Gustavo Tapioca: No governo Bolsonaro,
Vorcaro virou banqueiro. No de Lula, prisioneiro
Tem menos de vinte palavras. Entre a primeira
e a segunda frase, porém, cabem sete anos da história de Daniel Vorcaro: a
transformação do Banco Máxima no Banco Master, bilhões de reais captados no
mercado, dinheiro das aposentadorias de servidores públicos, a queda do banco e
a prisão de seu controlador. E cabem
três Bolsonaro: Jair, Flávio e Eduardo.
Na sexta-feira, 11 de setembro, a apenas 23
dias da eleição presidencial, surgiu ainda um fato que dá à frase de Lula uma
dimensão eleitoral que ela não tinha quando foi pronunciada: o Brasil descobriu
que Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, está sendo investigado pela
Polícia Federal em um desdobramento do caso Master. Mas em sigilo.
A investigação não começou hoje. Começou em
julho. Vale, portanto, fazer aquilo que
uma campanha eleitoral nem sempre permite: parar diante da frase de Lula e
conferir os fatos.
<><> Como Vorcaro virou banqueiro
Daniel Vorcaro começou a adquirir
participação no Banco Máxima antes da posse de Jair Bolsonaro. Mas foi em 2019,
já no governo Bolsonaro e durante a gestão de Roberto Campos Neto no Banco
Central, que recebeu autorização para assumir o controle da instituição. Não
foi automático. Em fevereiro de 2019, o
Banco Central recusou a transferência porque os compradores não haviam
demonstrado satisfatoriamente capacidade econômico-financeira e a origem dos
recursos.
Oito meses depois, em outubro de 2019, a
operação foi aprovada. Vorcaro virou
banqueiro.
O Máxima já era uma instituição problemática.
Sob Vorcaro, porém, começou uma expansão extraordinária. Em 2021 mudou de nome.
Nascia o Banco Master. O patrimônio
líquido, que girava em torno de R$ 200 milhões em 2019, chegou a
aproximadamente R$ 4,7 bilhões em 2024. A carteira de crédito saltou de cerca
de R$ 1,4 bilhão para R$ 40 bilhões. O
Master crescia captando bilhões no mercado.
Entre seus credores apareceriam instituições responsáveis por guardar
dinheiro destinado às aposentadorias de servidores públicos.
<><> Bilhões das aposentadorias e
do BRB
Dezoito regimes próprios de previdência de
estados e municípios aplicaram cerca de R$ 1,87 bilhão em Letras Financeiras do
Banco Master, títulos sem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. O maior investidor foi o Rioprevidência,
responsável pelas aposentadorias e pensões dos servidores do Estado do Rio de
Janeiro: cerca de R$ 970 milhões. A
previdência dos servidores do Amapá colocou outros R$ 400 milhões. Somente Rio e Amapá transferiram, portanto,
cerca de R$ 1,37 bilhão das reservas previdenciárias de seus servidores para
títulos do banco de Vorcaro. Também
entraram recursos das previdências do Amazonas e de diversos municípios.
Mas existe outra ligação, muito maior, entre
o Master e o patrimônio previdenciário público.
O Instituto de Previdência dos Servidores do
Distrito Federal, Iprev-DF, é um dos principais acionistas do Banco de
Brasília. Detém 18,73% das ações ordinárias e 12,33% do capital total do BRB.
Parte do patrimônio destinado a garantir aposentadorias e pensões dos
servidores do Distrito Federal está, portanto, exposta ao desempenho do banco
público. E foi o BRB que mergulhou
bilhões no Master. Segundo a Polícia
Federal, o Banco de Brasília comprou R$ 21,9 bilhões em carteiras do banco de
Vorcaro. Cerca de R$ 12,3 bilhões desses ativos apresentam indícios de ausência
de lastro, inconsistências ou vícios documentais.
Auditoria independente encomendada pelo
próprio BRB calculou em aproximadamente R$ 12,2 bilhões o dinheiro drenado da
instituição pelas carteiras fraudulentas adquiridas do Master. Não se podem somar os R$ 1,87 bilhão das
previdências aos R$ 12,2 bilhões do BRB como se fossem a mesma coisa. Não são.
Mas também não se pode ignorar que as duas
histórias se encontram no mesmo banco. De um lado, regimes responsáveis pelas
aposentadorias de servidores públicos colocaram quase R$ 2 bilhões diretamente
em títulos do Master. Do outro, um banco
público cujo capital pertence também ao instituto responsável pelas
aposentadorias dos servidores do Distrito Federal movimentou dezenas de bilhões
em operações com o Master, das quais cerca de R$ 12,2 bilhões estão no centro das
investigações sobre fraude. Isso não significa
que esses recursos tenham financiado o filme sobre Jair Bolsonaro. Não existe
até agora rastreamento financeiro que autorize essa afirmação. Significa algo
suficientemente grave: enquanto
construía seu império financeiro, Vorcaro movimentava bilhões provenientes de
instituições públicas e de regimes destinados a proteger aposentadorias e
pensões.
<><> Do jatinho para a prisão
A expansão terminou em 17 de novembro de
2025. Daniel Vorcaro chegou ao Aeroporto Internacional de Guarulhos para
embarcar em seu jatinho particular para o exterior. Não embarcou. Foi preso pela Polícia Federal. Para os investigadores, havia indícios de
tentativa de fuga. A defesa afirmou que se tratava de uma viagem de
negócios. No dia seguinte, o Banco
Central liquidou o Master.
Seis anos depois de receber autorização para
controlar o banco, Vorcaro estava preso e a instituição que construíra estava
liquidada. A primeira parte da frase de Lula encontrava a segunda. Mas ainda faltavam os outros dois Bolsonaro.
<><> Flávio e Eduardo
Flávio Bolsonaro procurou Daniel Vorcaro para
conseguir dinheiro para Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Pediu
US$ 24 milhões. Pelo menos US$ 12,3
milhões — mais de R$ 60 milhões — foram repassados ao projeto. Segundo a Polícia Federal, Flávio era
“interlocutor direto” de Vorcaro nas negociações sobre o filme. A PF aponta
cobranças de pagamentos, reuniões presenciais e acompanhamento das gravações.
Áudios e mensagens mostram Flávio cobrando
dinheiro do banqueiro. Em uma delas, chama Vorcaro de “irmão” e lhe assegura
que estaria sempre ao seu lado. Mas a
investigação vai além da pergunta sobre quanto Vorcaro colocou no filme.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet,
apontou no material analisado indícios do que descreveu como possível “promessa
de apoio ou interferências” de Flávio em favor de Vorcaro. A PGR quer
investigar se os milhões destinados a Dark Horse tiveram alguma contrapartida
política, inclusive por meio de propostas legislativas que pudessem beneficiar
Vorcaro ou o Master. Ainda não existe
conclusão de que essa contrapartida tenha ocorrido. É justamente isso que está
sendo investigado.
A distinção é fundamental: uma coisa é um
senador pedir US$ 24 milhões a um banqueiro para financiar um filme sobre seu
pai. Outra é saber se o banqueiro esperava receber atuação política em
troca. Nem a prisão rompeu a
relação. Depois de deixar a cadeia
submetido a medidas cautelares e usando tornozeleira eletrônica, Vorcaro
recebeu Flávio em sua residência, em São Paulo.
E aparece então Eduardo Bolsonaro.
Segundo documentos da Polícia Federal e da
Procuradoria-Geral da República, Eduardo participou das discussões sobre a
administração, nos Estados Unidos, dos recursos destinados a Dark Horse. Parte do dinheiro percorreu justamente esse
caminho. Pelo menos US$ 12,3 milhões foram enviados ao Havengate Development
Fund, no Texas. Eduardo nega
irregularidades.
Temos, portanto, os três Bolsonaro
atravessando a história de Vorcaro.
Jair, presidente quando Vorcaro recebeu
autorização para assumir o banco que se transformaria no Master. Flávio, que pediu US$ 24 milhões ao banqueiro
e é apontado pela PF como seu interlocutor direto. Eduardo, que aparece, segundo os
investigadores, na administração nos Estados Unidos dos recursos destinados ao
filme sobre seu pai.
E chegamos à eleição de 2026.
<><> O candidato que era
investigado e o eleitor não sabia
Há uma data anterior a 11 de setembro que
agora se torna fundamental. Julho de
2026. Foi naquele mês que a Polícia
Federal pediu autorização para investigar Flávio Bolsonaro no caso relacionado
ao financiamento de Dark Horse. André Mendonça autorizou. Passaram a ser
apuradas suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Portanto, a investigação de Flávio não nasceu
em 11 de setembro. O que começou a
morrer em 11 de setembro foi o sigilo que a escondia do eleitor. André Mendonça tornou públicos 14
procedimentos relacionados ao caso Master.
Mas deixou outros de fora.
A Procuradoria-Geral da República reagiu.
Informou ao presidente do Supremo que “grande parte” dos procedimentos
relacionados à Operação Compliance Zero continuava ausente e pediu o
levantamento do sigilo sem exceção, ressalvadas diligências cuja divulgação
pudesse comprometer as investigações.
Alexandre de Moraes também questionou a abertura parcial e pediu o fim
de “todo e qualquer sigilo” para evitar o que classificou como “escolha
seletiva e direcionamento subjetivo”. O
presidente do Supremo, Edson Fachin, interveio.
Na tarde de sexta-feira, 11, deu 24 horas
para que Mendonça ampliasse a quebra de sigilo e alcançasse o conjunto dos
procedimentos do caso Master que ainda permaneciam ocultos. A diferença é decisiva.
O inquérito existia. O eleitor não sabia o
que havia nele.
Durante cerca de dois meses, enquanto Flávio
consolidava sua candidatura e disputava a Presidência da República, uma
investigação criminal sobre sua relação com Daniel Vorcaro permaneceu sob
sigilo. Agora começa a ser conhecida.
Flávio nega irregularidades. Investigação não é condenação. Mas sigilo não pode
impedir que o eleitor conheça, a 23 dias da eleição, fatos de interesse público
sobre um candidato que pretende governar o Brasil.
<><> De volta a 2019
Há ainda uma peça que nos devolve ao início
da história.
Em terça-feira, 8 de setembro de 2026, quase
dez meses depois da prisão de Vorcaro, a Comissão de Valores Mobiliários
condenou o ex-banqueiro e outros envolvidos por fraude no fundo Brazil
Realty. As multas chegaram a
aproximadamente R$ 201 milhões. A defesa nega fraude e pode recorrer. O que torna a decisão particularmente
importante é a época dos fatos investigados: eles remontam justamente ao
período em que Vorcaro buscava demonstrar capacidade patrimonial para assumir o
Banco Máxima.
O círculo se fecha.
Em 2019, no governo Jair Bolsonaro, Vorcaro
recebeu autorização para assumir o banco.
O Máxima virou Master. O Master
cresceu.
Regimes responsáveis pelas aposentadorias de
servidores públicos colocaram quase R$ 2 bilhões em seus títulos. O BRB movimentou dezenas de bilhões em
operações com o Master e teve cerca de R$ 12,2 bilhões drenados pelas carteiras
fraudulentas, segundo auditoria encomendada pelo próprio banco.
Flávio pediu US$ 24 milhões a Vorcaro para
financiar o filme sobre Jair. Mais de R$
60 milhões foram repassados. Eduardo
apareceu, segundo os investigadores, na administração do dinheiro nos Estados
Unidos.
Vorcaro foi preso. O Master foi liquidado.
E agora descobrimos que Flávio Bolsonaro é
investigado desde julho pela Polícia Federal.
Voltemos, então, a Lula.
“No governo Bolsonaro, Vorcaro virou
banqueiro. No governo Lula, prisioneiro”
Entre o banqueiro e o prisioneiro encontramos Jair, Flávio e Eduardo
Bolsonaro. E encontramos os fatos. São eles que devem dizer ao eleitor se o
presidente Lula tem razão. Ou não.
• PF
suspeita que Toffoli tinha dinheiro de Vorcaro em paraíso fiscal, diz revista
A Polícia Federal suspeita que o ministro
Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal), seria proprietário ou
beneficiário final do fundo de investimento Arleen, que recebeu R$ 35 milhões
de Daniel Vorcaro, do Banco Master, segundo reportagem publicada pela revista
piauí na quinta-feira (10) com base em relatório do órgão enviado à corte. O
fundo Arleen comprou uma parte das cotas da Maridt —empresa de José Eugenio e
José Carlos Dias Toffoli, irmãos do ministro, e da qual o magistrado admitiu
fazer parte do quadro societário, como a Folha revelou— no resort Tayayá, em
Ribeirão Claro (SC).
Mensagens obtidas pela PF no celular de
Vorcaro mostram diálogos que o ex-banqueiro teria tido com seus operadores
financeiro, o cunhado Fabiano Zettel, e político, Fábio Faria, ex-ministro das
Comunicações do governo Bolsonaro, ao saber de atrasos nas tranferências para o
fundo Arleen. Há também uma mensagem endereçada a Toffoli que, no contexto, é
avaliada pela PF como tentativa de justificar os atrasos ao magistrado. “Oi
tudo bem? Gostaria de te ver rapidamente, você teria algum horário hoje?”,
escreveu Vorcaro após avisar a Faria que conversaria com Toffoli. Não há
indicação de resposta do ministro no documento da PF.
Como revelou a Folha em janeiro deste ano, o
Arleen pertencia ao dono do Master e foi comprado pelo empresário Alberto
Leite, amigo de Toffoli, em fevereiro de 2025.
Um mês depois, o fundo alterou seu
regulamento para permitir investimentos no exterior e, em dezembro, transferiu
todos os seus ativos para a holding Égide I, registrada nas Ilhas Virgens
Britânicas, paraíso fiscal do Caribe. “Foram identificados diversos elementos
de informação que, analisados de forma conjunta, apontam no sentido de que o
ministro José Antonio Dias Toffoli possa ter figurado como beneficiário final
ou proprietário de fato do FIP Arleen, bem como de seus ativos”, diz o
relatório da PF. “Documentos e comunicação […] sugere m uso de interpostas
pessoas e estruturas no exterior, incluindo movimentações envolvendo a Edige I
Holding nas Ilhas Virgens Britânicas”, afirma o documento. O envio de recursos
ao exterior teria ocorrido ao longo de 2025.
Nota enviada pelo gabinete do ministro Dias
Toffoli afirma que o magistrado “jamais manteve ou teve direta ou indiretamente
recursos no exterior” e que “jamais realizou qualquer operação direta ou
indiretamente nas Ilhas Virgens Britânicas”. O relatório da PF aborda supostos
encontros de Vorcaro e Toffoli. Um dos convites teriado sido feito por Toffoli
em outubro de 2023, para a comemoração de seus 56 anos em novembro, no Bar dos
Arcos, em São Paulo. Não há evidências de que o ex-banqueiro esteve na festa, mas
há uma mensagem em que ele afirma para outra pessoa: “Vou para SP domingo.
Aniversário do Toffoli”. O magistrado teria ido, segundo a PF, à casa do dono
do Master em novembro de 2023, por sugestão que Fábio Faria, que escreve a
Vorcaro: “Melhor na sua casa pro Toffoli ficar mais de boa”. Em março de 2024,
ainda de acordo com o relatório, o ministro teria convidado o ex-banqueiro para
um endereço em Brasília que, de acordo com o órgão, pode ser a residência do
membro do STF.
Faria teria intermediado, em abril, outra
suposta ida de Toffoli à casa do ex-banqueiro em Brasília. Vorcaro também teria
sido convidado ao aniversário do ministro em 2024, desta vez um
“jantar/drinks/banda” na casa do ex-deputado Guilherme Mussi, que chama o
magistrado de “nosso amigo Zé Tof”. O dono do Master desta vez recusa o
convite: “Puxa que pena, vou estar na Suíça a trabalho!”. Em nota, o gabinete
de Toffoli afirma que o ministro “jamais teve relação de amizade ou intimidade
com Daniel Vorcaro”.
O documento da PF também aponta, segundo a
reportagem, suspeitas de que Daniel Vorcaro tenha influenciado um voto do
magistrado em uma ação sobre precatórios do destilaria Alcídia, do grupo Atvos,
que cobrava da União reparação de prejuízos causados na década de 1980. Toffoli
tinha um posicionamento historicamente favorável às usinas em ações
semelhantes, mas, antes do julgamento da Alcídia, votou a favor da União em um
caso parecido e preocupou pessoas ligadas ao Banco Master, uma vez que a
decisão sobre a empresa do grupo Atvos impactaria diretamente a carteira de
precatórios do setor sucroalcooleiro no balanço do Master, que somava mais de
R$ 10 bilhões.
Os diálogos extraídos pela PF do celular de
Vorcaro sugerem ação do diretor jurídico do banco, André Kruschewsky, e do
ex-ministro Fábio Faria. Segundo o órgão, Kruschewsky aparentava “ter acesso ao
STF inclusive para ‘tirar de pauta’ o processo em questão”. No dia do
julgamento, o ministro Kassio Nunes Marques pediu vista do processo, e Toffoli
registrou ausência justificada. Assim, o caso foi adiado e retomado
posteriormente —por 3 votos a 2, com a posição de Toffoli a favor da usina
marcando o desempate, a tese da Alcídia prevaleceu. O gabinete do ministro nega
qualquer “alteração de voto” na nota enviada à Piauí.
A PF enviou o relatório ao presidente do STF,
Edson Fachin, porque Toffoli era o relator do caso Master e porque ministros do
Supremo não podem ser investigados sem o aval do tribunal. Em sua conclusão, o
documento diz que o documento foi encaminhado ao STF para “providências
cabíveis”. Tais ações poderiam ser tomadas pelo novo relator do inquérito do
Master, o ministro André Mendonça. Questionado pela revista, Mendonça afirma
que o relatório não foi enviado a ele. O gabinete do ministro Dias Toffoli afirma
que o documento “foi arquivado, com decisão de trânsito em julgado” e que
“conforme nota oficial do STF, do dia 12 de fevereiro de 2026, os dez ministros
tiveram ciência de todo o seu conteúdo e das devidas informações preparadas
pelo ministro tanto no formato escrito quanto presencialmente, deliberando não
ser o caso de suspeição”.
Fonte: Brasil 247

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