Prosopagnosia:
a ciência por trás da cegueira facial e como os especialistas a determinam
Uma
vez, não reconheci quem era meu namorado na época. Estávamos juntos havia cerca
de seis meses quando nos encontramos por acaso em um supermercado.
Mas,
quando nos cruzamos no corredor dos cereais, não fazia ideia de quem ele era.
Lembro de ter me sentido desconfortável com o fato de ele estar tão perto, até
que ele falou e reconheci sua voz.
Como
era de esperar, ele não gostou nem um pouco.
Mas,
para mim, isso é normal. Sempre tive dificuldade para reconhecer rostos,
independentemente de quão bem eu conheça alguém.
Por
isso, decidi fazer um teste para detectar a prosopagnosia, uma condição em que
as pessoas têm dificuldade para reconhecer rostos.
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O que causa a prosopagnosia, a cegueira facial?
Especialistas
afirmam que a prosopagnosia (cegueira facial) é mais comum do que a maioria das
pessoas imagina e afeta aproximadamente uma em cada 50 pessoas.
Em
alguns casos, a condição se desenvolve após uma lesão cerebral, por exemplo,
depois de um acidente vascular cerebral (AVC), embora "não conheçamos
muitas pessoas que tenham prosopagnosia por esses meios", afirma a
professora Sarah Bate, psicóloga da Universidade de Bournemouth, no Reino
Unido.
É muito
mais comum que as pessoas tenham dificuldades desde cedo, explica ela. É o que
se conhece como prosopagnosia do desenvolvimento ou congênita.
Acredita-se
que essa forma da condição seja hereditária, o que sugere uma possível relação
genética, embora os genes responsáveis ainda não sejam conhecidos com exatidão.
"Nunca
é tão simples quanto existir um único gene", diz Bate. "Geralmente,
trata-se de uma interação muito mais complexa entre fatores genéticos e
ambientais."
Bate
acredita que as experiências visuais na infância podem influenciar. Algumas
pessoas com prosopagnosia descrevem que sua visão era deficiente ou incomum
quando eram crianças.
"Pode
haver fases críticas do desenvolvimento que sejam importantes para aprender a
reconhecer rostos", diz. "Se uma criança não recebeu óculos quando
precisava, ou se nasceu com catarata que afetava sua visão, isso poderia
alterar esse processo."
Pessoalmente,
isso faz todo sentido para mim. Quando era pequena, tive algumas dificuldades
de visão, mas jamais teria relacionado o fato de ter usado um tampão em um dos
olhos aos oito anos à dificuldade que eu tinha, já adulta, para reconhecer meu
então namorado.
Também
há indícios de que outros fatores possam contribuir.
"Sabemos,
por exemplo, que, em transtornos do espectro autista, algumas pessoas podem não
se sentir confortáveis fazendo contato visual. Um grande número de pessoas com
esses transtornos também tem dificuldades com o reconhecimento facial",
afirma Bate.
Crianças
que crescem com contato social limitado também podem ter dificuldades para
reconhecer rostos mais tarde na vida, acrescenta ela.
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Menor conectividade
Reconhecer
um rosto familiar pode ser fácil para a maioria das pessoas, mas
neurocientistas afirmam que isso depende de uma complexa sequência de processos
cerebrais.
"Temos
um circuito cerebral específico para o reconhecimento facial", afirma a
professora Zaira Cattaneo, neurocientista da Universidade de Bérgamo, na
Itália, que pesquisa a percepção facial.
"Tudo
começa na parte posterior do cérebro, nas regiões sensoriais", que
evoluíram para ser "extremamente seletivas para rostos".
Essa
região, conhecida como lobo occipital, contém o córtex visual primário, onde as
informações visuais são recebidas e interpretadas pela primeira vez.
As
informações visuais então seguem para uma região do cérebro chamada córtex
temporal, onde o reconhecimento se aprofunda.
"Nesse
ponto, você não apenas reconhece um rosto, mas também sabe se ele é
familiar", explica Cattaneo. "Você pode associar um nome e todas as
informações semânticas e biográficas sobre a pessoa."
A etapa
final envolve o córtex pré-frontal, uma área ligada ao pensamento consciente e
à tomada de decisões, onde "basicamente representamos conscientemente o
rosto, porque a maior parte do processamento sensorial não é consciente".
Cientistas
como Cattaneo acreditam agora que o processo quase instantâneo de reconhecer um
rosto não depende apenas de regiões cerebrais individuais, mas de como elas
trabalham juntas.
Segundo
ela, pessoas com prosopagnosia (cegueira facial) "podem ter menor
conectividade entre as diferentes partes do circuito facial".
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Caras famosas
As
evidências sugerem que, à medida que envelhecemos, podemos ter mais
dificuldades para reconhecer rostos, e não apenas por causa de um declínio
geral da memória.
Cattaneo
explica que, com o tempo, as regiões do cérebro envolvidas se tornam menos
seletivas para rostos familiares.
Assim,
tanto para quem teve dificuldades quando era mais jovem, como eu, quanto para
quem não teve, "todos nós podemos ter deficiências no reconhecimento
facial à medida que envelhecemos", afirma.
Mas
minha prosopagnosia definitivamente não está relacionada à idade. Lido com ela
desde que me lembro. Por isso, fiquei muito feliz quando Bate se ofereceu para
fazer o teste comigo para verificar se eu atendia aos critérios oficiais.
O teste
começou com um questionário sobre minhas experiências cotidianas com rostos.
Indiquei meu grau de concordância ou discordância com afirmações como se
frequentemente não reconheço as pessoas ou se tenho dificuldade para
identificar indivíduos quando usam roupas parecidas.
Depois,
respondi a perguntas sobre a frequência com que apresento sintomas comuns de
prosopagnosia (cegueira facial). Por fim, fiz um teste com rostos famosos, no
qual me mostraram uma série de pessoas conhecidas e eu precisava decidir se
cada rosto me era familiar.
Fiquei
muito feliz ao ver David Attenborough, o naturalista e apresentador britânico,
mas não consegui reconhecer Paul McCartney, dos Beatles, o ator de Hollywood
Tom Hanks e o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.
Como
era de esperar, eu atendia aos critérios para prosopagnosia. Não foi uma
surpresa, mas receber um diagnóstico oficial me fez sentir que minha
experiência era validada.
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Treinamento cerebral?
Provavelmente
é algo com que terei de conviver por toda a vida, embora os cientistas estejam
investigando se a rede de reconhecimento facial do cérebro pode ser ativamente
aprimorada.
Os
neurônios costumam se ativar juntos em padrões sincronizados chamados
oscilações. "Basicamente, podemos treinar o cérebro para oscilar em uma
frequência que esteja relacionada a uma percepção eficiente", afirma
Cattaneo.
Ela
está pesquisando o uso de uma corrente elétrica fraca e não invasiva, aplicada
por meio do couro cabeludo, para estimular a sincronização dos neurônios.
Os
primeiros resultados sugerem que isso pode ajudar no reconhecimento facial, mas
Cattaneo alerta que não se deve fazer promessas exageradas.
"Às
vezes, o risco é que as pessoas recorram a essas técnicas pensando que são
milagrosas", afirma. "Os efeitos que observamos são de apenas dois ou
três pontos percentuais em uma tarefa específica, ou de uma melhora de alguns
milissegundos."
Bate
afirma que as tentativas de treinar o reconhecimento facial, de forma
semelhante aos exercícios gerais de treinamento cerebral, tiveram sucesso
limitado.
"São
feitas centenas de repetições de uma determinada tarefa; já testamos esse tipo
de abordagem tanto em adultos quanto em crianças, com resultados bastante
modestos, para ser sincera."
Ela
sugere focar em maneiras práticas de lidar com o dia a dia, usando estratégias
que dependam menos do reconhecimento de rostos, como se planejar com
antecedência em situações sociais.
"Muitas
pessoas sempre combinam um ponto de encontro muito claro, para saber exatamente
onde estarão e garantir que sejam as primeiras a chegar", sugere.
Aprendi
a reconhecer as pessoas prestando atenção a pequenos detalhes: alguém anda com
um ar de superioridade? Tem uma voz marcante? Ou sempre usa um determinado
batom?
É uma
estratégia que funciona bem para mim, mas tem seus riscos. Se alguém corta o
cabelo, volto à estaca zero.
Fonte:
Por Caroline Steele - BBC CrowdScience

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