terça-feira, 15 de setembro de 2026

Memórias da música independente feita no Brasil

No dia 18 de dezembro de 2016, um domingo, no teatro do SESC Belenzinho, na cidade de São Paulo, escutou-se, novamente e ao vivo, o Grupo UM, aquele que é, para uma geração de amantes da música instrumental brasileira, o grupo mais importante do Brasil. Essa relevância se justifica não apenas pela qualidade musical – isso é incontestável –, mas pelo fato histórico – vale lembrar – do Grupo Um produzir e gravar, no Brasil, o primeiro álbum de música instrumental independentemente das gravadoras comerciais.

O Grupo Um fundou-se em 1976; nessa época, o Brasil encontrava-se governado pelo general Ernesto Geisel, o penúltimo general da ditadura militar. Não havia, naqueles tempos, incentivo à cultura; durante o governo posterior do general João Figueiredo, incluíram-se álbuns de música, ao lado de copos d´água descartáveis, na lista dos supérfluos, quer dizer, dos produtos de consumo dispensáveis, aqueles com os quais ninguém deveria gastar dinheiro, desprezando, assim, as artes brasileiras.

Quanto à indústria fonográfica nacional da década de 1970, ela se marca pela presença constante dos costumeiros tropicalistas, em concordância com a música pop transmitida nas rádios, e o discutível rock brasileiro, levado adiante pela juventude burguesa. Em termos técnicos, devido à deficiência dos estúdios, padronizavam-se os timbres nas gravações; em termos estéticos e educativos, verifica-se a degradação do gosto, que se restringe a poucos estilos musicais, como o domínio, no repertório brasileiro, de canções – isto é, a MPM – em detrimento das músicas erudita e instrumental feitas no Brasil.

Naquele cenário desastroso, não existia campo para os músicos instrumentais, a não ser a eterna solução de sair do Brasil, conforme acontecera a Edson Machado, Dom Um Romão, Airto Moreira, Flora Purim, Eumir Deodato, Raul de Souza etc.; todavia, nos dias 26 e 27 de setembro de 1979, foi gravado e mixado, no estúdio Vice Versa B, o primeiro álbum do Grupo Um, Marcha sobre a cidade, justamente, o primeiro álbum de música instrumental do movimento conhecido por Música Independente.

Posteriormente, artistas da MPB participaram do movimento, o qual, no entanto, permanece com ênfase na música instrumental; nessas circunstâncias, para recordar alguns exemplos, compensa citar estes álbuns:

(I) em 1980: (1) A Divina Increnca, grupo formado pelos músicos Felix Wagner, Azael Rodrigues e Rodolfo Stroeter; (2) Farrapos, do vibrafonista Jota Moraes; (3) Frevo de índio, do guitarrista Celso Mendes; (4) Mistérios da Amazônia, do violonista Carioca e do grupo vocal Devas;

(II) em 1981: (5) Reflexões sobre a crise do desejo, o segundo álbum do Grupo Um; (6) Considerações a respeito, do baterista Pascoal Meirelles;

(III) em 1982: (7) Viagem através de um sonho, do saxofonista Nivaldo Ornelas; (8) Luar do sertão, também do Carioca;

(IV) em 1983: (9) Conversa de cordas, couros, palhetas e metais, de Francisco Mário (o outro irmão do Henfil); (10) Tambá, também do Pascoal Meirelles.

Todos esses trabalhos são produções dos próprios artistas, contudo, na época, surgiram algumas gravadoras especializadas em Música Independente; delas, merecem destaque, pelo menos, estas três:

(A) A gravadora Lira Paulistana, responsável pela produção de: (AI) em 1981: (11) Aurora vermelha, do guitarrista Fredera; (AII) em 1982: (12) Alquimia, grupo formado por André Dequech, Mauro Senise, Robertinho Silva e Zeca Assumpção; (13) Imagens do inconsciente, do grupo Pé ante pé; (14) A flor de plástico incinerada, o terceiro álbum do Grupo Um; (15) Lágrima e Sunsolide Suite, do pianista Lelo Nazario; (16) Poema da gota serena, do baterista Zé Eduardo Nazário; (17) Ciranda, outro trabalho do Carioca;

(B) a gravadora Carmo, uma iniciativa do compositor Egberto Gismonti, responsável pela produção de: (BI) em 1982: (18) … entre duas palavras …, do violonista André Geraissati; (BII) em 1983: (19) Violão, do também violonista Nando Carneiro; (BIII) em 1984: (20) 7 dias 7 instrumentos, do Carioca; (21) Bateria, do baterista Robertinho Silva;

(C) a gravadora Som da Gente, responsável pela produção de: (CI) em 1981: (22) Mantiqueira, do pianista Nelson Ayres; (23) D’Alma, dos violonistas Ulisses Rocha, André Geraissati e Rui Saleme; (24) Medusa, grupo formado Amilson Godoy, Chico Medori, Claudio Bertrami e Heraldo do Monte; (CII) em 1982: (25) Cordas vivas, do guitarrista Heraldo do Monte; (CIII) os cinco próximos trabalhos pertencem a Hermeto Pascoal: (26) Hermeto Pascoal e grupo, 1982; (27) Lagoa da Canoa município de Arapiraca, 1983; (28) Brasil universo, em 1986; (29) Só não toca quem não quer, 1987; (30) Por diferentes caminhos, 1989.Infelizmente, poucos artistas da Música Independente se notabilizaram; apenas aqueles que já mantinham elos com a MPB se encontram reconhecidos na dita Vanguarda Paulistana. Quanto às datas: (1) o álbum Clara Crocodilo, de Arrigo Barnabé, surgiu em 1980; (2) Beleléu leléu eu, Isca de Polícia, de Itamar Assumpção, em 1980; (3) Premê, do grupo Premeditando o Breque, e (4) Rumo, do grupo Rumo, foram lançados em 1981; (5) Pássaros na garganta, da Tetê Espindola, é de 1982. Verifica-se, pela época dos lançamentos, que tais trabalhos se realizaram posteriormente ao Marcha sobre a cidade e, em termos de vanguarda e quanto às concepções musicais, aquém do Grupo Um.

A suposta Vanguarda Paulistana não se forma apenas por artistas da cidade de São Paulo, ela recebe esse nome porque aconteceu nesse município. Desses artistas, não se deve esquecer de que:

(1) o segundo álbum de Arrigo Barnabé, Tubarões voadores, de 1984, foi gravado e produzido pela Ariola Records, uma gravadora da cultura de massas, com a participação de artistas comerciais, como Rita Lee;

(2) desvinculadas das performances de palco, as composições de Itamar Assumpção raramente se sustentam enquanto canções;

(3) depois do primeiro álbum, a banda Premeditando o Breque entrou em franca decadência, cedendo cada vez mais às pressões do mercado fonográfico;

(4) no segundo álbum do grupo Rumo, Rumo aos antigos, de 1982, resgatam-se vetustas canções da MPB, logo, distantes das vanguardas ou de renovações da música brasileira;

(5) Tetê Espindola, que já gravava música sertaneja no álbum de 1982, tornou-se cantora pop com o sucesso comercial, em 1996, da lamentável composição “Escrito nas estrelas”.

Para concluir, retomando os trabalhos do Grupo Um, enquanto boa parte da música instrumental seguia inspirada pela Bossa Nova e pelas propostas de Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti e Wagner Tiso, o Grupo Um, assim como a Divina Increnca, sem desprezar essas influências, mas valendo-se delas, trilhou caminhos que permanecem inovadores 38 anos depois. Em vista disso, contrariamente ao que se passa com as supostas vanguardas paulistanas, o Grupo Um sempre se renovou em seus trabalhos:

(1) o segundo álbum, Reflexões sobre a crise do desejo, dialoga com o jazz e a música erudita contemporâneos – até o primeiro quartel do século XXI, ainda se revela o único grupo brasileiro a dialogar com a música eletroacústica, improvisando sobre bandas magnéticas e a executar peças com piano preparado, semelhantemente a John Cage –;

(2) no terceiro álbum, A flor de plástico incinerada, apresentam-se sínteses perfeitas entre música brasileira, jazz e música eletroacústica.

 

Fonte: Por Seraphim Pietroforte, em A Terra é Redonda

 

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