Ciro Nogueira oferece terreno de valor
contestado ao STF para tentar reaver jatinho, BMW e R$ 10 milhões
A defesa do senador Ciro Nogueira (PP-PI)
apresentou um pedido ao Supremo Tribunal Federal (STF) para reaver um jatinho,
um automóvel de luxo da marca BMW e cerca de R$ 10 milhões em ativos
financeiros que foram bloqueados e apreendidos pelas autoridades. Em
contrapartida para obter a liberação do patrimônio, o parlamentar ofereceu à
Justiça um imóvel localizado em Teresina (PI) e o acréscimo de R$ 3 milhões em
dinheiro, informa a Folha de São Paulo.
Os bens do parlamentar foram alvo de
restrições no âmbito da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF). A
investigação apura se o presidente do PP e ex-ministro da Casa Civil durante a
gestão de Jair Bolsonaro (PL) recebia uma quantia mensal de R$ 500 mil paga
pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, que se encontra
preso sob suspeita de integrar um esquema de fraude bilionária contra o sistema
financeiro nacional.
O pedido para a troca das garantias e o
consequente desbloqueio dos valores e bens foi protocolado em junho deste ano e
endereçado ao ministro André Mendonça, relator do caso no STF, que ainda não
proferiu uma decisão sobre a solicitação. A defesa do senador alega que o
terreno oferecido, composto por quatro lotes que somam 6,9 mil metros
quadrados, estaria avaliado em cerca de R$ 19 milhões, com base na média de
três avaliações privadas anexadas ao processo.
Entretanto, a Procuradoria-Geral da República
(PGR) contestou os valores apresentados e manifestou-se contrária à
substituição das garantias. O órgão identificou uma expressiva divergência
entre os montantes registrados nas escrituras oficiais de compra e venda dos
lotes e as avaliações produzidas de forma unilateral pelos requerentes.
Segundo documentos de compra e venda, a
empresa CNFL — que pertence a Ciro Nogueira e também é investigada na ação —
adquiriu os quatro lotes em 2023, incluindo uma residência construída no local,
pelo valor total de R$ 3,3 milhões. Dessa forma, a avaliação apresentada pela
defesa ao STF para tentar liberar o patrimônio do senador representa uma
quantia quase seis vezes superior ao preço pago pela compra do terreno três
anos antes.
A proposta de substituição foi protocolada
tanto pelos advogados de defesa do senador quanto pela equipe jurídica da
empresa CNFL. Embora sejam representadas por escritórios distintos, as duas
defesas submeteram petições idênticas, utilizando o mesmo imóvel em Teresina,
os mesmos laudos de avaliação mercadológica e a oferta adicional dos R$ 3
milhões caso a Justiça considere o imóvel insuficiente para atingir a meta
estipulada.
A petição apresentada por Ciro Nogueira
solicita a devolução de um veículo BMW modelo M440I, de um jatinho modelo
Beechcraft King Air B200 (com capacidade para até sete passageiros), o
desbloqueio de suas contas bancárias, aplicações e de todos os outros imóveis
registrados em seu nome — sem pormenorizar a localização, o detalhamento ou a
valoração dessas outras propriedades.
Segundo o relatório formulado pela Polícia
Federal, as investigações apontam indícios de que o senador usou sua influência
política no Congresso Nacional para beneficiar Vorcaro. Entre as ações apuradas
está a articulação da chamada “emenda Master”, medida que visava expandir a
oferta de ativos pela instituição financeira, mas que acabou não sendo aprovada
pelo Legislativo. Na ocasião das buscas, Nogueira declarou que a operação
policial tratava-se de uma tentativa de ferir sua honra.
Ao determinar os desdobramentos da operação,
o ministro André Mendonça fixou o teto de bloqueio de até R$ 18,5 milhões para
cada um dos investigados. Durante o cumprimento dos mandados, os agentes da PF
apreenderam uma motocicleta e um carro BMW na residência do parlamentar em
Brasília, enquanto a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) efetivou o
bloqueio da aeronave do senador.
Em relatório atualizado no início de agosto,
a Polícia Federal informou ter consolidado o bloqueio financeiro de mais de R$
10,2 milhões vinculados a Ciro Nogueira, quantia que engloba contas correntes,
aplicações e ações. O documento ressalta ainda que a ordem judicial atingiu a
totalidade dos veículos e propriedades imobiliárias dos investigados no país.
No caso da empresa CNFL, foram bloqueados R$ 300 mil em conta bancária e um
contrato de consórcio.
Diante do pedido, a defesa da empresa alega
ter havido um “excesso de bloqueio”, sustentando que o valor total retido
superaria o teto de R$ 18,5 milhões estabelecido pelo relator, embora não tenha
detalhado os cálculos ou a soma dos valores congelados na peça jurídica. O
mesmo argumento de excesso foi apresentado pelos advogados do senador no dia
seguinte.
Ao analisar a petição, o procurador-geral da
República, Paulo Gonet, rejeitou a proposta de troca, destacando a falta de
liquidez dos bens imóveis apresentados e ressaltando que a manutenção da
indisponibilidade patrimonial busca impedir a prossecução de eventuais práticas
ilícitas, além de reforçar a gravidade dos fatos apurados no âmbito do Caso
Master. Procurada para se manifestar sobre os questionamentos das avaliações e
da divergência de valores, a assessoria do senador não apresentou resposta.
• PF
aponta “linha de montagem” de documentos falsos no Banco Master
O Banco Master teria organizado uma “linha de
montagem” com dados reais de clientes, ferramentas do Microsoft Office,
programas desenvolvidos pela área de tecnologia e edição de PDFs para dar
sustentação documental a R$ 7,15 bilhões em créditos fictícios. Segundo
relatório técnico-pericial da Polícia Federal, a estrutura buscava conferir
aparência legítima a carteiras atribuídas à Tirreno Consultoria e
posteriormente negociadas com o Banco de Brasília (BRB).
As conclusões constam de documentos obtidos
pelo g1, que detalhou nesta segunda-feira (14) o conteúdo de uma apresentação
apreendida pela PF na área de tecnologia do Master. Intitulado “Investigações
internas – Banco Master”, o arquivo tinha 30 slides e registrava atividades
realizadas entre 18 de junho e 24 de outubro de 2025.
De acordo com a investigação, a Tirreno teria
funcionado como empresa de fachada em uma operação triangular. A companhia
formalizava cessões simuladas de crédito consignado ao Master, que, por sua
vez, utilizava as carteiras supostamente sem lastro para repassá-las ao BRB.
O processo começava com a extração de
informações de clientes que já haviam contratado operações legítimas. Em
seguida, os dados eram inseridos em procurações e outros documentos produzidos
em larga escala. Páginas de assinaturas eram separadas de arquivos anteriores,
datas eram retiradas e diferentes peças acabavam reunidas em novos PDFs.
A perícia encontrou ainda discussões internas
sobre a alteração de comprovantes bancários e sobre possíveis explicações para
inconsistências identificadas por auditores. Apesar das modificações visuais,
os registros digitais preservados nos arquivos permitiram à PF reconstruir a
cronologia da documentação.
<><> Dados antigos alimentaram
novos documentos
Funcionários do Master teriam recorrido a
informações armazenadas nos sistemas internos, inclusive de clientes do
CredCesta, modalidade de crédito consignado voltada a servidores públicos,
aposentados e pensionistas.
Em 2 de julho de 2025, Fabrizio Pereira
Alencar, então coordenador de Controles do Back Office, solicitou ao analista
de projetos sênior Vinicius Lucas Trentino um levantamento de CPFs por meio do
Microsoft Teams. Os números foram reunidos em um arquivo CSV e cruzados com o
banco de dados interno.
O resultado da consulta foi exportado para
uma planilha que continha nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe dos
clientes. O arquivo foi encaminhado à equipe em 3 de julho e, conforme a PF,
serviu de base para a elaboração dos documentos.
Conversas internas indicam que os próprios
integrantes da área de tecnologia identificaram falhas na seleção dos
registros. Em uma troca de mensagens de 20 de junho, Rafael Manfrin da Silva
observou que havia na relação o CPF de uma pessoa com apenas uma proposta,
registrada em 2019.
“Aí deu merda então / porque tem um CPF nesse
meio aqui que só teve uma proposta em 2019 / está meio furada essa lista aí”,
afirmou Rafael, conforme a mensagem reproduzida na investigação.
<><> Word foi usado para produzir
2.700 procurações
Com as informações cadastrais reunidas, a
equipe passou à produção dos documentos. Allan da Silva Machado, então gerente
de Operações I do Back Office, utilizou o recurso de mala direta do Microsoft
Word para preencher automaticamente procurações com os dados armazenados em uma
planilha.
O procedimento permitiu gerar, de uma só vez,
2.700 procurações em 20 de junho de 2025. Os arquivos estavam associados a uma
pasta chamada “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”.
A mala direta vincula uma planilha a um
modelo de texto e substitui automaticamente os campos variáveis. No caso
investigado, a ferramenta teria possibilitado a reprodução do mesmo padrão
documental para milhares de clientes, com nomes e informações pessoais
diferentes.
<><> Programas separavam páginas
de assinatura
A montagem também contou com códigos
desenvolvidos por integrantes da área de tecnologia. Segundo a perícia, Thiago
Ramalho, Rafael Manfrin da Silva e Renato M. participaram da criação de
aplicações em linguagem C#, armazenadas no repositório do GitHub utilizado pelo
Banco Master.
Uma dessas ferramentas havia sido programada
para extrair somente a segunda página de arquivos PDF, justamente aquela em que
apareciam as assinaturas dos documentos originais.
A PF também identificou um arquivo compactado
denominado “erros-whatsapp.zip”. Enviado por Anderson Juliano Caspinelli Garcia
a Moacir Lourenço da Silva Junior, o pacote reunia 1.833 PDFs com páginas de
assinatura separadas de Termos de Consentimento.
Essas folhas, segundo a apuração pericial,
podiam ser aproveitadas na montagem de novos conjuntos documentais,
conferindo-lhes aparência de autenticidade.
<><> Assinaturas digitais
expuseram diferença nas datas
Outra parte da operação envolveu Cédulas de
Crédito Bancário, conhecidas como CCBs. Lotes desses documentos foram retirados
do sistema interno e distribuídos entre quatro operadores para assinatura
digital.
Cada integrante da força-tarefa recebeu 675
arquivos. As assinaturas foram aplicadas com o Adobe Acrobat Reader, por meio
de certificados digitais corporativos e individuais.
Os registros criptográficos, no entanto,
deixaram vestígios considerados centrais pela Polícia Federal. Em um dos casos,
o texto de uma CCB indicava que o documento havia sido produzido em 21 de
janeiro de 2025, mas a assinatura digital registrava 20 de junho daquele ano,
às 14h02min39s.
A divergência indicou à perícia que
documentos apresentados como anteriores haviam sido efetivamente assinados
meses depois. Como a assinatura digital preserva informações sobre o momento de
sua aplicação, a mudança da data visível não foi suficiente para encobrir a
cronologia.
<><> Funcionário pediu retirada
de data
As mensagens analisadas pela PF mostram uma
orientação explícita para eliminar informações temporais dos Termos de
Consentimento. Em conversa pelo Teams, Allan Machado questionou o tratamento
que seria dado a um desses arquivos e escreveu: “E precisamos excluir a data”.
A perícia apresentou como exemplo o termo
associado a Genilson Lima Leal. O documento exibia originalmente a data de 24
de fevereiro de 2023, às 13h05. Em uma edição feita em 3 de julho de 2025, às
15h26, o registro foi apagado da parte visível do arquivo.
Embora a data já não aparecesse na imagem
final, metadados e informações ligadas às assinaturas permitiram aos
investigadores identificar a alteração e reconstituir a sequência dos eventos.
Depois das modificações, CCBs, procurações e
termos eram reunidos com o programa PDF24. Cada operação passava a contar com
um único dossiê, arquivado em pastas que faziam referência a lotes de 2.700,
299 e 119 amostras vinculadas à demanda BRB-Tirreno.
<><> Comprovantes bancários
também seriam modificados
As tentativas de retirar informações
comprometedoras alcançaram comprovantes de transferências feitas pelo Sistema
de Pagamentos Brasileiro e por Pix. Em 25 de junho de 2025, Allan Machado
discutiu com a funcionária Romy Goerck Gentina Klenquen a possibilidade de
apagar o evento, o número do contrato e o histórico das transações.
Entre as referências que se pretendia
eliminar estava a expressão “LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX”. A dificuldade, nesse
caso, era reproduzir a alteração manualmente em milhares de comprovantes.
“Porra… este aparece o número de contrato…
não quero o número de contrato nem o histórico”, escreveu Allan.
Romy respondeu: “Então não tem o que fazer /
um ou outro eu consigo ajustar daquela outra forma, mas impossível em 2.700
comprovantes no editor”.
“Tem que dar um jeito”, insistiu Allan.
Para os investigadores, o diálogo revela
tanto a intenção de retirar referências às operações originais quanto as
limitações práticas da estrutura. Enquanto procurações e páginas de assinatura
podiam ser processadas automaticamente, a edição gráfica de milhares de
comprovantes exigia um trabalho mais complexo.
<><> Auditoria cobrou explicações
sobre inconsistências
O relatório também registra a reação dos
funcionários a questionamentos da Deloitte. Em 23 de junho, Fabrizio Alencar
informou ao diretor Alberto Felix de Oliveira Neto que a auditoria estava
cobrando esclarecimentos.
“Esse tem que falar que foi erro operacional
na seleção”, respondeu Alberto, segundo a conversa reproduzida pela PF.
Dias antes, os dois haviam tratado do envio
de CCBs e termos relacionados à carteira da Tirreno entre dezembro de 2024 e
março de 2025. Fabrizio afirmou que uma base encaminhada anteriormente
apresentava um erro e precisaria ser corrigida.
A investigação sustenta que a preocupação dos
envolvidos não se limitava à produção dos documentos. A equipe também discutia
como explicar eventuais divergências caso elas fossem detectadas durante a
análise externa.
<><> Vorcaro pediu “kit” com 300
operações
As amostras chegaram à cúpula do Banco
Master, conforme os registros reunidos pela Polícia Federal. Em 12 de junho de
2025, o proprietário da instituição, Daniel Vorcaro, solicitou ao diretor
Alberto Felix um “kit dos 300 com assinatura digital”.
Alberto informou que providenciaria o
material e disse que, naquele momento, tinha acesso apenas às CCBs. As
procurações e os arquivos relacionados às assinaturas seriam encaminhados por
Allan Machado. Na sequência, links e documentos foram compartilhados.
A PF descreve uma cadeia formada por
diferentes áreas do banco. Integrantes da tecnologia extraíam os dados,
desenvolviam aplicações e separavam páginas; funcionários do Back Office
geravam procurações, coordenavam assinaturas e montavam os dossiês; gestores
supervisionavam a execução e tratavam das cobranças da auditoria.
Mesmo com o uso de ferramentas para apagar
datas, reorganizar páginas e alterar o conteúdo visível dos arquivos, a
estrutura digital preservou informações que permitiram comparar os documentos
apresentados com o momento em que foram modificados ou assinados.
Para a perícia, o conjunto mostra uma
operação destinada não apenas a criar documentos, mas também a ocultar sua
origem e fazer arquivos produzidos em 2025 parecerem vinculados a contratos
formalizados anteriormente. Esses dossiês teriam sido usados para sustentar a
existência das carteiras de crédito consignado atribuídas à Tirreno e
negociadas pelo Master com o BRB.
Fonte: Brasil 247

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