O STF deve abrir inquéritos; país não pode
votar no escuro
Juízes precisam dispor de o máximo de
informações sobre cada caso, com amplo direito de defesa à parte acusada, para
decidirem com plena isenção. Por isso, a decisão do presidente do Supremo
Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, de intervir nas disputas internas do
Supremo e marcar sessão plenária para o conjunto de 10 (ou sete) ministros da
corte, pois três deles estão sob suspeita, não foi importante apenas para que
os casos em julgamento sejam analisados com total transparência. Máxima da
Suprema Corte dos Estados Unidos diz: "a luz do sol é o melhor remédio
para a transparência da coisa pública". Juiz na urna, o eleitor também
precisa de transparência para votar com consciência e bem-informado sobre os
candidatos.
Graças à reação da opinião pública à
parcialidade da condução do ministro André Mendonça como relator no STF, no
inquérito dos descontos de aposentados do INSS pela quadrilha de Antônio Carlos
Rodrigues, o "Careca do INSS", e no Banco Master, e o decano do
Supremo, ministro Gilmar Mendes, ponderar a Fachin que é exíguo o prazo e
limitado o material disponível para os ministros examinarem os fatos, o
plenário do STF iria arbitrar, dia 15, o embate entre os ministros Alexandre de
Moraes e André Mendonça sob ar sombrio, ou "dark". Sem a claridade do
sol. Fachin resolveu desdobrar os julgamentos em dois: dia 15, o plenário julga
a atuação de Moraes, e dia 23, a de Mendonça.
Devemos a Gilmar Mendes, que sugeriu a Fachin
enfeixar os inquéritos, uma guinada importante nos processos conduzidos por
André Mendonça. Pressionado por todos os lados e por seus pares no STF, o
ministro Mendonça liberou do sigilo quase 40 inquéritos que citam pessoas
importantes da vida pública brasileira envolvidas na teia do Banco Master. A
luz do sol revelou, por exemplo, que o senador-presidenciável, Flávio Bolsonaro
(PL-RJ), é investigado desde 21 de junho, pela Procuradoria Geral da República,
por acusações passíveis de crimes de corrupção passiva, corrupção ativa, evasão
de divisas e lavagem de dinheiro recebido do Master. O caso era tratado sob
sigilo total no gabinete de Mendonça, nomeado por Jair Bolsonaro para o Supremo
em 2021.
"Mas que cara de pau, esse Flávio",
diria o saudoso governador Leonel Brizola, se ainda estivesse entre nós. É que,
desde 13 de maio deste ano, quando o site "Intercept Brasil" revelou
a transcrição de conversa do senador Flávio Bolsonaro pedindo R$ 134 milhões ao
dono do Banco Master, já era claro o relacionamento com Daniel Vorcaro, desde
2024, a quem Flávio chamava de "irmãozão", para bancar a realização
de "Dark horse", cinebiografia sobre o pai, Jair Bolsonaro,
programada para ser uma peça forte na reta final da campanha eleitoral.
O senador, que antes dizia não conhecer
Vorcaro, na campanha presidencial ainda teve a cara de pau de usar camisetas
escritas com: "O Pix é do Brasil" (que o irmão Eduardo admitiu
negociar com o governo Trump) e que "O Caso Master é com Lula". Será
mágoa por ter a liquidação do Master pelo Banco Central no governo Lula, em
novembro de 2025, cortado R$ 65 milhões do dinheiro negociado entre Flávio e
Daniel Vorcaro?
Na representação da PGR ao gabinete de André
Mendonça, houve o pedido de inquérito da Polícia Federal contra Flávio
Bolsonaro por "indícios robustos de ilegalidades envolvendo o
financiamento do filme", com suspeitas de que os R$ 69 milhões foram
transferidos de modo espúrio ao exterior pelo conhecido lavador de dinheiro
Antônio Carlos Freixo Junior, que prestava serviços a Vorcaro, e foi ouvido
pela PGR em 8 de agosto. Apesar dos indícios copiosos, as apurações exigidas
não avançaram. O gabinete do relator do caso Master, ministro André Mendonça,
não determinou desdobramentos práticos.
<><> Os escândalos dos aliados
A informação só se tornou pública
sexta-feira, 11 de setembro, quando o acesso a esse capítulo, guardado a sete
chaves, foi revelado por pressão do presidente Edson Fachin, na grave crise
institucional que sacode o Supremo Tribunal Federal.
Soube-se, tardiamente, a três semanas do
primeiro turno (4 de outubro), com a campanha virtualmente empatada, que além
do caso do “Dark horse”, vieram à luz os escândalos do ex-governador Cláudio
Castro (União-RJ), do senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente do PP,
candidato à reeleição, acusado de receber mesadas de Vorcaro após tentar elevar
o teto da cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$
1 milhão, bem como as relações do senador Jaques Wagner (PT-BA) com o ex-sócio
do Master, Augusto Lima, ex-dono do Banco Pleno, comprado pelo banco de Daniel
Vorcaro. O inquérito revela ainda as tratativas do Master para a venda ao BRB,
que deixou rombo no banco de Brasília, no governo de Ibaneis Rocha (MDB).
O Estado do Rio de Janeiro, terceiro colégio
eleitoral do país, depois de São Paulo e Minas Gerais, é a base de apoio do clã
Bolsonaro, e apresenta a maior contradição entre a pregação dos Bolsonaro
contra o crime organizado e a complacência do clã e dos aliados políticos para
com a milícia e a sonegação fiscal que envolve o PCC e o CV.
Aliado de Flávio Bolsonaro, o governo Cláudio
Castro (PL), além da cumplicidade com os bilhões em sonegações fiscais pelo
Grupo Refit, que lavava dinheiro do crime organizado, enterrou quase R$ 3
bilhões em papéis do Master, somando aplicações da Cedae e recursos do fundo de
previdência dos funcionários do RJ. E a Assembleia Legislativa do ERJ (Alerj)
teve um presidente (Rodrigo Bacellar, do União-RJ) preso em dezembro do ano
passado, acusado de vazar para o então deputado TH Joias, agente do Comando Vermelho
na Alerj, uma operação da polícia contra o crime organizado. Preso, Bacellar
cedeu a presidência da Alerj e a disputa ao governo do Estado a Douglas Ruas
(PL-RJ).
O estrago na campanha de Flávio Bolsonaro no
Rio de Janeiro e em todo o Brasil seria muito maior se Mendonça fosse mais
imparcial e transparente. A lerdeza e o sigilo deixaram espaço para o
senador-presidenciável disparar mentiras como acusações de responsabilidade do
governo Lula e do PT pelo maior escândalo financeiro do país.
A verdade é que o Master foi autorizado a
operar pelo Banco Central em 2019, na gestão Roberto Campos Neto, no governo
Bolsonaro, quando dois altos funcionários do BC, um dos quais chegou ao posto
de diretor de fiscalização, faziam jogo duplo em benefício do banco de Daniel
Vorcaro, e os partidos políticos aliados do centrão estavam na aba do Master.
As relações de Jaques Wagner com Augusto Lima são bem anteriores ao governo
Lula, mas serviram de cortina de fumaça para Flávio sair do foco das suspeitas.
A exposição do caso ocorreu após a primeira
derrubada parcial do segredo de justiça, ordenada pelo presidente da Corte,
ministro Luiz Edson Fachin, na esteira dos acontecimentos que colocaram em
enfrentamento os também ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes no
contexto do chamado caso Master.
A abertura dos arquivos, promovida na
sexta-feira, jogou luz sobre esse represamento, e a respeito de como a disputa
por transparência no STF está finalmente trazendo à superfície apurações
decisivas que ligam as relações do candidato à Presidência da República pelo PL
aos bastidores do sistema financeiro que culminou no maior esquema de fraude da
história do Brasil.
<><> Correndo contra o tempo
Até a audiência plenária do STF, muitas
acusações serão recolhidas junto à Polícia Federal contra o fluxo financeiro do
financiamento a “Dark horse”. Sobretudo, nas diligências contra as empresas da
produtora do filme, Karina Gama, investigada, a pedido do ministro Flávio Dino,
por suposto desvio de emendas parlamentares para bancar o filme. Flávio
Bolsonaro até tentou tirar o caso das mãos de Dino para submetê-lo ao sigilo
controlado de André Mendonça.
O que se sabe é que Freixo Júnior, da Entre
Empreendimentos, liquidada pelo BC em março, transferiu, em 2025, R$ 69 milhões
ao fundo Havengate, gerido nos Estados Unidos por Paulo Calixto, advogado do
ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Mas antes de chegar ao Texas,
onde mora o filho 02, os recursos transitaram pelo paraíso fiscal das Bahamas.
Falta esclarecer se todo do dinheiro movimentado bancou “Dark horse”, ou houve
desvios do caminho. Coerente, o produtor dos EUA disse que não abrirá dados dos
fluxos financeiros.
<><> A mídia e as redes sociais
A três semanas do primeiro turno das eleições
presidenciais, a quebra dos sigilos dos casos conduzidos pelos ministros
Alexandre de Moraes, André Mendonça e Flávio Dino (cada qual se posicionando em
um dos dois lados que ponteiam a disputa eleitoral) também traz um mínimo de
transparência para a grande mídia informar fatos para que a opinião pública
pondere devidamente as informações sobre delitos dos dois lados em disputa, e
assim decidir com mais convicção o seu voto em 4 de outubro e em 25 de outubro.
A cronologia dos fatos mostra, porém, que os
vazamentos seletivos nos gabinetes do STF, repetiram prática já observada em
ocasiões anteriores. André Mendonça, ex-ministro da Justiça de Bolsonaro e
indicado ao Supremo em 2021 pelo ex-presidente, foi bem mais célere nas
insinuações sobre a proximidade de Fábio Luís da Silva, o filho do presidente
Lula, com os envolvidos no inquérito do INSS, do que no desdobramento de
medidas no inquérito do Caso Master, ambos em suas mãos.
Os ânimos se acirraram e o STF entrou em
guerra surda esta semana, depois que Mendonça liberou escuta da Polícia Federal
sobre uma conversa telefônica por mensagem de texto do banqueiro Daniel
Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, com o ministro Alexandre de Moraes
(mas sem transcrever o conteúdo do celular com a resposta do ministro, cujo
escritório da mulher, advogada Viviane Barci de Moraes, fora contratado por
Vorcaro em janeiro de 2024). O contrato original, de R$ 129 milhões até fins de
2026, parou em R$ 80 milhões em novembro de 2025, quando o Banco Central sob
Galípolo liquidou o Master por falta de fundos e outras irregularidades.
<><> O ódio contra Moraes
Não se pode esquecer que o bolsonarismo nutre
ódio visceral a Alexandre de Moraes. O enfrentamento começou em 2019, quando
Moraes comandou o inquérito das “fake News”, que estava em aberto até Fachin
assumir o caso esta semana. Moraes brecou a enxurrada de notícias falsas nas
redes sociais que ajudou, junto com a facada, a eleger Jair Bolsonaro contra
Fernando Haddad, em 2018. A situação piorou quando Moraes presidiu o Tribunal
Superior Eleitoral nas eleições de 2022 e, no julgamento do plenário do TSE,
tornou o ex-presidente inelegível por oito anos, depois que Bolsonaro espalhou
a embaixadores estrangeiros no país notícias falsas sobre as urnas eletrônicas.
Inconformado com a derrota que não reconheceu
para Lula, em outubro de 2022, Jair Bolsonaro articulou o golpe, que não
prosperou pela resistência dos comandantes do Exército e da Aeronáutica. O
ex-presidente fugiu do país em 30 de dezembro, para os Estados Unidos, para não
passar a faixa presidencial a Lula e ficar ao largo das depredações das sedes
dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023. No julgamento da
Primeira Turma do STF, o ex-presidente foi condenado a 27 anos e três meses de
prisão.
Por sinal, o julgamento completou um ano na
sexta-feira, 11 de setembro. Seria simbólico trazer a cabeça de Alexandre de
Moraes na bandeja do plenário do STF dia 15. Sobretudo, depois de o ministro
ficar vulnerável ao vir à luz o contrato de R$ 129 milhões, firmado em janeiro
de 2024 entre o escritório de advocacia de sua mulher, Viviani Barci de Moraes,
e o Banco Master, de Daniel Vorcaro. [será que Fachin e o presidente do TSE,
ministro Nunes Marques, vão filtrar as “fake News” nas redes sociais como fazia
Moraes?]
<><> Dize-me com quem andas
Por fim, vale destacar uma revelação
rocambolesca do site do Instituto Conhecimento Liberta (ICL): A Bravo Grafeno,
empresa de capacetes de moto, cujo sócio-administrador, é o senador e candidato
à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), divide o mesmo endereço, no bairro de
Areal, no distrito de Águas Claras, em Brasília, com pelo menos 16 firmas de
Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”.
Ou seja, quem estava mais próximo do “Careca
do INSS”, preso preventivamente em dezembro, era Flávio Bolsonaro, e não
Lulinha.
Fonte: Por Gilberto Menezes Côrtes, no JB

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