Cerveja e destilados elevam risco de morte
mesmo em baixo consumo
Mesmo em poucas quantidades, o consumo de
destilados, sidra e cerveja está associado a um aumento na mortalidade por
todas as causas e, especificamente, por câncer e doenças cardiovasculares, diz
um estudo com dados de 340 mil pessoas. Por outro lado, a ingestão baixa a
moderada de vinho tem o efeito contrário, sugerindo que não é só o quanto, mas
o que se bebe, que define a relação entre álcool e saúde. A pesquisa, da
Universidade Central do Sul, na China, foi apresentada no congresso do Colégio
Norte-Americano de Cardiologia, em Nova Orleans, nos Estados
Unidos.
O consumo elevado de álcool — mais de sete
doses (mulheres) ou 14 (homens) semanais — tem sido relacionado a um risco
aumentado de doenças cardiovasculares, vários tipos de câncer e condições
neurodegenerativas, como mal de Alzheimer. Porém, há um debate sobre a ingestão
moderada a baixa, já que alguns estudos associam substâncias presentes no vinho
a um efeito protetor, especialmente para o coração. A bebida também é comum no
cardápio de um dos padrões alimentares considerados mais saudáveis no mundo, a
dieta mediterrânea.
Zhangling Chen, professor do Segundo Hospital
Xiangya, na China, e autor senior do estudo, afirma que a análise dos dados
complementa pesquisas anteriores que demonstram benefícios do consumo baixo de
vinho, e adiciona informações sobre quando isso é verdade. Ele ressalta, porém,
que os resultados se referem à população em geral, e não incluem grupos de alto
risco, como pacientes de doenças crônicas ou problemas cardiovasculares.
Segundo Chen, nesses casos, qualquer quantidade e tipo de bebida alcoólica pode
fazer mal à saúde.
"Do ponto de vista de prevenção,
especialmente em pessoas com obesidade, hipertensão, esteatose hepática,
diabetes, hipertrigliceridemia, apneia do sono, arritmia, história familiar
forte de câncer ou doença cardiovascular, a orientação mais prudente é reduzir
ao máximo e, em muitos casos, evitar o álcool", recomenda o médico
nutrólogo Gustavo Sá, do Instituto LongLife (SP). "Em pessoas com fatores
de risco para doenças crônicas, cerveja e destilados não devem ser vistos como
hábitos inofensivos. A recomendação mais segura é reduzir fortemente o consumo
e, para muitos pacientes, evitar. O ponto central é que álcool não é ferramenta
de saúde."
<><> Questionário
Os pesquisadores analisaram os hábitos de
consumo de álcool e as taxas de mortalidade de 340.924 adultos que constam no
maior banco de dados mundial de saúde, o UKBiobank, coletados entre 2006 e
2022. Cada participante respondeu a um questionário alimentar ao se inscrever
no estudo e foi agrupado em quatro categorias com base na ingestão alcoólica,
medida em gramas de álcool puro por dia e por semana.
Para referência, uma lata de cerveja de
355ml, uma taça de vinho de 148ml e uma dose de destilado de 44ml contêm cerca
de 14g de álcool puro, cada. Pessoas que consumiam menos de 20g (cerca de 1,5
dose padrão) por semana foram classificadas como não bebedoras ou bebedoras
ocasionais.
Homens que consumiam entre 20g por semana e
20g por dia e mulheres que ingeriam entre 20g semanais e 10g diários foram
considerados na categoria de baixo consumo. Já quando as quantidades
ultrapassaram 40g (três doses) por dia entre o público masculino e 20g (1,5
dose) no feminino, os participantes eram encaixados no grupo de ingestão
elevada. Os dados de saúde dessas pessoas foram acompanhados por uma média de
13 anos.
Em comparação com pessoas abstêmias ou que
beberam ocasionalmente, aquelas com alto consumo de álcool tiveram 24% mais
chances de morrer por qualquer causa; risco 36% mais elevado de óbito por
câncer, e 14% maior por doenças cardiovasculares. No caso daqueles que ingeriam
o produto moderada ou raramente, cerveja ou sidra tiveram associação mais
significativa com mortalidade, enquanto, com o vinho, a relação foi
oposta.
Analisando especificamente as mortes por
doenças cardiovasculares, os pesquisadores descobriram que os consumidores
moderados de vinho tinham um risco 21% menor de morrer por doenças
cardiovasculares em comparação com aqueles que nunca bebiam ou ingeriam
ocasionalmente. Por outro lado, mesmo o baixo consumo de destilados, cerveja ou
sidra foi associado a uma mortalidade por problemas do coração 9% maior, em
relação aos abstêmios ou com baixo consumo.
"Nossos resultados ajudam a esclarecer
evidências anteriormente contraditórias sobre o consumo de álcool em níveis
baixos a moderados", disse Chen, em nota. "Esses resultados podem
ajudar a aprimorar as diretrizes, enfatizando que os riscos à saúde associados
ao álcool dependem não apenas da quantidade consumida, mas também do tipo de
bebida. Mesmo o consumo baixo a moderado de destilados, cerveja ou sidra está
associado a maior mortalidade, enquanto o consumo baixo a moderado de vinho pode
apresentar menor risco."
<><> Hábitos e biologia
podem explicar diferenças
Autor principal do estudo que
investigou diferentes tipos de bebida e seus desfechos de saúde, Zhangling
Chen, professor do Segundo Hospital Xiangya, na China, afirma que diversos
fatores podem explicar por que o baixo consumo de vinho parece benéfico,
enquanto o de cerveja, destilados e sidra é prejudicial, mesmo em poucas doses.
Certos compostos presentes na bebida à base de uvas, como polifenóis e
antioxidantes, protegeriam o coração. Além disso, ela é mais frequentemente
consumida durante as refeições e por pessoas com dietas de melhor qualidade e
hábitos mais saudáveis, argumenta Chen.
Já os destilados, a cerveja e a sidra são
frequentemente ingeridos fora do contexto alimentar e estão relacionados a uma
dieta mais pobre e a outros fatores de risco associados ao estilo de vida.
"Em conjunto, esses fatores sugerem que o tipo de álcool, a forma como é
consumido e os comportamentos de estilo de vida associados contribuem para as
diferenças observadas no risco de mortalidade", disse o pesquisador da
China.
"O possível efeito cardioprotetor do
vinho se dá pelos polifenóis, tendo em vista que o vinho, principalmente o
tinto, tem uma fonte rica de transresveratrol e flavonoides. Trata-se de
compostos bioativos com ação antioxidante, anti-inflamatória e protetora dos
vasos sanguíneos", explica a nutricionista Fabiana Ximenes, nutricionista
da Clínica Tivoli, em Brasília. "Porém não podemos esquecer os efeitos
nocivos do álcool, podemos encontra esses polifenóis em outras fontes e não
necessariamente tendo que consumir bebidas alcoólicas", argumenta.
"Esse possível benefício do vinho deve ser interpretado com muita cautela.
Pode haver algum papel de compostos fenólicos e do padrão de consumo com
refeições, mas associação não significa proteção comprovada", concorda o
nutrólogo Gustavo Sá, do Instituto LongLife (SP).
<><> Tóxico e psicoativo
Thiago Piccirillo, clínico geral da Rede de
Hospitais São Camilo de São Paulo, ressalta que, independentemente da bebida, o
álcool é uma substância tóxica e psicoativa, que desencadeia reações capazes de
afetar todos os órgãos. "No sistema nervoso, a substância atua como um
depressor central, prejudicando o julgamento e a coordenação motora no curto
prazo, mas pode causar danos estruturais severos com o uso crônico, incluindo a
perda de massa cinzenta e o encolhimento do cérebro", explica o médico.
"Essas alterações estão diretamente ligadas ao desenvolvimento de quadros
de ansiedade, depressão e distúrbios do sono."
Além disso, o cardiologista Audes Feitosa,
professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e presidente do
Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia no
biênio 2020/2021, destaca que o álcool interfere no equilíbrio de hormônios
responsáveis pela regulação dos vasos sanguíneos, além de estimular o sistema
nervoso simpático, o que acelera os batimentos cardíacos e favorece o
surgimento de arritmias. "O uso excessivo e contínuo do álcool eleva o
risco de acidente vascular cerebral (AVC) e pode enfraquecer o músculo do
coração, levando à insuficiência cardíaca, inclusive em pessoas sem histórico
prévio de doenças cardiovasculares", reforça.
>>> Três perguntas para Taynara
Abreu, nutricionista do Hospital Mantevida (DF)
·
O que pode explicar o
efeito cardioprotetor de baixas quantidades de vinho?
Esse efeito está associado, principalmente, à
presença de compostos bioativos como os polifenóis — especialmente o
resveratrol. Esses compostos têm ação antioxidante, anti-inflamatória e
contribuem para a melhora da função endotelial, além de favorecerem a modulação
do perfil lipídico, com aumento do HDL-colesterol. Além disso, o consumo
moderado de vinho costuma estar inserido em padrões alimentares mais saudáveis,
como a dieta mediterrânea, o que pode atuar como fator de confusão nos
resultados. Portanto, não se pode atribuir o benefício exclusivamente ao vinho,
mas sim a um conjunto de comportamentos associados. É importante destacar que
não há recomendação clínica para iniciar o consumo de álcool com finalidade
cardioprotetora.
·
Cerveja, sidra e
destilados deveriam ser completamente evitadas por pessoas com fatores de risco
para doenças crônicas?
Sim, essa é uma conduta prudente do ponto de
vista clínico. Mesmo em baixas quantidades, o consumo de álcool — especialmente
proveniente de cerveja, destilados e sidra — pode estar associado a aumento de
risco cardiovascular e de mortalidade, como demonstrado no estudo. Para
indivíduos com fatores de risco, como obesidade, dislipidemia, hipertensão,
resistência à insulina ou histórico familiar de doenças crônicas, a
recomendação mais segura é a redução significativa ou até a abstinência. Isso
porque o álcool exerce efeitos metabólicos negativos, incluindo aumento de
triglicerídeos, impacto hepático e potencial inflamatório.
·
O aumento de casos de
câncer colorretal pode estar associado ao consumo de álcool?
Sim. O consumo de álcool está
consistentemente associado ao aumento do risco de diversos tipos de câncer,
incluindo o câncer colorretal. O etanol é metabolizado em acetaldeído, uma
substância reconhecidamente carcinogênica, que pode causar danos ao DNA e
interferir nos mecanismos de reparo celular. Além disso, o álcool pode aumentar
o estresse oxidativo, alterar a microbiota intestinal e prejudicar a absorção
de nutrientes protetores, como o folato. A relação é dose-dependente, mas
evidências mostram que não há nível totalmente seguro de consumo quando se
trata de risco oncológico.
Fonte: Correio Braziliense

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