Memórias da música independente feita no
Brasil
No dia 18 de dezembro de 2016, um domingo, no
teatro do SESC Belenzinho, na cidade de São Paulo, escutou-se, novamente e ao
vivo, o Grupo UM, aquele que é, para uma geração de amantes da música
instrumental brasileira, o grupo mais importante do Brasil. Essa relevância se
justifica não apenas pela qualidade musical – isso é incontestável –, mas pelo
fato histórico – vale lembrar – do Grupo Um produzir e gravar, no Brasil, o
primeiro álbum de música instrumental independentemente das gravadoras
comerciais.
O Grupo Um fundou-se em 1976; nessa época, o
Brasil encontrava-se governado pelo general Ernesto Geisel, o penúltimo general
da ditadura militar. Não havia, naqueles tempos, incentivo à cultura; durante o
governo posterior do general João Figueiredo, incluíram-se álbuns de música, ao
lado de copos d´água descartáveis, na lista dos supérfluos, quer dizer, dos
produtos de consumo dispensáveis, aqueles com os quais ninguém deveria gastar
dinheiro, desprezando, assim, as artes brasileiras.
Quanto à indústria fonográfica nacional da
década de 1970, ela se marca pela presença constante dos costumeiros
tropicalistas, em concordância com a música pop transmitida nas rádios, e o
discutível rock brasileiro, levado adiante pela juventude burguesa. Em termos
técnicos, devido à deficiência dos estúdios, padronizavam-se os timbres nas
gravações; em termos estéticos e educativos, verifica-se a degradação do gosto,
que se restringe a poucos estilos musicais, como o domínio, no repertório
brasileiro, de canções – isto é, a MPM – em detrimento das músicas erudita e
instrumental feitas no Brasil.
Naquele cenário desastroso, não existia campo
para os músicos instrumentais, a não ser a eterna solução de sair do Brasil,
conforme acontecera a Edson Machado, Dom Um Romão, Airto Moreira, Flora Purim,
Eumir Deodato, Raul de Souza etc.; todavia, nos dias 26 e 27 de setembro de
1979, foi gravado e mixado, no estúdio Vice Versa B, o primeiro álbum do Grupo
Um, Marcha sobre a cidade, justamente, o primeiro álbum de música instrumental
do movimento conhecido por Música Independente.
Posteriormente, artistas da MPB participaram
do movimento, o qual, no entanto, permanece com ênfase na música instrumental;
nessas circunstâncias, para recordar alguns exemplos, compensa citar estes
álbuns:
(I) em 1980: (1) A Divina Increnca, grupo
formado pelos músicos Felix Wagner, Azael Rodrigues e Rodolfo Stroeter; (2)
Farrapos, do vibrafonista Jota Moraes; (3) Frevo de índio, do guitarrista Celso
Mendes; (4) Mistérios da Amazônia, do violonista Carioca e do grupo vocal
Devas;
(II) em 1981: (5) Reflexões sobre a crise do
desejo, o segundo álbum do Grupo Um; (6) Considerações a respeito, do baterista
Pascoal Meirelles;
(III) em 1982: (7) Viagem através de um
sonho, do saxofonista Nivaldo Ornelas; (8) Luar do sertão, também do Carioca;
(IV) em 1983: (9) Conversa de cordas, couros,
palhetas e metais, de Francisco Mário (o outro irmão do Henfil); (10) Tambá,
também do Pascoal Meirelles.
Todos esses trabalhos são produções dos
próprios artistas, contudo, na época, surgiram algumas gravadoras
especializadas em Música Independente; delas, merecem destaque, pelo menos,
estas três:
(A) A gravadora Lira Paulistana, responsável
pela produção de: (AI) em 1981: (11) Aurora vermelha, do guitarrista Fredera;
(AII) em 1982: (12) Alquimia, grupo formado por André Dequech, Mauro Senise,
Robertinho Silva e Zeca Assumpção; (13) Imagens do inconsciente, do grupo Pé
ante pé; (14) A flor de plástico incinerada, o terceiro álbum do Grupo Um; (15)
Lágrima e Sunsolide Suite, do pianista Lelo Nazario; (16) Poema da gota serena,
do baterista Zé Eduardo Nazário; (17) Ciranda, outro trabalho do Carioca;
(B) a gravadora Carmo, uma iniciativa do
compositor Egberto Gismonti, responsável pela produção de: (BI) em 1982: (18) …
entre duas palavras …, do violonista André Geraissati; (BII) em 1983: (19)
Violão, do também violonista Nando Carneiro; (BIII) em 1984: (20) 7 dias 7
instrumentos, do Carioca; (21) Bateria, do baterista Robertinho Silva;
(C) a gravadora Som da Gente, responsável
pela produção de: (CI) em 1981: (22) Mantiqueira, do pianista Nelson Ayres;
(23) D’Alma, dos violonistas Ulisses Rocha, André Geraissati e Rui Saleme; (24)
Medusa, grupo formado Amilson Godoy, Chico Medori, Claudio Bertrami e Heraldo
do Monte; (CII) em 1982: (25) Cordas vivas, do guitarrista Heraldo do Monte;
(CIII) os cinco próximos trabalhos pertencem a Hermeto Pascoal: (26) Hermeto
Pascoal e grupo, 1982; (27) Lagoa da Canoa município de Arapiraca, 1983; (28) Brasil
universo, em 1986; (29) Só não toca quem não quer, 1987; (30) Por diferentes
caminhos, 1989.Infelizmente, poucos artistas da Música Independente se
notabilizaram; apenas aqueles que já mantinham elos com a MPB se encontram
reconhecidos na dita Vanguarda Paulistana. Quanto às datas: (1) o álbum Clara
Crocodilo, de Arrigo Barnabé, surgiu em 1980; (2) Beleléu leléu eu, Isca de
Polícia, de Itamar Assumpção, em 1980; (3) Premê, do grupo Premeditando o
Breque, e (4) Rumo, do grupo Rumo, foram lançados em 1981; (5) Pássaros na
garganta, da Tetê Espindola, é de 1982. Verifica-se, pela época dos
lançamentos, que tais trabalhos se realizaram posteriormente ao Marcha sobre a
cidade e, em termos de vanguarda e quanto às concepções musicais, aquém do
Grupo Um.
A suposta Vanguarda Paulistana não se forma
apenas por artistas da cidade de São Paulo, ela recebe esse nome porque
aconteceu nesse município. Desses artistas, não se deve esquecer de que:
(1) o segundo álbum de Arrigo Barnabé,
Tubarões voadores, de 1984, foi gravado e produzido pela Ariola Records, uma
gravadora da cultura de massas, com a participação de artistas comerciais, como
Rita Lee;
(2) desvinculadas das performances de palco,
as composições de Itamar Assumpção raramente se sustentam enquanto canções;
(3) depois do primeiro álbum, a banda
Premeditando o Breque entrou em franca decadência, cedendo cada vez mais às
pressões do mercado fonográfico;
(4) no segundo álbum do grupo Rumo, Rumo aos
antigos, de 1982, resgatam-se vetustas canções da MPB, logo, distantes das
vanguardas ou de renovações da música brasileira;
(5) Tetê Espindola, que já gravava música
sertaneja no álbum de 1982, tornou-se cantora pop com o sucesso comercial, em
1996, da lamentável composição “Escrito nas estrelas”.
Para concluir, retomando os trabalhos do
Grupo Um, enquanto boa parte da música instrumental seguia inspirada pela Bossa
Nova e pelas propostas de Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti e Wagner Tiso, o
Grupo Um, assim como a Divina Increnca, sem desprezar essas influências, mas
valendo-se delas, trilhou caminhos que permanecem inovadores 38 anos depois. Em
vista disso, contrariamente ao que se passa com as supostas vanguardas
paulistanas, o Grupo Um sempre se renovou em seus trabalhos:
(1) o segundo álbum, Reflexões sobre a crise
do desejo, dialoga com o jazz e a música erudita contemporâneos – até o
primeiro quartel do século XXI, ainda se revela o único grupo brasileiro a
dialogar com a música eletroacústica, improvisando sobre bandas magnéticas e a
executar peças com piano preparado, semelhantemente a John Cage –;
(2) no terceiro álbum, A flor de plástico
incinerada, apresentam-se sínteses perfeitas entre música brasileira, jazz e
música eletroacústica.
Fonte: Por Seraphim Pietroforte, em A Terra é
Redonda

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