quarta-feira, 16 de setembro de 2026

A era Lula ainda não acabou

Em algumas semanas as eleições presidenciais vão mostrar se a Era Lula acabou. O PT marcou uma época na história brasileira desde sua formação. Mesmo quando esteve na oposição social (anos 1980) ou parlamentar (anos 1990) já dividia a sociedade civil entre dois campos: o liberal e o social.

Depois de cinco vitórias eleitorais, no entanto, não é o partido e seu principal líder que se encontram face a uma crise e sim a própria sociedade da qual emergiu. E para espanto de alguns não há nenhuma novidade nisso.

Desde que o falecido PSDB e seus aliados do centrão derrubaram Dilma Rousseff dez anos atrás, as eleições são decididas por pequena margem de votos entre o bolsonarismo e o PT. As pesquisas ajudam os dois campos em suas operações táticas diárias, mas não a campanha, a qual consiste em muitas batalhas orientadas por uma estratégia geral.

Pesquisas, neste caso, informam o que já sabemos: divisão do eleitorado em dois blocos, decisão em segundo turno, predominância do bolsonarismo entre evangélicos, leve predominância do PT entre mulheres, pardos e pobres etc. etc. Na pesquisa Data Folha de 11/9/2026 Lula tinha 22% das intenções de voto em primeiro turno dos evangélicos contra 50% de Flávio Bolsonaro. Entre os pardos Lula tem 40% a 34% e entre as mulheres 41% contra 30% de Flávio Bolsonaro. E 47% a 27% entre os eleitores até dois salários mínimos.

Portanto, não são as enquetes que devem mobilizar ou desanimar a militância petista.

Nem mesmo o golpe via STF operado por um juiz bolsonarista e mal vigiado por um juiz covarde deveria nos surpreender. Lula venceu as eleições de 2006 logo depois da tentativa de golpe de 2005.

Que os governos petistas tenham permanecido muito aquém do esperado e não tenham uma real política desenvolvimentista, todos sabemos. Não vale a pena nesse momento crucial discutir os limites estruturais de um lado e a inapetência petista de outro. O PT é o único instrumento político que a classe trabalhadora dispõe para evitar o abismo e ninguém espera uma mudança radical de rumo na campanha.

O que está em jogo é o fechamento por muitos decênios de qualquer possibilidade de mudança dentro da ordem. Se a gangue bolsonarista voltar ao poder, nada será como antes. Jair Bolsonaro perdeu por escassa margem depois que a economia brasileira passou por duas crises: a da pandemia e a dos primeiros momentos da Guerra da Ucrânia. Além disso, ele não controlava nem o Congresso e nem o STF. Este, depois de ter apoiado o golpe de 2016, afastou-se de sua criatura e justamente o ministro Alexandre de Moraes capitaneou a condenação e prisão de Jair Bolsonaro.

Na verdade, em parte, pagamos o preço do limitado processo de persecução e punição aos elementos golpistas. O núcleo político passou incólume, mesmo sendo amplamente documentada sua participação na trama golpista e na tentativa de deslegitimação do processo contra os golpistas. A desbolsonarização do Estado não foi nem sequer mobilizada em discurso.

A “reconstrução” promovida pelo terceiro governo Lula trouxe embutida, mesmo que de maneira não intencional, a normalização democrática do bolsonarismo. Como resultado, abriu-se margem para o fortalecimento e o acúmulo de forças do bolsonarismo no poder legislativo – o fisiologismo nunca esteve tão ideologizado –, no poder judiciário – do juiz de comarca ao supremo tribunal –, nas entidades profissionais – como a OAB e os conselhos de medicina –, sem mencionar as forças policiais militares, civis e federais – território há muito tempo ocupado pelo neofascismo brasileiro.

Não é à toa que o atual governo esteja desorientado. Infelizmente o “herói da esquerda” naquele momento não era um jurista impoluto, sendo pouco provável que seu ímpeto em punir o bolsonarismo fosse fruto de suas convicções democráticas, mas apenas uma reação às ameaças milicianas a sua própria vida.

Mas a história se serve das pessoas que tem à disposição e, parafraseando Ernst Mandel, o reconhecimento de que vivemos em um mundo de milicianos e gangsteres não obriga a conclusão de que um crime específico não seja cometido por um determinado gangster num dado momento. Por outro lado, tribunais superiores são eminentemente políticos e seus membros, com raras exceções, se envolvem em altos (ou baixos) negócios.

Pois bem, a gangue terá a possibilidade de nomear quatro ministros ao STF para somar aos três que já tem. E com a possibilidade de aposentadorias e impeachment, pode ter mais representantes por lá. O Congresso por sua vez, tem mais poder sobre o orçamento do que tinha antes do Golpe de 2016, mas terá uma bancada ideológica fascista maior. E o pântano será comprado como sempre.

Isso não significaria a bukelização do Brasil, mas a criação de uma experiência com potencial muito mais monstruoso e com implicações geopolíticas muito mais profundas em decorrência do tamanho e da complexidade da economia brasileira. Por outro lado, é justamente nessa maior complexidade social que reside o maior potencial de conflito e resistência ao processo de fascistização do bolsonarismo.

A gangue bolsonarista não vai apenas instalar uma vez mais o crime no poder. Não cometerá o mesmo erro duas vezes: vai tentar mudar o ordenamento jurídico do país para impedir por muito tempo a alternância no poder.

Uma ditadura plebiscitária no Brasil, sem direitos para a oposição, é vital para os EUA na América Latina. A derrota de Lula, portanto, tem enormes implicações geopolíticas. Tanto é assim que as tratativas para influenciar e manipular as eleições brasileiras por parte do governo estadunidense ocorrem à luz do dia, sem gerar qualquer espanto ou indignação.

Assim sendo, o mais realista agora é defender Lula e lutar corpo a corpo para que ele vença com o seu próprio programa e não com aquele que desejaríamos.

Isso não é impossível, nem improvável. A não ser que o governo esqueça as vantagens que tem: atua em “linhas interiores”, tem a caneta na mão, uma máquina presente em todo o território nacional, uma marca social indelével, uma agenda que dialoga com os muito pobres, mas também com os trabalhadores de renda média: valorização do salário mínimo, benefícios sociais, defesa do valor das aposentadorias, SUS, diminuição da jornada de trabalho, isenção de imposto de renda e descontos progressivos para a “classe média”, taxação de rendas elevadas e de fundos dos super-ricos.

Quem discute escândalo é a direita. Quem fala em religião na política é o fascismo. Nós falamos com as pessoas reais, aquelas que moram, comem, trabalham e pegam ônibus. O mote da “picanha”, tão criticada por diversos setores da esquerda como despolitizador, na verdade, dialogava com os anseios mais concretos dos trabalhadores brasileiros: a possibilidade de mitigação das horrendas condições de vida impostas por uma economia orientada pelo extrativismo e agrarismo colonial e pela lógica sacrificial da austeridade.

•        Eleição de apenas um turno. Por Ricardo Mezavila

Os problemas envolvendo o STF têm dominado a discussão pública, sobrepondo-se às próprias eleições. Pela primeira vez, teremos uma eleição de, praticamente, um único turno. O Datafolha, percebendo essa dinâmica, fez uma pesquisa em que 37% dizem preferir o afastamento de Mendonça, enquanto 34% preferem o de Moraes, percentuais compatíveis com os de quem vota em Lula e Flávio.

As campanhas não empolgam nem candidatos nem eleitores. As ruas, em outras épocas, estavam tomadas por bandeiras, cabos eleitorais e carros de som. Hoje, o silêncio nas vias reflete o que se passa na alma do país: a atenção se voltou para longe dos candidatos e dos projetos de nação, fixada em disputas internas do Supremo Tribunal Federal que, dia após dia, ocupam o espaço que deveria ser da política.

O primeiro turno parece ser entre Alexandre de Moraes e André Mendonça — que se tornaram os verdadeiros protagonistas políticos — em detrimento dos candidatos reais: Lula e Flávio Bolsonaro. O presidente da Corte, Edson Fachin, marcou o “julgamento” de Alexandre de Moraes para o próximo dia 15, e o de Mendonça para o dia 25.

O que esperar dessas investigações que dividiram os interesses do STF e que podem interferir diretamente na campanha?

Os marqueteiros de Lula parecem agir já pensando no segundo turno. Já os de Flávio comemoram os números das pesquisas, confiantes no aparente controle da Polícia Federal e numa fidelidade quase messiânica de seus eleitores.

Quando as instituições deixam de ser o que deveriam ser, a política deixa de acontecer nas ruas e nos programas — e passa a acontecer nos corredores e nas páginas dos diários oficiais. O eleitor, então, não escolhe mais um caminho para o país: ele apenas reage a quem, no alto, decide por ele.

Se os membros das instituições cumprissem de fato o que deles se espera, este seria um momento bem diferente. Flávio não teria motivos para comemorar, e Lula não perderia tempo falando de questões alheias, negligenciando a apresentação do seu plano de governo.

 

Fonte: Por Lincoln Secco e Fernando Sarti Ferreira, em A Terra é Redonda 

 

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