A pressão do Irã sobre Trump frente às
eleições de meio mandato nos EUA
"A guerra terminará
imediatamente após as eleições de meio de
mandato, porque o Irã não conseguirá resistir por mais tempo",
afirmou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a repórteres na quarta-feira passada.
Trump
descreveu a votação como "uma das eleições mais importantes da história do
nosso país" ao mesmo tempo em que voltou a defender a guerra contra o Irã.
Ele disse que ordenou os ataques para impedir que o Teerã desenvolvesse armas
nucleares. Ao mesmo tempo, prometeu que os preços do petróleo cairiam tão
logo os Estados Unidos vencessem a guerra.
As eleições de meio de mandato ocorrerão em 3
de novembro de 2026. O aumento dos preços da gasolina e da energia nos EUA pode
se tornar um problema político para o Partido Republicano do presidente, uma
vez que a alta dos combustíveis afeta muitos americanos. Novos aumentos nos custos
da energia provavelmente terão um impacto negativo sobre o ânimo dos eleitores.
Em 9
setembro, o preço do petróleo Brent, referência internacional, subiu novamente
para mais de 100 dólares (R$ 512) por barril (159 litros). Isso se deveu à
recente escalada nas tensões entre o Irã e os
EUA em
torno do Estreito de Ormuz.
Na
última sexta-feira, saiu a notícia de que os rebeldes houthis, aliados do Irã,
controlavam o Estreito de Bab el-Mandeb, no Iêmen, que liga o Mar Vermelho ao Golfo
de Aden. É provável que isso pressione ainda mais o mercado global de energia.
<><> "Escalada
controlada"
Segundo
o governo dos EUA, forças americanas destruíram cinco petroleiros
iranianos em
8 de setembro. A ação foi uma resposta a dois ataques da Guarda Revolucionária
Islâmica do Irã, que supostamente utilizou mísseis balísticos contra um navio
de guerra da Marinha dos EUA.
"O
Irã aparentemente ainda vê a escalada como um instrumento controlado para
negociações sob pressão, e não como um fim em si mesmo", afirmou à DW o
especialista em Oriente Médio Mohammad
Ghaedi, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade George
Washington, ao descrever a estratégia iraniana.
"O
Irã tenta impor custos aos EUA antes das eleições de meio de mandato. Ao mesmo
tempo, a pressão não deve se tornar tão grande a ponto de Washington se sentir
compelido a lançar uma guerra em grande escala. Isso explica por que o número
de mísseis disparados contra navios da Marinha dos EUA foi comparativamente
baixo."
Embora
o Irã queira demonstrar que é capaz de ameaçar as forças americanas e
interromper o tráfego marítimo na região, também deseja manter o confronto
abaixo de um patamar que possa desencadear uma reação americana ainda mais
massiva.
<><> Retorno ao Memorando de
Islamabad?
No
final de agosto, o presidente iraniano, Massoud Peseshkian, enfatizou durante a
cúpula da Organização de Cooperação de Xangai que a opção preferida para seu
país seria um retorno ao Memorando de Islamabad – o documento
assinado por Washington e Teerã em junho de 2026, com o objetivo de encerrar o
conflito.
Ele
sugeriu que o Irã retornaria ao memorando de entendimento se os Estados Unidos
também retomassem o cumprimento de suas obrigações.
Em
Teerã, no entanto, parece haver uma percepção crescente de que um rápido
retorno dos EUA ao acordo seria improvável. Para Ghaedi, isso esbarra em
obstáculo crucial: "A primeira cláusula do acordo que pressupõe uma
retirada israelense do Líbano, uma medida que
Teerã considera improvável antes das eleições em Israel."
A
eleição para o 26º Knesset, o Parlamento israelense, ocorrerá em 27 de outubro,
pouco menos de uma semana antes das eleições de meio de mandato nos EUA. Muitos
observadores em Teerã parecem esperar que o ponto de virada decisivo no
conflito só seja alcançado após esse período.
Em 2 de
setembro, a agência de notícias Reuters informou que assessores do presidente
Trump defenderiam uma contenção da escalada antes das eleições de novembro,
temendo repercussões políticas para os republicanos. Ao mesmo tempo, a Casa
Branca consideraria expandir as ações militares após a votação. Resta saber se isso levará, de fato, a uma nova
escalada. Enquanto isso, a pressão econômica sobre o Irã provavelmente
aumentará ainda mais.
<><> Pressão econômica e
concessões políticas
Em
entrevista à DW, o economista iraniano Ahmad Alavi, que vive na Suécia, alertou
para o perigo de equiparar automaticamente pressão econômica a concessões
políticas.
"Se
a liderança da República Islâmica concluir que o objetivo da pressão não é
mudar seu comportamento, mas sim, enfraquecê-la ou derrubá-la, poderá encarar
as concessões como uma ameaça maior à sua sobrevivência e, em vez disso,
recorrer a uma escalada da ação militar", afirmou. Ele acredita que Teerã
estará mais disposta a fazer concessões se uma redução genuína da pressão for
possível e se existir um canal confiável para negociação.
Omã e
diversos países do Golfo retomaram a busca por uma solução diplomática. Segundo
o jornal britânico Financial Times, os ministros do Exterior dos
países do Golfo planejam uma reunião com seu homólogo iraniano em Salalah, no
Omã, na próxima semana.
O
objetivo das negociações é um acordo que garanta temporariamente a navegação
comercial pelo Estreito de Ormuz. Tal acordo provavelmente exigiria a aprovação
de Washington, já que os EUA mantêm o bloqueio naval contra o Irã.
Ao
mesmo tempo, a liderança em Teerã continua a sinalizar publicamente sua
determinação. "Continuaremos a guerra até a vitória final", declarou
Ali Nikzad, vice-presidente do Parlamento, em 9 de setembro, em um evento para
jornalistas.
Hossein
Mohebbi, porta-voz da Guarda Revolucionária, também afirmou em 8 de setembro
que os EUA devem "cessar completamente a guerra" e se abster de novas
ameaças se quiserem pôr fim à situação atual. Ele também ameaçou com uma reação
mais ampla da Guarda Revolucionária caso os ataques continuem.
Em 10
de setembro, a Guarda Revolucionária divulgou um vídeo que, segundo fontes
iranianas, mostra a captura de um drone submarino Anduril Dive-LD
dos EUA no Estreito de Ormuz. O veículo estaria sendo usado em uma missão
secreta de remoção de minas.
<><> O que acontecerá após as
eleições nos EUA?
De acordo com a avaliação de Ghaedi, os
desdobramentos futuros dependerão, em grande medida, do resultado das eleições
nos Estados Unidos. Independentemente disso, porém, o Irã tem pouco interesse
em intensificar o conflito.
Caso os democratas assumam o controle do
Congresso e tentem conter a campanha militar de Trump, Teerã poderá agir com
ainda mais cautela. A liderança iraniana provavelmente desejará evitar qualquer
atitude que possa provocar uma convergência bipartidária de apoio ao governo em
torno do conflito.
¨
Países do golfo Pérsico
se decepcionam com a confiança dos EUA, diz mídia
A
guerra que os EUA e Israel desencadearam contra o Irã causou uma convergência
estratégica incomum entre as monarquias do golfo Pérsico, que reconheceram que
o sistema de segurança existente na região tinha falhado, escreveu uma revista
norte-americana.
A
guerra alterou a percepção da situação no golfo Pérsico. O choque menos
esperado foi que Washington estava disposto a iniciar uma guerra ao lado de
Israel apesar das objeções dos Estados árabes, e depois "se
mostrar incapaz ou sem vontade de administrar o que se seguiu", destacou a
reportagem de um veículo de comunicação ocidental.
Autoridades
do Golfo concordam amplamente com três pontos-chave: o Irã continua sendo
uma ameaça a longo prazo, a segurança de guarda-chuva dos EUA não é mais digna
de confiança e a estabilidade regional tornou-se uma prioridade existencial.
Os
objetivos da guerra mudaram a cada semana e, quando o Irã fechou o estreito de Ormuz, os Estados
árabes sentiram que tinham sido levados para o conflito "sem serem
avisados, consultados ou protegidos", sublinha o autor da matéria. Como
resultado, a maioria deles "voltou a uma preferência anterior: conter e
diminuir a escalada em vez de confrontar o Irã".
Por sua
vez, Teerã aprendeu um novo tipo de influência com essa guerra, demonstrando
que pode aproveitar o controle estratégico sobre o estreito de Ormuz. "A
influência de Teerã sobre Ormuz, talvez o seu único ganho tangível, vai durar e
deixa aos Estados do golfo uma escolha há muito adiada: defesa coletiva
credível ou diversificação contínua", continua a publicação.
Neste
contexto, os Estados árabes não estão tentando substituir Washington, mas estão
criando uma série de relações para impedir a dominação por uma única potência, acrescenta o texto.
Em particular, precisam de mecanismos permanentes de defesa aérea e antimísseis
integrada, de partilha de informações, de segurança marítima e de assistência
mútua e de um compromisso credível em matéria de defesa coletiva.
"O
Conselho de Cooperação do Golfo já tem grande parte do esqueleto institucional;
o que lhe faltou foi a confiança política e o consenso estratégico para fazê-lo
funcionar [...] A guerra mostrou que os Estados do golfo podem se
coordenar de forma mais eficaz do que muitos esperavam, e as bases para
algo mais duradouro podem já estar aí", resumiu a reportagem.
Em 28
de fevereiro, os Estados Unidos e Israel começaram a atacar alvos no Irã, o
lado iraniano respondeu aos ataques e o conflito foi se arrastando. Em meados
de junho, Teerã e Washington assinaram um memorando visando o fim das
hostilidades, mas, pouco depois, voltaram com os ataques. O conflito permanece
sem solução, com retomadas esporádicas das hostilidades.
¨
Israel é acusado de
tentar "eliminar" as condições de vida dos palestinos na Cisjordânia
Segundo um importante relatório publicado pelo
grupo de direitos humanos B'Tselem, Israel está trabalhando para a
"eliminação" sistemática das condições que sustentam a vida coletiva
palestina na Cisjordânia ocupada.
O
relatório contundente da organização israelense, compartilhado com o Guardian
antes da publicação, afirma que Israel está “intensificando drasticamente seus
ataques a todos os aspectos da vida palestina na Cisjordânia”, incluindo “a
capacidade de ir trabalhar, levar os filhos à escola ou à universidade, receber
tratamento médico ou serviços municipais, encontrar-se com familiares e amigos,
cultivar a terra ou sair de férias… atividades rotineiras que compõem a vida
humana”.
Segundo
a B'Tselem, o ataque contra os palestinos é "regido por uma lógica
organizadora coerente" e compreende cinco "domínios de ação
interligados": violência e intimidação, restrições de movimento,
estrangulamento econômico, destruição social e política, e limpeza étnica e
tomada de território.
A
publicação do Projeto Eliminação, o trabalho mais abrangente da B'Tselem sobre
a Cisjordânia desde o seu lançamento em 1989, ocorre menos de uma semana depois
de o secretário de Relações Exteriores britânico, Ed Miliband, ter acusado terroristas colonos,
apoiados pelo governo de Benjamin Netanyahu , de cometerem limpeza étnica na
Cisjordânia, na mais contundente condenação do Reino Unido a Israel desde a
fundação do Estado.
Ao
analisar de forma mais abrangente as condições necessárias para a existência
coletiva dos palestinos, o relatório da B'Tselem vai ainda mais longe. Afirma
que vários braços do Estado israelense – liderados por Bezalel Smotrich, o
ministro das Finanças de extrema-direita com amplos poderes sobre assuntos
civis na Cisjordânia – buscam “criar uma realidade na qual milhões de
palestinos vivam em constante temor da violência militar e civil israelense”.
“As
comunidades palestinas estão sendo expulsas em um processo acelerado de limpeza
étnica, enquanto uma presença israelense cada vez maior se estabelece em seu
lugar na forma de assentamentos, postos avançados, fazendas e infraestrutura
civil exclusiva para judeus”, afirma o relatório. “Eliminação, neste contexto,
significa dano contínuo às condições que permitem aos palestinos existir como
um povo com terra, instituições, idioma, cultura, laços sociais, liderança,
memória e história compartilhadas, e um horizonte social e político.”
“Trata-se
de um projeto político em curso que busca reorganizar o espaço e as condições
de vida para que a presença judaica se torne contígua, institucionalizada e
permanente, enquanto a existência palestina se torne fragmentada, vulnerável e
dependente.”
Um dos
aspectos mais evidentes dessa fragmentação é o fechamento de estradas e aldeias
à passagem de palestinos e o abandono de casas palestinas sob pressão
implacável.
Numa
tarde recente, nos arredores da aldeia de Sair, Haytham Adnan Murad, de 49
anos, regressava de uma consulta médica em Hebron com a sua filha de 12 anos,
Balqis, que não consegue andar devido a uma cirurgia recente. Um portão da
estrada que dá acesso à sua aldeia, aberto de manhã, tinha sido fechado pelo
exército israelita, obrigando Murad a sair do táxi em que viajava com a filha e
a carregá-la para contornar o bloqueio.
“Quando
saímos, o portão estava aberto. Agora está fechado, mas essa é a vida
cotidiana”, disse ele. “De manhã, as coisas são diferentes da tarde. Não há
dignidade nisso.”
Os
autores do relatório relacionam a aceleração do ataque israelense à vida na
Cisjordânia ao período posterior ao ataque do Hamas contra comunidades do sul
de Israel em 7 de outubro de 2023. No entanto, argumentam que a ideologia
motivadora subjacente é anterior a esse período.
Em
particular, eles apontam para um documento conhecido como Plano Decisivo,
publicado por Smotrich em 2017, antes de ele se tornar ministro, que descrevem
como o “documento fundamental para entender a ação israelense na Cisjordânia”.
A
organização B'Tselem afirma que o plano ofereceu aos palestinos três opções:
“Viver sob a supremacia judaica, renunciando às suas reivindicações nacionais;
deixar o território; ou enfrentar a repressão violenta das forças armadas
israelenses caso resistam”. O relatório acrescenta que o plano foi traduzido,
“em políticas, orçamentos, poderes e práticas exercidas por diferentes órgãos
do Estado”, com “velocidade e transparência sem precedentes”.
Assim
sendo, prossegue o relatório, a violência dos colonos já não se manifesta
“apenas como violência privada ou perturbação da ordem pública”, mas como parte
de um “sistema de controlo mais amplo”.
“Por
vezes, é realizada em conjunto com soldados, com o apoio das forças de
segurança, utilizando armas, equipamentos e infraestruturas fornecidos pelo
Estado, e com quase total impunidade.”
Para
além dos incidentes já bem documentados de escalada da violência dos colonos, o
relatório destaca outros aspetos corrosivos do crescente controlo israelita
sobre a Cisjordânia, incluindo restrições económicas devastadoras e impactos na
educação e na cultura.
Segundo
o texto, Israel implementou uma política sistemática de "estrangulamento
econômico total" desde 2023, que negou oportunidades de subsistência,
destruiu infraestrutura civil e agrícola, intensificou o controle sobre os
recursos e o sistema bancário e prejudicou a capacidade das instituições
públicas de fornecer serviços básicos.
Em
setembro de 2025, Smotrich afirmou que empregaria todos os meios possíveis
"para evitar o perigo de um Estado palestino, incluindo provocar o colapso
da Autoridade Palestina... por meio do estrangulamento econômico".
A
revogação em massa de autorizações de trabalho deixou trabalhadores e suas
famílias sem uma renda estável. Isso se reflete nos dados da Cisjordânia
citados no relatório. A taxa de desemprego, por exemplo, subiu de 13,1% em 2022
para 31,3% em 2024, e em 2025, quase metade de todos os jovens não estava
empregada nem matriculada em cursos de educação ou formação profissional.
A
ONU estimou que, em 2024,
700 mil palestinos na Cisjordânia precisariam de assistência para comprar
alimentos, um aumento de 17% em relação ao ano anterior.
Desde
outubro de 2023, Israel também intensificou os ataques contra diversas
organizações e associações palestinas na Cisjordânia. Grupos comunitários e de
base, bem como organizações que protegem trabalhadores, pessoas necessitadas e
crianças, têm sofrido frequentes invasões a seus escritórios, fechamento
forçado, assédio sistemático e prisão de funcionários, voluntários e ativistas
sem justa causa.
A
Cogat, unidade militar israelense responsável por supervisionar a política
civil na Cisjordânia e em Gaza, foi contatada para comentar o assunto.
Em
entrevista concedida para coincidir com a publicação do relatório, Kareem
Jubran, chefe da pesquisa de campo da B'Tselem na Cisjordânia, afirmou: “O que
descobrimos é que não se tratam de incidentes isolados. Todos os elementos
díspares compartilham uma mesma natureza, um mesmo objetivo. Ao analisarmos o
quadro geral, chegamos a uma conclusão: o objetivo principal é eliminar os
palestinos como um coletivo.”
Yuli
Novak, diretor executivo da B'Tselem, disse: “O que estamos dizendo no
relatório é que isso está em andamento. O projeto já existia antes, mas agora
estamos em uma nova fase.
“Tudo
começou no final de 2022, com a mudança de governo [para uma coligação de
direita e extrema-direita], e vimos uma escalada acentuada após outubro de
2023. Estamos falando de um ataque à vida palestina na Cisjordânia que mudou de
escala. Há também uma mudança quantitativa, tornando a Cisjordânia cada vez
mais inabitável para muitos palestinos.”
Novak
descreveu o plano de Smotrich de 2017 como o "projeto principal".
"Ele mostra o caminho ideológico e operacional para chegar ao que chamamos
de eliminação", disse ele. "E ele chama isso de vitória por meio de
assentamentos. Vencer de forma definitiva para que nada [como um Estado
palestino] possa acontecer depois."
Fonte: DW Brasil/Sputnik Brasil/The Guardian

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