-la — é
demonstrada no genocídio em Gaza, na guerra por procuração na Ucrânia, no
estrangulamento de Cuba e no sequestro e assassinato de líderes soberanos, da
Venezuela ao Irã. Embora o centro de gravidade da economia mundial esteja se
deslocando para o sul e para o leste, o Sul Global ainda não se constituiu como
uma força política coerente. O resultado dependerá das capacidades políticas,
econômicas e organizacionais construídas durante esse intervalo.
O jovem
Mao de Perguntando à Vasta Terra nada em um rio cheio pela
tempestade porque, segundo ele, é possível compreender seu temperamento. 50
anos após sua morte, essa pode ser uma das razões pelas quais os jovens
chineses estão voltando a ele, tendo herdado outra China e entrado em outra
corrente, formada pela construção socialista, pelas reformas de mercado, por
novas contradições sociais e por uma ordem mundial capitalista imperialista em
violenta transição. Mao não pode nos dizer antecipadamente aonde essa corrente
nos levará. O que ele oferece é a convicção de que ela pode ser estudada — e de
que, por meio da organização e da luta, forças que parecem fracas podem
adquirir a força necessária para mudar seu curso.
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Por que jovens chineses são tão fascinados com Mao Tsé
Tung, cuja morte completa 50 anos? Por Chen Yan
"Existem
muitos homens grandiosos, mas só existe um Mestre." É assim que muitos
jovens chineses se referem ao falecido líder chinês Mao Tsé Tung
online: "Mestre" ou "Professor".
Uma
busca por "Mao Tsé Tung" ou
"Professor" na plataforma de vídeos Bilibili retornará dezenas de
exemplos de compilações de vídeos com aparições de Mao extraídas de vários
filmes e séries de TV. Esses vídeos abrangem diferentes fases da vida de Mao, incluindo episódios
de sua juventude, seu período como comandante militar e como líder na gestão
das relações da Guerra Fria entre a China, os EUA e a União Soviética. Muitos
atraíram milhões de visualizações e dezenas de milhares de comentários, incluindo
elogios como "Viva o grande homem". A base de usuários do Bilibili é
predominantemente jovem, com quase 60% na faixa etária de 18 a 24 anos.
Por
que, 50 anos após sua morte — em 9 de setembro de 1976 —, Mao ressurgiu com tanta
proeminência na cultura jovem chinesa online?
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Um Mao diferente
Como a
figura política que definiu a China do século 20, Mao liderou o Partido
Comunista — e o país — desde a fundação da república em 1949 até o dia de sua
morte, em 1976. Ele conduziu a China através do Grande Salto Adiante e da
Revolução Cultural — campanhas que remodelaram a economia e a sociedade do
país, mas ao custo de milhões de mortes. Uma das pessoas que se sentem atraídas
pelo líder hoje é Dong, um estudante de Nanjing que está prestes a começar a
universidade. Recentemente, ele se comoveu com um vídeo de duas jovens cantando
uma canção patriótica em frente a uma estátua gigante do jovem Mao na Ilha
Laranja, em Changsha. "Elas cantaram com tanta emoção, e a estátua é tão
alta e jovial. Ao vê-la, de repente me senti bastante emocionado", disse
Dong à BBC. Muitos de seus colegas participam de comunidades online de jovens
que discutem assuntos da atualidade, comumente conhecidas como "círculo
político de teclado".
Outro
indicador dessa tendência é que, a partir de 2019, o livro Obras
Selecionadas de Mao Tsé Tung tornou-se inesperadamente a obra mais
emprestada da Biblioteca da Universidade de Tsinghua, mantendo-se nessa posição
em todos os anos até 2025. É importante destacar que o interesse dos jovens por
Mao hoje difere da narrativa pública com a qual seus pais cresceram.
Em
1981, o Partido Comunista Chinês (PCC) adotou uma resolução elaborada sob a
liderança de Deng Xiaoping. Ela estabeleceu oficialmente uma avaliação de Mao
que equilibrava suas conquistas com seus erros, frequentemente resumida como
"70% conquistas, 30% erros".Durante os governos de Deng Xiaoping e,
posteriormente, de Jiang Zemin, os retratos de Mao desapareceram gradualmente
das estações ferroviárias, praças públicas e salas de aula. As pessoas passaram
a ver Mao cada vez mais como uma figura histórica, e não como uma divindade, um
homem com limitações. Deng, por sua vez, tornou-se um símbolo de uma nova era
econômica – um programa de reformas para construir uma economia de mercado
interna e abri-la para o mundo.
Hoje,
porém, Mao recuperou a relevância para os jovens chineses, e muitos, incluindo
Dong, raramente se referem a Mao pelo nome, chamando-o de
"Professor". O título tem uma origem específica. Durante um encontro
com o jornalista americano Edgar Snow em 1970, Mao teria comentado que não
gostava de títulos como "Os Quatro Grandes" — um slogan político
usado para elogiá-lo como um grande professor, líder, comandante e timoneiro
durante a Revolução Cultural — dizendo: "Só resta um... Professor, porque
eu sempre fui um professor". Dong e seus colegas discutem Mao abertamente
e sem rodeios. Mas quando o assunto é o atual líder chinês, Xi Jinping, Dong
sente que "não é algo que possa ser discutido abertamente".
Um
estudo do Instituto Mercator para Estudos da China (MERICS) descobriu que,
embora o espaço online da China ainda permita um certo grau de discussão
pública, tópicos que realmente afetam os mais altos níveis de liderança são
frequentemente evitados conscientemente. O relatório argumenta que esse
"espaço frágil para discussão" é resultado tanto da censura quanto da
autocensura.
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'Não é simplesmente nostalgia'
Na
visão de alguns especialistas, a renovada atenção dada a Mao por alguns jovens
está interligada com suas percepções sobre questões sociais como a desigualdade
de riqueza e o declínio da mobilidade social.
Florian
Schneider, professor da Universidade de Leiden que há muito estuda a cultura
política da juventude chinesa, afirma que os jovens de hoje enfrentam uma
realidade muito diferente da das gerações anteriores. Seus pais viveram numa
época em que o crescimento econômico parecia elevar o padrão de vida de todos,
enquanto muitos jovens agora se sentem deixados para trás pelo progresso
prometido pelas reformas de Deng. Segundo os dados mais recentes do
Departamento Nacional de Estatísticas da China, a taxa de desemprego urbano
para jovens de 16 a 24 anos que não são estudantes subiu para 17,9% em julho de
2026 — o nível mais alto desde a revisão da metodologia estatística três anos
antes.
Novos
termos passaram a fazer parte do vocabulário cotidiano dos jovens. "996"
faz referência ao trabalho das 9h às 21h, seis dias por semana. Muitos dizem
que preferem "ficar deitados", ou seja, permanecerem passivos em vez
de se deixarem levar pela "involução" — termo que designa trabalhar
cada vez mais apenas para se manter no mesmo lugar. Nesse contexto, as críticas
de Mao ao capitalismo encontram eco em alguns jovens. Schneider afirma que
alguns usam as ideias de Mao para expressar insatisfação com o que consideram
"a captura do Estado pelo capital", enquanto outros tratam os
escritos de Mao como uma espécie de guia para lidar com as contradições da
vida.
Dong
expressa uma opinião semelhante: "Nossa geração foi ensinada desde a
infância que o trabalho árduo seria recompensado. Mas quando crescemos,
descobrimos que não era tão fácil conseguir emprego e que as casas eram
inacessíveis". Ele acrescenta que a linguagem de Mao é direta, dividindo
as pessoas em diferentes categorias. "Ele deixa claro quem é o opressor e
quem é o oprimido. Essa estrutura simples é mais fácil de entender do que o
jargão econômico. O ressurgimento de Mao não é simplesmente nostalgia",
diz Schneider. "Reflete uma tentativa dos jovens de usar uma linguagem
histórica existente para nomear e processar a desigualdade e a insegurança que
vivenciam."
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Energia política
A
avaliação oficial do PCC sobre Mao ainda se baseia na resolução de 1981: as
conquistas de Mao são primordiais, enquanto seus erros são secundários. A
terceira resolução histórica do Partido, adotada em 2021, coloca o "grande
rejuvenescimento da nação chinesa" no centro de sua narrativa. Nesse
contexto, a revolução de Mao é frequentemente entendida como a fase em que a
China "se ergueu", estabeleceu a República Popular, resguardou a
independência nacional e lançou as bases para o rejuvenescimento do país. Mao,
portanto, não é apenas uma figura histórica cujas conquistas e fracassos devem
ser avaliados; ele também é apresentado como uma das origens das narrativas
atuais de força nacional.
Schneider
acredita que "as políticas educacionais do Partido têm pelo menos parte da
responsabilidade pelo ressurgimento de Mao nos dias de hoje. Para muitos
jovens, a China de Mao se baseia em uma fantasia na qual esse grande líder é um
herói inquestionável". Ele argumenta que muitos jovens desconhecem as
realidades devastadoras do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural, ou
possuem uma compreensão distorcida do papel de Mao nesses eventos. Schneider
alerta que essa admiração popular por Mao contém mais energia política do que
pode parecer à primeira vista. "Este é um desenvolvimento potencialmente
explosivo, porque essa cultura de fãs de Mao, que surge de baixo para cima, tem
um caráter claramente populista e não se limitará necessariamente a questionar
os métodos de governo atuais." Ele compara isso às expressões de
nacionalismo na China: "Esses sentimentos populistas podem ser censurados
até certo ponto, mas controlá-los completamente é extremamente difícil". Para
Dong e seus contemporâneos, a atual "febre Mao" pode estar longe de
terminar. Resta saber se ela se limitará à cultura da internet ou se
desenvolverá em uma forma mais duradoura de identidade política.
Fonte: Globetrotter/BBC China

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