terça-feira, 15 de setembro de 2026

Declaração final da cúpula de Nova Déli demonstra habilidade das diplomacias do Brasil e da Índia

A Declaração de Nova Déli, construída depois de negociações que avançaram pela madrugada deste sábado, representa uma vitória diplomática importante para o BRICS e, em particular, para dois de seus membros fundadores: Brasil e Índia.

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Não se deve subestimar a dificuldade de produzir um documento consensual num agrupamento que hoje reúne 11 países, com interesses econômicos, alianças internacionais e percepções de segurança muitas vezes bastante distintas. O principal obstáculo estava relacionado à guerra no Oriente Médio e às divergências entre Irã e Emirados Árabes Unidos. Meses antes, essas mesmas diferenças haviam impedido que uma reunião de chanceleres do BRICS chegasse a uma declaração conjunta.

O fato de o consenso ter sido finalmente alcançado demonstra que o BRICS amadureceu. E mostra também a importância de países capazes de dialogar simultaneamente com diferentes polos de poder.

É justamente aí que Brasil e Índia desempenham um papel especial.

Os dois países são grandes democracias do Sul Global, mantêm relações estratégicas com China e Rússia e, ao mesmo tempo, preservam canais sólidos de diálogo com Estados Unidos e Europa. Nenhum dos dois deseja transformar o BRICS numa aliança militar, tampouco numa espécie de OTAN invertida ou num bloco organizado contra o Ocidente.

Brasil e Índia trabalham por uma ordem multipolar, mas não por uma nova divisão do planeta em campos inimigos.

Essa concepção ficou evidente na solução encontrada para um dos pontos mais sensíveis da Declaração de Nova Déli. Em vez de transformar o documento numa sucessão de acusações contra países específicos, os negociadores buscaram uma linguagem baseada em princípios: defesa da soberania, da integridade territorial, do multilateralismo e da solução diplomática dos conflitos.

É uma solução tipicamente associada às melhores tradições diplomáticas de Brasil e Índia: preservar princípios sem fechar portas ao diálogo.

Do lado brasileiro, merece destaque o trabalho do embaixador Maurício Lyrio, sherpa do Brasil no BRICS. Os sherpas realizam justamente o trabalho menos visível e muitas vezes mais decisivo das grandes cúpulas internacionais: negociam textos, aproximam posições e constroem as fórmulas que depois chegam à mesa dos líderes.

Lyrio acumulou experiência fundamental nesse processo. Foi sherpa brasileiro no G20 durante a presidência do Brasil e desempenhou papel central também na presidência brasileira do BRICS em 2025. Agora, em Nova Déli, integra novamente a engrenagem diplomática brasileira responsável por buscar consensos num agrupamento que se tornou muito mais complexo depois de sua expansão.

Não é casual que Brasil e Índia tenham desenvolvido grande capacidade nessa área. Ambos defendem aquilo que a diplomacia indiana costuma chamar de autonomia estratégica: a possibilidade de cooperar com diferentes centros de poder sem subordinação automática a nenhum deles.

Essa ideia também está profundamente presente na política externa brasileira.

O Brasil dialoga com Washington sem romper com Pequim. Mantém relações com Moscou sem abandonar seus vínculos históricos com a Europa. Conversa com o Irã e com os países árabes do Golfo. A Índia realiza movimento semelhante, preservando relações estratégicas com Rússia, Estados Unidos, Europa, Israel, Irã e mundo árabe.

Num mundo cada vez mais marcado pela polarização, essa capacidade de conversar com todos deixou de ser ambiguidade para se transformar num ativo estratégico.

A Declaração de Nova Déli demonstra isso.

Também há uma mensagem importante sobre a própria natureza do BRICS. O agrupamento não precisa pensar de maneira idêntica para funcionar. Sua força pode estar justamente na capacidade de construir consensos mínimos entre países muito diferentes.

O BRICS ampliado reúne hoje algumas das maiores economias, populações, reservas energéticas e civilizações do planeta. Naturalmente haverá divergências. Esperar uniformidade de posições seria desconhecer a própria natureza do grupo.

O verdadeiro teste é outro: saber se essas diferenças podem ser administradas sem destruir a cooperação.

Nova Déli mostra que podem.

Ao alcançar um consenso justamente quando havia dúvidas sobre a possibilidade de uma declaração final, o BRICS demonstra capacidade de acomodação e maturidade institucional. A Índia, como anfitriã e presidente do agrupamento, merece reconhecimento pelo intenso esforço de mediação conduzido até as primeiras horas deste sábado.

O Brasil também deve ser reconhecido. Sua diplomacia, representada na cúpula pelo chanceler Mauro Vieira e no processo negociador pelo sherpa Maurício Lyrio, pertence à tradição que procura construir pontes em vez de aprofundar trincheiras.

Brasil e Índia talvez sejam, entre os grandes países do BRICS, aqueles que melhor podem desempenhar essa função.

São gigantes do Sul Global que não desejam trocar uma hegemonia por outra. Defendem reformas das instituições internacionais, maior representação dos países emergentes e uma distribuição mais equilibrada do poder mundial, mas preservam a ideia de convivência entre diferentes sistemas políticos e civilizações.

Esse talvez seja o significado mais profundo da Declaração de Nova Déli.

Num momento em que guerras, sanções, tarifas e rivalidades entre grandes potências voltam a fragmentar o sistema internacional, Brasil e Índia demonstram que existe outra possibilidade: autonomia sem isolamento, multipolaridade sem novos blocos militares e soberania sem abandono do diálogo.

Se o BRICS conseguir preservar esse espírito, poderá oferecer ao século XXI algo muito mais importante do que uma nova aliança de poder.

Poderá oferecer um método para administrar um mundo inevitavelmente multipolar.

¨      Entenda os principais pontos da declaração de Nova Déli, na cúpula do BRICS

A declaração aprovada na Cúpula do BRICS em Nova Déli consolida uma agenda ambiciosa para o fortalecimento do Sul Global e para a construção de uma ordem internacional mais multipolar, com maior participação dos países emergentes nas principais instituições de governança mundial.

O documento reafirma princípios históricos do BRICS, como respeito à soberania, igualdade entre os Estados, multilateralismo, cooperação internacional e solução pacífica de conflitos, mas também avança em áreas estratégicas como inteligência artificial, pagamentos internacionais, minerais críticos, soberania digital e financiamento do desenvolvimento.

Um dos fios condutores da declaração é a defesa de uma reforma da arquitetura internacional criada no pós-Segunda Guerra Mundial, de modo a refletir melhor o peso econômico, demográfico e político adquirido pelos países do Sul Global.

<><> Reforma da ONU e maior papel para Brasil e Índia

Os países do BRICS defendem uma reforma abrangente das Nações Unidas, incluindo o Conselho de Segurança, para ampliar a representação dos países em desenvolvimento.

O texto reafirma apoio a uma participação mais significativa de Brasil e Índia no sistema internacional e também destaca a necessidade de maior representação africana.

A posição reforça uma reivindicação histórica da diplomacia brasileira: a de que a composição do Conselho de Segurança não reflete mais o equilíbrio de poder do século XXI.

<><> FMI e Banco Mundial também precisam mudar

A reforma da governança internacional não se limita às Nações Unidas.

Os países do BRICS defendem mudanças nas cotas e na estrutura de poder do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, para aumentar o peso das economias emergentes e em desenvolvimento.

A mensagem central é que a participação dos países nas instituições financeiras internacionais deve refletir melhor a realidade econômica contemporânea.

<><> Rejeição ao protecionismo e à coerção econômica

A declaração critica medidas comerciais discriminatórias, barreiras protecionistas e instrumentos econômicos utilizados como forma de pressão política.

Os integrantes do BRICS defendem um sistema multilateral de comércio baseado em regras e reiteram a importância da Organização Mundial do Comércio.

O bloco também critica medidas coercitivas unilaterais que produzam impactos econômicos e sociais sobre países em desenvolvimento.

<><> Defesa da solução negociada para conflitos

Em relação aos conflitos internacionais, a declaração procura preservar o consenso entre países com posições diplomáticas distintas.

O documento defende diálogo, negociação, diplomacia e respeito à Carta das Nações Unidas como mecanismos para a solução de disputas.

No Oriente Médio, os países manifestam preocupação com a situação humanitária em Gaza, defendem acesso à ajuda humanitária e reafirmam apoio à solução de dois Estados, com a criação de um Estado palestino soberano e independente.

O texto também aborda outras crises internacionais, sempre enfatizando soberania, integridade territorial e soluções políticas negociadas.

<><> Moedas nacionais ganham espaço

Outro ponto central da declaração é o avanço da discussão sobre o uso de moedas nacionais nas transações entre os países do BRICS.

Em vez de propor a criação imediata de uma moeda comum do bloco, os países adotam uma estratégia mais gradual.

O documento incentiva o aprofundamento do trabalho do BRICS Payment Task Force, com foco na interoperabilidade dos sistemas de pagamentos e na possibilidade de ampliar as liquidações comerciais em moedas nacionais.

Na prática, a estratégia busca reduzir custos cambiais, ampliar a autonomia financeira dos países e diminuir sua vulnerabilidade às oscilações externas.

<><> NDB ganha papel estratégico

O Novo Banco de Desenvolvimento, presidido por Dilma Rousseff, aparece como um dos principais instrumentos financeiros da estratégia do BRICS.

A declaração reafirma o papel do banco no financiamento de infraestrutura e desenvolvimento sustentável e apoia o fortalecimento das operações em moedas locais.

Essa orientação coincide com uma das prioridades defendidas por Dilma à frente da instituição: ampliar empréstimos em moedas dos próprios países membros, reduzindo o risco cambial para governos e empresas.

O NDB também vem defendendo maior diversificação de suas fontes de financiamento e expansão gradual de sua base de membros. Dilma afirmou recentemente que o financiamento em moeda local continuará sendo uma prioridade estratégica do banco e que o NDB pretende aprofundar sua atuação como plataforma financeira do Sul Global. (NDB)

<><> Não há criação de uma moeda única do BRICS

Apesar das frequentes especulações internacionais, a declaração não estabelece a criação de uma moeda comum do BRICS.

O caminho escolhido é mais pragmático: ampliar o comércio em moedas nacionais, integrar sistemas de pagamentos, criar instrumentos financeiros alternativos e fortalecer instituições como o NDB.

Esse modelo pode representar uma transformação gradual da arquitetura financeira internacional sem exigir, no curto prazo, a criação de uma moeda supranacional.

<><> Soberania digital entra no centro da agenda

Um dos aspectos mais relevantes da declaração é a crescente importância atribuída à soberania tecnológica.

Os países defendem maior autonomia na infraestrutura digital, desenvolvimento de soluções próprias e cooperação em tecnologias estratégicas.

A questão se tornou central para o BRICS porque inteligência artificial, processamento de dados, semicondutores, computação em nuvem e infraestrutura digital passaram a ser elementos fundamentais da soberania econômica.

<><> Inteligência artificial deve servir ao desenvolvimento

A inteligência artificial também ocupa posição importante na declaração.

Os países defendem uma governança internacional da IA que considere as necessidades e interesses das economias emergentes e evite que os benefícios da nova tecnologia fiquem concentrados em poucos países ou grandes empresas.

O BRICS sustenta que a IA deve contribuir para desenvolvimento, produtividade, inclusão social e redução das desigualdades.

A preocupação dialoga diretamente com o debate sobre soberania tecnológica: países que não controlarem infraestrutura, dados e capacidade computacional correm o risco de se tornarem apenas consumidores das tecnologias produzidas pelas grandes potências.

<><> Minerais críticos são tratados como questão de soberania

A declaração também aborda a crescente importância dos minerais críticos para a economia mundial.

Os países reconhecem o direito soberano dos Estados sobre seus recursos naturais e defendem que nações produtoras obtenham maior participação no valor agregado gerado a partir desses minerais.

Esse debate é especialmente importante para países como Brasil, China, Rússia e África do Sul, que possuem grandes reservas de matérias-primas essenciais para baterias, semicondutores, energia renovável e indústria de defesa.

A mensagem política é clara: o Sul Global não pretende repetir o papel histórico de mero exportador de matérias-primas.

<><> Transição energética sem modelo único

O documento reafirma compromissos climáticos, mas rejeita a ideia de uma transição energética baseada em uma fórmula única para todos os países.

O BRICS defende uma transição justa, ordenada e inclusiva, levando em conta as diferentes condições econômicas e sociais de cada nação.

O princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, também é reiterado, com cobrança para que os países desenvolvidos ampliem o financiamento climático destinado às economias emergentes.

<><> Segurança alimentar e agricultura

A segurança alimentar também aparece como prioridade.

O bloco pretende aprofundar a cooperação em agricultura, sementes, tecnologias agrícolas, agroecologia e agricultura digital.

As iniciativas refletem uma preocupação crescente com a vulnerabilidade das cadeias internacionais de alimentos diante de guerras, mudanças climáticas e disputas geopolíticas.

<><> Industrialização volta ao centro

A declaração associa desenvolvimento a industrialização, inovação e domínio tecnológico.

O BRICS pretende fortalecer a cooperação dentro da chamada Nova Revolução Industrial, conectando empresas, universidades, centros de pesquisa e governos dos países membros.

Pequenas e médias empresas também deverão ser estimuladas a participar mais das cadeias produtivas do bloco.

<><> Sul Global ganha identidade política própria

A mensagem mais ampla de Nova Déli é que o BRICS está deixando de ser apenas um mecanismo de coordenação econômica entre grandes economias emergentes.

O bloco passa a funcionar cada vez mais como uma plataforma política do Sul Global.

Essa transformação aparece na defesa de reformas da ONU, FMI, Banco Mundial e OMC, no fortalecimento do NDB, na ampliação das transações em moedas nacionais, na defesa da soberania tecnológica e na tentativa de aumentar a participação dos países emergentes nas decisões globais.

A declaração de Nova Déli indica, portanto, que o BRICS não propõe uma ruptura imediata com as instituições existentes, mas pretende reformá-las enquanto constrói, paralelamente, novos mecanismos próprios de cooperação.

É uma estratégia gradual, mas potencialmente profunda: fortalecer instituições do Sul Global, aumentar a autonomia financeira e tecnológica de seus integrantes e adaptar a governança internacional à realidade de um mundo cada vez mais multipolar.

 

Fonte: Por Leonardo Attuch, em Brasil 247

 

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