O dilema não é bem das “redes sociais”, mas
das causas do ressentimento e ódio que elas disseminam
Em
junho de 2016, o plebiscito convocado pelo governo britânico para decidir se o
Reino Unido deveria permanecer, ou não, filiado à União Europeia, deu vitória
ao movimento “Brexit” – “British exit”. Algum tempo depois, descobriu-se que o
resultado fora fortemente influenciado pela companhia de consultoria política
Cambridge Analytica. Agindo um tanto sorrateiramente à margem dos meios
tradicionais de propaganda política, ela enviara, durante os meses de campanha,
mensagens personalizadas a milhares de eleitores britânicos, mobilizando-os a
participar do plebiscito e a votar a favor do “Brexit”.
O
escândalo, porém, não era propriamente esse, mas o acesso ilegal que a
Cambridge Analytica teve aos perfis individuais desses eleitores, através da
plataforma Facebook. Se ela pôde lhes endereçar mensagens personalizadas, foi
porque pôde identificá-los um a um e, mais importante, pôde conhecer seus modos
cotidianos de vida e suas visões de mundo em função desses seus modos
cotidianos de vida, conforme esses eleitores revelavam pelos seus posts no
Facebook. Tratava-se de indivíduos ordinários levando suas vidas ordinárias.
Interpretavam os fatos do mundo que os afetavam diretamente conforme ideias de
senso comum, sem maiores elaborações.
Naquele
contexto, uma parte significativa da população britânica estava sofrendo as
consequências de décadas de políticas neoliberais: fechamento de indústrias e
desemprego, perda de direitos sociais, queda nos valores das aposentadorias,
perda de qualidade ou encarecimento de serviços públicos, muitos deles
privatizados. Introduzidas, na década 1980, pela primeira-ministra
Margareth Thatcher, essas políticas prosseguiram nas décadas seguintes,
inclusive sob os governos trabalhistas, apesar de seus crescentes custos
sociais. Por que mudassem os governos, nada realmente mudava nas condições de
vida de boa parte das classes trabalhadoras, só piorava, crescia nessas camadas
uma difusa insatisfação, frustrações, ressentimentos, decepções para com a
política e os políticos tradicionais – conservadores, liberais ou trabalhistas.
A Cambridge Analytica apenas explorou, com sucesso, essa decepção generalizada
de gente que se sentia abandonada pelos “políticos”.
Essas
insatisfações e ressentimentos eram também explorados por indivíduos sem
escrúpulos que, no vazio deixado pelas esquerdas e progressistas em geral ante
o “consenso neoliberal”, propunham, para problemas complexos, soluções
simplistas, porém de fácil aceitação por aquelas camadas da população: a origem
dos seus problemas está no “sistema”, seja lá o que isto signifique. E, no
Reino Unido, em 2016, o “sistema” foi facilmente identificado à União Européia.
E foi
assim que a Cambridge Analytica, podendo conhecer com razoável grau de
precisão, onde se achava a “raiva” de cada cidadão ou cidadã britânico(a), pôde
enviar a cada um ou cada uma, mensagens personalizadas que os mobilizava a
votar – e a votar a favor do Brexit. A quem quiser conferir, recomenda-se
assistir o documentário Privacidade hackeada (The Great
Hack), de Jehane Noujaim e Karim Amer, ainda disponível na plataforma
Netflix.
<><>
Manipulação?
Assim
como é fácil à Direita explorar os ressentimentos do homem e da mulher comuns
para atingir os seus objetivos de poder, também parece fácil à Esquerda
atribuir aos sistemas vigentes de comunicação social, as suas frustrações e
ressentimentos diante de suas dificuldades para construir meios próprios
eficientes de comunicação com a sociedade: seja a televisão, sejam as assim
chamadas “redes sociais”. Para a Esquerda, o cidadão pensa o que pensa e não
enxerga as origens das suas condições de “explorado” (o quê, para a Esquerda,
deveria ser-lhe óbvio), porque é “manipulado” pelos donos dos meios de
comunicação e pelos profissionais que neles trabalham.
O que o
caso da Cambridge Analytica demonstra (mas não só ele) é que, para ser
“manipulado”, esse cidadão já precisa estar predisposto a receber alguma
mensagem que parece coerente com os seus sentimentos, suas referências
socioculturais, suas crenças mais profundas. A Cambridge Analytica sabia disso
como, aliás, o sabe qualquer agência de publicidade: tão somente tratou de
identificar o segmento da população à espera de uma resposta a seus anseios que
ninguém, no sistema institucional, lhe dava. E lhe entregou as respostas que,
no nível das suas condições de pensar o mundo, lhe pareceram críveis.
Quando,
na década 1990, a internet se expandiu, muita gente boa acreditou que o debate
na esfera pública poderia sair dos filtros políticos e culturais das grandes
corporações mediáticas e ganhar uma nova e democraticamente radical qualidade.
O velho fetichismo tecnológico…
Como
deveria ser previsível, a internet não tardou a cair sob o domínio de novas
corporações mediáticas – as erroneamente chamadas big techs –
com, porém, muito mais poder do que as, digamos, “tradicionais”, para enviar a
cada segmento da população, até mesmo a cada indivíduo, a mensagem que cada
segmento ou cada indivíduo está predisposto a receber. Ainda por cima, como
essa mensagem é, em grande número dos casos, gerada por um outro cidadão que
goza das mesmas condições econômicas e culturais (um familiar, colega de
trabalho, alguém de confiança), ela vai parecer muito mais crível para quem a
recebe do que aquelas produzidas por “celebridades” aparentemente inatingíveis
da televisão, do cinema ou do rádio. A televisão tradicional tem que pautar,
produzir e editar as suas mensagens. Nas “redes sociais”, é o próprio
“telespectador” do YouTube ou TikTok, agora renomeado “usuário”, que produz, ou
reproduz, a mensagem que envia ou reenvia, mensagem que, para ele, faz
sentido porque corresponde às suas crenças e sentimentos, e lhe chegou de
alguém “confiável”.
Que
fique, portanto, claro: se a mensagem circula é porque encontra, em segmentos
da sociedade, motivos subjetivos, relacionados às condições sociais dos
sujeitos, que a fazem circular.
O
capitalismo e os poderes hegemônicos apenas exploram muito bem esse postulado
básico de teoria da comunicação e do pensamento marxiano. Afinal, como ensinou
Marx, “não é a consciência dos homens que determina o seu ser, é o ser social
que, inversamente, determina a consciência”. A Cambridge Analytica ou os
algoritmos do TikTok tão só tiram proveito desse ensinamento.
Sim, o
algoritmo não é neutro, tanto quanto o Luciano Huck também não é. Porém, não
significa dizer que, ao contrário do Luciano Huck, o algoritmo já seja moldado
propositadamente para favorecer algum campo político. Ele é moldado para gerar
dinheiro para as corporações que controlam as “redes sociais”.
Em
tempos de outrora, quando nem se imaginava a possibilidade da internet, um dos
jornais que mais vendia no Rio de Janeiro, era O Dia. Em São
Paulo, Notícias Populares. Eles eram conhecidos por disseminar um
noticiário escandaloso, com enorme destaque para crimes e notícias policiais,
não raro algumas fake news como se diria hoje, fotos de
mulheres seminuas nas capas etc. Vendiam muito porque havia um grande público,
predominantemente trabalhadores de baixa renda, ou subempregados ou lúmpens,
que preferia ler esse tipo de material do que o produzido pelo jornalismo mais
responsável, mais qualificado, dos jornais que “formavam opinião”: Jornal
do Brasil, O Estado de S. Paulo, Correio da Manhã etc.,
estes que “pautavam” o debate nas classes médias e melhor instruídas.
A
internet não mudou essa realidade. Apenas, no dizer de Umberto Eco, “deu voz a
milhões de imbecis”. As notícias escandalosas, chocantes, fake news,
nem mais precisam de jornalistas sem ética para serem produzidas, editadas e
publicadas. O próprio outrora apenas leitor, agora é também seu produtor e
disseminador. O algoritmo, por sua vez, como o antigo dono da banca de jornal,
quer vender. Se a mentira torna-se fato, publique-se a mentira (parafraseando a
famosa sentença final de O homem que matou o facínora, de John
Ford).
A
internet mercadificada e sob controle de grandes corporações
mediático-financeiras (Alphabet, Meta, Amazon etc.) introduziu uma nova
realidade no cenário da comunicação social. Desaparecendo a diferença entre o
que poderia ser “bom jornalismo” e “mau jornalismo”, “formadores de opinião” e
jornalistas sem opinião; desaparecendo hierarquias sociais que, de muitas
formas, ordenavam o mundo em que vivíamos; equalizando-se a opinião de quem
estuda e conhece com a de qualquer “influenciador” ignorante à caça de cliques;
a tendência é a de se rebaixar o próprio nível cultural do debate político.
O
algoritmo é uma máquina caça-níqueis. Ou caça-cliques. É projetado para engolir
dinheiro de gente em busca de mero entretenimento, até para isso permitindo,
vez por outra, jorrar dinheiro para alguns, alimentando as ilusões de milhões.
O dono do cassino sempre ganha. Em 2025, a Alphabet teve um lucro líquido de
USD 132,2 bilhões. A Meta, de USD 60,5 bilhões. Para se ter ideia do tamanho
desses números, o saldo comercial positivo do Brasil, em 2025, foi de USD 68,3
bilhões.
O que
elas comercializam? Dados. Como são produzidos esses dados? Pelos posts,
curtidas, visualizações nas telas dos smartphones de seus
bilhões de usuários. O algoritmo transforma mensagens de texto,
fotos, áudios, cliques em coraçõezinhos, tudo em dados sobre as pessoas que
estão usando os aplicativos daquelas corporações.
Como
elas precificam os dados? Pelo que o mercado está disposto a pagar. O que o
mercado está disposto a pagar? Os dados que favorecem alcançar a maior
quantidade possível de consumidores potenciais, portanto os dados gerados
pelos posts que tiveram o maior alcance em números de
“usuários”.
A
rigor, nada diferente da economia de qualquer outro meio de comunicação social:
a meta é a audiência.
Para a
Alphabet, para a Meta, para o X (ex-Twitter), dados de mensagens de “amor” ou
de mensagens de “ódio” têm o mesmo valor: gerar dinheiro. E se os dados
oriundos de mensagens de “ódio” ou de fake news geram mais
dinheiro do que os oriundos de mensagens de “amor”, tudo bem. “São apenas
negócios”, como diria Don Corleone…
<><>Rede
Bannon
Esse
modelo de negócios também favorece quem tem dinheiro e pretensão de se tornar
“famoso” para ganhar ainda mais dinheiro. O algoritmo pode impulsionar posts que
o seu próprio código “entende” como potencialmente populares, mas também pode
ser pago (isto é, a corporação mediático-financeira que o desenhou) para
impulsionar posts. Nem sequer custa muito caro. Muita gente, sem
nada para dizer, paga para se exibir para gente sem nada para ouvir mas
se imagina vicariamente exibida na exibição do ou da exibicionista. Se há
oferta, há demanda. Se há demanda, há oferta. É dialético. Como escreveu Marx:
“a produção é imediatamente consumo e o consumo é imediatamente produção”.
Se essa
possibilidade pode ser muito bem explorada pelas “celebridades” vazias que
infestam a internet como pulgas em cachorro sem dono, também pode sê-lo por
especuladores financeiros a exemplo de Steve Bannon, financiador e construtor
de uma rede digital mundial de articulação e mobilização daquela massa
frustrada e raivosa que o neoliberalismo produziu no mundo ocidental, dos
Estados Unidos à Argentina, do Chile aos estados do leste alemão, massa esta
descoberta, antes, pela Cambridge Analytica. Essa agência ensinou a centenas de
indivíduos facilmente identificáveis na atual realidade política brasileira,
alguns até se achando à altura de presidir a nossa República, como identificar,
personalizar e mobilizar, em proveito próprio e com dinheiro de nebulosas
transações, as frustrações, ressentimentos, revolta, até mesmo ódio, de amplas
parcelas da população desassistidas por 30 anos de “consenso neoliberal” (ainda
que disfarçado por assistencialismos compensatórios).
Por
outro lado, para que esse amplo sistema funcione a pleno vapor, torna-se
essencial que o Estado não ouse impor, via regulação, qualquer limite a tal
modelo (deletério) de negócios. É onde pode entrar o poder imperial do Estado
dos Estados Unidos. Mark Zuckerberg, CEO da Meta, deixou claro ao dizer que a
Meta trabalhará com o governo Trump para “combater governos ao redor do mundo
que estão atacando empresas americanas e as pressionando para censurar ainda
mais”. Mais claro, impossível. E qualquer observador um tanto atento poderá
perceber que depois da aplicação da Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de
Moraes, não mais se falou, no Brasil, em regulação das plataformas…
A
Direita, sabendo pagar para bem usar a seu favor as “redes sociais”, capturou
em proveito próprio os ressentimentos e frustrações de enormes parcelas da
população ocidental, logo também da brasileira. Mas, no fundo, nada disso é
“culpa” da tecnologia, assim como a radiodifusão que se difundia, na Alemanha,
nos anos 1920-1930 não tem culpa se os discursos de Goebbels mobilizavam
milhões de alemães para a causa nazista. A questão reside em entender por que
milhões de alemães, há quase 100 anos e novamente agora, ou milhões de
brasileiros e brasileiras, neste momento em que vivemos, se identificam e se
mobilizam com mensagens que circulam livremente pelas “redes sociais”,
espúrias, às raias do escatológico, capazes de envergonhar até os outrora
editores de O Dia.
Faltando
menos de 30 dias para o primeiro turno das nossas eleições, o tempo imediato
para entender esse fenômeno sociocultural já passou. Porém, se ainda for
possível derrotá-lo, é de se desejar que, nos anos imediatamente vindouros,
além da coragem necessária para enfrentar os arreganhos estadunidenses e impor
severos controles às “redes sociais”, haja clareza ainda maior para avançar
políticas públicas que recupere para a democracia e a civilização aquela grande
massa de abandonados pelo neoliberalismo progressista, conforme bem explicado
por Nancy Fraser. O dilema não é propriamente das “redes”, mas das opções
políticas do campo progressista, rendido aos fundamentos do “projeto
neoliberal”. Em suma, o Brasil precisa menos de algum ajuste fiscal, muito mais
de um profundo ajuste social.
Fonte: Por Marcos Dantas, no Blog da Boitempo

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