O valor está nos olhos de quem vê?
A Riqueza
das nações,
publicado por Adam Smith em 1776, marca o nascimento da Economia como uma
ciência distinta. Nesse livro, Smith observa que “a palavra ‘valor’ tem
dois significados diferentes: por vezes ela expressa a utilidade de algum
objeto específico e, em outras vezes, o poder de comprar outros bens conferido
pela posse desse objeto. Um sentido pode ser chamado de valor no uso; o outro,
de valor na troca”. Assim, um objeto à venda possui um preço de mercado e uma
utilidade – e nós tendemos a usar a palavra “valor” para nos referirmos a ambos
os aspectos. Podemos, por exemplo, dizer que este saco de arroz é valioso para
mim porque preciso dele para me alimentar, mas ele também tem um valor de
alguns reais no supermercado. Smith apresenta então a observação que ficou
conhecida como o paradoxo da água e do diamante. Diz ele: “nada é mais útil do
que a água, mas ela dificilmente compra alguma coisa; não se consegue quase
nada em troca dela. Um diamante, pelo contrário, quase não tem qualquer valor
de uso, mas frequentemente se pode obter uma quantidade muito grande de outros
bens em troca dele”.
Adam
Smith e outros economistas clássicos que o sucederam rejeitaram a ideia de que
a utilidade poderia explicar o preço. Em vez disso, eles enxergavam os preços
como sendo determinados, em última análise, pela dificuldade objetiva de levar
as mercadorias ao mercado — isto é, o esforço real, o tempo e os recursos
necessários para produzi-las e entregá-las. Assim, a água é barata porque é
abundante e, por isso, são necessários relativamente poucos recursos para
disponibilizá-la no mercado. Em contrapartida, os diamantes são caros porque
são difíceis de encontrar e, portanto, exigem recursos significativos para
serem levados ao mercado. Essa explicação pode parecer razoável e a Economia
Clássica baseia-se em grande medida nessa ideia, mas hoje não vamos falar mais
nada sobre isso. Em vez disso, vamos nos concentrar nas teorias subjetivas do
valor econômico, que defendem o ponto de vista oposto: o valor econômico não
estaria nas mãos dos fornecedores das mercadorias, mas sim nos olhos de quem as
vê.
<><>
A virada subjetivista
A década
de 1870 é geralmente apontada como o início daquilo que ficou conhecido como
“revolução marginalista” na Economia, a qual culminou no desenvolvimento da
moderna Economia Neoclássica (ainda hoje a linha dominante no pensamento
econômico). Nessa década, William Stanley Jevons na Inglaterra, Carl Menger na
Áustria, e Léon Walras na Suíça, propuseram, de forma independente, teorias
subjetivas do valor econômico. A ideia central era de natureza psicológica: à
medida em que obtemos mais de algo, cada unidade adicional nos proporciona
menos satisfação. Portanto, se não temos água e estamos com sede, um copo
d’água tem grande utilidade; mas, se já bebemos vários copos de água, o copo
seguinte terá uma utilidade menor. Esse é o princípio da utilidade
marginal decrescente: quanto mais uma necessidade é satisfeita, menos
urgente ela se torna. No entanto, nós
consumimos uma ampla variedade de bens, não apenas um. Assim, nossas
preferências estabelecem uma ordem de importância para os
diferentes bens em qualquer momento. À medida que consumimos os bens básicos —
aqueles mais importantes e urgentes para nós —, suas utilidades marginais
diminuem. Eventualmente chega um ponto em que elas caem tanto que a utilidade
marginal dos bens de luxo supera a dos bens básicos; passamos, então, a
preferir o consumo de bens de luxo em detrimento dos bens básicos. Portanto,
independentemente da situação específica de qualquer pessoa, pode parecer que a
água possui uma utilidade total maior do que a dos diamantes mas, para um
indivíduo específico, em um momento e situação determinados, o que conta é a
utilidade marginal para ele. Assim, saciada a sede, o próximo copo traz menos
satisfação do que o primeiro.
Para os
economistas clássicos, os preços eram, em última análise, determinados pela
soma de todos os custos objetivos de produção — custos que, por sua vez, podiam
ser reduzidos a insumos
fundamentais,
como o trabalho. Os marginalistas inverteram essa lógica, propondo que os
preços seriam determinados, ao fim e ao cabo, pelas preferências subjetivas dos
consumidores — preferências que se traduzem nas utilidades marginais dos bens
de consumo finais. Enquanto os clássicos construíam o edifício do valor de
baixo para cima, partindo dos fundamentos do trabalho e das matérias-primas, os
marginalistas o construíam a partir da mente, com base no desejo e na escolha.
Em suma, onde os clássicos olhavam para fábricas e campos, enquanto os
marginalistas voltavam o olhar para o interior da mente. Os primeiros
marginalistas desenvolveram essa teoria subjetiva do valor demonstrando que,
assumindo indivíduos com utilidades marginais decrescentes que negociam
livremente no mercado, e dada uma quantidade definida de cada bem disponível
para troca, no equilíbrio (quando os
mercados se esvaziam e a oferta se iguala à demanda), os preços relativos dos
bens seriam proporcionais às suas utilidades marginais relativas. Em outras
palavras, existiria uma correspondência estrita entre as preferências
subjetivas e os preços de mercado. Assim, a revolução marginalista resolveu o
paradoxo da água e do diamante de uma maneira nova, rejeitando a ideia de que
os preços eram determinados pelos custos objetivos de produção: os diamantes
seriam caros não porque sua produção seja objetivamente custosa, mas porque sua
utilidade marginal é alta em comparação com a da água. Essa descoberta de que
os preços de mercado estão diretamente relacionados às preferências individuais
era uma novidade – não a encontramos em Smith, Ricardo ou Marx.
Em
1817, Ricardo limitou sua teoria do valor a bens que podiam ser produzidos e
reproduzidos pelo trabalho — bens produzidos em massa, como tecidos e ferro — e
somente mais tarde voltou sua atenção para itens como a terra, cuja oferta é
fixa e não pode ser expandida. Os marginalistas, por sua vez, ressaltaram que a
teoria deles — na qual os preços seriam determinados pela escassez e por
preferências subjetivas — teria uma aplicação completamente universal,
abrangendo todos os bens econômicos, fossem eles produzidos em massa (como
casacos ou o linho) ou não-reproduzíveis, como a terra e obras de arte raras.
Assim, a teoria deles explicaria mais utilizando menos. Com o marginalismo, a
Economia deixou de ser, primordialmente, a teoria da produção e distribuição de
um excedente e, em vez disso, passou a ser, acima de tudo, uma teoria da troca.
No entanto, essas novas técnicas marginalistas foram rapidamente estendidas de
modelos de troca pura para a análise da produção e da distribuição. Assim, por
exemplo, eles propuseram uma nova teoria da distribuição econômica, na qual os
salários do trabalho, os juros do capital e a renda da terra são todos
determinados por suas respectivas contribuições marginais à produção. Em outras
palavras, cada um receberia exatamente a fatia do bolo que lhe é de direito. Os
socialistas do século XIX estavam aplicando a teoria do valor-trabalho para
apontar que os trabalhadores são explorados, pois criam mais
valor do que o que recebem nos salários; o marginalismo, por sua vez, mina e
ataca diretamente esse ponto de vista.
<><>
Cálculo incompleto
Quero
agora apresentar uma distinção entre marginalismo e subjetivismo. A ideia
central do marginalismo é que os resultados econômicos são determinados por
essas quantidades marginais. Essas quantidades são, essencialmente, taxas
relativas de variação — ou seja, derivadas de funções — e os resultados de
equilíbrio são encontrados igualando-se essas taxas de variação (as derivadas)
a zero; é possível observar esse fato em um material de apoio matemático
que publiquei
anteriormente.
Portanto, sob essa perspectiva, o marginalismo é simplesmente o nome que damos
à introdução inicial do cálculo diferencial na Economia. Todavia, é muito
importante notar que o marginalismo, ainda que estabeleça equações
diferenciais, não realiza a integração delas para estudar a maneira como a
economia evolui ao longo do
tempo.
Ele apenas busca imediatamente os pontos em que as derivadas são iguais a zero
— os pontos de equilíbrio — e, portanto, apesar de parecer utilizar o cálculo,
na verdade o marginalismo resume-se à resolução de sistemas de equações
simultâneas. Léon Walras inspirou-se em um famoso livro-texto sobre
mecânica pura, que ele manteve ao lado da cama durante toda a sua vida. Jevons
escreveu que o marginalismo “apresenta uma estreita analogia com a ciência
da Mecânica Estática” e utilizava a
analogia de uma alavanca ou de uma balança. Assim, o marginalismo analisa as
condições sob as quais a balança está em equilíbrio, mas não examina como seus
pratos poderiam alcançar esse equilíbrio – ou se eles sequer seriam capazes de
atingir esse estado. Portanto, o marginalismo introduziu apenas uma metade do
cálculo — o cálculo diferencial — mas ignorou a outra metade, o cálculo
integral, que trata do movimento e da mudança ao longo do tempo. Não há nada de
dinâmica real e nem de História no marginalismo.
<><>
Na escala do subjetivismo
Osubjetivismo
deriva do marginalismo, mas também apresenta proposições adicionais. O
subjetivismo é a visão de que em todas as suas acepções o valor econômico seria
determinado — seja fundamentalmente, predominantemente ou exclusivamente —
pelas preferências subjetivas. Assim sendo, o marginalismo se trata de um
método analítico: ele estuda os limites, onde as taxas relativas de variação
são nulas e onde se estabelece o equilíbrio. O subjetivismo, por sua vez, é uma
reivindicação sobre a natureza do valor econômico, afirmando que em última
análise ele seria um aspecto mental, e não material. Ele residiria na percepção
do observador. Acontece que os fundadores do marginalismo eram também
subjetivistas, mas com diferentes graus de adesão a essa ideia. Vejamos algumas
ilustrações desse ponto. Primeiramente, eles apontavam que os preços de mercado
seriam inconcebíveis sem as preferências subjetivas. Desse modo, argumentavam
que qualquer teoria do valor econômico necessariamente estaria fundamentada na
subjetividade. Em segundo lugar, eles rejeitavam ou minimizavam o papel do
custo objetivo de produção na determinação dos preços. Assim, Jevons afirma por
exemplo que “verifica-se que o trabalho frequentemente determina o valor, mas
apenas de maneira indireta, ao variar o grau de utilidade da mercadoria por
meio de um aumento ou limitação de sua oferta”. Menger argumenta que, embora as
empresas pareçam repassar seus custos aos consumidores, isso na verdade seria
uma ilusão. Na realidade, os empreendedores partiriam dos preços que esperam
cobrar — os quais são determinados pelas avaliações subjetivas dos consumidores
— e então fariam o caminho inverso para determinar o quanto poderiam pagar
pelos insumos. Dessa forma, Menger reverte completamente a visão clássica do fluxo
dos custos objetivos, que ia dos fatores primários de produção até os bens de
consumo final; ele simplesmente inverte essa lógica. Menger afirma que “não
existe uma conexão necessária e direta entre o valor de um bem e a questão de
saber se — ou em que quantidades — o trabalho e outros bens de ordem superior
foram empregados em sua produção”. E, em terceiro lugar, os marginalistas por
vezes levaram o subjetivismo às últimas consequências, afirmando que as
preferências subjetivas seriam a causa única do valor e das trocas.
Menger
é a figura fundadora da Escola Austríaca, que é a escola de pensamento
econômico mais consistentemente subjetivista. Ludwig von Mises, em seu livro A
ação humana — publicado em 1949 e considerado a obra máxima da
Economia Austríaca —, escreve algumas coisas interessantes: “a ação humana é um
dos agentes que provocam mudanças; é um elemento da atividade cósmica e do
devir. Por conseguinte, ela constitui um objeto legítimo de investigação
científica, na forma em que — pelo menos nas condições atuais — não pode ser
conectada às suas causas. Em última instância, ela deve ser considerada como
algo dado e estudada como tal”. Em outras palavras, não seria possível
explicar as razões pelas quais os indivíduos têm as preferências
que têm.
Em vez disso, deveríamos adotar o individualismo metodológico, segundo o qual
cada indivíduo seria um agente iniciador independente ou uma causa não-causada.
Assim, afirma Mises: “em última análise, são sempre os juízos de valor
subjetivos dos indivíduos que determinam a formação dos preços. Os preços de
mercado são inteiramente determinados pelos juízos de valor dos homens, tal
como eles realmente agem”.
<><>
Contrabandeando a realidade
Então,
como devemos interpretar tudo isso? Há uma contradição fundamental aqui, que
suspeito que muitos de vocês já tenham notado: o subjetivismo não faz aquilo
que afirma realizar. Existe uma discrepância entre a sua retórica e o conteúdo
real da teoria já que, se levarmos o discurso ao pé da letra e assumirmos que
os preços seriam realmente determinados inteiramente por preferências
subjetivas, segue-se que todos nós poderíamos concordar coletivamente em
subjetivamente valorar os aviões abaixo dos lápis e, portanto,
todos poderíamos ter nossos próprios jatos particulares. Se o valor reside
apenas em nossas mentes e se os preços são inteiramente determinados pelo
valor, então todos nós poderíamos decidir que os jatos particulares devem ser
mais baratos do que os lápis — o que, obviamente, é um completo absurdo, pois
não podemos fazer desaparecer a escassez apenas pela força do desejo. O mundo
não se molda imediatamente às nossas preferências. Os aviões, ao contrário dos
lápis, exigem recursos
significativos para
serem produzidos, e a disponibilidade desses recursos é uma restrição objetiva,
independente do que possamos preferir subjetivamente. Em outras palavras, o
subjetivismo é claramente falso: trata-se de uma teoria totalmente
insustentável, uma versão do idealismo filosófico. E é por isso que, quando
analisamos a questão mais a fundo, descobrimos que — no momento decisivo — o
subjetivismo abandona o que tem de puramente subjetivista já que, para evitar o
absurdo, precisa admitir que na verdade o mundo objetivo importa sim. Por
exemplo, escreve Menger novamente: “o valor dos bens é um fenômeno que decorre
da relação entre as necessidades dos bens e as quantidades disponíveis deles”.
Em outras palavras, o valor de troca também depende da oferta. Todos os fundadores
do marginalismo, que são subjetivistas em níveis variados, fazem afirmações
semelhantes. Eles são forçados a admitir que os preços são determinados pela
interação entre a disponibilidade objetiva de recursos e as preferências
subjetivas. Assim, o subjetivismo visa tornar o valor de troca um fator
puramente mental, mas acaba contrabandeando de volta as mesmas velhas
restrições materiais sob o novo nome de “escassez”. Bukharin levanta justamente
esse ponto em seu livro A teoria econômica da classe ociosa,
publicado em 1917, que constitui uma crítica à Economia Austríaca de sua época.
Podemos
observar isso muito claramente nos aspectos matemáticos do marginalismo. Em um
material de apoio que publiquei
anteriormente há
um exemplo que assume que os indivíduos chegam ao mercado com uma determinada
quantidade de água e de diamantes para negociar. No entanto, se alterarmos
essas quantidades — ou seja, se mudarmos a oferta dos bens —, tanto os preços
de equilíbrio quanto as utilidades marginais sofrerão alterações. Isso ocorre
justamente porque os preços mudam. Em outras palavras, os preços variam em
função de mudanças na oferta, mesmo quando as preferências subjetivas,
codificadas nas funções de utilidade, permanecem constantes. Assim, as mãos dos
ofertantes transformam os olhos de quem vê. Portanto, os preços de mercado não
são inteiramente determinados pelas preferências subjetivas; na verdade, o
marginalismo demonstra exatamente o
contrário.
Esse subjetivismo é completamente insustentável, e só pode ser mantido por meio
de estratégias retóricas — e existem muitas delas. Uma das estratégias
favoritas consiste em conjurar um objetivismo oposto, igualmente insustentável
— a ideia de que o valor econômico se reduziria exclusivamente às propriedades
físicas — e atribuir essa posição aos economistas clássicos. Assim, o absurdo
desse objetivismo não é mais que uma imagem no espelho: a proposição
indefensável de que os preços seriam independentes das preferências subjetivas.
<><>
Duas lâminas
Mas por
que o subjetivismo é tão importante para a Escola Austríaca? Por que ele
constitui o núcleo central de seu sistema de crenças? A razão, creio eu, é a
seguinte: se for explicitamente declarado que os custos objetivos também
importam — e que, considerando o fato óbvio de que nenhum bem chega ao mercado
sem o dispêndio de trabalho humano, seja diretamente (como na produção de bens
em massa) ou indiretamente (como na produção de bens de consumo para aquelas
pessoas que fornecem os bens não-reproduzidos) —, então a teoria do
valor-trabalho e
todas as suas implicações radicais poderiam ressurgir. Assim, ao negar
qualquer âncora objetiva para
o valor,
o subjetivismo protege o capitalismo contra sua crítica mais perigosa: a de que
os trabalhadores criam mais valor do que aquilo que recebem como remuneração.
Essa proposição precisa ser negada não apenas a qualquer custo, mas também em
nome de todo lucro. A economia austríaca, apesar de seu alinhamento com a
classe dominante, é hoje uma escola de pensamento minoritária pela simples
razão de que, embora os austríacos prefiram a teoria subjetivista do valor, a
realidade econômica não a sustenta plenamente; afinal, na economia, é
impossível escapar do fato de que tanto a oferta (o lado da produção), quanto a
demanda (o lado do consumo) são importantes.
Alfred
Marshall, em sua obra Princípios da economia (1890) — que foi
um livro-texto muito popular na época —, abordou a controvérsia sobre se é o
custo de produção ou a utilidade o que determina o valor; sua resposta foi que
isso equivaleria a discutir se é a lâmina superior ou a inferior de uma tesoura
a que corta o papel. A teoria moderna do equilíbrio geral incorpora ambas
as lâminas. Funções de produção com retornos decrescentes de escala descrevem
como trabalho e capital se combinam para produzir bens, enquanto funções
utilidade com utilidade marginal decrescente descrevem como os indivíduos
combinam bens para satisfazer as suas necessidades. As empresas maximizam os
lucros; os indivíduos maximizam a utilidade. Ambos operam em suas margens:
temos as equações diferenciais, com as derivadas igualadas a zero, e as forças
da oferta e da demanda determinando então, conjuntamente, os preços que limpam
os mercados. Assim, quando as duas lâminas são unidas no equilíbrio,
constata-se que os preços de mercado são proporcionais tanto às taxas marginais
subjetivas de substituição entre os bens quanto à estrutura objetiva de custo
marginal das empresas. Em outras palavras, os preços de mercado serviriam a
múltiplos senhores: o desejo subjetivo e a realidade objetiva. Jevons e Walras
acabam reconhecendo esse ponto, mas creio que Menger não. Assim, a
economia neoclássica não é subjetivista – ela não seguiu a via austríaca.
Contudo, em consequência dos seus fundamentos duais, a Economia neoclássica
jamais conseguiu se desvincular totalmente da abordagem clássica da teoria do
valor. Por exemplo, em modelos neoclássicos de uma economia com bens
reproduzíveis, mercadorias produzidas em massa, com composições orgânicas de
capital equivalentes, os preços de equilíbrio são proporcionais ao
tempo de trabalho necessário para produzi-las. Esse resultado — inteiramente
consistente com a teoria clássica do valor-trabalho — é conhecido pelo menos
desde a década de 1960. Em outras palavras, a análise marginalista não
contradiz, por si só, a teoria clássica do valor-trabalho.
<><>
O paradoxo e o nihilismo
Então,
após esse longo desvio do caminho, voltemos à questão: por que a água é barata
e os diamantes são caros? Será porque a água exige menos trabalho social para
chegar ao mercado ou porque os indivíduos atribuem maior utilidade marginal aos
diamantes? O ensaísta vitoriano Thomas Carlyle cunhou a famosa frase: “ensine
um papagaio a dizer ‘oferta e demanda’ e você terá formado um economista
político” — e essa é, de fato, a resposta moderna: tudo depende da oferta e da
demanda. Se a água se tornasse objetivamente mais difícil de produzir, seu
preço poderia superar o dos diamantes, mesmo que as preferências subjetivas
permanecessem constantes. Por outro lado, se as pessoas decidissem que os
diamantes não brilham tanto assim, o preço deles poderia cair abaixo do da
água, mesmo que a dificuldade objetiva de produção dos diamantes permanecesse
inalterada. Consequentemente, nessa visão neoclássica, os preços não
representam, ao fim e ao cabo, alguma substância homogênea — como o tempo de
trabalho ou a utilidade. Em vez disso, o valor econômico não representaria nada
além de uma sequência de preços de equilíbrio que, a cada momento, esvaziam
todos os mercados, em consequência dos produtores e consumidores agirem sempre
em sua margem ótima, sujeitos às suas restrições subjetivas e objetivas. Assim,
na economia neoclássica, o valor econômico não está nas mãos dos ofertantes e
nem nos olhos de quem vê, mas em algum lugar entre os dois — ou, na verdade, em
lugar nenhum.
Jevons,
em 1871, após observar que o valor de troca não passa de uma razão, escreve:
“falar do valor de uma onça de ouro é tão absurdo quanto falar da razão do
número 17”. Em 1874, após definir seu sistema de equações diferenciais para o
equilíbrio em zero e resolver aquelas equações simultâneas, Walras percebe que
no seu sistema os preços são determinados meramente como um fator de escala,
pois nessa estrutura há mais incógnitas do que equações. Ele conclui, então,
que os preços de mercado são necessariamente relativos, e não grandezas
absolutas; em outras palavras, os preços seriam meras razões, desprovidas de
qualquer escala determinante. Após refletir sobre a natureza da mensuração,
afirma que “a palavra ‘franco’ designa algo que não existe”. A economia
neoclássica herda essa conclusão dos seus fundadores marginalistas. Se os
preços não passam de razões variáveis, então o valor em si se dissolve em uma
pura relação, uma dança de números sem qualquer substância. Assim, todo o
dinheiro do mundo — sejam dólares, euros, ienes —, juntamente com todos os
preços e contas denominados em cada moeda, não representaria absolutamente nada
específico ou determinado. O dinheiro é um símbolo que não simboliza, uma
quantidade sem qualidade – e é por isso que a Economia contemporânea pode ser
caracterizada como um niilismo do valor.
No
entanto, evidentemente existem problemas significativos nessa visão. Em
primeiro lugar, o dinheiro não é um preço, mas sim aquilo em que os preços são
expressos. Em segundo lugar, nós não compramos bens e serviços com os preços,
mas sim com dinheiro. E, em terceiro lugar, nós utilizamos o dinheiro não em um
estado de equilíbrio geral perfeitamente balanceado, mas em um estado geral de
desequilíbrio. Todavia, o marginalismo — ao utilizar apenas uma das metades do
cálculo — carece de recursos conceituais para analisar essas dinâmicas;
consequentemente, não é capaz de abordar a maneira como realmente utilizamos o
dinheiro no estado de desequilíbrio geral das economias reais e, portanto, não
consegue dizer nada de significativo sobre a relação de causalidade entre o
dinheiro — que é a materialização do valor econômico — e todas as outras
variáveis econômicas.
Existiria apenas uma consistência mútua
e simultânea – uma interdependência
estrutural, mas não causalidade. Assim, a Economia, tendo dominado a diferenciação
mas ainda resistindo à integração — não apenas matematicamente, mas também
conceitualmente -, consegue descrever estados hipotéticos de equilíbrio, mas
não a maneira como tais estados poderiam se estabelecer.
Fonte:
Por Ian Wright - Tradução Everton Lourenço, em Jacobin Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário