O celular de Vorcaro: os pedidos de ministros
do STF para acesso a conteúdo — e a resposta de Mendonça
Após sucessivas quebras de sigilos de
documentos relacionados ao caso Master na quinta e sexta-feira (10 e 11/09), o
acesso ao conteúdo completo extraído do celular do banqueiro Daniel Vorcaro
virou novo tema de embate entre os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Após a determinação do fim do sigilo dos
registros relacionados ao banco na quinta-feira (10) pelo presidente do
Supremo, Edson Fachin, o relator do caso, ministro André Mendonça, liberou o
acesso a parte dos documentos.
No dia seguinte, Alexandre de Moraes apontou,
em um ofício encaminhado a Fachin, uma "escolha seletiva" de Mendonça
na retirada do sigilo. O ministro também pediu a liberação imediata de todo e
qualquer documento relacionado ao caso.
Em dois ofícios seperados, os ministros
Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin também solicitaram ao presidente do STF
acesso ao conteúdo completo extraído do celular de Vorcaro, um iPhone 17 Pro
apreendido pela Polícia Federal (PF).
"A mídia solicitada encontra-se no
gabinete de Sua Excelência e deve ser compartilhada com os demais julgadores
para que todos tenham a mesma oportunidade de análise dos elementos
relacionados ao aludido processo", escreveu Zanin em seu pedido.
Mendonça liberou, na noite de sexta, o sigilo
de outros processos envolvendo o Master, mas informou a Fachin que o celular de
Vorcaro não está sob sua posse, mas sim guardado nos depósitos da PF para
preservar a cadeia de custódia da prova. O relator declarou que possui apenas
uma cópia de segurança em disco rígido criptografado, que permanece lacrada.
Em novo ofício, Zanin contestou a
justificativa do colega, sustentando que o lacre de uma cópia de segurança não
impede o compartilhamento com os demais membros do STF.
Neste sábado (12/09), o ministro Gilmar
Mendes reforçou o pedido para que todos os ministros tenham acesso integral à
cópia dos dados extraídos do celular, em mais um ofício enviado a Fachin.
No documento, o decano do STF endossa os
argumentos apresentados por Zanin e solicita que, caso Mendonça não
disponibilize os dados, a presidência da Corte requisite "com
urgência" à PF o envio das mídias diretamente aos gabinetes.
"Reitero, no ponto, os fundamentos
deduzidos pelo eminente Ministro Cristiano Zanin, no sentido de que tal
providência é necessária para que seja assegurado a todos os Ministros o
conhecimento de todas as informações relevantes para o julgamento, já que a
subsistência de acesso assimétrico ao acervo informativo compromete a paridade
entre os integrantes da Corte e, em última análise, a própria colegialidade que
deve presidir o julgamento", escreveu o ministro Gilmar Mendes no pedido a
Fachin.
Os embates entre os ministros em relação ao
acesso aos documentos obtidos pela PF ao longo das investigações sobre o caso
ocorre às vésperas de uma sessão marcada para a próxima terça-feira (15/09)
para discussão da grave crise que a Corte atravessa.
<><> O embate entre Moraes e
Mendonça
Na semana passada, Mendonça protagonizou um
embate com Moraes no âmbito dessas investigações.
Em 1º de setembro, através da petição 16.662,
Mendonça levantou o sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF) com indícios
de que Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, teria pedido conselhos e trocado
informações com Moraes.
Dois dias depois, Moraes rebateu e retirou o
sigilo de relatórios da inteligência da PF sobre supostas condutas irregulares
de Mendonça, o qual teria agido contra Moraes e outros colegas de tribunal.
Até então relator do polêmico Inquérito das
Fake News, Moraes também havia pedido a inclusão de Mendonça nesta
investigação.
Na quarta-feira (09/09), Fachin decidiu tirar
de Moraes a relatória deste inquérito e agendar para 15 de setembro a sessão
plenária para tratar do caso.
Diante da crise que se abriu no STF com a
revelação das mensagens e as decisões subsequentes de Mendonça, Moraes e do
ministro Flávio Dino, é possível que o julgamento seja ampliado para discutir
outros vários da "guerra" entre os ministros, explica Emílio Peluso,
professor de direito constitucional da Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG).
<><> O que se sabe sobre o
celular de Vorcaro
Ex-controlador do Banco Master, Vorcaro foi
preso em novembro de 2025. Ele é investigado por suspeita de cometer fraudes
financeiras estimadas em R$ 12,2 bilhões.
Por meio de trocas de mensagens e documentos
extraídos do celular do ex-banqueiro, a PF levantou uma série de suspeitas de
irregularidades.
O conteúdo do aparelho é relevante em duas
frentes distintas: a apuração dos supostos crimes financeiros ligados ao caso
Master e as relações de Vorcaro com autoridades políticas e do Judiciário.
No caso do financiamento do filme Dark Horse
— cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro que acabou se tornando parte
das investigações — os investigadores afirmam ter encontrado conversas,
comprovantes e registros que indicariam a participação direta de Vorcaro na
liberação de recursos para a produção e na discussão sobre a forma como esse
dinheiro seria movimentado nos Estados Unidos.
Os documentos liberados por Mendonça na noite
de sexta-feira apontam especialmente para a relação com o senador e candidato
Flávio Bolsonaro (PL), descrito pela PF como interlocutor direto nas tratativas
para obtenção de recursos para o filme.
O celular também continha mensagens —
tornadas públicas após uma decisão do ministro André Mendonça — que teriam sido
enviadas por Vorcaro a um contato salvo com o nome Alexandre de Moraes.
Há também conversas de Vorcaro com
funcionários do Master e pessoas ligadas à família de Moraes.
Diálogos envolvendo o senador Jaques Wagner
(PT-BA) também dão "robustos indícios" de crimes de corrupção ativa e
passiva e lavagem de ativos, segundo um relatório da PF cujo sigilo foi
retirado nesta sexta.
• O
que diz inquérito sobre relação de Jaques Wagner com Banco Master e Vorcaro
Diálogos envolvendo o senador Jaques Wagner
(PT-BA) dão "robustos indícios" de crimes de corrupção ativa e
passiva e lavagem de ativos, segundo um relatório da Polícia Federal (PF) cujo
sigilo foi retirado nesta sexta-feira (11/09), em meio à abertura ao público
pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de investigações sobre o Banco Master.
Segundo investigadores, em conversas, Wagner
demonstrou interesse em notícias sobre o Master, além de ter acompanhando do
parlamento pautas de interesse do banco.
Em agosto de 2024, o senador teria enviado
uma mensagem para Augusto Ferreira Lima afirmando: "Vamos marcar, que eu
precisava conversar com você pra saber como estão as coisas do banco".
Para a PF, seria uma referência ao Master.
O banqueiro Augusto Ferreira Lima, ex-sócio
de Vorcaro, seria o principal elo entre Wagner e o Master. Vários diálogos
entre ele e o senador são explorados no relatório da PF.
Entre 17/11/2023 e 25/05/2025, foram
contabilizadas 74 chamadas telefônicas realizadas entre os dois — excluindo-se
aquelas não atendidas —, totalizando 5h30.
"Para além de uma eventual amizade, o
relacionamento entre ambos, do que se depreende dos diálogos, parece ser uma
via de mão única: em regra, o Senador recebe ou solicita vantagens ou favores,
e o empresário os concede", diz o documento.
Lima teria disponibilizado a Wagner ingressos
para o show da cantora americana Taylor Swift e ao menos quatro voos em
aeronaves.
Eles teriam trocado ainda informações sobre
um apartamento avaliado em R$ 2,4 milhões em Salvador e que seria comprado por
terceiros, de forma a "camuflar a real titularidade do bem". Não está
claro se o imóvel realmente foi adquirido, e por quem.
O relatório não traz contatos diretos entre
Wagner e Vorcaro, mas afirma que existiu "ao menos algum grau de
interlocução entre o parlamentar e Daniel Bueno Vorcaro".
Aliado histórico do presidente e candidato à
reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Wagner deixou de ser líder do governo
no Senado após tornar-se alvo de investigações da PF relacionadas ao Master.
Ele busca a reeleição ao Senado, com apoio de
Lula.
A BBC News Brasil está em busca de um
posicionamento do senador petista através de sua assessoria de imprensa e de
seu gabinete no Senado.
Em entrevista à TV Globo realizada no fim de
agosto, Lula afirmou que ainda não se tinha conseguido provar que Wagner
tivesse relação com o Banco Master.
"Eu tenho consciência que o Wagner é
honesto. Se ele cometeu um desvio, vai acontecer com ele o que vai acontecer
com qualquer pessoa: vai pagar o preço do erro que cometeu. Eu não sou uma
pessoa que mudo de calçada quando encontro o amigo que está sendo acusado de
alguma coisa. Não. Até que se prove o contrário, todos são inocentes",
afirmou o presidente.
<><> 'Emenda Master'
De acordo com investigadores da PF, assim
como fez o senador Ciro Nogueira (PP-PI), Wagner atuou no Senado por uma
proposta legislativa de interesse do Banco Master — a emenda número 11 à PEC
65/2023.
Esta proposta, conhecida como "Emenda
Master", visava aumentar o limite de aplicações financeiras protegido pelo
Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
A PF traz mensagens trocadas entre Daniel
Vorcaro e Guilherme Sodré, descrito como "indivíduo historicamente
relacionado ao Senador JAQUES WAGNER" e "intermediário do
parlamentar".
Em agosto de 2024, seis dias antes da
inclusão da emenda 11, Sodré teria enviado a Vorcaro uma mensagem afirmando que
"Lucas" entraria em contato para acertar detalhes sobre um encontro
em Brasília.
Pouco depois, Lucas, identificando-se como
chefe de gabinete de Jaques Wagner, envia uma mensagem a Vorcaro.
Dias depois, Guilherme Sodré envia para
Vorcaro um número de telefone identificado como pertencente a Wagner e escreve
ao banqueiro: "Boa sorte".
• Zanin
põe Mendonça em xeque e parceiros do Master em pânico ao pedir dados do celular
de Vorcaro. Por Ricardo Amaral
Ao requisitar os dados completos extraídos do
celular apreendido pela Polícia Federal com Daniel Vorcaro, o ministro do STF
Cristiano Zanin colocou em xeque eventuais manobras do ministro André Mendonça
para escapar ao ponto central da suspensão de sigilo no inquérito do Banco
Master, solicitada quinta-feira pelo presidente da corte, Edson Fachin. É no
celular de Vorcaro que se encontram os registros das mensagens trocadas com
todos os seus interlocutores, e que até agora foram divulgados apenas parcialmente
por Mendonça, com evidente direcionamento aos contatos com o ministro Alexandre
de Moraes. E é a possibilidade de se revelar todos esses contatos que está
deixando em pânico quem fez negócios com Vorcaro.
O argumento que justifica a requisição de
Zanin é forte: se o plenário do STF foi convocado para analisar, terça-feira, o
pedido de investigação de Moraes com base em parte das mensagens do celular de
Vorcaro, é essencial que todos os ministros do STF tenham o mesmo acesso que
Mendonça teve a estas informações completas. Só assim os ministros terão como
conferir a veracidade e o contexto das mensagens divulgadas e até mesmo avaliar
se houve ou não seletividade e direcionamento na composição do relatório, conforme
sustenta Moraes.
“Todos os ministros temos o direito de
acessar o mesmo nível de informações para eventualmente julgarmos o caso”,
disse Zanin a interlocutores. Dificilmente Mendonça terá como recusar o envio
dos dados, em HDs únicos, aos demais ministros, pois esta providência não
interfere nas investigações em curso do inquérito do Banco Master. No ofício
dirigido esta manhã ao presidente Fachin, o ministro Zanin citou textualmente a
Informação de Polícia Judiciária (PF) que encaminhou ao gabinete de Mendonça o
laudo técnico completo das mensagens extraídas do Iphone aprendido com Daniel
Vorcaro. Impossível para Mendonça negar.
Se as mensagens recebidas e enviadas por
Daniel Vorcaro se tornarem de conhecimento público, o efeito será semelhante ao
da Operação Spoofing, que oficializou as informações divulgadas pelo The
Intercept, em 2019, contendo as conversas secretas e criminosas entre os
procuradores da Lava Jato e o ex-juiz Sergio Moro. O que está lá vai além do
Dark Horse, do suborno de servidores do Banco Central, das manobras
legislativas com dirigentes do Centrão e até mesmo das negociações de
patrocínio do Master, que incluem o Grupo Globo e Luciano Huck.
Fonte: BBC News Brasil/Brasil 247

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