terça-feira, 15 de setembro de 2026

Brasil: reis e rainhas em qualquer mocó

O Brasil precisa proclamar a República! Falando sério: vivemos numa república? Ora, a monarquia está muito mais presente nas falas cotidianas do que a república. Aqui, tivemos o rei do futebol e ainda temos a rainha, Marta, uma craque. Rei e rainha… por que essa insistência em nomear assim não só as pessoas que se destacam como excelentes em alguma coisa como as que dominam a produção de certas coisas. 

Praticamente todos os dias ouvimos falar de algum rei ou rainha. Na música caipira e depois numa novela da Globo, tivemos o Rei do Gado, que na moda de viola competia com o Rei do Café. Em termos nacionais, o Brasil falava do rei da soja, por exemplo, Olacyr de Moraes. Mas em termos municipais, cada município especializado em alguma produção (principalmente agrícola) tem sua nobreza local: Rainha e princesas do morango, do abacaxi, do café… 

Às vezes nem é de algum produto agrícola, é de uma atividade qualquer, como a rainha do rodeio. Ah, tem também lugar em que a rainha não é uma pessoa, mas a própria cidade, como Caicó, no Rio Grande do Norte, proclamada como Rainha do Seridó; Uruana (Goiás), Rainha da Melancia… E tem cidade que é “rainha” de uma região ou uma coisa qualquer. Campina Grande (PB), por exemplo, é Rainha da Borborema. Podia se proclamar como “Capital da Borborema”, mas prefere ser rainha. Bagé (RS) é Rainha da Fronteira, Quixadá (CE) é Rainha do Sertão, e São Bento do Sapucaí (SP) se diz Rainha da Mantiqueira. Gozado que nessas coisas não existem reis, só rainhas. Enfim, temos um reinado feminista, hein? Lembra formigueiro ou colmeia, que só têm rainhas. 

Nos esportes e na música, aí sim, já parecemos como um cupinzeiro, pois cada cupinzeiro tem um casal real, rei e rainha, que se reproduzem aos milhares ou milhões, sei lá. Bom, sem tantas reproduções, esportistas e músicos brasileiros podem ter seu reinado também. Basta lembrar o rei da juventude, Roberto Carlos, e a rainha Wanderléa. Luiz Gonzaga era o rei do baião e Chico Alves o rei da voz. Xuxa, a rainha dos baixinhos; Raul Seixas e Rita Lee não eram um casal, mas na mídia eram chamados como tal: rei e rainha do rock brasileiro. O pagode tem um rei que eu fiquei sabendo há pouco, nunca tinha ouvido falar, Péricles. A sofrência tinha a rainha Marília Mendonça e o samba está dividido: quem será a rainha, Elza Soares ou Alcione? Cada “súdito” da mídia prefere uma delas. 

Tinha começado a falar do futebol, volto aos esportes, com Hortência, que na monarquia midiática imperava no basquete, enquanto Éder Jofre era rei do boxe, mas atualmente um tal de Todo Duro, pugilista do Nordeste, é chamado de rei do ringue. Gustavo Kuerten o do tênis. 

Volto aos gêneros musicais, com Anitta e Daniela Mercury consideradas rainhas do pop, e se Daniela Mercury não vencer esta, pode se consolar sendo rainha do axé. Wilson Simonal, antes de cair em desgraça, acusado de ser informante da ditadura (que pode não ter sido, mas ele mesmo é que disse que tinha amigos no Dops) era o rei da pilantragem. Continuando nos gêneros musicais, Pinduca é chamado de rei do carimbo, Reginaldo Rossi era o rei do brega. Gretchen continua sendo chamada de rainha do bumbum ou rainha do rebolado. Uma irmã dela, Sula Miranda, pelo simples fato de ter cantado um música sobre caminhoneiros, se intitulou rainha deles.

Hebe Camargo era chamada de rainha da TV brasileira, enquanto Sílvio Santos era o rei das manhãs (não se porquê – o programa dele era mais à tarde e à noite). E até gente admirável, certamente não monarquista, às vezes é alçada à nobreza, como Sônia Braga, chamada de rainha do cinema nacional, Cacilda Becker e Bibi Ferreira que foram chamadas de rainhas do teatro brasileiro. Na sociologia, não tivemos um rei, mas FHC era chamado de príncipe da sociologia brasileira.

Baixando um pouco mais na nobiliarquia, tivemos os barões do café, o autointitulado conde Chiquinho Scarpa… e falando em autointitulado, taí um “nobre” que gosto: Barão de Itararé. 

Um rei que causou rebuliço foi o do cangaço, o Lampião. E lembro de um rei municipal da minha terra: um ferreiro se dizia rei do martelo.

Nem o carnaval, que deveria ser uma baderna anarquista, escapa: temos o Rei Momo e, nas escolas de samba, a rainha da bateria. Enfim, dá para listar uma porrada de reis e rainhas nesta república mambembe. 

E lembro ainda uma coisa interessante: os bairros de ricos também têm pretensões monárquicas, chamados de bairros nobres. Por sinal, ficam em “áreas nobres” das cidades. Mas tem também umas rainhas mequetrefes, metidas a besta, pretensiosas, que por isso são chamadas de rainhas da cocada. 

Eu achava que hotéis eram exceção: neles há “suítes presidenciais” em que nunca entrei, mas fiquei sabendo que existem também hotéis com “suítes imperiais”. Por sinal, no Oriente Médio tem hotel com suíte presidencial e suíte imperial. A presidencial é grande e cheia de coisas, como aqui. E a imperial é maior ainda, com vista mais privilegiada. 

<>< Saudosismo monarquista

Desde criancinha o brasileiro é treinado para achar que a monarquia é boa. Nas fábulas, as princesas são bonitas e boazinhas, e as maldades atribuídas aos reis são na verdade cometidas por auxiliares dele (vizires, ministros). Quando descobre um malvado na corte, o rei logo o castiga. O rei nunca sabe de nada de ruim que acontece no seu reino. 

De vez em quando vejo até intelectuais defendendo a monarquia. Dizem que sai mais barato e tem mais estabilidade, não há brigas causadas por disputas eleitorais. Parece que não leram nada sobre as monarquias. Basta procurar saber o que acontece ou aconteceu em monarquias hoje badaladas por saudosistas para ver que nelas filho matava pai, irmão matava irmão, prendiam irmãs… valia/vale tudo para conquistar o trono e se manter nele. Há séries na TV paga que mostram muito disso nas monarquias inglesa e espanhola, por exemplo. Uma bandidagem inigualável, pior do que qualquer eleição. 

E custam caro. Famílias inteiras vivem à custa do erário público, uma vida à larga, milhões e milhões para sustentar cada membro, e não só da família real: tem a nobreza toda mamando na grana do Estado. 

Aqui no Brasil, tem a história do golpe que foi a Proclamação da República. Sim, um golpe que tirou do trono Dom Pedro II, culto e “bonzinho”, e sua substituta Princesa Isabel. Acreditando que eles eram mesmo bons e cultos, precisamos relembrar que o Conde D’Eu, marido da princesa até podia ser culto, mas que caráter! Mandado para comandar os brasileiros na Guerra do Paraguai, foi odiado pelos próprios militares, que o mandaram de volta pro Rio, por causa de atrocidades causadas. E era um pão-duro! Tinha um cortiço no Rio de Janeiro, famoso por suas más condições. Calcula-se que duas mil pessoas moravam lá, pagando aluguel ao conde. No portal de entrada do cortiço havia uma cabeça de porco de bronze, e as pessoas que moravam lá diziam que moravam na cabeça de porco. E cabeça de porco virou sinônimo de cortiço, no Rio.

Ah, e os herdeiros? Depois da Princesa Isabel, seus descendentes herdariam o trono. Seriam bons, humanistas? Bem, tá aí o deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança, bolsonarista extremado, para a gente pensar. 

Se o Brasil fosse uma monarquia estaria melhor? Citam como exemplo de ruindade da República o Congresso Nacional, que é mesmo uma trolha atualmente, ocupado por uma grande maioria de pessoas desqualificadas, mas ele existiria também numa monarquia constitucional. Ou será que pretendem uma monarquia absoluta, sem deputados e senadores?

Juntei frases sobre a monarquia, que fui acumulando em leituras diversas, e é de surpreender que até entre filósofos existem monarquistas. Mas eu não levo a maioria deles a sério. Admiro muito uma minoria deles, e mesmo estes que não levo tão a sério têm frases interessantes sobre outros assuntos. Mas na questão monarquia… vade retro!

 

Fonte: Por Mouzar Benedito, no Blog da Boitempo

 

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