terça-feira, 15 de setembro de 2026

BRICS: Dilma aponta os caminhos do NDB para sua segunda década - mais recursos, moedas nacionais e tecnologia

A presidenta do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), Dilma Rousseff, apresentou neste domingo (13), durante a XVIII Cúpula do BRICS, em Nova Déli, as principais diretrizes para a segunda década de atuação da instituição. Em seu discurso na sessão plenária aberta, Dilma defendeu um banco maior, capaz de mobilizar recursos em escala crescente e de combinar financiamento, tecnologia e cooperação para enfrentar os desafios do desenvolvimento.

“A primeira década construiu a capacidade de financiamento do NDB. A segunda década deve mobilizar recursos em escala maior para multiplicar seu impacto no desenvolvimento”, afirmou.

A declaração sintetiza uma nova etapa para o banco criado pelo BRICS. Depois de consolidar sua estrutura financeira e ampliar sua presença internacional, o NDB pretende aumentar sua capacidade de mobilização de capital e assumir um papel cada vez mais relevante no financiamento do desenvolvimento do Sul Global.

<><> Moedas nacionais ganham espaço

Um dos pontos de maior destaque do discurso foi o avanço do financiamento em moedas nacionais.

Segundo Dilma, em 2025, quase 46% dos financiamentos aprovados pelo NDB foram denominados em moedas dos próprios países-membros.

A estratégia, segundo a presidenta do banco, busca reduzir a volatilidade cambial, enfrentar descasamentos nos fluxos de caixa dos investidores privados e fortalecer os mercados domésticos de capitais.

O dado demonstra que o uso de moedas nacionais deixou de ser apenas uma discussão política no BRICS e passou a ocupar espaço concreto nas operações do banco.

<><> Tecnologia passa ao centro da estratégia de desenvolvimento

Dilma também colocou a inovação tecnológica no centro da nova etapa do NDB.

Para a presidenta da instituição, o desenvolvimento contemporâneo exige que as novas tecnologias sejam incorporadas aos investimentos em infraestrutura. Isso significa combinar obras e financiamento com inovação, maior resiliência climática e desenvolvimento das capacidades tecnológicas dos próprios países.

“A inovação deve ser um motor do desenvolvimento social”, afirmou.

A estratégia envolve ainda cooperação tecnológica entre os integrantes do BRICS. Dilma citou iniciativas que combinam capacidades de Índia, China e Rússia no desenvolvimento de tecnologias digitais e sistemas e instrumentos de inteligência artificial.

O princípio apresentado é que o NDB não deve funcionar apenas como uma fonte de recursos. O banco também pode servir como plataforma para aproximar capacidades tecnológicas, soluções e conhecimentos existentes nos diferentes países do bloco.

<><> Cooperação em um mundo de guerras e sanções

Dilma contextualizou essa transformação do NDB em um cenário internacional marcado por guerras, sanções, tarifas unilaterais, interrupções nos fluxos de comércio e investimento, vulnerabilidades relacionadas à dívida e compromissos não cumpridos com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Diante desse quadro, afirmou que a cooperação multilateral se tornou urgente.

Foi justamente para responder às insuficiências da arquitetura financeira internacional que, segundo Dilma, o BRICS criou o Novo Banco de Desenvolvimento.

“Os BRICS criaram o Novo Banco de Desenvolvimento porque nossos países compreenderam que um mundo em transformação exigia novas instituições”, afirmou.

<><> Banco amplia instrumentos financeiros

Outra frente da nova etapa será a diversificação dos instrumentos utilizados pelo NDB.

Dilma anunciou que a instituição está ampliando sua caixa de ferramentas financeiras, incluindo o financiamento ao comércio, diante do forte crescimento das relações comerciais e dos investimentos entre as economias do BRICS.

O banco também pretende mobilizar recursos adicionais por meio de parcerias, cofinanciamentos e garantias.

O objetivo é fazer com que os recursos próprios do NDB funcionem como catalisadores de investimentos em escala maior, aumentando o impacto de cada operação sobre o desenvolvimento.

<><> Expansão do NDB

Dilma destacou ainda a importância da entrada de novos membros.

Para a presidenta, a expansão é crucial para aumentar o alcance financeiro do NDB e fortalecer sua capacidade de apoiar o desenvolvimento do Sul Global.

Essa ampliação acompanha a própria transformação do BRICS, que nos últimos anos deixou de ser um agrupamento restrito às cinco economias fundadoras e passou a representar uma parcela cada vez mais ampla dos países emergentes e em desenvolvimento.

<><> Sustentabilidade e infraestrutura

A sustentabilidade será outro eixo central da segunda década do banco.

Segundo Dilma, o NDB está ampliando o financiamento climático e promovendo investimentos em energia limpa, infraestrutura sustentável, água, transportes e transição energética.

A infraestrutura permanece no centro do mandato da instituição, mas passa a ser concebida em uma perspectiva mais ampla, incorporando tecnologia, inovação e resiliência climática.

<><> Uma instituição para uma nova etapa do Sul Global

O discurso de Dilma em Nova Déli apresentou, portanto, uma visão do NDB que vai além do financiamento tradicional de grandes projetos.

Na segunda década, o banco pretende ampliar sua escala financeira, aumentar o uso das moedas nacionais, fortalecer os mercados domésticos, financiar comércio e infraestrutura, estimular a inovação tecnológica e aprofundar a cooperação entre os países do BRICS.

“Resiliência, inovação, cooperação e sustentabilidade oferecem uma direção clara para a próxima etapa de desenvolvimento do banco”, afirmou Dilma.

E concluiu definindo a missão para os próximos anos: transformar essas prioridades “em investimento, tecnologia e melhorias concretas na vida das pessoas”.

<><> Dilma Rousseff recebe com entusiasmo criação do Instituto Sul Global

A presidenta do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), Dilma Rousseff, recebeu com entusiasmo a apresentação do Instituto Sul Global, iniciativa brasileira criada para estimular a produção de conhecimento, o intercâmbio de ideias e a cooperação entre o Brasil e outros países do Sul Global.

O Instituto foi apresentado pelo jornalista Leonardo Attuch, presidente do Instituto Sul Global e fundador do Brasil 247. Ao conhecer a proposta e os objetivos da nova instituição, Dilma avaliou positivamente a iniciativa e destacou sua importância para o Brasil.

“Eu achei uma ótima e necessária iniciativa para o Brasil. É muito bom ver um grupo de comunicação brasileiro tomando a iniciativa de criar um instituto focado nos temas do Sul Global”, afirmou a presidenta do NDB.

Durante a conversa, Attuch explicou que o Instituto pretende atuar como uma ponte entre centros de pensamento, universidades, empresas, governos e instituições dos países em desenvolvimento, promovendo especialmente a circulação de conhecimento e experiências entre Brasil, China, Índia, Rússia, África do Sul, Emirados Árabes Unidos e outras nações do Sul Global.

Um dos eixos apresentados foi a necessidade de ampliar no Brasil o debate sobre as transformações tecnológicas em curso, incluindo inteligência artificial soberana, digitalização, robótica, novos materiais e outras tecnologias capazes de modernizar tanto os setores industriais tradicionais quanto as atividades econômicas emergentes.

Dilma ressaltou, durante a conversa, a importância decisiva da incorporação das novas tecnologias ao processo de desenvolvimento. Ao abordar as transformações industriais contemporâneas, mencionou a visão defendida pelo presidente chinês Xi Jinping de introduzir inovação e novas tecnologias também nas indústrias tradicionais.

Nos últimos dias, Attuch apresentou o novo think tank brasileiro a importantes centros de pensamento globais, com o objetivo de ampliar o conhecimento mútuo e construir novas pontes de cooperação entre os países do Sul Global.

A iniciativa tem como uma de suas prioridades aproximar o Brasil dos grandes debates sobre desenvolvimento, soberania tecnológica e inovação que hoje ocorrem no Sul Global, fortalecendo a capacidade brasileira de participar ativamente das transformações econômicas e tecnológicas do século XXI.

¨      Bertrand: BRICS constrói instituições para uma nova era

Os países do BRICS aprovaram uma extensa declaração conjunta em Nova Déli que amplia a agenda política, econômica e institucional do bloco e reforça a busca por maior participação do Sul Global nas estruturas de governança internacional. Dividido em 140 parágrafos, o documento aborda temas que vão de conflitos no Oriente Médio à inteligência artificial, passando por finanças, comércio, agricultura, segurança alimentar, tecnologia e reformas das instituições multilaterais.

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Ao comentar a declaração, o analista Arnaud Bertrand destacou a dimensão e a variedade de temas reunidos pelo BRICS e apresentou o documento como demonstração de uma estratégia de longo prazo para a construção de mecanismos de cooperação entre países emergentes. A declaração foi aprovada na cúpula realizada sob a presidência indiana do grupo.

“É enorme: 140 parágrafos e quase 18.000 palavras – sobre uma incrível variedade de assuntos, desde as guerras no Oriente Médio até IA e agricultura”, escreveu Bertrand.

O texto aprovado pelos integrantes do BRICS reafirma a defesa do multilateralismo e da ampliação da representação dos países em desenvolvimento nas instâncias internacionais. Ao mesmo tempo, avança em uma extensa lista de áreas nas quais o bloco pretende aprofundar mecanismos próprios de coordenação e cooperação.

O documento reafirma princípios como soberania, igualdade entre os Estados, solidariedade, abertura, inclusão, consenso e respeito ao direito internacional. A cooperação do grupo continua estruturada nos pilares político e de segurança, econômico e financeiro e de intercâmbio entre sociedades.

<><> Uma agenda que vai das finanças à segurança alimentar

Para Bertrand, a relevância política do documento não está apenas em propostas específicas, mas na abrangência da agenda estabelecida pelos integrantes do grupo.

“Não vou entrar nos detalhes, se não por outra razão, porque há uma quantidade esmagadora de conteúdo, mas a impressão geral que dá é que esta é a aparência de uma governança multilateral séria – especialmente se você a comparar com as recentes cúpulas do G7, que só produzem um punhado de declarações curtas e reativas, em vez de algo que se assemelhe a esse tipo de plano institucional abrangente”, afirmou.

<><> BRICS pressiona por reforma da governança global

Um dos eixos centrais é a reivindicação de mudanças nas principais instituições internacionais para ampliar a representação das economias emergentes e dos países em desenvolvimento.

O BRICS volta a defender uma reforma abrangente das Nações Unidas, incluindo o Conselho de Segurança, com maior representação de África, Ásia e América Latina. O debate faz parte de uma reivindicação histórica do grupo por uma estrutura internacional mais compatível com as mudanças ocorridas na distribuição do poder econômico e político mundial.

A agenda também alcança as instituições financeiras multilaterais e organismos responsáveis pelas regras do comércio internacional.

Nesse campo, o grupo defende mudanças na governança do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial que ampliem a voz e a representação das economias emergentes e em desenvolvimento.

O BRICS também reafirma a importância da Organização Mundial do Comércio (OMC) e de um sistema comercial multilateral aberto, transparente, previsível, inclusivo e não discriminatório.

<><> Bloco amplia instrumentos próprios de cooperação

Ao lado da pressão por reformas nas instituições existentes, a declaração reforça iniciativas destinadas a aprofundar a integração entre os próprios integrantes do BRICS.

É justamente esse movimento que Bertrand destaca como uma das características mais importantes do documento.

“Aqui – desde a construção de infraestrutura financeira alternativa até a segurança alimentar – você realmente tem a sensação de que, por mais difícil que seja com um grupo tão diverso de países, eles estão de fato tentando construir coisas e responder aos desafios de governança da nossa era, muitos dos quais são ironicamente criados pelo G7”, escreveu.

No setor financeiro, o grupo mantém na agenda o desenvolvimento de instrumentos capazes de facilitar operações entre seus integrantes, incluindo discussões sobre pagamentos transfronteiriços e maior utilização de moedas locais em transações econômicas.

A expansão desses mecanismos ocorre paralelamente às atividades do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), criado pelos países do BRICS para financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável.

A estratégia não representa, no documento, o abandono das instituições multilaterais existentes. O movimento combina a defesa da reforma dessas organizações com a construção e o fortalecimento de instrumentos de cooperação próprios do bloco.

<><> Inteligência artificial entra na agenda estratégica

A tecnologia ocupa posição relevante na declaração de Nova Déli.

Os integrantes do BRICS tratam ciência, tecnologia e inovação como instrumentos para impulsionar o desenvolvimento econômico e social e ampliar a capacidade tecnológica dos países do grupo.

A inteligência artificial aparece entre os temas de interesse estratégico. O debate envolve não apenas o desenvolvimento da tecnologia, mas questões relacionadas à governança, propriedade intelectual, direitos e representação de diferentes culturas e conhecimentos nos sistemas de IA.

O avanço da cooperação tecnológica acompanha uma discussão mais ampla sobre infraestrutura digital e redução das desigualdades de acesso às novas tecnologias.

Para países emergentes, o tema ganha importância diante do risco de concentração das principais tecnologias digitais, da infraestrutura computacional e dos modelos de inteligência artificial em um número reduzido de empresas e países.

<><> Agricultura e segurança alimentar ganham espaço

O BRICS amplia mecanismos de cooperação agrícola, incluindo iniciativas relacionadas ao intercâmbio de conhecimento, produtividade, tecnologia, sustentabilidade e resiliência diante das mudanças climáticas.

A presença da agricultura em uma declaração de grande alcance geopolítico ajuda a demonstrar a diversidade da agenda do bloco.

Ao reunir alguns dos maiores produtores e consumidores de alimentos do planeta, o BRICS busca aumentar a cooperação em uma área diretamente relacionada à estabilidade econômica e social dos países integrantes.

<><> Bertrand contrapõe projeto do BRICS ao G7

A leitura apresentada por Bertrand é de que a declaração deve ser observada menos como uma coleção de compromissos individuais e mais como manifestação de um processo gradual de construção institucional.

A diversidade interna do BRICS torna esse processo complexo. O grupo reúne países com sistemas políticos, estruturas econômicas, interesses estratégicos e relações internacionais bastante diferentes.

Apesar dessas diferenças, a declaração demonstra a tentativa de estabelecer posições comuns em uma extensa gama de assuntos e institucionalizar áreas de cooperação.

É nesse ponto que Bertrand estabelece seu contraste com as potências ocidentais e, particularmente, com o G7.

Sua interpretação é de que, enquanto os países ocidentais enfrentam dificuldades para preservar parte da arquitetura multilateral construída nas últimas décadas, os integrantes do BRICS estariam ampliando mecanismos próprios de coordenação.

<><> Sul Global busca ampliar peso nas decisões mundiais

O crescimento do BRICS e a expansão de sua agenda ocorrem em meio a uma disputa mais ampla sobre a distribuição de poder no sistema internacional.

A defesa de reformas na ONU, no FMI, no Banco Mundial e em outras instituições reflete uma reivindicação recorrente dos países emergentes: adequar a representação política internacional ao peso econômico e demográfico adquirido pelo Sul Global.

A declaração de Nova Déli acrescenta a essa reivindicação uma extensa agenda prática de cooperação, abrangendo finanças, tecnologia, segurança alimentar, energia, comércio e desenvolvimento.

Para Bertrand, esse movimento simboliza uma transformação mais profunda na ordem internacional.

“Essa é a nova era: metade do mundo, silenciosamente construindo as instituições que o Ocidente está ocupado em destruir”, escreveu.

 

Fonte: Brasil 247

 

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