Brasil: reis e rainhas em qualquer mocó
O Brasil precisa proclamar a República!
Falando sério: vivemos numa república? Ora, a monarquia está muito mais
presente nas falas cotidianas do que a república. Aqui, tivemos o rei do
futebol e ainda temos a rainha, Marta, uma craque. Rei e rainha… por que essa
insistência em nomear assim não só as pessoas que se destacam como excelentes
em alguma coisa como as que dominam a produção de certas coisas.
Praticamente todos os dias ouvimos falar de
algum rei ou rainha. Na música caipira e depois numa novela da Globo, tivemos o
Rei do Gado, que na moda de viola competia com o Rei do Café. Em termos
nacionais, o Brasil falava do rei da soja, por exemplo, Olacyr de Moraes. Mas
em termos municipais, cada município especializado em alguma produção
(principalmente agrícola) tem sua nobreza local: Rainha e princesas do morango,
do abacaxi, do café…
Às vezes nem é de algum produto agrícola, é
de uma atividade qualquer, como a rainha do rodeio. Ah, tem também lugar em que
a rainha não é uma pessoa, mas a própria cidade, como Caicó, no Rio Grande do
Norte, proclamada como Rainha do Seridó; Uruana (Goiás), Rainha da Melancia… E
tem cidade que é “rainha” de uma região ou uma coisa qualquer. Campina Grande
(PB), por exemplo, é Rainha da Borborema. Podia se proclamar como “Capital da
Borborema”, mas prefere ser rainha. Bagé (RS) é Rainha da Fronteira, Quixadá
(CE) é Rainha do Sertão, e São Bento do Sapucaí (SP) se diz Rainha da
Mantiqueira. Gozado que nessas coisas não existem reis, só rainhas. Enfim,
temos um reinado feminista, hein? Lembra formigueiro ou colmeia, que só têm
rainhas.
Nos esportes e na música, aí sim, já
parecemos como um cupinzeiro, pois cada cupinzeiro tem um casal real, rei e
rainha, que se reproduzem aos milhares ou milhões, sei lá. Bom, sem tantas
reproduções, esportistas e músicos brasileiros podem ter seu reinado também.
Basta lembrar o rei da juventude, Roberto Carlos, e a rainha Wanderléa. Luiz
Gonzaga era o rei do baião e Chico Alves o rei da voz. Xuxa, a rainha dos
baixinhos; Raul Seixas e Rita Lee não eram um casal, mas na mídia eram chamados
como tal: rei e rainha do rock brasileiro. O pagode tem um rei que eu fiquei
sabendo há pouco, nunca tinha ouvido falar, Péricles. A sofrência tinha a
rainha Marília Mendonça e o samba está dividido: quem será a rainha, Elza
Soares ou Alcione? Cada “súdito” da mídia prefere uma delas.
Tinha começado a falar do futebol, volto aos
esportes, com Hortência, que na monarquia midiática imperava no basquete,
enquanto Éder Jofre era rei do boxe, mas atualmente um tal de Todo Duro,
pugilista do Nordeste, é chamado de rei do ringue. Gustavo Kuerten o do
tênis.
Volto aos gêneros musicais, com Anitta e
Daniela Mercury consideradas rainhas do pop, e se Daniela Mercury não vencer
esta, pode se consolar sendo rainha do axé. Wilson Simonal, antes de cair em
desgraça, acusado de ser informante da ditadura (que pode não ter sido, mas ele
mesmo é que disse que tinha amigos no Dops) era o rei da pilantragem.
Continuando nos gêneros musicais, Pinduca é chamado de rei do carimbo,
Reginaldo Rossi era o rei do brega. Gretchen continua sendo chamada de rainha
do bumbum ou rainha do rebolado. Uma irmã dela, Sula Miranda, pelo simples fato
de ter cantado um música sobre caminhoneiros, se intitulou rainha deles.
Hebe Camargo era chamada de rainha da TV
brasileira, enquanto Sílvio Santos era o rei das manhãs (não se porquê – o
programa dele era mais à tarde e à noite). E até gente admirável, certamente
não monarquista, às vezes é alçada à nobreza, como Sônia Braga, chamada de
rainha do cinema nacional, Cacilda Becker e Bibi Ferreira que foram chamadas de
rainhas do teatro brasileiro. Na sociologia, não tivemos um rei, mas FHC era
chamado de príncipe da sociologia brasileira.
Baixando um pouco mais na nobiliarquia,
tivemos os barões do café, o autointitulado conde Chiquinho Scarpa… e falando
em autointitulado, taí um “nobre” que gosto: Barão de Itararé.
Um rei que causou rebuliço foi o do cangaço,
o Lampião. E lembro de um rei municipal da minha terra: um ferreiro se dizia
rei do martelo.
Nem o carnaval, que deveria ser uma baderna
anarquista, escapa: temos o Rei Momo e, nas escolas de samba, a rainha da
bateria. Enfim, dá para listar uma porrada de reis e rainhas nesta república
mambembe.
E lembro ainda uma coisa interessante: os
bairros de ricos também têm pretensões monárquicas, chamados de bairros nobres.
Por sinal, ficam em “áreas nobres” das cidades. Mas tem também umas rainhas
mequetrefes, metidas a besta, pretensiosas, que por isso são chamadas de
rainhas da cocada.
Eu achava que hotéis eram exceção: neles há
“suítes presidenciais” em que nunca entrei, mas fiquei sabendo que existem
também hotéis com “suítes imperiais”. Por sinal, no Oriente Médio tem hotel com
suíte presidencial e suíte imperial. A presidencial é grande e cheia de coisas,
como aqui. E a imperial é maior ainda, com vista mais privilegiada.
<>< Saudosismo monarquista
Desde criancinha o brasileiro é treinado para
achar que a monarquia é boa. Nas fábulas, as princesas são bonitas e boazinhas,
e as maldades atribuídas aos reis são na verdade cometidas por auxiliares dele
(vizires, ministros). Quando descobre um malvado na corte, o rei logo o
castiga. O rei nunca sabe de nada de ruim que acontece no seu reino.
De vez em quando vejo até intelectuais
defendendo a monarquia. Dizem que sai mais barato e tem mais estabilidade, não
há brigas causadas por disputas eleitorais. Parece que não leram nada sobre as
monarquias. Basta procurar saber o que acontece ou aconteceu em monarquias hoje
badaladas por saudosistas para ver que nelas filho matava pai, irmão matava
irmão, prendiam irmãs… valia/vale tudo para conquistar o trono e se manter
nele. Há séries na TV paga que mostram muito disso nas monarquias inglesa e
espanhola, por exemplo. Uma bandidagem inigualável, pior do que qualquer
eleição.
E custam caro. Famílias inteiras vivem à
custa do erário público, uma vida à larga, milhões e milhões para sustentar
cada membro, e não só da família real: tem a nobreza toda mamando na grana do
Estado.
Aqui no Brasil, tem a história do golpe que
foi a Proclamação da República. Sim, um golpe que tirou do trono Dom Pedro II,
culto e “bonzinho”, e sua substituta Princesa Isabel. Acreditando que eles eram
mesmo bons e cultos, precisamos relembrar que o Conde D’Eu, marido da princesa
até podia ser culto, mas que caráter! Mandado para comandar os brasileiros na
Guerra do Paraguai, foi odiado pelos próprios militares, que o mandaram de
volta pro Rio, por causa de atrocidades causadas. E era um pão-duro! Tinha um
cortiço no Rio de Janeiro, famoso por suas más condições. Calcula-se que duas
mil pessoas moravam lá, pagando aluguel ao conde. No portal de entrada do
cortiço havia uma cabeça de porco de bronze, e as pessoas que moravam lá diziam
que moravam na cabeça de porco. E cabeça de porco virou sinônimo de cortiço, no
Rio.
Ah, e os herdeiros? Depois da Princesa
Isabel, seus descendentes herdariam o trono. Seriam bons, humanistas? Bem, tá
aí o deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança, bolsonarista
extremado, para a gente pensar.
Se o Brasil fosse uma monarquia estaria
melhor? Citam como exemplo de ruindade da República o Congresso Nacional, que é
mesmo uma trolha atualmente, ocupado por uma grande maioria de pessoas
desqualificadas, mas ele existiria também numa monarquia constitucional. Ou
será que pretendem uma monarquia absoluta, sem deputados e senadores?
Juntei frases sobre a monarquia, que fui
acumulando em leituras diversas, e é de surpreender que até entre filósofos
existem monarquistas. Mas eu não levo a maioria deles a sério. Admiro muito uma
minoria deles, e mesmo estes que não levo tão a sério têm frases interessantes
sobre outros assuntos. Mas na questão monarquia… vade retro!
Fonte: Por Mouzar Benedito, no Blog da
Boitempo

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