“André Mendonça precisa ser contido para não
melar as eleições”, diz Fernando Horta
O
historiador Fernando Horta afirmou que o ministro André Mendonça, do Supremo
Tribunal Federal (STF), precisa ser contido institucionalmente pelos demais
integrantes da Corte para impedir que suas decisões interfiram no ambiente
político das eleições presidenciais de 2026. Em entrevista à TV 247, Horta
avaliou que o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei
Rodrigues, aprofundou a crise entre integrantes do Supremo e criou uma nova
fonte de instabilidade a poucas semanas da votação. A entrevista foi concedida
ao Bom Dia TV 247.
O afastamento é um fato confirmado. Mendonça
sustentou que Rodrigues e Almada deveriam deixar temporariamente suas funções
diante do que classificou como irregularidades relacionadas à produção de
relatórios de inteligência da Polícia Federal. Segundo o ministro, ele próprio
e o advogado-geral da União, Jorge Messias, teriam sido objeto de
“monitoramento sistemático e ilegal”. A decisão também determinou a abertura de
apurações internas na PF.
A medida teve origem em pedidos formulados
pelo partido Novo, que chegou a requerer a prisão preventiva de Andrei
Rodrigues, solicitação não atendida por Mendonça. O ministro submeteu o
afastamento à Segunda Turma do STF. Luiz Fux e Kassio Nunes Marques acompanharam
Mendonça, formando maioria pelo afastamento, mas Gilmar Mendes pediu vista e
suspendeu a conclusão do julgamento.
Para Horta, porém, a questão ultrapassa os
aspectos formais do processo. Ele sustenta que as decisões de Mendonça devem
ser observadas à luz da proximidade das eleições e da polarização política que
envolve a disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus
adversários.
“André Mendonça precisa ser imediatamente
contido pelo restante do STF. Ou então todo aquele cuidado que o STF teve para
não contaminar as eleições vai ser perdido. André Mendonça está contaminando
absolutamente tudo”, afirmou.
Segundo o historiador, uma eventual demora na
resolução do afastamento de Rodrigues pode comprometer o funcionamento da
Polícia Federal justamente durante investigações que alcançam personagens com
influência sobre a disputa política.
Horta argumentou que a retirada do
diretor-geral introduz um componente de insegurança na cadeia de comando da
corporação, ainda que seu substituto dê continuidade formal às investigações.
“Mesmo que ele queira continuar as
investigações, institucionalmente ele não é o diretor da Polícia Federal. A
hierarquia vai dizer: ‘Vamos com calma, isso pode ser revertido amanhã’. Por
mais que exista uma figura competente ali, ela não vai conseguir fazer o
trabalho da mesma forma”, disse.
Com o afastamento, a direção da PF passou a
ser exercida pelo diretor-executivo William Marcel Murad, número dois da
corporação.
<><> Horta teme paralisia das
investigações
Um dos principais riscos identificados pelo
historiador é uma redução no ritmo das apurações conduzidas pela Polícia
Federal. Na avaliação de Horta, isso abriria espaço para que acusações sem
comprovação, vazamentos e disputas políticas passassem a ocupar o lugar das
informações produzidas pelas investigações formais.
“Se ele conseguir manter o afastamento e
impedir que a decisão seja revista, o que vai fazer praticamente é paralisar a
Polícia Federal nos processos de investigação das questões envolvidas”,
afirmou.
Para Horta, essa situação beneficiaria o que
chamou de “indústria do boato”, na qual versões sobre investigações seriam
divulgadas antes que houvesse conclusões produzidas pelos órgãos responsáveis.
“Você paralisa a parte da Polícia Federal que
poderia trazer evidências e solucionar o problema e mantém rodando a indústria
do boato. As informações confiáveis, vindas de um processo de apuração, ficam
travadas”, disse.
A Polícia Federal está no centro da crise que
se instalou no Supremo nas últimas semanas. Antes da decisão de Mendonça, o
presidente do STF, Edson Fachin, já havia aberto um procedimento para apurar
possíveis irregularidades em investigações envolvendo autoridades com foro no
tribunal. Fachin determinou que Alexandre de Moraes, André Mendonça, o
procurador-geral da República, Paulo Gonet, e Andrei Rodrigues prestassem
esclarecimentos.
A disputa envolve, entre outros elementos,
documentos da PF utilizados por Moraes para levantar questionamentos sobre a
atuação de Mendonça em investigações relacionadas ao Banco Master. Mendonça,
por sua vez, afirma que relatórios produzidos pela inteligência policial
ultrapassaram os limites legais e foram direcionados contra ele.
<><> “O grande erro foi
investigar outro ministro”
Horta também questionou a própria forma como
o confronto entre os ministros passou a ser conduzido. Na avaliação dele,
investigações envolvendo integrantes do Supremo deveriam ser tratadas por
mecanismos colegiados da Corte, e não transformadas em confrontos entre
gabinetes.
“Na realidade, esse foi o grande erro do
Mendonça. Mendonça jamais poderia ter investigado um ministro dessa forma.
Imagina se cada ministro do STF resolvesse investigar os seus colegas”, disse.
Ele argumentou que a continuidade desse
modelo poderia comprometer a autoridade institucional do tribunal.
Segundo Horta, o STF entrou em um terreno sem
precedentes recentes, porque divergências que antes se restringiam a votos,
decisões ou discussões públicas passaram a envolver suspeitas sobre condutas de
integrantes da própria Corte.
“Estamos em águas novas. Já vimos discussões
duras entre ministros, mas não um choque processual dessa natureza”, afirmou.
O historiador considera que as decisões
tomadas individualmente pelos ministros são parte importante do problema
estrutural revelado pela crise. Ele lembrou que o sistema do STF concede aos
relatores capacidade significativa de controlar o momento em que determinadas
questões chegam aos órgãos colegiados.
<><> Eleição no centro das
preocupações
Para Horta, a principal consequência política
da crise é deslocar o debate eleitoral de temas como economia, emprego, renda e
políticas públicas para o conflito entre instituições e acusações relacionadas
ao STF.
Esse movimento, segundo ele, reduziria a
vantagem política de Lula em uma campanha baseada na comparação entre projetos
de governo.
“Se você colocar Flávio Bolsonaro e Luiz
Inácio Lula da Silva para discutir Brasil, futuro, emprego e geopolítica, a
diferença fica evidente. Agora, se você colocar os dois para discutir
corrupção, ética no STF e crise institucional, Flávio Bolsonaro consegue
disputar esse terreno”, avaliou.
Na interpretação de Horta, o acúmulo de
episódios envolvendo o Judiciário pode produzir um ambiente eleitoral no qual
suspeitas e denúncias dominem a agenda pública.
Por isso, ele defendeu que Lula mantenha
distância institucional da disputa interna no Supremo.
“O presidente Lula precisa fazer
imediatamente uma estratégia de comunicação e explicar que essa é uma crise do
Poder Judiciário e que o Poder Executivo não tem ingerência sobre o que está
acontecendo”, afirmou.
Para o historiador, Lula enfrenta um dilema
porque Alexandre de Moraes se tornou uma das figuras associadas ao
enfrentamento das redes bolsonaristas e das ações que culminaram na tentativa
de ruptura institucional após as eleições de 2022. Ao mesmo tempo, segundo ele,
qualquer aproximação excessiva com um ministro envolvido em controvérsias
poderia transferir o desgaste da crise para o presidente.
“Lula precisa se manifestar como alguém
distante dessa crise”, resumiu.
<><> Críticas às decisões de
Mendonça
Durante a entrevista, Horta fez críticas mais
amplas à atuação de André Mendonça e afirmou que existem questionamentos sobre
a condução de processos sob sua relatoria. Essas afirmações constituem
avaliações do entrevistado e não correspondem, até o momento, a uma condenação
ou conclusão judicial contra o ministro.
Para Horta, porém, a sequência de decisões
precisa ser analisada pelo colegiado do Supremo.
Ele argumentou que a Corte deveria examinar
conjuntamente as acusações que envolvem Alexandre de Moraes e os
questionamentos feitos à atuação de Mendonça.
“Se os ministros fizerem uma comparação dos
atos e se ativerem ao que foi feito nos autos, a situação precisa ser examinada
de maneira técnica. O problema é transformar essa crise em instrumento
político”, afirmou.
O historiador também classificou como
inadequado, do ponto de vista ético, o contrato mantido pelo escritório da
mulher de Alexandre de Moraes com o Banco Master, citado durante a crise. Horta
diferenciou, entretanto, questionamentos éticos de provas de ilegalidade e
disse considerar necessário que eventuais suspeitas sejam investigadas antes de
conclusões públicas.
<><> Reforma do Judiciário, mas
não durante a crise
Ao ampliar a análise para o funcionamento do
sistema de Justiça, Horta defendeu reformas estruturais no Judiciário
brasileiro, mas sustentou que mudanças profundas não deveriam ser conduzidas no
meio da crise eleitoral.
Para ele, alterações institucionais dependem
da correlação de forças no Congresso e poderiam produzir efeitos contrários aos
pretendidos caso fossem realizadas em um ambiente de forte avanço da direita.
“O Judiciário brasileiro precisa ser
reformado. Mas não é o momento de enfraquecer o STF. É tudo o que o
bolsonarismo quer: um motivo para iniciar a destruição das instituições
brasileiras”, afirmou.
Horta defendeu que o debate sobre mudanças no
Supremo e no conjunto do Poder Judiciário seja retomado depois das eleições.
Segundo ele, o país possui problemas ligados
ao custo da Justiça, à lentidão processual, ao excesso de decisões individuais
e à concentração de poder nos gabinetes de magistrados, temas que exigiriam uma
discussão institucional de longo prazo.
<><> “O objetivo é contaminar”
Na avaliação de Fernando Horta, a urgência
agora está em impedir que o confronto dentro do Supremo determine a pauta das
semanas finais da campanha eleitoral.
Ele afirmou que o afastamento do
diretor-geral da Polícia Federal representa um ponto de mudança porque atinge
diretamente uma instituição responsável por investigações de interesse
nacional.
“André Mendonça manda um recado de que ainda
não foi contido e de que pode criar mais complicações até o final da eleição”,
afirmou.
Para Horta, a resposta deve partir do próprio
Supremo, por meio de seus mecanismos colegiados e da atuação de sua
Presidência.
“André Mendonça está contaminando
absolutamente tudo, sem nenhum cuidado. Para nós, esse não é o jogo que
interessa. O STF precisa impedir que essa crise termine melando as eleições”,
concluiu.
<><> Mendonça reage e diz que
compartilhar dados do celular de Vorcaro pode “tumultuar” julgamento
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)
André Mendonça afirmou, em ofício enviado neste domingo (13), que a abertura
integral dos dados extraídos do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro poderia
atrapalhar o julgamento previsto para terça-feira (15).
Segundo Mendonça, a inclusão de novos
elementos no processo, entre eles o conteúdo completo do aparelho apreendido
pela Polícia Federal (PF), “somente contribuiria para tumultuar o julgamento” e
poderia “colocar em risco todo o seguimento e êxito das investigações”.
A manifestação ocorre dois dias antes da
sessão do plenário do STF, em que os ministros devem analisar o relatório da PF
sobre mensagens trocadas entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes.
“A inserção de elementos adicionais, que não
constam dos autos até o presente momento, o que inclui a abertura de todas as
informações contidas no celular do senhor Daniel Vorcaro, somente contribuiria
para tumultuar o julgamento, bem como colocaria em risco todo o seguimento e
êxito das investigações, dando ensejo à suscitação de questionamentos de toda
ordem, para desviar o feito especificamente apregoado para julgamento de seu
caminho natural”, disse Mendonça.
Nos últimos dias, os ministros Cristiano
Zanin, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes acionaram a Presidência da Corte
para cobrar acesso integral ao espelhamento do iPhone de Vorcaro, apreendido
pela PF nas investigações relacionadas ao Banco Master.
Zanin e Gilmar sustentaram que os ministros
precisam ter acesso a todo o contexto para tomar uma decisão. Moraes, por sua
vez, afirmou que “não cabe ao relator escolher quais os documentos acessíveis
ao Colegiado para realizar seu julgamento”.
Mendonça rebateu os pedidos e afirmou que
todos os ministros têm acesso ao mesmo material que será utilizado na sessão de
terça-feira (15).
“Reitero que todo o material utilizado para o
julgamento da próxima terça-feira encontra-se disponível, na íntegra, a todos
os ministros deste tribunal. Para tal fim, este ministro dispõe exatamente do
mesmo conjunto de elementos de informação franqueado aos demais pares que irão
participar da referida sessão”, escreveu.
Ao mencionar o presidente do STF, Luiz Edson
Fachin, Mendonça afirmou ainda que, “como bem enfatizou o eminente Presidente,
‘a gravidade dos fatos não autoriza atalhos’, mas também não tolera
subterfúgios ou desvios de rota, rumo a outros interesses que não os da
Justiça”.
<><> Pedido de informações à
Polícia Federal
No mesmo despacho, Mendonça pediu a Fachin
que determine a quatro delegados da PF que prestem informações, em 24 horas,
sobre o envio de relatórios e mídias ao gabinete do ministro em março de 2026.
O ministro quer que os policiais esclareçam
as circunstâncias da entrega do material e informem se sofreram eventuais
“constrangimentos ao longo das investigações”.
A solicitação ocorre em meio ao impasse sobre
o conteúdo do celular de Vorcaro e sobre a forma como os arquivos foram
encaminhados ao gabinete de Mendonça.
<><> Disputa antes do julgamento
A troca de manifestações entre ministros se
intensificou às vésperas da sessão de terça-feira (15). No sábado (12), Fachin
havia dado 24 horas para que a PF esclarecesse a situação do aparelho de
Vorcaro e a integridade da cadeia de armazenamento das provas.
Neste domingo (13), a corporação respondeu
que o celular e a extração original continuam armazenados com segurança e que
possui condições técnicas de enviar cópias idênticas aos gabinetes que
solicitarem o material.
A PF também informou que o arquivo enviado ao
gabinete de Mendonça em março era uma cópia, encaminhada em resposta a uma
solicitação formal do relator. Mendonça já havia declarado que mantinha os
arquivos lacrados e criptografados em seu gabinete como medida de segurança e
que não havia manuseado o conteúdo.
Paralelamente, ministros aliados de Moraes
articulam a apresentação de questões preliminares e possíveis nulidades
processuais na sessão de terça-feira (15). Entre os argumentos estão supostas
irregularidades na elaboração e no direcionamento do relatório de Mendonça,
além da ausência de acesso prévio ao conteúdo integral do celular de Vorcaro.
A estratégia busca barrar a abertura de uma
apuração contra Moraes. A Procuradoria-Geral da República (PGR) também já se
manifestou pelo arquivamento do relatório com base em supostos vícios de
tramitação.
Fonte: Brasil 247

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