Exportação de carnes: a escalada de vinte
anos e o recorde de US$ 33,75 bilhões (Parte 1)
Em vinte anos, o Brasil deixou de ser um
fornecedor relevante, porém vulnerável, de proteína animal para se tornar uma
engrenagem indispensável da segurança alimentar do planeta. No início dos anos
2000, a pauta de carnes era fragmentada e vivia sob a ameaça permanente de
embargos sanitários.
Os dados da Secretaria de Comércio Exterior
do MDIC, consolidados na base ComexStat, mostram o tamanho da mudança. No
acumulado de doze meses encerrado em julho de 2026, as vendas externas de todo
o Capítulo 02 da Nomenclatura Comum do Mercosul chegaram a US$ 33,75 bilhões,
com 10,58 milhões de toneladas embarcadas.
Ad loading
Há exatamente duas décadas, no ciclo
2005/2006, o país exportava US$ 6,87 bilhões e 4,31 milhões de toneladas. Em
2016/2017, os números haviam subido para US$ 13,13 bilhões e 5,99 milhões de
toneladas.
O resultado dos últimos doze meses supera em
25,3% a receita do ciclo 2024/2025, que fechou em US$ 26,94 bilhões. O volume
físico cresceu 12,9% no mesmo intervalo, o que significa que entrou mais
dinheiro porque saiu mais carne, e não apenas porque os preços subiram.
Essa ascensão não foi obra do acaso, e sim de
três movimentos convergentes. O primeiro é genético e de manejo, com a
tropicalização do gado zebuíno, dominado pela raça Nelore, e o ganho de
precocidade que derrubou a idade de abate de 48 meses nos anos 1990 para menos
de 24 meses nos confinamentos modernos e nos sistemas de integração
lavoura-pecuária-floresta.
O segundo movimento é sanitário. Enquanto
concorrentes diretos enfrentaram surtos severos de gripe aviária de alta
patogenicidade e de peste suína africana, o Brasil manteve as granjas
comerciais livres da gripe aviária e obteve o reconhecimento internacional de
zona livre de febre aftosa sem vacinação em praticamente todo o território.
O terceiro é industrial. A consolidação de
frigoríficos de porte global, caso de JBS, Marfrig, Minerva e BRF, permitiu
contratos diretos e de longo prazo com as grandes redes estatais e privadas de
abastecimento da Ásia e do Oriente Médio.
A esses fatores somou-se o câmbio. A
desvalorização estrutural do real frente ao dólar barateou o produto brasileiro
no exterior e, ao mesmo tempo, estimulou investimentos pesados na modernização
de plantas no Centro-Oeste, no Norte e no Sul do país.
Do outro lado do oceano, a ascensão da classe
média na Ásia-Pacífico mudou a dieta de centenas de milhões de pessoas, que
migraram de uma base de carboidratos para o consumo intensivo de proteína
animal. O Brasil foi o único país com área, água e tecnologia para responder a
essa demanda na escala de milhões de toneladas, e respondeu.
• Exportação
de carnes: a anatomia da pauta e a rota geopolítica da carne brasileira (Parte
2)
Quando se abre o acumulado recorde de US$
33,75 bilhões pelo Sistema Harmonizado, a pauta revela dois pilares sólidos e
um terceiro em expansão acelerada. A carne bovina e a de aves sustentam quase
80% da receita, e a suína cresce mais rápido do que qualquer outro segmento.
A China virou, na prática, a reguladora do
preço do boi gordo no Brasil. A ampliação das habilitações de frigoríficos
negociada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária junto à Administração Geral
de Alfândegas chinesa, a GACC, consolidou o Brasil como fornecedor de mais da
metade de toda a carne bovina que os chineses importam.
Os Estados Unidos aparecem em segundo lugar,
com 8,7% da carne bovina congelada, mesmo pagando tarifas acima de 26% fora da
cota. O dado expõe a dependência da indústria americana de hambúrguer em
relação ao produto brasileiro, usado na mistura com a carne local.
A avicultura, código 0207, movimenta US$ 9,82
bilhões e segue uma lógica oposta à do boi. Em vez da concentração em um único
comprador, o frango brasileiro se espalha por dezenas de mercados, e nenhum
deles passa de 11% do total.
O Japão, com 11,0%, exige os padrões técnicos
mais rígidos do mundo e cortes desossados de precisão quase artesanal. A Arábia
Saudita, com 10,0%, e os Emirados Árabes Unidos ancoram a liderança brasileira
no mercado halal, no qual o país é o maior produtor e exportador do planeta.
A China, com 9,7% do frango, compra sobretudo
pés, asas e miúdos, cortes de baixo valor no Ocidente e de alto valor na
culinária chinesa. Essa complementaridade entre mercados é o que permite ao
frigorífico brasileiro vender a ave inteira, e não apenas o peito.
A carne suína, código 0203, rendeu US$ 3,47
bilhões e foi o segmento que mais redesenhou seus compradores depois que a
peste suína africana perdeu força na China. As Filipinas se tornaram o maior
comprador isolado, com 25,3%, seguidas por Japão, com 15,5%, e Chile.
Essa redistribuição blindou a suinocultura do
Sul do país contra as oscilações da demanda chinesa. Os produtores de Santa
Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul deixaram de depender de um único cliente e
passaram a operar com margens mais estáveis.
• Exportação
de carnes: consumo interno e soberania (Parte 3)
Há uma narrativa recorrente segundo a qual o
recorde de exportações esvazia a mesa do brasileiro. Os dados do USDA e da
OCDE/FAO desmentem essa tese.
O Brasil tem um dos maiores consumos per
capita de proteína animal do mundo. Somadas as carnes bovina, de aves e suína,
o brasileiro consome em média 98,0 quilos por ano, o segundo maior índice do
planeta.
Apenas os Estados Unidos ficam à frente, com
102,5 quilos por habitante. A União Europeia consome 77,0 quilos, a China 71,0
quilos, e a média mundial não passa de 34,5 quilos.
O problema está no preço, não na quantidade.
A atratividade do mercado externo, remunerado em dólar, gera uma pressão
inevitável sobre o mercado interno, e o IPCA de agosto de 2026, divulgado pelo
IBGE nesta sexta-feira, 11 de setembro de 2026,, mostra esse contraste com
precisão.
O índice geral de agosto registrou deflação
de 0,32%, puxada pela queda da energia elétrica e pelo recuo de 0,61% no grupo
Alimentação no Domicílio, beneficiado por safras recordes de grãos e
hortaliças. No mesmo mês, o subgrupo Carnes subiu 0,61%, na contramão do resto
da cesta.
A alta de 0,61% nas carnes em um mês de
deflação de 0,32% ilustra como funciona a paridade de exportação. Quando a
arroba do boi gordo é puxada para cima pelos dólares chineses e americanos, os
frigoríficos passam a disputar o animal terminado no campo pagando mais caro.
O açougue do bairro e as grandes redes de
supermercado competem pela mesma matéria-prima com os portos de Santos e
Paranaguá. Mais de 70% da produção de aves e suínos e cerca de 70% da carne
bovina ficam no Brasil, mas é o preço pago pela parcela exportada que
estabelece o piso de valorização de toda a cadeia.
O desafio do governo federal e do setor
produtivo para o ciclo 2026/2027 é manter o ritmo das exportações sem corroer o
poder de compra do trabalhador. A resposta não está em restringir embarques, e
sim em produzir mais na mesma terra.
O caminho passa pela recuperação dos mais de
30 milhões de hectares de pastagens degradadas previstos no Plano Nacional de
Conversão de Pastagens Degradadas. É a única forma de ampliar a oferta de carne
sem desmatamento e com a sustentabilidade que o consumidor moderno exige,
dentro e fora do país.
<><> Consumo de carne bovina
despenca 11,3% na Argentina
O
consumo de carne bovina despencou 11,3% na Argentina entre janeiro e agosto de
2026, em comparação com igual período do ano anterior, diante da queda da
produção, do aumento das exportações e da consequente redução da oferta
interna. O consumo por habitante também recuou e permaneceu em patamar
historicamente baixo.
Os dados foram divulgados pela Câmara da
Indústria e Comércio de Carnes e Derivados da Argentina e publicados pela
teleSUR, com base em informações do site El Destape. O levantamento aponta que
o consumo aparente no mercado argentino somou 1,377 milhão de toneladas de
carne bovina com osso nos oito primeiros meses deste ano.
O volume representa uma redução de 175,6 mil
toneladas em relação ao mesmo intervalo de 2025. O resultado evidencia a perda
de espaço de um alimento tradicional na mesa dos argentinos, em um cenário de
menor disponibilidade do produto e pressão sobre o orçamento das famílias.
Na média móvel anual encerrada em agosto, o
consumo per capita chegou a 46 quilos por pessoa. O indicador caiu 9,5% em um
ano, o equivalente a uma retração de 4,9 quilos por habitante na comparação com
agosto de 2025.
<><> Exportações avançam enquanto
mercado interno encolhe
A retração do consumo doméstico ocorreu na
direção oposta ao desempenho das vendas externas. As exportações argentinas de
carne bovina cresceram 6,5% entre janeiro e agosto, na comparação anual, e
alcançaram 567,4 mil toneladas em peso de carcaça.
Segundo o relatório, a expansão foi
impulsionada principalmente pela cota concedida pelos Estados Unidos no fim de
2025. O avanço das remessas ao exterior contribuiu para diminuir a quantidade
de carne disponível no mercado argentino, já afetado pelo recuo da produção
frigorífica.
O desempenho das exportações, portanto, não
foi acompanhado por uma ampliação da atividade produtiva capaz de sustentar
simultaneamente as vendas externas e o abastecimento doméstico. Com menos carne
produzida e maior volume direcionado a outros países, a oferta para os
consumidores argentinos ficou mais restrita.
<><> Produção de carne bovina cai
6,8%
A Argentina produziu 1,944 milhão de
toneladas de carne bovina em peso de carcaça nos primeiros oito meses de 2026.
O resultado representa uma queda de 6,8% em relação ao mesmo período do ano
passado.
Somente em agosto, a produção totalizou 248
mil toneladas, uma retração anual de 8,7%. O desempenho foi determinado
principalmente pela redução do número de animais encaminhados aos frigoríficos.
No mês, 1,011 milhão de cabeças de gado foram
abatidas, 12,9% a menos do que em agosto de 2025. Conforme a entidade
empresarial, esse foi o 11º menor nível de atividade para um mês de agosto nos
últimos 47 anos.
A redução do abate limita a capacidade de
recuperação da oferta no curto prazo. Ao mesmo tempo, o direcionamento de uma
parcela maior da produção ao exterior intensifica a disputa pelo produto
disponível e mantém o mercado interno sob pressão.
<><> Preço do gado sobe 46% em um
ano
A menor oferta coincidiu com uma forte
valorização do gado vivo. No mercado de Cañuelas, uma das principais
referências da pecuária argentina, o preço médio chegou a 3.833,7 pesos por
quilo em agosto.
O valor ficou 46% acima do registrado no
mesmo mês de 2025. Na comparação com julho, o aumento foi de 3,1%, segundo os
números apresentados pela entidade do setor.
No varejo, o grupo de carnes e derivados teve
alta mensal de 0,2% no índice de preços ao consumidor. Embora o avanço tenha
ficado abaixo do observado em categorias como frutas e produtos de panificação,
a elevação acumulada dos preços e a menor disponibilidade do alimento continuam
restringindo o consumo.
Os números mostram que a queda da demanda
interna não decorre de um fator isolado. Ela reúne os efeitos da redução do
abate, da contração da produção, do crescimento das exportações e da pressão
exercida pelos preços em um país no qual a carne bovina ocupa papel central nos
hábitos alimentares.
Fonte: O Cafezinho/Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário