Os números milionários de 'Dark Horse' que
Flávio Bolsonaro prometeu a Vorcaro
O inquérito da Polícia Federal sobre o filme
Dark Horse, que apura suspeitas de irregularidades no financiamento da
produção, que recebeu recursos de Daniel Vorcaro, traz novos detalhes sobre o
orçamento do longa-metragem.
O documento integra um dos inquéritos
relacionados ao Banco Master tornados públicos na noite desta sexta-feira
(11/9) por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal
(STF).
A decisão veio após o presidente da Corte,
Edson Fachin, determinar a abertura dos documentos vinculados ao caso,
atendendo a um pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR).
A planilha de custos previstos para o filme
detalha o cachê que seu protagonista, o ator americano Jim Caviezel, receberia
para interpretar o ex-presidente Jair Bolsonaro: US$ 4 milhões, ou cerca de R$
20,48 milhões na cotação atual.
Embora Caviezel não seja mencionado
explicitamente, as duas primeiras parcelas que o banqueiro deveria pagar, de
US$ 2 milhões cada, aparecem descritas como "talento principal parte
1" e "talento principal parte 2".
"Talento", tradução literal de
talent, é o termo usado pela indústria para se referir a um artista. Como o
documento qualifica o profissional como o "talento principal", a
referência seria ao protagonista.
Como a planilha registra apenas o orçamento,
não é possível saber se o pagamento foi efetivamente realizado nem qual foi o
custo final. Documentos do Conselho de Controle de Atividades Financeiras
(Coaf) apontam que ao menos US$ 12,3 milhões (R$ 63 milhões) dos US$ 24 milhões
(R$ 123 milhões) solicitados pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) ao banqueiro
foram efetivamente pagos.
A assessoria de imprensa de Flávio disse à
BBC News Brasil que assuntos ligados a Dark Horse devem ser tratados com a
produtora do filme, a Go Up Entertainment. A BBC questionou a empresa, por
e-mail, mas não obteve retorno até a publicação. A reportagem não conseguiu
localizar os representantes de Caviezel.
A Polícia Federal destaca, em seu relatório,
o descompasso entre os valores de Dark Horse e aqueles observados no mercado
audiovisual brasileiro. "Embora não caracterize por si só qualquer ilícito
penal, reforça a necessidade de aprofundamento da investigação acerca da
efetiva destinação dos recursos e da compatibilidade econômica da operação
financeira identificada", diz o documento.
O diretor do filme, Cyrus Nowrasteh, se
pronunciou no X. "A comparação de custos que a imprensa brasileira vem
fazendo é falha. Nos Estados Unidos, os orçamentos de produção são divulgados
sem incluir os custos de marketing. Já o valor referente a Dark Horse citado na
cobertura jornalística inclui o marketing. Comparar um valor que engloba
produção e marketing com custos apenas de produção é, simplesmente, um
erro", ele escreveu.
No entanto, na planilha de custos apresentada
a Vorcaro, à qual a PF teve acesso, não há menção a despesas de distribuição,
categoria que inclui o marketing. Em um filme, a pós-produção reúne apenas os
gastos necessários para editar e finalizar a obra.
Já a etapa que envolve os custos para levar a
obra ao público — incluindo divulgação e distribuição nos cinemas — corresponde
a ao menos 30% da soma de todas as demais despesas, entre elas cachês de
elenco, roteiristas, produtores e de todos os outros profissionais envolvidos
na produção.
<><> O cachê de Caviezel para
fazer Bolsonaro e o de Joaquin Phoenix como Coringa
Mesmo deixando de lado a conversão para o
real, já que se trata de uma produção americana, os US$ 4 milhões são
considerados exagerados por profissionais da indústria cinematográfica ouvidos
pela BBC em caráter reservado.
Um produtor que transita entre os mercados
brasileiro e americano há mais de uma década lembra que Robert Downey Jr., um
dos atores mais populares da atualidade, por ter interpretado o Homem de Ferro,
recebeu a mesma quantia em Oppenheimer, sobre o criador da bomba atômica, o
físico Robert Oppenheimer.
Ainda que Downey Jr. não tenha interpretado o
protagonista, seu papel foi central para a história. Ele deu vida a Lewis
Strauss, membro fundador e ex-presidente da Comissão de Energia Atômica dos
Estados Unidos, um dos personagens com maior presença em cena, atrás de Cillian
Murphy, que teria recebido US$ 10 milhões para interpretar Oppenheimer.
Mas as comparações não param por aí. Mesmo se
limitada a referência a protagonistas, Joaquin Phoenix recebeu US$ 4,5 milhões
para interpretar Coringa no filme sobre o antagonista do Batman.
Os valores neste mercado podem variar
bastante. Phoenix, por exemplo, recebeu cerca de US$ 20 milhões pela
continuação de Coringa (Coringa: Delírio a Dois), mas só depois de o primeiro
filme se tornar um arrasa-quarteirão e ultrapassar US$ 1 bilhão nas bilheterias.
É um valor dez vezes maior do que o que os
produtores de Dark Horse projetam arrecadar no cenário mais otimista: US$ 100
milhões.
Esse valor, aliás, também é questionado nos
bastidores da indústria de cinema brasileira. Para se ter uma ideia, Rivais, um
dos filmes mais recentes de Zendaya, uma das maiores estrelas pop de sua
geração, arrecadou esse mesmo valor.
Em geral, os cachês de atores são mantidos em
sigilo, e raramente os artistas ou seus agentes os tornam públicos, motivo pelo
qual é difícil traçar muitas comparações. Ainda assim, esses casos são
ilustrativos, na visão dos especialistas ouvidos pela BBC.
Ambos os filmes comparados estiveram entre as
principais bilheterias dos anos em que foram lançados. Coringa, como dito,
arrecadou cerca de US$ 1 bilhão em 2019, e Oppenheimer fez US$ 976 milhões em
2023.
São produções distribuídas pelas principais
empresas de cinema do mundo — o primeiro, pela Warner Brothers; o segundo, pela
Universal Pictures — e lançadas em 44 e 80 países, respectivamente.
Essas cifras ilustram o caráter amplamente
comercial das duas produções, em contraste com o momento atual da carreira de
Caviezel.
Seu projeto mais famoso foi Paixão de Cristo,
no qual interpretou Jesus e que arrecadou US$ 612,1 milhões nas bilheterias.
Desde então, porém, sua carreira foi marcada por papéis e projetos menores.
A exceção foi O Som da Liberdade, em 2023,
que no Brasil mobilizou sobretudo evangélicos e bolsonaristas, mas ainda assim
teve uma bilheteria global de US$ 250,5 milhões, bem inferior à de Paixão de
Cristo — ou, é claro, dos sucessos de Downey Jr. e Phoenix.
A comparação é relevante porque, enquanto a
história do inimigo do Batman e a do criador da bomba atômica despertam
interesse mundial, já que são personagens conhecidos há gerações, a de
Bolsonaro dificilmente interessaria às massas de qualquer mercado que não o
Brasil, dizem os produtores e diretores ouvidos pela BBC.
Em outras palavras, é difícil imaginar, na
visão desses profissionais, que o mercado pagaria a Caviezel, para interpretar
Bolsonaro em um filme de circulação virtualmente restrita ao mercado
brasileiro, valores tão altos como os recebidos por nomes como Downey Jr. e
Phoenix em blockbusters de Hollywood.
Principalmente na situação atual do mercado
de cinema, que encolheu desde que as plataformas de streaming se popularizaram,
as redes sociais e os vídeos curtos se tornaram onipresentes e a disputa por
atenção se intensificou durante a pandemia de coronavírus.
A bilheteria é uma evidência disso. Em 2019,
antes da pandemia, os cinemas arrecadaram US$ 42,3 bilhões no mundo. Em 2025,
mesmo no melhor resultado desde 2019, a bilheteria global registrou US$ 33,6
bilhões — uma queda de 20,6%, segundo a Gower Street Analytics, que monitora a
indústria cinematográfica.
No Brasil, o principal mercado para Dark
Horse, a situação é ainda mais delicada. Segundo a Ancine, a Agência Nacional
do Cinema, o público que foi às salas despencou cerca de 36,5% entre 2019 e
2025.
Caviezel, aliás, foi mencionado nas cobranças
que Flávio fez a Vorcaro, segundo a polícia.
Em um áudio de 8 de setembro de 2025, o
senador cobrou pagamentos e demonstrou preocupação com um possível
inadimplemento perante o ator e o diretor Cyrus Nowrasteh.
Em 22 de outubro, um mês antes da prisão de
Vorcaro, o senador afirmou que a produção estava "no limite", pediu
que Vorcaro o avisasse caso não pudesse fazer o aporte e o convidou para um
jantar com os artistas.
<><> Expectativa de bilheteria
também é vista pelo setor como ambiciosa demais
Outro elemento que chamou a atenção dos
produtores e diretores consultados pela BBC, quando confrontados com as tabelas
vistas no inquérito da Polícia Federal: a expectativa de arrecadação de Dark
Horse.
O plano de negócios enviado a Vorcaro, que
também consta do inquérito, projetava uma bilheteria — ou receita bruta — de
US$ 45 milhões no cenário pessimista, US$ 70 milhões no cenário conservador e
US$ 100 milhões no cenário otimista.
Números brutos podem não dizer muita coisa,
especialmente para quem não conhece o mercado. Por isso, comparações ajudam a
dimensionar o tamanho da expectativa que os produtores de Dark Horse
apresentaram ao dono do Banco Master.
Mesmo no pior cenário, a previsão colocaria o
filme sobre Bolsonaro acima da bilheteria de Minha Mãe É uma Peça 3, estrelado
pelo comediante Paulo Gustavo, o filme brasileiro de maior bilheteria da
história do país, que arrecadou R$ 180 milhões — algo próximo de US$ 35 milhões
pela cotação atual.
Já os US$ 100 milhões do cenário otimista
colocariam Dark Horse em um patamar em que comparações com bilheterias
brasileiras nem sequer podem ser feitas.
É uma receita semelhante à de Rivais, o filme
de 2024 estrelado por Zendaya, que vinha de sucessos como a série Euphoria, da
HBO, a franquia de ficção científica Duna e a de super-heróis Homem-Aranha, na
qual interpreta a namorada do protagonista.
Distribuído internacionalmente pela Warner
Brothers, um dos maiores estúdios de Hollywood, Rivais arrecadou US$ 96,1
milhões no mundo, sendo US$ 50,1 milhões nos Estados Unidos e no Canadá, o que
ilustra a importância do mercado norte-americano para o sucesso de um filme.
Em outras palavras, a história de Jair
Bolsonaro precisaria ser tão pop quanto a de Zendaya, ou até mais do que isso,
para cumprir o cenário previsto pelos produtores, afirmam os profissionais de
cinema à BBC.
<><>Comparações com
cinebiografias internacionais são questionadas
Também chama a atenção dos especialistas as
comparações que os produtores do filme de Bolsonaro fizeram para justificar o
investimento de US$ 24 milhões solicitados a Vorcaro por Flávio.
Segundo uma análise dos produtores que consta
do inquérito da polícia, esse orçamento estaria dentro da ordem de grandeza de
cinebiografias internacionais de políticos e figuras públicas, como A Dama de
Ferro, sobre a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, que consumiu
US$ 14 milhões.
A lista inclui ainda A Rainha (US$ 15
milhões), sobre a rainha Elizabeth 2ª; Selma: Uma Luta pela Igualdade (US$ 20
milhões), sobre a campanha de Martin Luther King Jr. pelos direitos civis; e
Estrelas Além do Tempo (US$ 25 milhões), sobre três matemáticas negras
pioneiras da Nasa, a agência espacial americana.
Também aparecem Frost/Nixon (US$ 29 milhões),
sobre a entrevista do jornalista David Frost com o ex-presidente americano
Richard Nixon; Mandela: Longo Caminho para a Liberdade (US$ 35 milhões),
cinebiografia de Nelson Mandela; e JFK (US$ 40 milhões), sobre a investigação
do assassinato do presidente americano John F. Kennedy.
Para os diretores e produtores ouvidos pela
BBC, porém, a comparação faz pouco sentido. Não se trata apenas de colocar lado
a lado histórias de personagens políticos de contextos e projeções
internacionais diferentes, mas também estrelas de popularidades que podem ser
completamente opostas.
A Dama de Ferro, por exemplo, tinha Meryl
Streep no papel de Thatcher. Uma das atrizes mais reconhecidas de Hollywood,
ela já venceu três prêmios Oscar — sendo dois deles antes de este filme
estrear.
Já A Rainha era estrelado por Helen Mirren,
uma das atrizes mais conhecidas e respeitadas do Reino Unido e que também
ganhou um Oscar pela interpretação da monarca.
Caviezel, embora tenha reconhecimento, está
em um patamar diferente de exposição e poder de atração de público dessas
estrelas. Seu maior sucesso, vale lembrar, foi lançado há 22 anos.
Uma comparação que faria mais sentido, até
por se tratar de outro político, seria O Aprendiz, cinebiografia sobre os
primeiros anos de Donald Trump como empresário do setor imobiliário em Nova
York.
Estrelado por Sebastian Stan como Trump e
Jeremy Strong no papel do advogado Roy Cohn, mentor de Trump, O Aprendiz teve
orçamento estimado em US$ 16 milhões e arrecadou cerca de US$ 17,3 milhões no
mundo.
<><> Divisão de custos é pouco
convencional, dizem profissionais do cinema
Outro elemento que chamou atenção dos
profissionais de cinema é a maneira como os produtores distribuíram os custos
de Dark Horse.
Na tabela de investimento apresentada a
Vorcaro, a maior fatia iria para a pós-produção, com 34,7% do orçamento, o que
não faz sentido, por se tratar de um filme que não depende de efeitos visuais
em larga escala, como uma aventura ou uma ficção científica, diz uma diretora
de franquias de sucesso no Brasil.
Em seguida aparece a pré-produção, com 27,8%.
O cachê do protagonista vem depois, com 16,7%, enquanto as filmagens receberiam
apenas 13,9%, e o desenvolvimento, 6,9%.
Os 13,9% para as filmagens é o que mais causa
estranheza a esses especialistas. Segundo eles, uma divisão mais usual seria de
10% para desenvolvimento, 25% para pré-produção, 50% para filmagem e 15% para
pós-produção.
Fonte: BBC News Brasil

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