As corporações de mídia brincam de novo com o
fogo do fascismo
É errática, por vocação, a caminhada das
corporações de mídia até aqui, quando estamos a três semanas do primeiro turno
em 4 de outubro. É confusa porque parte das organizações ainda aposta no
imponderável da alternativa da terceira via ou em algum milagre que possa
livrá-los de Lula e de Flávio Bolsonaro.
Mas como será a postura das corporações no
segundo turno, considerando-se os muitos fatores envolvidos, entre os quais a
submissão crônica a algumas das principais pautas da extrema direita,
disfarçadas como bandeiras liberais?
O jornalismo, que às vezes escapa do controle
dos que tentam mantê-lo sob um comando quase absoluto, como aconteceu na
ditadura, andará com as próprias pernas? O jornalismo raiz será mais forte do
que o colaboracionismo e a covardia de patrões cada vez menos jornalistas?
Os menos pessimistas podem acreditar que sim.
As corporações já não estão conseguindo controlar a guerra pela busca de
informações no que ainda resta de redações, não só pela primazia do furo do
vazamento.
Não há chuchu na feira nem jornalismo sem
competição. E agora os inquéritos até aqui protegidos por André Mendonça e pela
polícia de Tarcísio de Freitas serão finalmente expostos em praça pública.
Globo, Folha e Estadão terão que optar, em
algum momento, pela preservação do que ainda acham que vendem. Venderão
informação que contribua para a democracia, ou mais acomodação e mais
acovardamento diante de um golpe?
A Globo vende jornalismo e entretenimento. Os
outros dois vendem o que estiver à mão, geralmente oferecido por algum vazador,
no amplo mercado da produção de conteúdo com matéria-prima cedida e consentida
de dentro das estruturas de Estado. E sempre preservando, como vêm fazendo, a
audiência conservadora.
É essa a audiência que há muito tempo
sustenta a grande imprensa na difícil travessia dos meios analógicos para o
mundo virtual. A escolha prioritária hoje é pela fidelização desse público, que
até anos atrás poderia ser considerado apenas conservador, mas hoje tem
conexões declaradas ou dissimuladas com a extrema direita.
Globo, Folha e Estadão continuarão brincando
com o fogo do fascismo no segundo turno, na tentativa de proteger a premissa de
que devem dar tratamentos equivalentes, em nome da democracia e das liberdades,
a um democrata e ao herdeiro do golpismo?
Os jornalões continuarão vendendo escolhas
difíceis, tratando Lula e Flávio Bolsonaro como iguais, sabendo que um procura
preservar as conquistas pós-ditadura e o outro deseja destruir o que o permite
participar de uma eleição? As corporações tentarão nos enganar com essas falsas
equivalências?
É o dilema que talvez não consuma os donos
das mídias e das suas chefias, mas mexe com seus quadros. Porque é impossível
amordaçar, a partir dos sinais emitidos pelos donos, os profissionais que
buscam informação para sobreviver num mundo ocupado nas periferias pelos
veículos chamados de independentes, progressistas ou mesmo de esquerda.
O meio ambiente do jornalismo é hoje, pelo
acirramento dessa competição com os pequenos, mais complexo do que o de 2018,
quando a grande imprensa antilulista contribuiu para a ascensão do novo
fascismo com o formato do bolsonarismo.
Globo, Folha e Estadão conseguirão controlar
seus times viciados em vazamentos ou soltarão a mão da direita que se abraçou a
um Bolsonaro qualquer como única forma de se livrar de Lula?
No segundo turno, os jornalões correrão o
risco de serem engolidos pela extrema direita, como foram até aqui as velhas
lideranças conservadoras da política tradicional, e não só o centrão e seus
vendilhões?
O mais ingênuo e desligado dos brasileiros
sabe que um segundo governo de extrema direita será muito mais devastador do
que o primeiro. Sabe que Flávio será um Jair Bolsonaro aperfeiçoado, dedicado a
corrigir os defeitos e erros do pai.
E sabe, pelas lições de Trump, que o fascismo
retorna ao poder para exercê-lo pela radicalização de posições já extremadas. A
grande imprensa brasileira terá que decidir, no segundo turno, se continuará
pulando a fogueira do bolsonarismo.
• O
STF, o cinismo e a crise de confiança nas instituições. Por João Antonio da
Silva Filho
O cinismo pode ser compreendido como a
atitude de quem age com descaramento, desprezo pelas normas morais e
indiferença diante dos valores coletivamente reconhecidos. Manifesta-se quando
alguém mente ou pratica uma falta sem demonstrar arrependimento, constrangimento
ou pudor. Em sua expressão mais evidente, consiste em negar fatos conhecidos,
mesmo diante de provas incontestáveis, recorrendo à frieza, à ironia ou ao
deboche para fugir da responsabilidade.
Não se trata apenas de uma falha individual
de caráter. Quando o cinismo se converte em método de atuação pública, ele
adquire dimensão institucional e contamina todo o universo do poder. Passa a
corroer a confiança social, enfraquecer a autoridade das regras e disseminar a
percepção de que os princípios valem apenas para os outros. É a conhecida
máxima: “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.
Infelizmente, esse comportamento está
presente, todos os dias, na atuação de parte dos agentes públicos brasileiros.
Discursa-se em defesa da moralidade, mas age-se em benefício próprio. Invoca-se
a legalidade contra os adversários, mas relativizam-se as normas quando elas
alcançam aliados. Exige-se transparência dos outros enquanto se cultivam zonas
de sombra nos próprios atos. O cinismo político nasce justamente dessa
distância deliberada entre o discurso e a prática.
Nesse ambiente, falar com autenticidade e
revelar o que verdadeiramente se pensa pode ser tratado como uma espécie de
“sincericídio”. A sinceridade passa a ser vista como ingenuidade, enquanto a
dissimulação recebe nomes mais elegantes: habilidade, prudência, inteligência
estratégica ou capacidade de antecipar cenários. Aos poucos, representar aquilo
que não se é transforma-se em atributo de quem deseja sobreviver e prosperar na
vida pública. Qualquer semelhança com alguns personagens da política brasileira
não é mera coincidência. E há, aqui, uma dose deliberada de ironia.
É evidente que a política exige diálogo,
prudência, negociação e compreensão das circunstâncias. Nem toda prudência é
dissimulação, assim como nem todo compromisso representa renúncia aos
princípios. A convivência democrática pressupõe concessões legítimas, a
construção de soluções possíveis e a celebração de acordos entre pessoas e
grupos que pensam de maneiras diferentes. O problema surge quando a habilidade
política deixa de servir ao interesse público e passa a encobrir conveniências
pessoais, incoerências deliberadas e interesses inconfessáveis.
O cinismo na política não é um fenômeno
recente. Ele atravessa épocas, governos e correntes ideológicas. Sua repetição,
contudo, não pode torná-lo aceitável. Quando uma sociedade se acostuma à
mentira, à encenação e à incoerência, reduz sua capacidade de indignação. O
absurdo deixa de causar espanto, e aquilo que deveria ser exceção passa a
integrar a rotina do poder.
O risco é ainda maior quando essa cultura
alcança as instituições de Estado. Instituições como o Supremo Tribunal
Federal, os demais tribunais, o Ministério Público, os órgãos de controle e o
Parlamento desempenham funções essenciais à democracia. Exatamente por isso,
devem estar permanentemente abertas à crítica pública, ao escrutínio social e
ao aperfeiçoamento de suas práticas. Defender as instituições não significa
considerar seus integrantes infalíveis nem aceitar suas decisões sem
questionamento. Significa exigir que atuem conforme a Constituição e estejam
submetidos às mesmas regras cuja observância exigem de toda a sociedade, sem
privilégios.
A segurança jurídica não depende apenas do
conteúdo das decisões. Ela exige respeito aos ritos, ao devido processo legal,
ao contraditório, à ampla defesa, à imparcialidade e ao dever de motivação dos
atos praticados pelos agentes públicos. Quando os procedimentos são
flexibilizados conforme a identidade dos envolvidos, as conveniências do
momento ou o resultado pretendido, abre-se espaço para a percepção de que as
regras deixaram de orientar o exercício do poder e passaram a servi-lo.
Não se deve, porém, confundir a crítica a uma
decisão ou à conduta de um agente com a deslegitimação da própria instituição.
Essa distinção é fundamental. As instituições democráticas precisam ser
preservadas justamente para que possam ser corrigidas, fiscalizadas e
fortalecidas. O personalismo — seja para atacar, seja para defender —
enfraquece a impessoalidade que deve caracterizar o Estado Democrático de
Direito.
O cinismo institucional instala-se quando os
princípios são proclamados solenemente, mas aplicados de maneira seletiva;
quando se exige coerência dos cidadãos, mas se tolera a incoerência dos
poderosos; quando as formalidades são tratadas como indispensáveis em alguns
casos e como obstáculos descartáveis em outros, sobretudo quando envolvem
adversários. Nessa situação, a força normativa da Constituição cede lugar à
lógica da conveniência.
A confiança pública é um patrimônio
democrático difícil de construir e muito fácil de destruir. Quando o cidadão
conclui que os discursos oficiais não correspondem às práticas, que as regras
mudam conforme os interesses ou que determinados atores estão acima da lei,
cresce a descrença na política e no próprio Estado. Esse terreno é fértil para
o autoritarismo, para o populismo antissistema e para aqueles que exploram a
frustração coletiva com falsas soluções simples.
Melhorar a política e fortalecer as
instituições brasileiras exige, portanto, combater a normalização do cinismo e
da dissimulação. Isso pressupõe submeter o poder à Constituição, conferir
previsibilidade às decisões, assegurar tratamento isonômico, respeitar os
procedimentos e tornar efetiva a responsabilidade de quem exerce funções
públicas.
A democracia não exige governantes,
parlamentares, magistrados ou agentes de controle perfeitos. Exige, porém, que
nenhum deles se considere infalível ou isento de prestar contas de seus atos.
Exige coerência entre discurso e prática, limites ao exercício do poder e
disposição para reconhecer e corrigir erros.
Quando o cinismo contamina aqueles que
comandam a nação ou dirigem suas instituições, não perde apenas este ou aquele
grupo político. Perde a sociedade. Perde a democracia. Perde o Brasil.
Fiquemos atentos ao processo eleitoral em
curso e aos desdobramentos da crise que atinge o STF.
• Direita
brasileira em crise. Por Emir Sader
Foi tudo muito rápido, entre as declarações
eufóricas de Flávio Bolsonaro, apoiado em pesquisas que lhe eram favoráveis, já
quase como futuro presidente do Brasil, e a situação atual.
A abertura de todos os arquivos ligados ao
caso do Master trouxe novas denúncias, ainda mais graves, sobre as relações do
Flávio com o Vorcaro e as informações sobre o financiamento do filme “Dark
Horse”, com, entre outras, as denúncias evidentes do desvio de dinheiro para o
irmão do Flávio nos Estados Unidos.
Até que se chegasse a um editorial do Estadão
em que se afirma que Flávio não teria mais condições de ser candidato à
presidência da república. Além de outras dissidências na direita, entre elas a
declaração de Cury que, segundo pesquisas, teria 8%, de que não apoiará o
Flávio em um eventual segundo turno. A própria incapacidade de Flávio para
conseguir receber apoio de pelo menos um partido da direita ou da extrema
direita já revelava o seu isolamento político.
Haveria margem para a mudança do candidato?
Haveria poucos dias, só até o dia 16, para mudar o candidato. É pouco tempo
para que o pai do Flávio mudasse sua preferência, sempre reafirmada, por esse
seu filho. E, considerando que a direita aderiu ao bolsonarismo, está
prisioneira dessa adesão e, em especial, às preferências do Bolsonaro, que até
aqui não mostrou nenhum sinal de que poderia mudar de opinião.
Tarcísio, que poderia ter mais força como
candidato, já foi descartado por Bolsonaro, que prefere alguém da família. A
Michelle foi duramente atacada pelo Flávio, temendo que ela pudesse ser
escolhida pelo país como candidata alternativa. A reaparição dela mostrou que
ela poderia ser uma candidata sem as acusações – até aqui, pelo menos – do
Flávio e certa frescura como imagem, também pelo trabalho que ela fez entre as
mulheres, onde o Lula tem sua mais alta preferência.
As alternativas da direita, nessas condições,
não tem tu, vai tu mesmo: permanecer com o Flávio, apesar de tudo, mesmo
considerando que o seu desgaste na opinião pública e nas pesquisas deve se
refletir negativamente nas pesquisas.
Depois de pesquisas que davam resultados
favoráveis a ele, surgiu uma pesquisa do Datafolha que retomava a liderança do
Lula, brecando a euforia do Flávio e dos bolsonaristas.
A construção de uma alternativa requereria um
aceno do Bolsonaro de que abandonaria o Flávio e apontaria outro nome,
perspectiva sobre a qual não há, até agora, nenhum indício.
Uma mudança de candidato, que tem esse
obstáculo no lado do bolsonarismo, tem também a dificuldade de que vários dos
pequenos candidatos se assanhariam com a perspectiva de que herdassem votos do
Flávio, em queda. Mesmo o Cury, que aparece com mais votos nas pesquisas, com
declarações desastrosas, em especial sobre as mulheres, teria muitas
dificuldades para reunificar a direita.
Com esse novo cenário, em que as hostes do
Lula reconquistam a confiança, a direita brasileira está em uma sinuca de bico.
Com prazo curto para tomar decisão e sem um comando – que só poderia ser do
Bolsonaro, que até aqui não demonstra mudar de opinião – é provável que o
cenário atual se consolide, com a reiteração das últimas denúncias, muito
pesadas para o Flávio.
A mais provável perspectiva, então, é a
consolidação da liderança do Lula nas pesquisas e o desgaste da candidatura do
Flávio, a poucas semanas do primeiro turno.
Fonte: Por Moisés Mendes, em Brasil 247

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