Carlos Fidelis: Mariana — a lama que
atravessa nossa história
No fim da tarde de 5 de novembro de 2015, a
negligência criminosa rompeu uma barragem em Mariana, matou pessoas, mudou para
sempre a vida de milhares e assassinou um rio. Não se tratou apenas do colapso
de uma estrutura destinada à contenção de rejeitos. Uma cadeia de negligências,
falhas de gestão e escolhas empresariais transformou um risco conhecido em uma
das maiores tragédias socioambientais da história brasileira.
O rompimento da barragem de Fundão, operada
pela Samarco, controlada pela Vale e pela BHP Billiton, matou 19 pessoas
imediatamente, destruiu comunidades e lançou dezenas de milhões de metros
cúbicos de rejeitos na bacia do Rio Doce. A lama percorreu mais de 600
quilômetros de cursos d’água, atravessou Minas Gerais e o Espírito Santo e
chegou ao oceano Atlântico. Não destruiu apenas casas, estradas, plantações e
ecossistemas. Desorganizou formas de trabalho, rompeu vínculos comunitários e
atingiu pescadores, agricultores, indígenas, quilombolas e povos que mantinham
com o rio relações econômicas, culturais e afetivas construídas ao longo de
gerações.
Chamar essa negligência de criminosa não
significa antecipar ou substituir a complexa trajetória da responsabilização
penal nos tribunais. Significa qualificar a gravidade de decisões, omissões e
práticas que permitiram que interesses econômicos convivessem com riscos
capazes de produzir consequências humanas e ambientais dessa magnitude. O
desastre de Fundão não pode ser naturalizado como fatalidade, acidente
inevitável ou simples falha técnica. Houve decisões humanas antes que houvesse
lama.
A negligência matou pessoas, mudou vidas e,
em sentido que ultrapassa a metáfora, assassinou um rio. O Rio Doce não
desapareceu do mapa, mas uma parte fundamental da vida que nele existia e dele
dependia foi violentamente interrompida. Mais de uma década depois, os efeitos
do desastre permanecem inscritos na paisagem, na economia, na memória, nos
ecossistemas e na vida das populações atingidas.
Mas há uma dimensão dessa tragédia que exige
atenção ainda maior: seus efeitos sobre a saúde. Desde o rompimento de Fundão,
o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) vem acompanhando os debates
sobre as consequências dessa irresponsabilidade. Sabemos que seus efeitos
ultrapassaram em muito as perdas imediatamente visíveis. O que ainda não
sabemos — e talvez jamais venhamos a conhecer inteiramente — é a extensão de
suas consequências sobre a saúde das populações expostas ao desastre e às
transformações ambientais, econômicas, sociais e territoriais que ele produziu,
embora já existam estudos nessa direção.
A saúde não se deteriora apenas no instante
em que a lama chega. Os efeitos podem se manifestar ao longo do tempo e
precisam ser acompanhados por estudos epidemiológicos, ambientais e sociais de
longa duração. É preciso observar a qualidade da água, do solo e dos alimentos,
as formas de exposição, as mudanças nas condições de trabalho e subsistência,
os deslocamentos populacionais, a insegurança econômica e alimentar, o
sofrimento psíquico e inúmeras outras dimensões que interferem no processo
saúde-doença. Algumas consequências podem levar anos para se tornar
suficientemente conhecidas; outras talvez nunca possam ser atribuídas
individualmente ao desastre com absoluta segurança.
É também por isso que as 19 mortes
diretamente provocadas pelo rompimento não encerram necessariamente a
contabilidade humana de Fundão. Elas são as mortes imediatamente identificadas
e oficialmente associadas àquele 5 de novembro. Os efeitos sanitários de longo
prazo exigem outra escala de tempo, outros instrumentos de investigação e
acompanhamento. É possível que nunca saibamos quantas doenças, incapacidades e
mortes posteriores guardaram relação direta ou indireta com o desastre. Há
mortes que aparecem nas estatísticas. Outras podem permanecer silenciosas — e,
quando não são investigadas, acompanhadas e reconhecidas, acabam também
silenciadas. Há também um problema intergeracional. Pessoas que não
presenciaram a tragédia podem ser vítimas, muitas vezes sem reconhecimento.
Essa dimensão intergeracional altera
inclusive o significado da palavra reparação. Não há recurso pecuniário capaz
de indenizar integralmente tamanho conjunto de danos. Dinheiro é indispensável
para reconstruir, indenizar, financiar políticas públicas, recuperar
territórios e garantir direitos; mas não ressuscita os mortos, não recompõe
integralmente um ecossistema, não devolve os anos perdidos nem elimina os
riscos futuros. Os efeitos do desastre se prolongarão por anos nos territórios
e ecossistemas e poderão alcançar gerações que sequer haviam nascido quando a
barragem se rompeu. É um crime cujas consequências ultrapassam a vida dos
diretamente atingidos.
Talvez ainda mais perturbador seja constatar
quanto tempo uma sociedade pode levar para reparar aquilo que uma atividade
econômica foi capaz de destruir em poucas horas. O primeiro modelo de
reparação, estabelecido em 2016 e executado principalmente por meio da Fundação
Renova, acumulou críticas, conflitos e atrasos. A própria necessidade de uma
repactuação demonstra a insuficiência do arranjo original. Somente em outubro
de 2024 foi firmado o novo Acordo de Reparação do Rio Doce, posteriormente
homologado pelo Supremo Tribunal Federal, envolvendo R$ 170 bilhões e
estabelecendo um novo modelo de governança, com maior responsabilidade do poder
público na execução das políticas reparatórias.
Há, portanto, uma segunda violência que
precisa ser considerada. À violência súbita da lama somou-se a violência lenta
da espera: anos de disputas, perícias, cadastros, negociações, processos
judiciais, reconhecimento de direitos e luta por indenizações. Para quem perdeu
a casa, a renda, o território, os vínculos comunitários ou a relação cotidiana
com o rio, o tempo da burocracia e dos tribunais não é abstrato. É tempo de
vida.
É nesse contexto que o Cebes está presente,
entre 9 e 11 de setembro de 2026, em Mariana, acompanhando a 7ª Reunião
Ordinária do Conselho Federal de Participação Social da Bacia do Rio Doce e
Litoral Norte Capixaba, instância de participação e controle social vinculada à
Secretaria-Geral da Presidência da República e criada para acompanhar os
compromissos assumidos pela União no novo acordo de reparação.
O que se ouve nesses espaços não cabe na
linguagem asséptica dos relatórios administrativos. São muitos municípios,
muitas comunidades, muitas situações particulares e, atravessando-as, muita
apreensão, indignação e revolta. As manifestações dos atingidos trazem
denúncias e questionamentos graves sobre a reparação e sobre a destinação e a
utilização dos recursos provenientes do acordo que obrigou as empresas
responsáveis a financiar medidas destinadas a reparar e compensar os danos.
Essas manifestações precisam ser ouvidas, documentadas, investigadas e
respondidas com transparência. Participação social não pode significar apenas
permitir que os atingidos falem. Precisa significar criar condições para que
sua palavra produza consequências.
O Cebes, neste momento, exercita sobretudo a
escuta. Antes de oferecer respostas, é preciso compreender a diversidade das
experiências, conhecer as demandas, ouvir quem vive há mais de dez anos as
consequências do rompimento e identificar onde nossa experiência acumulada na
defesa do direito à saúde e do SUS pode efetivamente contribuir. Estamos nos
preparando para participar, no que estiver ao alcance de nossa expertise, da
luta dos atingidos por saúde, reparação, justiça e dignidade.
Mas escutar não significa ser neutro. O Cebes
tem lado. E não é o lado das empresas. É o lado das pessoas atingidas, das
comunidades, do direito à saúde, da preservação ambiental, da transparência, da
participação social e da defesa do interesse público. Uma instituição
comprometida historicamente com saúde e democracia não pode tratar como
equivalentes o poder econômico de grandes corporações e a luta de populações
que tiveram suas vidas e seus territórios profundamente transformados pelas
consequências de uma atividade empresarial.
Também é necessário reconhecer avanços onde
eles existem. O novo acordo criou mecanismos de governança pública e
participação social que precisam ser utilizados e permanentemente fiscalizados.
No âmbito federal, a postura de aproximação com os atingidos, o estímulo à
participação e às denúncias e a ampliação da transparência sobre os recursos
constituem mudanças importantes. O Conselho Federal de Participação Social é,
ele próprio, expressão dessa tentativa de incorporar os atingidos ao
acompanhamento da reparação. Mas transparência não pode terminar na divulgação
de quanto cada município recebeu. É preciso saber quanto recebeu, onde aplicou,
por que aplicou, quem decidiu, quem se beneficiou e quais resultados foram
efetivamente produzidos. O dinheiro da reparação não é receita ordinária. Tem
origem numa tragédia e uma finalidade: reparar, na medida do possível, aquilo
que foi destruído.
Mariana, entretanto, não pode ser
compreendida apenas como um desastre industrial excepcional. O que ocorreu
naquele novembro expõe uma questão muito mais antiga: o lugar ocupado pela
mineração na formação econômica brasileira e a persistência de uma lógica
extrativista que atravessa nossa história. Desde o período colonial, enormes
parcelas do território são tratadas prioritariamente como reservas de recursos
a serem extraídos e transformados em riqueza, enquanto parcela considerável dos
custos ambientais e sociais permanece nos lugares onde essa riqueza é
produzida. Mudam as empresas, as tecnologias, os mercados e os marcos
regulatórios; permanece, sob novas formas, uma estrutura na qual frequentemente
se exporta valor e se internalizam danos.
É nesse sentido que Mariana carrega a marca
de uma herança colonial. Não porque a mineração contemporânea seja simplesmente
a repetição daquela praticada durante o período colonial, mas porque nela pode
sobreviver uma concepção predatória do território: a natureza convertida em
estoque, a montanha em minério, o rio em recurso, as comunidades em obstáculos
ou externalidades e o futuro em variável subordinada à rentabilidade do
presente. Quando essa racionalidade prevalece sobre a proteção da vida, o extrativismo
deixa de ser apenas uma atividade econômica e revela sua dimensão política.
Chamá-lo de extrativismo parasitário é,
portanto, mais do que uma provocação retórica. É apontar para uma relação
histórica na qual a apropriação privada da riqueza pode conviver com a
transferência de parcela desproporcional dos riscos e prejuízos para a
sociedade. Quando ocorre o desastre, são as comunidades que perdem suas casas,
seus meios de subsistência, seus territórios, sua saúde e, por vezes, suas
vidas. São os rios, as florestas e os ecossistemas que recebem os rejeitos. E é
também o Estado — portanto, a sociedade — que precisa mobilizar instituições,
recursos e capacidades durante anos ou décadas para reconstruir territórios,
recuperar ecossistemas e amparar populações atingidas. Privatizam-se
benefícios; socializam-se danos.
Essa lógica fere a dignidade de um país que
continua permitindo que parte de suas maiores riquezas naturais seja explorada
segundo padrões que reproduzem uma inserção internacional historicamente
subordinada. Minério sai; riqueza é apropriada; danos permanecem. Não se trata
de negar a importância econômica da mineração nem de imaginar que uma sociedade
contemporânea possa prescindir de recursos minerais. A questão é outra: quem
controla sua exploração, quem se apropria do valor produzido, quais riscos são
admitidos, quem responde por eles e quais limites uma sociedade democrática
estabelece para proteger a vida, o território e as gerações futuras.
Mariana nos obriga, assim, a discutir algo
maior do que Mariana. Obriga-nos a perguntar que desenvolvimento queremos, quem
se beneficia dele, quem suporta seus riscos e quanto estamos dispostos a
sacrificar em nome da produção e da exportação de commodities. Nenhum país pode
chamar de desenvolvimento um modelo que transforma territórios em zonas de
sacrifício e considera aceitável que comunidades inteiras convivam com riscos
que não escolheram. E esses riscos ainda estão presentes em centenas de barragens,
mantendo comunidades e territórios sob a ameaça permanente de novas tragédias.
O Rio Doce continua correndo. Mas isso não
significa que a ferida tenha sido fechada. O novo acordo representa uma
oportunidade para corrigir parte das insuficiências acumuladas desde 2015, e os
mecanismos de participação e controle social precisam ser fortalecidos.
Entretanto, nenhum acordo financeiro, por maior que seja, restitui
integralmente vidas, paisagens, memórias, territórios, saúde e relações sociais
destruídas.
Por isso, lembrar Mariana não é cultivar o
passado. Mariana ainda está acontecendo. Está acontecendo na saúde de quem foi
atingido, nos territórios que ainda precisam ser recuperados, nos ecossistemas
alterados, nas famílias que esperam respostas, nas comunidades que exigem
participação e na disputa sobre cada recurso destinado à reparação. E poderá
continuar acontecendo, silenciosamente, na vida das próximas gerações.
Um país soberano não é apenas aquele que
possui minério, água, florestas e território. É aquele que estabelece
democraticamente as condições sob as quais suas riquezas podem ser exploradas e
que coloca a vida, a dignidade humana, a saúde e a proteção de seu patrimônio
ambiental acima de qualquer interesse econômico particular.
A lama de Fundão não percorreu apenas o
caminho entre Mariana e o oceano. Ela atravessou nossa história e expôs uma de
suas permanências mais incômodas: a ideia, herdada de séculos de colonialismo
predatório, de que o território brasileiro pode ser consumido para produzir
riqueza, mesmo quando os custos ficam para aqueles que nele vivem.
Mais de uma década depois, Mariana continua
nos fazendo a mesma pergunta: quanto de um país estamos dispostos a destruir
para retirar riqueza de seu chão?
Em outubro, o país irá escolher os rumos que
pretende tomar. Está em jogo a nossa soberania e a intensificação — ou não — da
exploração. Estamos diante de uma disputa entre barbárie e civilização.
Fonte: Viomundo

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