quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Exportação de carnes: a escalada de vinte anos e o recorde de US$ 33,75 bilhões (Parte 1)

Em vinte anos, o Brasil deixou de ser um fornecedor relevante, porém vulnerável, de proteína animal para se tornar uma engrenagem indispensável da segurança alimentar do planeta. No início dos anos 2000, a pauta de carnes era fragmentada e vivia sob a ameaça permanente de embargos sanitários.

Os dados da Secretaria de Comércio Exterior do MDIC, consolidados na base ComexStat, mostram o tamanho da mudança. No acumulado de doze meses encerrado em julho de 2026, as vendas externas de todo o Capítulo 02 da Nomenclatura Comum do Mercosul chegaram a US$ 33,75 bilhões, com 10,58 milhões de toneladas embarcadas.

Ad loading

Há exatamente duas décadas, no ciclo 2005/2006, o país exportava US$ 6,87 bilhões e 4,31 milhões de toneladas. Em 2016/2017, os números haviam subido para US$ 13,13 bilhões e 5,99 milhões de toneladas.

O resultado dos últimos doze meses supera em 25,3% a receita do ciclo 2024/2025, que fechou em US$ 26,94 bilhões. O volume físico cresceu 12,9% no mesmo intervalo, o que significa que entrou mais dinheiro porque saiu mais carne, e não apenas porque os preços subiram.

Essa ascensão não foi obra do acaso, e sim de três movimentos convergentes. O primeiro é genético e de manejo, com a tropicalização do gado zebuíno, dominado pela raça Nelore, e o ganho de precocidade que derrubou a idade de abate de 48 meses nos anos 1990 para menos de 24 meses nos confinamentos modernos e nos sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta.

O segundo movimento é sanitário. Enquanto concorrentes diretos enfrentaram surtos severos de gripe aviária de alta patogenicidade e de peste suína africana, o Brasil manteve as granjas comerciais livres da gripe aviária e obteve o reconhecimento internacional de zona livre de febre aftosa sem vacinação em praticamente todo o território.

O terceiro é industrial. A consolidação de frigoríficos de porte global, caso de JBS, Marfrig, Minerva e BRF, permitiu contratos diretos e de longo prazo com as grandes redes estatais e privadas de abastecimento da Ásia e do Oriente Médio.

A esses fatores somou-se o câmbio. A desvalorização estrutural do real frente ao dólar barateou o produto brasileiro no exterior e, ao mesmo tempo, estimulou investimentos pesados na modernização de plantas no Centro-Oeste, no Norte e no Sul do país.

Do outro lado do oceano, a ascensão da classe média na Ásia-Pacífico mudou a dieta de centenas de milhões de pessoas, que migraram de uma base de carboidratos para o consumo intensivo de proteína animal. O Brasil foi o único país com área, água e tecnologia para responder a essa demanda na escala de milhões de toneladas, e respondeu.

•        Exportação de carnes: a anatomia da pauta e a rota geopolítica da carne brasileira (Parte 2)

Quando se abre o acumulado recorde de US$ 33,75 bilhões pelo Sistema Harmonizado, a pauta revela dois pilares sólidos e um terceiro em expansão acelerada. A carne bovina e a de aves sustentam quase 80% da receita, e a suína cresce mais rápido do que qualquer outro segmento.

A China virou, na prática, a reguladora do preço do boi gordo no Brasil. A ampliação das habilitações de frigoríficos negociada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária junto à Administração Geral de Alfândegas chinesa, a GACC, consolidou o Brasil como fornecedor de mais da metade de toda a carne bovina que os chineses importam.

Os Estados Unidos aparecem em segundo lugar, com 8,7% da carne bovina congelada, mesmo pagando tarifas acima de 26% fora da cota. O dado expõe a dependência da indústria americana de hambúrguer em relação ao produto brasileiro, usado na mistura com a carne local.

A avicultura, código 0207, movimenta US$ 9,82 bilhões e segue uma lógica oposta à do boi. Em vez da concentração em um único comprador, o frango brasileiro se espalha por dezenas de mercados, e nenhum deles passa de 11% do total.

O Japão, com 11,0%, exige os padrões técnicos mais rígidos do mundo e cortes desossados de precisão quase artesanal. A Arábia Saudita, com 10,0%, e os Emirados Árabes Unidos ancoram a liderança brasileira no mercado halal, no qual o país é o maior produtor e exportador do planeta.

A China, com 9,7% do frango, compra sobretudo pés, asas e miúdos, cortes de baixo valor no Ocidente e de alto valor na culinária chinesa. Essa complementaridade entre mercados é o que permite ao frigorífico brasileiro vender a ave inteira, e não apenas o peito.

A carne suína, código 0203, rendeu US$ 3,47 bilhões e foi o segmento que mais redesenhou seus compradores depois que a peste suína africana perdeu força na China. As Filipinas se tornaram o maior comprador isolado, com 25,3%, seguidas por Japão, com 15,5%, e Chile.

Essa redistribuição blindou a suinocultura do Sul do país contra as oscilações da demanda chinesa. Os produtores de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul deixaram de depender de um único cliente e passaram a operar com margens mais estáveis.

•        Exportação de carnes: consumo interno e soberania (Parte 3)

Há uma narrativa recorrente segundo a qual o recorde de exportações esvazia a mesa do brasileiro. Os dados do USDA e da OCDE/FAO desmentem essa tese.

O Brasil tem um dos maiores consumos per capita de proteína animal do mundo. Somadas as carnes bovina, de aves e suína, o brasileiro consome em média 98,0 quilos por ano, o segundo maior índice do planeta.

Apenas os Estados Unidos ficam à frente, com 102,5 quilos por habitante. A União Europeia consome 77,0 quilos, a China 71,0 quilos, e a média mundial não passa de 34,5 quilos.

O problema está no preço, não na quantidade. A atratividade do mercado externo, remunerado em dólar, gera uma pressão inevitável sobre o mercado interno, e o IPCA de agosto de 2026, divulgado pelo IBGE nesta sexta-feira, 11 de setembro de 2026,, mostra esse contraste com precisão.

O índice geral de agosto registrou deflação de 0,32%, puxada pela queda da energia elétrica e pelo recuo de 0,61% no grupo Alimentação no Domicílio, beneficiado por safras recordes de grãos e hortaliças. No mesmo mês, o subgrupo Carnes subiu 0,61%, na contramão do resto da cesta.

A alta de 0,61% nas carnes em um mês de deflação de 0,32% ilustra como funciona a paridade de exportação. Quando a arroba do boi gordo é puxada para cima pelos dólares chineses e americanos, os frigoríficos passam a disputar o animal terminado no campo pagando mais caro.

O açougue do bairro e as grandes redes de supermercado competem pela mesma matéria-prima com os portos de Santos e Paranaguá. Mais de 70% da produção de aves e suínos e cerca de 70% da carne bovina ficam no Brasil, mas é o preço pago pela parcela exportada que estabelece o piso de valorização de toda a cadeia.

O desafio do governo federal e do setor produtivo para o ciclo 2026/2027 é manter o ritmo das exportações sem corroer o poder de compra do trabalhador. A resposta não está em restringir embarques, e sim em produzir mais na mesma terra.

O caminho passa pela recuperação dos mais de 30 milhões de hectares de pastagens degradadas previstos no Plano Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas. É a única forma de ampliar a oferta de carne sem desmatamento e com a sustentabilidade que o consumidor moderno exige, dentro e fora do país.

<><> Consumo de carne bovina despenca 11,3% na Argentina

 O consumo de carne bovina despencou 11,3% na Argentina entre janeiro e agosto de 2026, em comparação com igual período do ano anterior, diante da queda da produção, do aumento das exportações e da consequente redução da oferta interna. O consumo por habitante também recuou e permaneceu em patamar historicamente baixo.

Os dados foram divulgados pela Câmara da Indústria e Comércio de Carnes e Derivados da Argentina e publicados pela teleSUR, com base em informações do site El Destape. O levantamento aponta que o consumo aparente no mercado argentino somou 1,377 milhão de toneladas de carne bovina com osso nos oito primeiros meses deste ano.

O volume representa uma redução de 175,6 mil toneladas em relação ao mesmo intervalo de 2025. O resultado evidencia a perda de espaço de um alimento tradicional na mesa dos argentinos, em um cenário de menor disponibilidade do produto e pressão sobre o orçamento das famílias.

Na média móvel anual encerrada em agosto, o consumo per capita chegou a 46 quilos por pessoa. O indicador caiu 9,5% em um ano, o equivalente a uma retração de 4,9 quilos por habitante na comparação com agosto de 2025.

<><> Exportações avançam enquanto mercado interno encolhe

A retração do consumo doméstico ocorreu na direção oposta ao desempenho das vendas externas. As exportações argentinas de carne bovina cresceram 6,5% entre janeiro e agosto, na comparação anual, e alcançaram 567,4 mil toneladas em peso de carcaça.

Segundo o relatório, a expansão foi impulsionada principalmente pela cota concedida pelos Estados Unidos no fim de 2025. O avanço das remessas ao exterior contribuiu para diminuir a quantidade de carne disponível no mercado argentino, já afetado pelo recuo da produção frigorífica.

O desempenho das exportações, portanto, não foi acompanhado por uma ampliação da atividade produtiva capaz de sustentar simultaneamente as vendas externas e o abastecimento doméstico. Com menos carne produzida e maior volume direcionado a outros países, a oferta para os consumidores argentinos ficou mais restrita.

<><> Produção de carne bovina cai 6,8%

A Argentina produziu 1,944 milhão de toneladas de carne bovina em peso de carcaça nos primeiros oito meses de 2026. O resultado representa uma queda de 6,8% em relação ao mesmo período do ano passado.

Somente em agosto, a produção totalizou 248 mil toneladas, uma retração anual de 8,7%. O desempenho foi determinado principalmente pela redução do número de animais encaminhados aos frigoríficos.

No mês, 1,011 milhão de cabeças de gado foram abatidas, 12,9% a menos do que em agosto de 2025. Conforme a entidade empresarial, esse foi o 11º menor nível de atividade para um mês de agosto nos últimos 47 anos.

A redução do abate limita a capacidade de recuperação da oferta no curto prazo. Ao mesmo tempo, o direcionamento de uma parcela maior da produção ao exterior intensifica a disputa pelo produto disponível e mantém o mercado interno sob pressão.

<><> Preço do gado sobe 46% em um ano

A menor oferta coincidiu com uma forte valorização do gado vivo. No mercado de Cañuelas, uma das principais referências da pecuária argentina, o preço médio chegou a 3.833,7 pesos por quilo em agosto.

O valor ficou 46% acima do registrado no mesmo mês de 2025. Na comparação com julho, o aumento foi de 3,1%, segundo os números apresentados pela entidade do setor.

No varejo, o grupo de carnes e derivados teve alta mensal de 0,2% no índice de preços ao consumidor. Embora o avanço tenha ficado abaixo do observado em categorias como frutas e produtos de panificação, a elevação acumulada dos preços e a menor disponibilidade do alimento continuam restringindo o consumo.

Os números mostram que a queda da demanda interna não decorre de um fator isolado. Ela reúne os efeitos da redução do abate, da contração da produção, do crescimento das exportações e da pressão exercida pelos preços em um país no qual a carne bovina ocupa papel central nos hábitos alimentares.

 

Fonte: O Cafezinho/Brasil 247

 

Nenhum comentário: