Por que há o temor sobre IA acabar com a
humanidade — e existe mesmo o risco?
Os alertas sobre os possíveis riscos da
inteligência artificial (IA) aumentaram a pressão nas últimas semanas por uma
ação coordenada para desacelerar o desenvolvimento dessa tecnologia.
Declarações de pesquisadores que atuam ou
atuaram na área de que a IA pode representar uma ameaça à humanidade acentuaram
o sinal de alerta. Um deles, inclusive, chegou a dizer que existe mais de 10%
de chance de a IA "matar todos os humanos".
Empresas gigantes deste setor nos Estados
Unidos, como a OpenAI (responsável pelo ChatGPT) e Anthropic (responsável pelo
Claude), têm pressionado congressistas americanos a criar regras para o setor.
Por outro lado, alguns críticos sugerem que
esse movimento por regulamentação das empresas líderes de mercado possa servir
para consolidar a vantagem dessas empresas sobre concorrentes atuais e futuros.
De qualquer forma, as declarações de grande
repercussão aumentaram a preocupação em torno do impacto dessa tecnologia. A
seguir, o que se sabe até agora.
<><> Por que alguns acham que a
IA pode ser uma ameaça à humanidade?
Alguns pesquisadores de IA afirmam que há
sinais preocupantes de que esses sistemas estejam avançando rápido demais em
capacidade e poder.
Evan Hubinger, cientista da Anthropic, chamou
a atenção ao afirmar que há mais de 10% de chance de a IA "matar todos os
humanos" na próxima década.
Hubinger trabalha com alinhamento de IA, área
voltada a incorporar princípios e valores éticos humanos aos sistemas de IA. Em
outras palavras, a ideia é manter a tecnologia em sintonia com aquilo que as
pessoas consideram importante.
Embora Hubinger tenha dito que o risco
representado pelos sistemas atuais é "baixo", suas declarações vieram
no momento em que outro pesquisador deixou a Anthropic por discordâncias acerca
do rumo do desenvolvimento dessa tecnologia.
Esse pesquisador, Jacob Coxon, alertou que as
pessoas responsáveis por desenvolver a tecnologia estavam perdendo o controle
sobre ela.
Coxon disse à BBC que ele e outros
funcionários da Anthropic estavam "genuinamente assustados" com a
velocidade dos avanços e com o que isso poderia significar para a humanidade.
Essas preocupações são as mais recentes de
uma longa série de temores sobre a possibilidade de a IA ameaçar a humanidade
caso alcance ou supere as capacidades humanas.
Esse tipo de receio existe há décadas. Nos
anos 1950, o cientista britânico Alan Turing (1912-54) escreveu que, se
máquinas inteligentes se tornassem possíveis, elas poderiam assumir o controle.
Nos últimos anos, as principais empresas de
IA entraram em uma corrida para desenvolver sistemas cada vez mais avançados,
tanto em busca de lucro quanto com o objetivo de criar o que chamam de
superinteligência — uma tecnologia ainda teórica, mais inteligente que os seres
humanos.
Diferentemente dos sistemas e ferramentas que
muita gente já usa no dia a dia para tarefas como escrever emails ou gerar
vídeos, uma IA superinteligente seria capaz de lidar com atividades muito mais
complexas.
A OpenAI e a Anthropic afirmam que pretendem
desenvolver esse tipo de tecnologia de forma a beneficiar as pessoas e
protegê-las de riscos à sua existência.
Mas alguns críticos dizem que as máquinas
jamais conseguirão igualar de fato as capacidades humanas. Para eles, as
empresas de IA exageram o que a tecnologia consegue fazer para ganhar projeção
ou aumentar seus lucros.
<><> Como poderia ser essa ameaça
à humanidade?
Pesquisadores, especialistas e executivos
preocupados com o potencial da IA de colocar a humanidade em risco têm descrito
cenários inquietantes.
Dario Amodei, diretor da Anthropic e ex-chefe
de Coxon, escreveu em setembro que a tecnologia avançou "drasticamente
mais rápido" do que o esperado, inclusive na "capacidade de criar a
próxima geração de IA".
A preocupação é que, depois de atingir
determinado nível, a IA possa, em teoria, começar a se aprimorar sem
participação humana.
Esse temor ganhou força depois de um episódio
recente em que ferramentas de IA invadiram sites sem terem recebido instruções
para isso.
Alguns pesquisadores preocupados com o tema
afirmam que as pessoas diretamente envolvidas no desenvolvimento da tecnologia
estão cada vez mais receosas de perder o controle sobre sistemas conhecidos
como agentes de IA, que são bots desenvolvidos para executar tarefas e tomar
determinadas ações de forma autônoma.
Outros cenários levantados incluem o uso de
sistemas de IA altamente avançados para ampliar ou conduzir atividades de
espionagem, ataques cibernéticos ou guerra biológica, ou ainda para provocar
desequilíbrios econômicos, seja por acidente ou de forma deliberada.
No entanto, esses alertas são previsões
hipotéticas e, para alguns especialistas, puro exagero.
Alguns especialistas também criticaram o foco
nos riscos existenciais enquanto problemas já concretos recebem menos atenção,
como o uso de ferramentas de geração de imagens para criar deepfakes (técnica
que manipula ou cria vídeos, áudios e imagens falsos, com alto grau de
realismo) de nudez sem consentimento de mulheres, espalhar desinformação e
ampliar golpes ou fraudes.
Um grupo suprapartidário de políticos das
duas Casas do Parlamento britânico publicou um relatório sobre os riscos da IA
aos direitos humanos e afirmou que novas leis são necessárias para
"responder à dimensão e à gravidade" dessas ameaças.
<><> Quais são as propostas para
desacelerar o desenvolvimento da IA?
Amodei, da Anthropic, e Sam Altman, CEO da
OpenAI, defenderam a criação de regras para o setor e uma
"desaceleração" no desenvolvimento da tecnologia.
Não é a primeira vez que executivos e outras
vozes da indústria pedem medidas desse tipo.
Mas continuam aumentando as dúvidas sobre o
que, na prática, significaria essa desaceleração, ideia que também tem o apoio
de Elon Musk, da SpaceX.
Amodei afirmou que isso não significaria
"interromper o treinamento de modelos nem o avanço técnico".
O que Amodei propõe é que as empresas
"reservem tempo suficiente" para tornar mais seguros os sistemas de
IA que estão desenvolvendo e recorram a "avaliadores independentes"
para verificar esse trabalho.
Em uma publicação na rede social X, Altman
afirmou que era necessário controlar o ritmo do desenvolvimento, mas
acrescentou: "Quando falamos em 'ritmo', não queremos dizer 'parar'."
"O avanço foi rápido e continuará
sendo", disse Altman.
"Mas deveria ser mais lento do que
poderia ser — medidas como avaliações formais de segurança e monitoramento têm
custos significativos."
O cofundador da OpenAI também afirmou que as
empresas não esperam — e não vão esperar — que os governos tomem a iniciativa.
<><> O que Trump disse?
O presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump, já elogiou os benefícios da IA e defendeu que empresas americanas
liderem o desenvolvimento da tecnologia.
Seu governo assinou ordens executivas que
reconhecem a "importância estratégica" da IA para a economia e buscam
acelerar seu avanço.
"Acreditamos que estamos em uma corrida
pela IA e queremos que os EUA vençam essa corrida", disse David Sacks,
responsável pela política de criptomoedas no governo americano, em entrevista a
jornalistas em julho de 2025.
Mas, diante dos alertas recentes sobre o
possível impacto da tecnologia sobre a humanidade, Trump minimizou os riscos da
IA.
"Há muitas forças negativas levantando
esse assunto sem que devessem, falando de coisas que não vão acontecer",
disse Trump durante uma visita à Irlanda.
Trump não respondeu diretamente à proposta de
desacelerar o desenvolvimento, mas afirmou a jornalistas: "Estamos à
frente da China em IA... e, francamente, quero que continue assim, porque quem
vencer na IA, vence."
<><> O que a China disse?
A China vinha evitando se manifestar sobre a
onda de alertas feitos por pesquisadores de empresas dos EUA.
Diante da forte concorrência e das restrições
ao acesso a componentes e chips americanos usados na construção de
infraestrutura para IA, o país estimulou o desenvolvimento doméstico da
tecnologia.
Ao mesmo tempo, tem defendido uma maior
coordenação internacional para estabelecer regras para a IA.
Nos últimos anos, o lançamento de sistemas e
ferramentas avançados de IA de código aberto por laboratórios chineses abalou
mercados e empresas de tecnologia do Ocidente.
Ao defender uma desaceleração no
desenvolvimento da IA, Amodei, da Anthropic, afirmou que os avanços da China e
sua capacidade na área poderiam representar riscos à segurança nacional dos
EUA.
O Ministério das Relações Exteriores da China
chamou as declarações de narrativas baseadas em ameaça, confronto e competição
hostil que não beneficiam ninguém.
Fonte: BBC News

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