quarta-feira, 16 de setembro de 2026

A pressão do Irã sobre Trump frente às eleições de meio mandato nos EUA

"A guerra terminará imediatamente após as eleições de meio de mandato, porque o Irã não conseguirá resistir por mais tempo", afirmou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a repórteres na quarta-feira passada.

Trump descreveu a votação como "uma das eleições mais importantes da história do nosso país" ao mesmo tempo em que voltou a defender a guerra contra o Irã. Ele disse que ordenou os ataques para impedir que o Teerã desenvolvesse armas nucleares. Ao mesmo tempo, prometeu que os preços do petróleo cairiam tão logo os Estados Unidos vencessem a guerra.

As eleições de meio de mandato ocorrerão em 3 de novembro de 2026. O aumento dos preços da gasolina e da energia nos EUA pode se tornar um problema político para o Partido Republicano do presidente, uma vez que a alta dos combustíveis afeta muitos americanos. Novos aumentos nos custos da energia provavelmente terão um impacto negativo sobre o ânimo dos eleitores.

Em 9 setembro, o preço do petróleo Brent, referência internacional, subiu novamente para mais de 100 dólares (R$ 512) por barril (159 litros). Isso se deveu à recente escalada nas tensões entre o Irã e os EUA em torno do Estreito de Ormuz.

Na última sexta-feira, saiu a notícia de que os rebeldes houthis, aliados do Irã, controlavam o Estreito de Bab el-Mandeb, no Iêmen, que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Aden. É provável que isso pressione ainda mais o mercado global de energia.

<><> "Escalada controlada"

Segundo o governo dos EUA, forças americanas destruíram cinco petroleiros iranianos em 8 de setembro. A ação foi uma resposta a dois ataques da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, que supostamente utilizou mísseis balísticos contra um navio de guerra da Marinha dos EUA.

"O Irã aparentemente ainda vê a escalada como um instrumento controlado para negociações sob pressão, e não como um fim em si mesmo", afirmou à DW o especialista em Oriente Médio Mohammad Ghaedi, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade George Washington, ao descrever a estratégia iraniana.

"O Irã tenta impor custos aos EUA antes das eleições de meio de mandato. Ao mesmo tempo, a pressão não deve se tornar tão grande a ponto de Washington se sentir compelido a lançar uma guerra em grande escala. Isso explica por que o número de mísseis disparados contra navios da Marinha dos EUA foi comparativamente baixo."

Embora o Irã queira demonstrar que é capaz de ameaçar as forças americanas e interromper o tráfego marítimo na região, também deseja manter o confronto abaixo de um patamar que possa desencadear uma reação americana ainda mais massiva.

<><> Retorno ao Memorando de Islamabad?

No final de agosto, o presidente iraniano, Massoud Peseshkian, enfatizou durante a cúpula da Organização de Cooperação de Xangai que a opção preferida para seu país seria um retorno ao Memorando de Islamabad – o documento assinado por Washington e Teerã em junho de 2026, com o objetivo de encerrar o conflito.

Ele sugeriu que o Irã retornaria ao memorando de entendimento se os Estados Unidos também retomassem o cumprimento de suas obrigações.

Em Teerã, no entanto, parece haver uma percepção crescente de que um rápido retorno dos EUA ao acordo seria improvável. Para Ghaedi, isso esbarra em obstáculo crucial: "A primeira cláusula do acordo que pressupõe uma retirada israelense do Líbano, uma medida que Teerã considera improvável antes das eleições em Israel."

A eleição para o 26º Knesset, o Parlamento israelense, ocorrerá em 27 de outubro, pouco menos de uma semana antes das eleições de meio de mandato nos EUA. Muitos observadores em Teerã parecem esperar que o ponto de virada decisivo no conflito só seja alcançado após esse período.

Em 2 de setembro, a agência de notícias Reuters informou que assessores do presidente Trump defenderiam uma contenção da escalada antes das eleições de novembro, temendo repercussões políticas para os republicanos. Ao mesmo tempo, a Casa Branca consideraria expandir as ações militares após a votação. Resta saber se isso levará, de fato, a uma nova escalada. Enquanto isso, a pressão econômica sobre o Irã provavelmente aumentará ainda mais.

<><> Pressão econômica e concessões políticas

Em entrevista à DW, o economista iraniano Ahmad Alavi, que vive na Suécia, alertou para o perigo de equiparar automaticamente pressão econômica a concessões políticas.

"Se a liderança da República Islâmica concluir que o objetivo da pressão não é mudar seu comportamento, mas sim, enfraquecê-la ou derrubá-la, poderá encarar as concessões como uma ameaça maior à sua sobrevivência e, em vez disso, recorrer a uma escalada da ação militar", afirmou. Ele acredita que Teerã estará mais disposta a fazer concessões se uma redução genuína da pressão for possível e se existir um canal confiável para negociação.

Omã e diversos países do Golfo retomaram a busca por uma solução diplomática. Segundo o jornal britânico Financial Times, os ministros do Exterior dos países do Golfo planejam uma reunião com seu homólogo iraniano em Salalah, no Omã, na próxima semana.

O objetivo das negociações é um acordo que garanta temporariamente a navegação comercial pelo Estreito de Ormuz. Tal acordo provavelmente exigiria a aprovação de Washington, já que os EUA mantêm o bloqueio naval contra o Irã.

Ao mesmo tempo, a liderança em Teerã continua a sinalizar publicamente sua determinação. "Continuaremos a guerra até a vitória final", declarou Ali Nikzad, vice-presidente do Parlamento, em 9 de setembro, em um evento para jornalistas.

Hossein Mohebbi, porta-voz da Guarda Revolucionária, também afirmou em 8 de setembro que os EUA devem "cessar completamente a guerra" e se abster de novas ameaças se quiserem pôr fim à situação atual. Ele também ameaçou com uma reação mais ampla da Guarda Revolucionária caso os ataques continuem.

Em 10 de setembro, a Guarda Revolucionária divulgou um vídeo que, segundo fontes iranianas, mostra a captura de um drone submarino Anduril Dive-LD dos EUA no Estreito de Ormuz. O veículo estaria sendo usado em uma missão secreta de remoção de minas.

<><> O que acontecerá após as eleições nos EUA?

De acordo com a avaliação de Ghaedi, os desdobramentos futuros dependerão, em grande medida, do resultado das eleições nos Estados Unidos. Independentemente disso, porém, o Irã tem pouco interesse em intensificar o conflito.

Caso os democratas assumam o controle do Congresso e tentem conter a campanha militar de Trump, Teerã poderá agir com ainda mais cautela. A liderança iraniana provavelmente desejará evitar qualquer atitude que possa provocar uma convergência bipartidária de apoio ao governo em torno do conflito.

¨      Países do golfo Pérsico se decepcionam com a confiança dos EUA, diz mídia

A guerra que os EUA e Israel desencadearam contra o Irã causou uma convergência estratégica incomum entre as monarquias do golfo Pérsico, que reconheceram que o sistema de segurança existente na região tinha falhado, escreveu uma revista norte-americana.

A guerra alterou a percepção da situação no golfo Pérsico. O choque menos esperado foi que Washington estava disposto a iniciar uma guerra ao lado de Israel apesar das objeções dos Estados árabes, e depois "se mostrar incapaz ou sem vontade de administrar o que se seguiu", destacou a reportagem de um veículo de comunicação ocidental.

Autoridades do Golfo concordam amplamente com três pontos-chave: o Irã continua sendo uma ameaça a longo prazo, a segurança de guarda-chuva dos EUA não é mais digna de confiança e a estabilidade regional tornou-se uma prioridade existencial.

Os objetivos da guerra mudaram a cada semana e, quando o Irã fechou o estreito de Ormuz, os Estados árabes sentiram que tinham sido levados para o conflito "sem serem avisados, consultados ou protegidos", sublinha o autor da matéria. Como resultado, a maioria deles "voltou a uma preferência anterior: conter e diminuir a escalada em vez de confrontar o Irã".

Por sua vez, Teerã aprendeu um novo tipo de influência com essa guerra, demonstrando que pode aproveitar o controle estratégico sobre o estreito de Ormuz. "A influência de Teerã sobre Ormuz, talvez o seu único ganho tangível, vai durar e deixa aos Estados do golfo uma escolha há muito adiada: defesa coletiva credível ou diversificação contínua", continua a publicação.

Neste contexto, os Estados árabes não estão tentando substituir Washington, mas estão criando uma série de relações para impedir a dominação por uma única potência, acrescenta o texto. Em particular, precisam de mecanismos permanentes de defesa aérea e antimísseis integrada, de partilha de informações, de segurança marítima e de assistência mútua e de um compromisso credível em matéria de defesa coletiva.

"O Conselho de Cooperação do Golfo já tem grande parte do esqueleto institucional; o que lhe faltou foi a confiança política e o consenso estratégico para fazê-lo funcionar [...] A guerra mostrou que os Estados do golfo podem se coordenar de forma mais eficaz do que muitos esperavam, e as bases para algo mais duradouro podem já estar aí", resumiu a reportagem.

Em 28 de fevereiro, os Estados Unidos e Israel começaram a atacar alvos no Irã, o lado iraniano respondeu aos ataques e o conflito foi se arrastando. Em meados de junho, Teerã e Washington assinaram um memorando visando o fim das hostilidades, mas, pouco depois, voltaram com os ataques. O conflito permanece sem solução, com retomadas esporádicas das hostilidades.

¨      Israel é acusado de tentar "eliminar" as condições de vida dos palestinos na Cisjordânia

Segundo um importante relatório publicado pelo grupo de direitos humanos B'Tselem, Israel está trabalhando para a "eliminação" sistemática das condições que sustentam a vida coletiva palestina na Cisjordânia ocupada.

O relatório contundente da organização israelense, compartilhado com o Guardian antes da publicação, afirma que Israel está “intensificando drasticamente seus ataques a todos os aspectos da vida palestina na Cisjordânia”, incluindo “a capacidade de ir trabalhar, levar os filhos à escola ou à universidade, receber tratamento médico ou serviços municipais, encontrar-se com familiares e amigos, cultivar a terra ou sair de férias… atividades rotineiras que compõem a vida humana”.

Segundo a B'Tselem, o ataque contra os palestinos é "regido por uma lógica organizadora coerente" e compreende cinco "domínios de ação interligados": violência e intimidação, restrições de movimento, estrangulamento econômico, destruição social e política, e limpeza étnica e tomada de território.

A publicação do Projeto Eliminação, o trabalho mais abrangente da B'Tselem sobre a Cisjordânia desde o seu lançamento em 1989, ocorre menos de uma semana depois de o secretário de Relações Exteriores britânico, Ed Miliband, ter acusado terroristas colonos, apoiados pelo governo de Benjamin Netanyahu , de cometerem limpeza étnica na Cisjordânia, na mais contundente condenação do Reino Unido a Israel desde a fundação do Estado.

Ao analisar de forma mais abrangente as condições necessárias para a existência coletiva dos palestinos, o relatório da B'Tselem vai ainda mais longe. Afirma que vários braços do Estado israelense – liderados por Bezalel Smotrich, o ministro das Finanças de extrema-direita com amplos poderes sobre assuntos civis na Cisjordânia – buscam “criar uma realidade na qual milhões de palestinos vivam em constante temor da violência militar e civil israelense”.

“As comunidades palestinas estão sendo expulsas em um processo acelerado de limpeza étnica, enquanto uma presença israelense cada vez maior se estabelece em seu lugar na forma de assentamentos, postos avançados, fazendas e infraestrutura civil exclusiva para judeus”, afirma o relatório. “Eliminação, neste contexto, significa dano contínuo às condições que permitem aos palestinos existir como um povo com terra, instituições, idioma, cultura, laços sociais, liderança, memória e história compartilhadas, e um horizonte social e político.”

“Trata-se de um projeto político em curso que busca reorganizar o espaço e as condições de vida para que a presença judaica se torne contígua, institucionalizada e permanente, enquanto a existência palestina se torne fragmentada, vulnerável e dependente.”

Um dos aspectos mais evidentes dessa fragmentação é o fechamento de estradas e aldeias à passagem de palestinos e o abandono de casas palestinas sob pressão implacável.

Numa tarde recente, nos arredores da aldeia de Sair, Haytham Adnan Murad, de 49 anos, regressava de uma consulta médica em Hebron com a sua filha de 12 anos, Balqis, que não consegue andar devido a uma cirurgia recente. Um portão da estrada que dá acesso à sua aldeia, aberto de manhã, tinha sido fechado pelo exército israelita, obrigando Murad a sair do táxi em que viajava com a filha e a carregá-la para contornar o bloqueio.

“Quando saímos, o portão estava aberto. Agora está fechado, mas essa é a vida cotidiana”, disse ele. “De manhã, as coisas são diferentes da tarde. Não há dignidade nisso.”

Os autores do relatório relacionam a aceleração do ataque israelense à vida na Cisjordânia ao período posterior ao ataque do Hamas contra comunidades do sul de Israel em 7 de outubro de 2023. No entanto, argumentam que a ideologia motivadora subjacente é anterior a esse período.

Em particular, eles apontam para um documento conhecido como Plano Decisivo, publicado por Smotrich em 2017, antes de ele se tornar ministro, que descrevem como o “documento fundamental para entender a ação israelense na Cisjordânia”.

A organização B'Tselem afirma que o plano ofereceu aos palestinos três opções: “Viver sob a supremacia judaica, renunciando às suas reivindicações nacionais; deixar o território; ou enfrentar a repressão violenta das forças armadas israelenses caso resistam”. O relatório acrescenta que o plano foi traduzido, “em políticas, orçamentos, poderes e práticas exercidas por diferentes órgãos do Estado”, com “velocidade e transparência sem precedentes”.

Assim sendo, prossegue o relatório, a violência dos colonos já não se manifesta “apenas como violência privada ou perturbação da ordem pública”, mas como parte de um “sistema de controlo mais amplo”.

“Por vezes, é realizada em conjunto com soldados, com o apoio das forças de segurança, utilizando armas, equipamentos e infraestruturas fornecidos pelo Estado, e com quase total impunidade.”

Para além dos incidentes já bem documentados de escalada da violência dos colonos, o relatório destaca outros aspetos corrosivos do crescente controlo israelita sobre a Cisjordânia, incluindo restrições económicas devastadoras e impactos na educação e na cultura.

Segundo o texto, Israel implementou uma política sistemática de "estrangulamento econômico total" desde 2023, que negou oportunidades de subsistência, destruiu infraestrutura civil e agrícola, intensificou o controle sobre os recursos e o sistema bancário e prejudicou a capacidade das instituições públicas de fornecer serviços básicos.

Em setembro de 2025, Smotrich afirmou que empregaria todos os meios possíveis "para evitar o perigo de um Estado palestino, incluindo provocar o colapso da Autoridade Palestina... por meio do estrangulamento econômico".

A revogação em massa de autorizações de trabalho deixou trabalhadores e suas famílias sem uma renda estável. Isso se reflete nos dados da Cisjordânia citados no relatório. A taxa de desemprego, por exemplo, subiu de 13,1% em 2022 para 31,3% em 2024, e em 2025, quase metade de todos os jovens não estava empregada nem matriculada em cursos de educação ou formação profissional.

A ONU estimou que, em 2024, 700 mil palestinos na Cisjordânia precisariam de assistência para comprar alimentos, um aumento de 17% em relação ao ano anterior.

Desde outubro de 2023, Israel também intensificou os ataques contra diversas organizações e associações palestinas na Cisjordânia. Grupos comunitários e de base, bem como organizações que protegem trabalhadores, pessoas necessitadas e crianças, têm sofrido frequentes invasões a seus escritórios, fechamento forçado, assédio sistemático e prisão de funcionários, voluntários e ativistas sem justa causa.

A Cogat, unidade militar israelense responsável por supervisionar a política civil na Cisjordânia e em Gaza, foi contatada para comentar o assunto.

Em entrevista concedida para coincidir com a publicação do relatório, Kareem Jubran, chefe da pesquisa de campo da B'Tselem na Cisjordânia, afirmou: “O que descobrimos é que não se tratam de incidentes isolados. Todos os elementos díspares compartilham uma mesma natureza, um mesmo objetivo. Ao analisarmos o quadro geral, chegamos a uma conclusão: o objetivo principal é eliminar os palestinos como um coletivo.”

Yuli Novak, diretor executivo da B'Tselem, disse: “O que estamos dizendo no relatório é que isso está em andamento. O projeto já existia antes, mas agora estamos em uma nova fase.

“Tudo começou no final de 2022, com a mudança de governo [para uma coligação de direita e extrema-direita], e vimos uma escalada acentuada após outubro de 2023. Estamos falando de um ataque à vida palestina na Cisjordânia que mudou de escala. Há também uma mudança quantitativa, tornando a Cisjordânia cada vez mais inabitável para muitos palestinos.”

Novak descreveu o plano de Smotrich de 2017 como o "projeto principal". "Ele mostra o caminho ideológico e operacional para chegar ao que chamamos de eliminação", disse ele. "E ele chama isso de vitória por meio de assentamentos. Vencer de forma definitiva para que nada [como um Estado palestino] possa acontecer depois."

 

Fonte: DW Brasil/Sputnik Brasil/The Guardian

 

 

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