A era Lula ainda não acabou
Em algumas semanas as eleições presidenciais
vão mostrar se a Era Lula acabou. O PT marcou uma época na história brasileira
desde sua formação. Mesmo quando esteve na oposição social (anos 1980) ou
parlamentar (anos 1990) já dividia a sociedade civil entre dois campos: o
liberal e o social.
Depois de cinco vitórias eleitorais, no
entanto, não é o partido e seu principal líder que se encontram face a uma
crise e sim a própria sociedade da qual emergiu. E para espanto de alguns não
há nenhuma novidade nisso.
Desde que o falecido PSDB e seus aliados do
centrão derrubaram Dilma Rousseff dez anos atrás, as eleições são decididas por
pequena margem de votos entre o bolsonarismo e o PT. As pesquisas ajudam os
dois campos em suas operações táticas diárias, mas não a campanha, a qual
consiste em muitas batalhas orientadas por uma estratégia geral.
Pesquisas, neste caso, informam o que já
sabemos: divisão do eleitorado em dois blocos, decisão em segundo turno,
predominância do bolsonarismo entre evangélicos, leve predominância do PT entre
mulheres, pardos e pobres etc. etc. Na pesquisa Data Folha de 11/9/2026 Lula
tinha 22% das intenções de voto em primeiro turno dos evangélicos contra 50% de
Flávio Bolsonaro. Entre os pardos Lula tem 40% a 34% e entre as mulheres 41%
contra 30% de Flávio Bolsonaro. E 47% a 27% entre os eleitores até dois
salários mínimos.
Portanto, não são as enquetes que devem
mobilizar ou desanimar a militância petista.
Nem mesmo o golpe via STF operado por um juiz
bolsonarista e mal vigiado por um juiz covarde deveria nos surpreender. Lula
venceu as eleições de 2006 logo depois da tentativa de golpe de 2005.
Que os governos petistas tenham permanecido
muito aquém do esperado e não tenham uma real política desenvolvimentista,
todos sabemos. Não vale a pena nesse momento crucial discutir os limites
estruturais de um lado e a inapetência petista de outro. O PT é o único
instrumento político que a classe trabalhadora dispõe para evitar o abismo e
ninguém espera uma mudança radical de rumo na campanha.
O que está em jogo é o fechamento por muitos
decênios de qualquer possibilidade de mudança dentro da ordem. Se a gangue
bolsonarista voltar ao poder, nada será como antes. Jair Bolsonaro perdeu por
escassa margem depois que a economia brasileira passou por duas crises: a da
pandemia e a dos primeiros momentos da Guerra da Ucrânia. Além disso, ele não
controlava nem o Congresso e nem o STF. Este, depois de ter apoiado o golpe de
2016, afastou-se de sua criatura e justamente o ministro Alexandre de Moraes
capitaneou a condenação e prisão de Jair Bolsonaro.
Na verdade, em parte, pagamos o preço do
limitado processo de persecução e punição aos elementos golpistas. O núcleo
político passou incólume, mesmo sendo amplamente documentada sua participação
na trama golpista e na tentativa de deslegitimação do processo contra os
golpistas. A desbolsonarização do Estado não foi nem sequer mobilizada em
discurso.
A “reconstrução” promovida pelo terceiro
governo Lula trouxe embutida, mesmo que de maneira não intencional, a
normalização democrática do bolsonarismo. Como resultado, abriu-se margem para
o fortalecimento e o acúmulo de forças do bolsonarismo no poder legislativo – o
fisiologismo nunca esteve tão ideologizado –, no poder judiciário – do juiz de
comarca ao supremo tribunal –, nas entidades profissionais – como a OAB e os
conselhos de medicina –, sem mencionar as forças policiais militares, civis e
federais – território há muito tempo ocupado pelo neofascismo brasileiro.
Não é à toa que o atual governo esteja
desorientado. Infelizmente o “herói da esquerda” naquele momento não era um
jurista impoluto, sendo pouco provável que seu ímpeto em punir o bolsonarismo
fosse fruto de suas convicções democráticas, mas apenas uma reação às ameaças
milicianas a sua própria vida.
Mas a história se serve das pessoas que tem à
disposição e, parafraseando Ernst Mandel, o reconhecimento de que vivemos em um
mundo de milicianos e gangsteres não obriga a conclusão de que um crime
específico não seja cometido por um determinado gangster num dado momento. Por
outro lado, tribunais superiores são eminentemente políticos e seus membros,
com raras exceções, se envolvem em altos (ou baixos) negócios.
Pois bem, a gangue terá a possibilidade de
nomear quatro ministros ao STF para somar aos três que já tem. E com a
possibilidade de aposentadorias e impeachment, pode ter mais representantes por
lá. O Congresso por sua vez, tem mais poder sobre o orçamento do que tinha
antes do Golpe de 2016, mas terá uma bancada ideológica fascista maior. E o
pântano será comprado como sempre.
Isso não significaria a bukelização do
Brasil, mas a criação de uma experiência com potencial muito mais monstruoso e
com implicações geopolíticas muito mais profundas em decorrência do tamanho e
da complexidade da economia brasileira. Por outro lado, é justamente nessa
maior complexidade social que reside o maior potencial de conflito e
resistência ao processo de fascistização do bolsonarismo.
A gangue bolsonarista não vai apenas instalar
uma vez mais o crime no poder. Não cometerá o mesmo erro duas vezes: vai tentar
mudar o ordenamento jurídico do país para impedir por muito tempo a alternância
no poder.
Uma ditadura plebiscitária no Brasil, sem
direitos para a oposição, é vital para os EUA na América Latina. A derrota de
Lula, portanto, tem enormes implicações geopolíticas. Tanto é assim que as
tratativas para influenciar e manipular as eleições brasileiras por parte do
governo estadunidense ocorrem à luz do dia, sem gerar qualquer espanto ou
indignação.
Assim sendo, o mais realista agora é defender
Lula e lutar corpo a corpo para que ele vença com o seu próprio programa e não
com aquele que desejaríamos.
Isso não é impossível, nem improvável. A não
ser que o governo esqueça as vantagens que tem: atua em “linhas interiores”,
tem a caneta na mão, uma máquina presente em todo o território nacional, uma
marca social indelével, uma agenda que dialoga com os muito pobres, mas também
com os trabalhadores de renda média: valorização do salário mínimo, benefícios
sociais, defesa do valor das aposentadorias, SUS, diminuição da jornada de
trabalho, isenção de imposto de renda e descontos progressivos para a “classe
média”, taxação de rendas elevadas e de fundos dos super-ricos.
Quem discute escândalo é a direita. Quem fala
em religião na política é o fascismo. Nós falamos com as pessoas reais, aquelas
que moram, comem, trabalham e pegam ônibus. O mote da “picanha”, tão criticada
por diversos setores da esquerda como despolitizador, na verdade, dialogava com
os anseios mais concretos dos trabalhadores brasileiros: a possibilidade de
mitigação das horrendas condições de vida impostas por uma economia orientada
pelo extrativismo e agrarismo colonial e pela lógica sacrificial da austeridade.
• Eleição
de apenas um turno. Por Ricardo Mezavila
Os problemas envolvendo o STF têm dominado a
discussão pública, sobrepondo-se às próprias eleições. Pela primeira vez,
teremos uma eleição de, praticamente, um único turno. O Datafolha, percebendo
essa dinâmica, fez uma pesquisa em que 37% dizem preferir o afastamento de
Mendonça, enquanto 34% preferem o de Moraes, percentuais compatíveis com os de
quem vota em Lula e Flávio.
As campanhas não empolgam nem candidatos nem
eleitores. As ruas, em outras épocas, estavam tomadas por bandeiras, cabos
eleitorais e carros de som. Hoje, o silêncio nas vias reflete o que se passa na
alma do país: a atenção se voltou para longe dos candidatos e dos projetos de
nação, fixada em disputas internas do Supremo Tribunal Federal que, dia após
dia, ocupam o espaço que deveria ser da política.
O primeiro turno parece ser entre Alexandre
de Moraes e André Mendonça — que se tornaram os verdadeiros protagonistas
políticos — em detrimento dos candidatos reais: Lula e Flávio Bolsonaro. O
presidente da Corte, Edson Fachin, marcou o “julgamento” de Alexandre de Moraes
para o próximo dia 15, e o de Mendonça para o dia 25.
O que esperar dessas investigações que
dividiram os interesses do STF e que podem interferir diretamente na campanha?
Os marqueteiros de Lula parecem agir já
pensando no segundo turno. Já os de Flávio comemoram os números das pesquisas,
confiantes no aparente controle da Polícia Federal e numa fidelidade quase
messiânica de seus eleitores.
Quando as instituições deixam de ser o que
deveriam ser, a política deixa de acontecer nas ruas e nos programas — e passa
a acontecer nos corredores e nas páginas dos diários oficiais. O eleitor,
então, não escolhe mais um caminho para o país: ele apenas reage a quem, no
alto, decide por ele.
Se os membros das instituições cumprissem de
fato o que deles se espera, este seria um momento bem diferente. Flávio não
teria motivos para comemorar, e Lula não perderia tempo falando de questões
alheias, negligenciando a apresentação do seu plano de governo.
Fonte: Por Lincoln Secco e Fernando Sarti
Ferreira, em A Terra é Redonda

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