Por que os anos 1980 foram tão coloridos? A
explicação por trás da 'trend' de fotos de IA que viralizou
Não é só o ChatGPT ou o Gemini que imaginam
cores vibrantes, cabelos volumosos e roupas hoje vistas como extravagantes
quando pedimos que recriem uma foto como se ela tivesse sido tirada nos anos
1980, parte da trend que viralizou nas redes sociais nesta semana.
Guardados os exageros que a inteligência
artificial pode cometer ao tentar imaginar o período, a imagem que temos dos
anos 1980 foi real. Ela surgiu, segundo especialistas ouvidos pela BBC News
Brasil, do contraste entre as crises que castigavam o mundo na época e a
maneira como as pessoas reagiam às dificuldades.
"Esse movimento veio de um cansaço,
porque os anos 1970 foram ditatoriais em vários lugares do mundo. Foram
difíceis, asfixiantes. Então, nos anos 1980, houve uma espécie de
liberação", diz o professor Francisco Homem de Melo, um dos maiores pesquisadores
do Brasil na área de design.
No mundo de carne e osso, ainda havia a
Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética (URSS); o apartheid que
separava brancos e negros na África do Sul; as ditaduras militares que
perseguiam milhares na América Latina, inclusive no Brasil; e a crise do HIV e
da Aids, que matava no mundo todo.
Por outro lado, no mundo artificial da
televisão, Xuxa vestia botas altas, minissaias, ombreiras e roupas cheias de
brilho para sair de uma nave cor-de-rosa e comandar um programa na Globo,
enquanto o palhaço Bozo armava um verdadeiro circo, com arquibancadas, palcos
circulares, grandes letreiros e telefones gigantes, no SBT.
E a extravagância não se limitava aos
programas infantis — e tampouco se expressava apenas nos cenários coloridos.
Gugu Liberato escolhia o "Rambo brasileiro", realizava os sonhos de
fãs com seus ídolos e terminava o programa com uma multidão dançando como
passarinhos, enquanto Chacrinha comandava seu Cassino jogando até bacalhau e
abacaxi para a plateia.
Na música, os Menudos — que eram
porto-riquenhos, mas aprenderam a cantar em português — arrastavam multidões de
adolescentes de cabelos volumosos e roupas coloridas, pedindo que ninguém se
reprimisse, enquanto Ney Matogrosso radicalizava a transgressão que já era
característica à sua carreira ao subir ao palco de rosto pintado e quase sem
roupa, só com tapa-sexo, penas, colares e glitter.
Havia ainda Madonna, com seus figurinos e
performances cada vez mais provocativos, em trabalhos como Like a Virgin e Like
a Prayer; Michael Jackson, com clipes marcantes como Thriller; e uma infinidade
de outros exemplos que poderiam preencher dezenas de parágrafos e se espalhar
pelo mundo.
Tudo isso enquanto o Brasil, por exemplo,
vivia sob a ditadura, que mesmo em processo de abertura ainda censurava
músicas, filmes, peças e programas de televisão, além de perseguir opositores e
controlar manifestações políticas.
Mas em vez de representar diretamente as
crises políticas e sociais vigentes, boa parte da arte funcionou como uma
reação à sobriedade e à funcionalidade que haviam dominado o design e a cultura
nas décadas anteriores.
No design, a máxima de que tudo precisava ter
uma utilidade, por exemplo, começou a ser questionada pelo movimento
pós-modernista. Um dos melhores exemplos disso foi o grupo Memphis, criado na
Itália para virar de cabeça para baixo a ideia de que um objeto bonito
precisava ser discreto e simples.
Seus integrantes criavam móveis e objetos com
cores vibrantes, formas tortas, estampas chamativas e materiais que se pareciam
até com brinquedos. Não tinha medo de ser kitsch — como ficou conhecida aquela
estética que mistura elementos considerados exagerados, artificiais ou "de
mau gosto".
No Reino Unido, outro centro dessa renovação,
houve uma explosão musical em meio à dureza dos anos da primeira-ministra
Margaret Thatcher, quando os britânicos enfrentavam desemprego, fechamento de
fábricas e uma crise que atingia especialmente os trabalhadores.
David Bowie, uma estrela já consolidada desde
a década anterior, foi uma das referências visuais para a nova geração do pop
britânico.
Um dos principais museus de Londres, o
Victoria and Albert Museum (V&A), que abriu no ano passado uma área
dedicada ao artista, destaca sua influência e sua maneira de brincar com
códigos de gênero por meio de roupas, maquiagem e diferentes personas.
Embora essa influência tenha sido, em alguns
casos, mais visual do que musical, artistas e grupos como Duran Duran, Culture
Club, Spandau Ballet e Eurythmics vieram na mesma linhagem de um pop que fazia
da imagem parte essencial de sua identidade.
<><> O pop rock do Rio de Janeiro
No Brasil, essa mudança de comportamento se
expressou principalmente pela música, e sobretudo no Rio de Janeiro, segundo o
professor Francisco Homem de Melo, que lecionou na Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo. A música foi, inclusive, o
que influenciou os programas de TV.
O professor explica que, em contraponto aos
tropicalistas — a turma de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé —, que se
estabeleceram no fim dos anos 1960 e ao longo dos anos 1970, bandas de pop rock
cariocas como Barão Vermelho, Blitz, Kid Abelha e Paralamas do Sucesso passaram
a responder à repressão não por meio de protestos, do exílio ou de qualquer
militância explícita, mas pelo rompimento com os comportamentos e costumes
valorizados pelo regime.
"Essa geração de 80 tinha um cansaço da
política partidária e da luta contra a ditadura, a ponto inclusive de ter
parecido uma juventude alienada. Não acho que era uma juventude alienada, de
jeito nenhum. Eles estavam no Rio, na praia, e queriam chutar o pau da barraca.
Queriam curtir um pouco o prazer", diz Chico, como o professor é conhecido
e assina seus livros.
"É político também, por vezes até mais
estruturalmente político do que uma militância ortodoxa."
Um dos episódios mais marcantes da trajetória
do Barão Vermelho, o show da primeira edição do Rock in Rio, em 1985, ilustra a
verve libertária vigente.
A apresentação terminou com Pro Dia Nascer
Feliz, com Cazuza dizendo: "Que o dia nasça lindo para todo mundo amanhã.
Um Brasil novo, com uma rapaziada esperta". Naquele mesmo dia, o Congresso
havia elegido, ainda de forma indireta, Tancredo Neves como o primeiro
presidente civil após mais de 20 anos de regime militar.
A visão do professor, também autor do livro
Linha do Tempo do Design Gráfico no Brasil, é compartilhada pelo jornalista e
apresentador Zeca Camargo, que esteve à frente do lançamento da MTV no país e,
depois, apresentou o Fantástico, dominical da Globo que tinha como tradição
produzir e lançar videoclipes.
Zeca atribui a estética extravagante à
facilidade — e, ao mesmo tempo, às limitações — com que se podia fazer vídeo na
época. O videocassete doméstico chegou ao Brasil nessa época, e o VHS
rapidamente deixou de ser uma novidade tecnológica para criar um novo mercado
de produção e consumo de imagens.
"Mesmo que não se compare com a
facilidade de hoje, a maneira como as pessoas podiam gravar e editar estava
mais democratizada nos anos 80. Todo mundo tinha uma gravadora de VHS, e na
edição trabalhava o quê? Cor, faixas coloridas, bolas, figuras geométricas,
porque não tinha a multiplicidade de efeitos de hoje", ele conta.
"Quando todo mundo pode fazer, cada um
escolhe sua estética, e a liberdade é colorida."
Essa ruptura também passou pela moda, que
retroalimentava a música, o cinema e outras plataformas da cultura pop, em uma
década marcada pela valorização de silhuetas mais estruturadas e cores fortes.
A aproximação entre estilistas e estrelas da
música ajudou a transformar essas criações em símbolos da década. Jean Paul
Gaultier, por exemplo, criou para Madonna o célebre sutiã cônico usado na turnê
Blond Ambition, em 1990 — uma peça de corset com duas estruturas pontudas sobre
os seios.
"São criadores que vestiam sobretudo as
mulheres com formas muito geométricas. As mulheres usavam blazers que pareciam
armaduras", lembra Zeca, mencionando estilistas como Thierry Mugler,
responsável por alguns dos figurinos mais marcantes de artistas como Diana
Ross, e Giorgio Armani, que vestiu Richard Gere no filme Gigolô Americano, um
clássico da época.
O contraste é grande com a estética que
ganhou força nos últimos anos, o chamado quiet luxury, ou "luxo
silencioso", formado por tons neutros, cortes discretos, poucos ou nenhum
logotipo e sinais mais sutis de riqueza, presentes nas passarelas, nos
figurinos de séries e novelas e nos looks de influenciadores nas redes sociais.
<><> Estética colorida também
tinha objetivo mercadológico
O exagero não estava ligado apenas a uma
maneira de desafiar o conservadorismo e a sobriedade. Um dos principais
teóricos a tentar explicar essa mudança, o filósofo e crítico americano Fredric
Jameson, também enxergava nela uma dimensão econômica.
Para Jameson, o chamado pós-modernismo estava
ligado às transformações do capitalismo e ao crescimento de uma cultura cada
vez mais dominada por imagens, publicidade, mídia e consumo. Em seu ensaio
Pós-modernismo: A Lógica Cultural do Capitalismo Tardio, de 1984, ele descreveu
o surgimento de uma "nova cultura da imagem".
A estética, nesse cenário, deixava de ser
apenas uma característica dos produtos e passava a fazer parte da própria
lógica de produção e consumo. A aparência ganhava valor comercial, já que
cores, formas, embalagens e imagens ajudavam a diferenciar produtos em um
mercado cada vez mais saturado. Quanto maior a quantidade de imagens em
circulação, maior a importância de se destacar no meio delas, afinal.
Jameson via esse processo com desconfiança.
Uma das características que ele atribuía ao pós-modernismo era o que chamou de
new depthlessness, algo como "nova falta de profundidade", uma
cultura em que a superfície, a aparência e a imagem ganhavam um peso cada vez
maior.
Para o professor Francisco Homem de Melo,
porém, separar arte e mercado é uma tarefa difícil. Ele diz que a chamada
poesia marginal, que ganhou força no Rio de Janeiro nos anos 1970, é exemplo
disso: embora fosse produzida em pequenas tiragens e circulasse fora dos
grandes circuitos editoriais, já envolvia produção, reprodução e venda.
"Esse movimento também era chamado de
poesia do mimeógrafo, que é uma maquininha simplesinha. Você põe álcool, roda,
imprime, grampeia, faz livrinho e sai vendendo", explica Chico. "O
jeito de imprimir já é parte da identidade desse gênero poético. É o único
movimento poético, aliás, que tem um sistema de impressão no seu nome."
Parte desses poetas, aliás, migrou para a
música e ajudou a formar a cena que explodiria na década seguinte. Bernardo
Vilhena, ligado ao coletivo de poesia Nuvem Cigana, escreveu letras para
Ritchie e Blitz; Chacal, outro nome da poesia marginal, também fez parcerias
com Blitz e Barão Vermelho.
Chico lembra ainda que até movimentos
marcados pela ruptura, como o punk, tinham uma dimensão mercadológica. Ele cita
os logotipos de bandas como exemplos de uma identidade visual que também servia
para criar reconhecimento e circulação. "A questão mercadológica era
inescapável", diz.
Fonte: BBC News Brasil

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