terça-feira, 15 de setembro de 2026

Ciro Nogueira oferece terreno de valor contestado ao STF para tentar reaver jatinho, BMW e R$ 10 milhões

A defesa do senador Ciro Nogueira (PP-PI) apresentou um pedido ao Supremo Tribunal Federal (STF) para reaver um jatinho, um automóvel de luxo da marca BMW e cerca de R$ 10 milhões em ativos financeiros que foram bloqueados e apreendidos pelas autoridades. Em contrapartida para obter a liberação do patrimônio, o parlamentar ofereceu à Justiça um imóvel localizado em Teresina (PI) e o acréscimo de R$ 3 milhões em dinheiro, informa a Folha de São Paulo.

Os bens do parlamentar foram alvo de restrições no âmbito da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF). A investigação apura se o presidente do PP e ex-ministro da Casa Civil durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL) recebia uma quantia mensal de R$ 500 mil paga pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, que se encontra preso sob suspeita de integrar um esquema de fraude bilionária contra o sistema financeiro nacional.

O pedido para a troca das garantias e o consequente desbloqueio dos valores e bens foi protocolado em junho deste ano e endereçado ao ministro André Mendonça, relator do caso no STF, que ainda não proferiu uma decisão sobre a solicitação. A defesa do senador alega que o terreno oferecido, composto por quatro lotes que somam 6,9 mil metros quadrados, estaria avaliado em cerca de R$ 19 milhões, com base na média de três avaliações privadas anexadas ao processo.

Entretanto, a Procuradoria-Geral da República (PGR) contestou os valores apresentados e manifestou-se contrária à substituição das garantias. O órgão identificou uma expressiva divergência entre os montantes registrados nas escrituras oficiais de compra e venda dos lotes e as avaliações produzidas de forma unilateral pelos requerentes.

Segundo documentos de compra e venda, a empresa CNFL — que pertence a Ciro Nogueira e também é investigada na ação — adquiriu os quatro lotes em 2023, incluindo uma residência construída no local, pelo valor total de R$ 3,3 milhões. Dessa forma, a avaliação apresentada pela defesa ao STF para tentar liberar o patrimônio do senador representa uma quantia quase seis vezes superior ao preço pago pela compra do terreno três anos antes.

A proposta de substituição foi protocolada tanto pelos advogados de defesa do senador quanto pela equipe jurídica da empresa CNFL. Embora sejam representadas por escritórios distintos, as duas defesas submeteram petições idênticas, utilizando o mesmo imóvel em Teresina, os mesmos laudos de avaliação mercadológica e a oferta adicional dos R$ 3 milhões caso a Justiça considere o imóvel insuficiente para atingir a meta estipulada.

A petição apresentada por Ciro Nogueira solicita a devolução de um veículo BMW modelo M440I, de um jatinho modelo Beechcraft King Air B200 (com capacidade para até sete passageiros), o desbloqueio de suas contas bancárias, aplicações e de todos os outros imóveis registrados em seu nome — sem pormenorizar a localização, o detalhamento ou a valoração dessas outras propriedades.

Segundo o relatório formulado pela Polícia Federal, as investigações apontam indícios de que o senador usou sua influência política no Congresso Nacional para beneficiar Vorcaro. Entre as ações apuradas está a articulação da chamada “emenda Master”, medida que visava expandir a oferta de ativos pela instituição financeira, mas que acabou não sendo aprovada pelo Legislativo. Na ocasião das buscas, Nogueira declarou que a operação policial tratava-se de uma tentativa de ferir sua honra.

Ao determinar os desdobramentos da operação, o ministro André Mendonça fixou o teto de bloqueio de até R$ 18,5 milhões para cada um dos investigados. Durante o cumprimento dos mandados, os agentes da PF apreenderam uma motocicleta e um carro BMW na residência do parlamentar em Brasília, enquanto a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) efetivou o bloqueio da aeronave do senador.

Em relatório atualizado no início de agosto, a Polícia Federal informou ter consolidado o bloqueio financeiro de mais de R$ 10,2 milhões vinculados a Ciro Nogueira, quantia que engloba contas correntes, aplicações e ações. O documento ressalta ainda que a ordem judicial atingiu a totalidade dos veículos e propriedades imobiliárias dos investigados no país. No caso da empresa CNFL, foram bloqueados R$ 300 mil em conta bancária e um contrato de consórcio.

Diante do pedido, a defesa da empresa alega ter havido um “excesso de bloqueio”, sustentando que o valor total retido superaria o teto de R$ 18,5 milhões estabelecido pelo relator, embora não tenha detalhado os cálculos ou a soma dos valores congelados na peça jurídica. O mesmo argumento de excesso foi apresentado pelos advogados do senador no dia seguinte.

Ao analisar a petição, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, rejeitou a proposta de troca, destacando a falta de liquidez dos bens imóveis apresentados e ressaltando que a manutenção da indisponibilidade patrimonial busca impedir a prossecução de eventuais práticas ilícitas, além de reforçar a gravidade dos fatos apurados no âmbito do Caso Master. Procurada para se manifestar sobre os questionamentos das avaliações e da divergência de valores, a assessoria do senador não apresentou resposta.

•        PF aponta “linha de montagem” de documentos falsos no Banco Master

O Banco Master teria organizado uma “linha de montagem” com dados reais de clientes, ferramentas do Microsoft Office, programas desenvolvidos pela área de tecnologia e edição de PDFs para dar sustentação documental a R$ 7,15 bilhões em créditos fictícios. Segundo relatório técnico-pericial da Polícia Federal, a estrutura buscava conferir aparência legítima a carteiras atribuídas à Tirreno Consultoria e posteriormente negociadas com o Banco de Brasília (BRB).

As conclusões constam de documentos obtidos pelo g1, que detalhou nesta segunda-feira (14) o conteúdo de uma apresentação apreendida pela PF na área de tecnologia do Master. Intitulado “Investigações internas – Banco Master”, o arquivo tinha 30 slides e registrava atividades realizadas entre 18 de junho e 24 de outubro de 2025.

De acordo com a investigação, a Tirreno teria funcionado como empresa de fachada em uma operação triangular. A companhia formalizava cessões simuladas de crédito consignado ao Master, que, por sua vez, utilizava as carteiras supostamente sem lastro para repassá-las ao BRB.

O processo começava com a extração de informações de clientes que já haviam contratado operações legítimas. Em seguida, os dados eram inseridos em procurações e outros documentos produzidos em larga escala. Páginas de assinaturas eram separadas de arquivos anteriores, datas eram retiradas e diferentes peças acabavam reunidas em novos PDFs.

A perícia encontrou ainda discussões internas sobre a alteração de comprovantes bancários e sobre possíveis explicações para inconsistências identificadas por auditores. Apesar das modificações visuais, os registros digitais preservados nos arquivos permitiram à PF reconstruir a cronologia da documentação.

<><> Dados antigos alimentaram novos documentos

Funcionários do Master teriam recorrido a informações armazenadas nos sistemas internos, inclusive de clientes do CredCesta, modalidade de crédito consignado voltada a servidores públicos, aposentados e pensionistas.

Em 2 de julho de 2025, Fabrizio Pereira Alencar, então coordenador de Controles do Back Office, solicitou ao analista de projetos sênior Vinicius Lucas Trentino um levantamento de CPFs por meio do Microsoft Teams. Os números foram reunidos em um arquivo CSV e cruzados com o banco de dados interno.

O resultado da consulta foi exportado para uma planilha que continha nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe dos clientes. O arquivo foi encaminhado à equipe em 3 de julho e, conforme a PF, serviu de base para a elaboração dos documentos.

Conversas internas indicam que os próprios integrantes da área de tecnologia identificaram falhas na seleção dos registros. Em uma troca de mensagens de 20 de junho, Rafael Manfrin da Silva observou que havia na relação o CPF de uma pessoa com apenas uma proposta, registrada em 2019.

“Aí deu merda então / porque tem um CPF nesse meio aqui que só teve uma proposta em 2019 / está meio furada essa lista aí”, afirmou Rafael, conforme a mensagem reproduzida na investigação.

<><> Word foi usado para produzir 2.700 procurações

Com as informações cadastrais reunidas, a equipe passou à produção dos documentos. Allan da Silva Machado, então gerente de Operações I do Back Office, utilizou o recurso de mala direta do Microsoft Word para preencher automaticamente procurações com os dados armazenados em uma planilha.

O procedimento permitiu gerar, de uma só vez, 2.700 procurações em 20 de junho de 2025. Os arquivos estavam associados a uma pasta chamada “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”.

A mala direta vincula uma planilha a um modelo de texto e substitui automaticamente os campos variáveis. No caso investigado, a ferramenta teria possibilitado a reprodução do mesmo padrão documental para milhares de clientes, com nomes e informações pessoais diferentes.

<><> Programas separavam páginas de assinatura

A montagem também contou com códigos desenvolvidos por integrantes da área de tecnologia. Segundo a perícia, Thiago Ramalho, Rafael Manfrin da Silva e Renato M. participaram da criação de aplicações em linguagem C#, armazenadas no repositório do GitHub utilizado pelo Banco Master.

Uma dessas ferramentas havia sido programada para extrair somente a segunda página de arquivos PDF, justamente aquela em que apareciam as assinaturas dos documentos originais.

A PF também identificou um arquivo compactado denominado “erros-whatsapp.zip”. Enviado por Anderson Juliano Caspinelli Garcia a Moacir Lourenço da Silva Junior, o pacote reunia 1.833 PDFs com páginas de assinatura separadas de Termos de Consentimento.

Essas folhas, segundo a apuração pericial, podiam ser aproveitadas na montagem de novos conjuntos documentais, conferindo-lhes aparência de autenticidade.

<><> Assinaturas digitais expuseram diferença nas datas

Outra parte da operação envolveu Cédulas de Crédito Bancário, conhecidas como CCBs. Lotes desses documentos foram retirados do sistema interno e distribuídos entre quatro operadores para assinatura digital.

Cada integrante da força-tarefa recebeu 675 arquivos. As assinaturas foram aplicadas com o Adobe Acrobat Reader, por meio de certificados digitais corporativos e individuais.

Os registros criptográficos, no entanto, deixaram vestígios considerados centrais pela Polícia Federal. Em um dos casos, o texto de uma CCB indicava que o documento havia sido produzido em 21 de janeiro de 2025, mas a assinatura digital registrava 20 de junho daquele ano, às 14h02min39s.

A divergência indicou à perícia que documentos apresentados como anteriores haviam sido efetivamente assinados meses depois. Como a assinatura digital preserva informações sobre o momento de sua aplicação, a mudança da data visível não foi suficiente para encobrir a cronologia.

<><> Funcionário pediu retirada de data

As mensagens analisadas pela PF mostram uma orientação explícita para eliminar informações temporais dos Termos de Consentimento. Em conversa pelo Teams, Allan Machado questionou o tratamento que seria dado a um desses arquivos e escreveu: “E precisamos excluir a data”.

A perícia apresentou como exemplo o termo associado a Genilson Lima Leal. O documento exibia originalmente a data de 24 de fevereiro de 2023, às 13h05. Em uma edição feita em 3 de julho de 2025, às 15h26, o registro foi apagado da parte visível do arquivo.

Embora a data já não aparecesse na imagem final, metadados e informações ligadas às assinaturas permitiram aos investigadores identificar a alteração e reconstituir a sequência dos eventos.

Depois das modificações, CCBs, procurações e termos eram reunidos com o programa PDF24. Cada operação passava a contar com um único dossiê, arquivado em pastas que faziam referência a lotes de 2.700, 299 e 119 amostras vinculadas à demanda BRB-Tirreno.

<><> Comprovantes bancários também seriam modificados

As tentativas de retirar informações comprometedoras alcançaram comprovantes de transferências feitas pelo Sistema de Pagamentos Brasileiro e por Pix. Em 25 de junho de 2025, Allan Machado discutiu com a funcionária Romy Goerck Gentina Klenquen a possibilidade de apagar o evento, o número do contrato e o histórico das transações.

Entre as referências que se pretendia eliminar estava a expressão “LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX”. A dificuldade, nesse caso, era reproduzir a alteração manualmente em milhares de comprovantes.

“Porra… este aparece o número de contrato… não quero o número de contrato nem o histórico”, escreveu Allan.

Romy respondeu: “Então não tem o que fazer / um ou outro eu consigo ajustar daquela outra forma, mas impossível em 2.700 comprovantes no editor”.

“Tem que dar um jeito”, insistiu Allan.

Para os investigadores, o diálogo revela tanto a intenção de retirar referências às operações originais quanto as limitações práticas da estrutura. Enquanto procurações e páginas de assinatura podiam ser processadas automaticamente, a edição gráfica de milhares de comprovantes exigia um trabalho mais complexo.

<><> Auditoria cobrou explicações sobre inconsistências

O relatório também registra a reação dos funcionários a questionamentos da Deloitte. Em 23 de junho, Fabrizio Alencar informou ao diretor Alberto Felix de Oliveira Neto que a auditoria estava cobrando esclarecimentos.

“Esse tem que falar que foi erro operacional na seleção”, respondeu Alberto, segundo a conversa reproduzida pela PF.

Dias antes, os dois haviam tratado do envio de CCBs e termos relacionados à carteira da Tirreno entre dezembro de 2024 e março de 2025. Fabrizio afirmou que uma base encaminhada anteriormente apresentava um erro e precisaria ser corrigida.

A investigação sustenta que a preocupação dos envolvidos não se limitava à produção dos documentos. A equipe também discutia como explicar eventuais divergências caso elas fossem detectadas durante a análise externa.

<><> Vorcaro pediu “kit” com 300 operações

As amostras chegaram à cúpula do Banco Master, conforme os registros reunidos pela Polícia Federal. Em 12 de junho de 2025, o proprietário da instituição, Daniel Vorcaro, solicitou ao diretor Alberto Felix um “kit dos 300 com assinatura digital”.

Alberto informou que providenciaria o material e disse que, naquele momento, tinha acesso apenas às CCBs. As procurações e os arquivos relacionados às assinaturas seriam encaminhados por Allan Machado. Na sequência, links e documentos foram compartilhados.

A PF descreve uma cadeia formada por diferentes áreas do banco. Integrantes da tecnologia extraíam os dados, desenvolviam aplicações e separavam páginas; funcionários do Back Office geravam procurações, coordenavam assinaturas e montavam os dossiês; gestores supervisionavam a execução e tratavam das cobranças da auditoria.

Mesmo com o uso de ferramentas para apagar datas, reorganizar páginas e alterar o conteúdo visível dos arquivos, a estrutura digital preservou informações que permitiram comparar os documentos apresentados com o momento em que foram modificados ou assinados.

Para a perícia, o conjunto mostra uma operação destinada não apenas a criar documentos, mas também a ocultar sua origem e fazer arquivos produzidos em 2025 parecerem vinculados a contratos formalizados anteriormente. Esses dossiês teriam sido usados para sustentar a existência das carteiras de crédito consignado atribuídas à Tirreno e negociadas pelo Master com o BRB.

 

Fonte: Brasil 247

 

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