Um novo futuro para os brasileiros
Uma ciência política comprometida com os
valores da democracia não pode se limitar a analisar os resultados de pesquisas
eleitorais. Ela deve ser capaz de identificar as dinâmicas políticas que, a
cada momento, dão origem aos movimentos de opinião em uma conjuntura nacional e
internacional marcadas por profunda instabilidade.
As pesquisas eleitorais recentes indicam uma
diminuição do favoritismo da candidatura Lula, um crescimento da possibilidade
de segundo turno, uma ênfase maior na indeterminação dos resultados, sem que se
forme propriamente uma onda favorável a Flávio Bolsonaro. Como explicar
politicamente estas dinâmicas recentes?
Ela pode ser explicada fundamentalmente por
dois grandes movimentos políticos. O primeiro é a brutal normalização como
legítima de uma candidatura frontalmente contrária à democracia e vinculada
comprovadamente a toda uma rede de personagens do crime organizado. A ciência
política internacional estabelece a diferença fundamental entre uma candidatura
de direita que concorre na democracia e uma candidatura de extrema-direita que
é contra a democracia e os direitos humanos. Esta diferença básica não está sendo
feita nas eleições brasileiras.
O gravíssimo episódio recém protagonizado por
André Mendonça, chegando a decidir ao arrepio da Constituição o afastamento de
diretores da Polícia Federal, além de claramente proteger o candidato Flávio
Bolsonaro e a si próprio da investigação de suas relações profundas e
sistêmicas com Daniel Vorcaro, dono do Master, é um exemplo evidente das
tentativas bolsonaristas de criar uma crise institucional no processo
democrático das eleições brasileiras.
A candidatura de Flávio Bolsonaro contra a
democracia e vinculada ao crime organizado está sendo legitimada em primeiro
lugar pelo governo Donald Trump, como tem feito aliás com outras candidaturas
da extrema-direita ou mesmo vinculadas ao crime na América Latina. Neste
momento das eleições, ela está se tornando a referência dos setores que compõem
as classes dominantes brasileiras, vinculadas ao grande capital financeiro e ao
grande agronegócio, como demonstrou recentemente uma reunião recém realizada com
o selo da Faria Lima.
O grande capital primeiro procurou um
candidato alternativo aos Bolsonaros (o governador de São Paulo), depois
flertou com alternativas próximas da extrema direita (Romeu Zema, Ronaldo
Caiado) e agora toma a opção por Flávio Bolsonaro como o anti-Lula possível.
Além disso, a candidatura Flávio Bolsonaro tem tido o apoio da grande mídia
empresarial brasileira cuja linha editorial unificada é, em um sentido
fortemente neoliberal, muito convergente com o programa apresentado pelo
candidato.
É esta rede de legitimação e de apoio que
explica não apenas a resiliência do bolsonarismo como a sua capacidade
eleitoral competitiva. Apesar de sua crise evidente ao não unificar como antes
as candidaturas presidenciais, ao perder o apoio oficial dos partidos do mal
chamado “Centrão”, ao perder o controle político e eleitoral em seu estado
raiz, o Rio de Janeiro. E, sobretudo, por ver em crise os seus mitos de
identidade como anti-sistema, nacionalista e favorável ao povo brasileiro.
<><> Continuidade e aposta no
futuro
O segundo grande movimento político que
organiza a conjuntura é aquele liderado pela candidatura Lula à reeleição. Este
movimento tem sido capaz de organizar até agora uma maioria de votos no
primeiro turno (com uma distância variando de 7 a 9 % pontos sobre o
adversário, o que significa de 8 a 10,3 milhões de votos), com esta vantagem
ascendendo a 11 % entre as mulheres e até a 13 % entre os não brancos, com
larga margem de dianteira entre os nordestinos, entre os que recebem até dois
salários mínimos (que compõem cerca de 50 % do eleitorado), entre os católicos.
Se comparada com as eleições presidenciais de
2022, a candidatura Lula nestas eleições, além de manter a grande vantagem
entre os eleitores nordestinos, apresenta seguramente muitas melhores condições
de disputa na região Sudeste, que é a mais densa eleitoralmente: isto é claro
no Rio de Janeiro, também em Minas Gerais onde o bolsonarismo apresenta-se
dividido nas eleições estaduais e mesmo em São Paulo onde a força das
candidaturas de Fernando Haddad e das senadoras Marina Silva e Simone Tebet
aparece em crescimento na disputa.
Mas, ao mesmo tempo, este movimento político
tem demonstrado limites importantes em sua capacidade de migrar de sua condição
de vantagem eleitoral para uma condição de clara maioria, diminuindo sua
rejeição ao voto em um eventual segundo turno e ampliando assim o seu
favoritismo. Por que isto está ocorrendo?
Uma resposta possível a esta pergunta
complexa é que a votação majoritária de Lula no primeiro turno, que lhe dá
atualmente uma frente de no mínimo oito milhões de votos – dois milhões a mais
do que no primeiro turno das eleições de 2022, resulta das conquistas de seu
governo que atuou através de sua política econômica e de suas políticas e
programas sociais junto aos brasileiros em situação de extremos carecimentos,
após os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro.
Some-se a isso uma larga margem majoritária
de votos entre as mulheres, as quais compõem mais da metade do eleitorado,
repercutindo aqui no Brasil um fenômeno internacional de uma repulsa
majoritária das mulheres aos candidatos e governos de extrema direita, que
trazem pautas agressivamente hostis aos direitos já conquistados pelas
mulheres.
A mesma avaliação do governo serve para
entender por que a candidatura Lula não conseguiu obter até agora uma maioria
tendencialmente vitoriosa no primeiro turno ou já capaz de confirmar um amplo
favoritismo no segundo turno. Pois o atual governo Lula foi profundamente
limitado na aplicação de seu programa eleito pela deterioração da democracia
brasileira, pela plena captura do Banco Central pelos poderes financeiros e por
um ainda severo ajuste fiscal, pela continuidade de uma rede digital
bolsonarista que mina a formação de uma esfera pública de opinião minimamente
democrática.
Em síntese, o terceiro governo Lula se deu
sob um forte constrangimento de um regime neoliberal de Estado: uma maioria
conservadora, adversária e mais empoderada através do controle de emendas
impositivas no Congresso Nacional, pelas direções de um Banco Central que
elevaram escandalosamente as taxas de juros básicas da economia e por um teto
de gastos que, mesmo tendo suavizado bastante a chamada PEC do Fim do Mundo,
ainda manteve severas limitações a um maior investimento orçamentário em
desenvolvimento e em políticas sociais.
O que resultou disso é que a maioria dos
trabalhadores brasileiros que recebem acima de dois salários mínimos ainda não
desfrutam de uma clara melhoria em seu poder de compra, em suas perspectivas de
emprego de qualidade e de uma melhoria qualitativa nas políticas sociais
fundamentais.
Vivem ainda em um país ainda fortemente
marcado pela desigualdade social, de gênero e racial, pela violência cotidiana
do crime, por escândalos frequentes de corrupção dos políticos e de privilégios
inaceitáveis, além de enfrentarem as catástrofes de uma crise climática cada
vez mais aguda. Assim, o atual governo Lula nunca pôde contar, à parte os meses
iniciais, de uma avaliação claramente positiva, nitidamente superior às suas
avaliações negativas.
Esta dupla condição – a de receber o voto
majoritariamente preferencial dos brasileiros e a de ainda estar sujeito a uma
alta rejeição – revela que a maioria dos brasileiros reconhece o trabalho feito
pelo atual governo, mas, ao mesmo tempo, quer uma nova dinâmica de governo que,
a partir do conquistado, imprima claramente uma mudança de rumos no país.
Uma campanha que apenas reitere a liderança
histórica de Lula e os feitos de seu terceiro governo não contempla as
aspirações e os votos da maioria dos brasileiros. E deixa o espaço para que um
outro futuro seja disputado pela extrema direita, explorando as insatisfações
democráticas, econômicas e sociais dos brasileiros.
<><> Um novo futuro para os
brasileiros
Esta percepção – a defesa entusiasmada das
conquistas do governo, mas também a de um programa antineoliberal capaz de
abrir um novo horizonte de futuro para o país – organizou o Programa de governo
aprovado praticamente por consenso no recente Congresso do PT.
Ela se iniciava justamente pela afirmação que
a disputa nas eleições presidenciais de 2026 seria travada não no interior na
democracia, não entre esquerda e direita, mas entre aqueles que propunham
manter e aprofundar a democracia brasileira e aqueles que claramente procuravam
destruí-la e, com ela, a própria soberania do país em prol do colonialismo
norte-americano.
Procurava iniciar com a retomada de sentido
da maior vitória obtida durante o terceiro governo do presidente Lula: a
condenação de Jair Bolsonaro e do alto comando militar que conspirou em favor
de um golpe na democracia, que pretendia assassinar o presidente e o
vice-presidente eleitos, além de membros do Superior Tribunal Federal.
Não à normalização do golpismo, agora
revelado em suas entranhas, em suas relações com o crime organizado no país!
Contra o senso promovido pela mídia empresarial brasileira de que o
bolsonarismo faz uma oposição legítima, trata-se de criar um circuito sanitário
democrático, isolando o bolsonarismo como uma força política incompatível com a
democracia.
Se a defesa da democracia e da soberania
estão no centro da disputa eleitoral de 2026, não se trata de defender um
sistema político deformado de partido, de eleições, de representação, de
corrupção e privilégios que têm justamente dos brasileiros uma clara maioria de
repúdio. O governo Lula não pode se confundir com o status quo
atual da política brasileira.
Por isso, o Programa de governo aprovado no
Congresso do PT aponta como centrais a defesa de uma reforma política (a adoção
do voto em lista com paridade para as mulheres e quotas de representação
étnica), medidas fortes de participação popular como o orçamento participativo,
o combate aos privilégios e contra a corrupção, a reforma do Judiciário. A
criação do Ministério da Segurança Pública e o combate sistêmico ao crime
organizado eram defendidos como prioridade.
É esta defesa programática que neutraliza a
estratégia da extrema direita que atribui justamente aos governos do PT que
mais combatem a corrupção o de serem sua raiz no Estado brasileiro. É esta
manobra de inversão da realidade que se faz hoje abertamente em relação ao caso
Master e do escândalo da Previdência.
O Programa aprovado no Congresso do PT punha
uma ênfase especial no combate ao feminicídio, pauta prioritária da Segurança
Pública, e na implantação decidida da chamada Política de Cuidados, em
benefício das famílias e especialmente das mulheres brasileiras. O protagonismo
desta pauta, aprofundando a identidade da candidatura Lula com os direitos das
mulheres, ataca talvez o ponto mais fraco do bolsonarismo e sua tradição
patriarcal e de violência de gênero.
Toda uma ênfase do Programa aprovado no
Congresso do PT era posta na aprovação da jornada de 5 x 2, com dois dias de
descanso semanal, sem redução de salários. Esta agenda prioritária abria-se a
uma defesa aberta de um novo ciclo de defesa dos direitos do trabalho, de
aumento do salário-mínimo, de defesa dos sindicatos e do emprego digno. Hoje,
após a aprovação em comissão no Senado, a luta pela imediata votação em
plenário da redução da jornada deveria estar no centro das campanhas e ir às
ruas, abrindo uma conquista decisiva para 14,8 milhões de trabalhadoras e
trabalhadores brasileiros.
O Programa de Governo aprovado no Congresso
do PT, na mesma linha do que tem sido defendido publicamente pelo coordenador
do Programa da Campanha Lula, Sérgio Gabrielli, enfrenta centralmente a
política dos juros escandalosos e a política conduzida pelo Banco Central,
vinculando a sua redução histórica como necessidade incontornável para criar um
novo ciclo de desenvolvimento, sustentável e com reforma agrária, e de
políticas sociais.
Este enfrentamento pela soberania democrática
do orçamento da União, hoje em grande medida sequestrado pelo pagamento de
juros escandalosos da dívida pública e pelas emendas impositivas, é ali
defendido como incontornável e necessário para abrir um novo período histórico
do país, para além de um regime neoliberal de Estado.
Por fim, o Programa de Governo aprovado no
Congresso do PT, além de comemorar a redução do desmatamento no país, chama a
atenção para um enfrentamento necessário e central do ecocídido em curso no
Brasil. A consciência desta necessidade já está amadurecida entre a maioria dos
brasileiros.
Este programa, ao ir ao encontro do
pensamento e das aspirações da maioria dos brasileiros, tem o potencial de
formar uma larga maioria de votos nestas eleições. Os brasileiros vão votar, em
sua maioria, na esperança de construção de um novo país.
Fonte: Por Juarez Guimarães, em A Terra é
Redonda

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