ELEIÇÕES 2026: Políticas para mulheres
precisam ser priorizadas, apontam especialistas
Apesar de representarem 54% do eleitorado, as
mulheres são apenas 35% das candidaturas no Distrito Federal (veja quadro). A
pouca representatividade reflete a desigualdade histórica que elas enfrentam.
Com muita luta, pressionam o Estado por políticas públicas concretas que possam
reduzir as dificuldades enfrentadas no dia a dia pelas mulheres.
Nessas eleições, planos de governo dos
candidatos ao Governo do Distrito Federal (GDF) abordam propostas que vão desde
a proteção e segurança até políticas públicas de saúde, empregabilidade e
empreendedorismo. Especialistas destacam a importância de políticas
direcionadas às mulheres, considerando as desigualdades de gênero que sempre as
colocam em desvantagem na sociedade.
Cientista política pela Universidade de
Brasília (UnB), Letícia Mendes destacou a segurança, a educação e o acesso à
saúde como eixos importantes das políticas para mulheres. "Uma das
principais pautas é o combate à violência contra a mulher, focando nas
denúncias e políticas de acolhimento. O cuidado dos filhos na primeira infância
pesa muito para as mulheres que são mães e é um assunto que precisa de atenção
do Estado. Além disso, é preciso dar mais autonomia financeira às
mulheres", elencou. "No DF, há muitas mulheres chefes de família.
Elas precisam de proteção, justiça, assistência social e saúde",
acrescentou.
O enfrentamento à violência contra a mulher é
relevante na visão da cientista política pela UnB Teresa Starling. "Os
números no DF são altíssimos, e o Brasil tem vivido um boom muito grande desse
tipo de violência. Para enfrentar isso, a política precisa incluir prevenção,
atendimento, acolhimento, proteção e acompanhamento. Depois disso, obviamente,
passamos a falar de autonomia e empoderamento.
Cientista político e especialista em
democracia participativa pela UnB, Rócio Barreto endossa a importância de o
Estado focar no combate à violência contra a mulher e atuar na prevenção.
"Isso envolve criar condições para que a mulher consiga romper o ciclo
dessa violência, inclusive de forma cultural. É preciso não deixar acontecer.
Isso envolve ampliar, integrar rede de atendimento, melhorar a proteção às
mulheres que estão sob ameaça", ressaltou.
O Correio ouviu os seis primeiros colocados
na última pesquisa de intenções de voto para o Palácio do Buriti, realizada
pelo jornal em parceria com o Instituto Opinião Inteligência Política, para
saber quais são as propostas dos candidatos para as mulheres.
<><> Cuidado e oportunidade
Celina Leão (PP) afirmou que a política para
as mulheres deve ser de cuidado, proteção e oportunidade. "Sendo mulher,
eu sei que muitas vezes a gente acumula tudo: trabalho, casa, filhos, cuidado
com os pais e ainda precisa encontrar força para cuidar de si. Por isso, nosso
plano olha para a mulher por inteiro", explicou. "A primeira
preocupação é com a vida. Nós vamos manter e fortalecer programas que
funcionam, como o Viva Flor, o Provid e o Pró-Vítima, ampliando a rede de
proteção e fazendo com que ela chegue cada vez mais perto das mulheres nas
regiões administrativas. Queremos cuidar dos filhos e dependentes das vítimas,
porque a violência nunca atinge apenas uma pessoa", continuou.
"Vamos avançar na saúde, com prevenção,
diagnóstico e atendimento especializado, além da criação do Centro de
Referência da Saúde da Mulher. Além disso, muitas vezes, uma mulher permanece
em uma situação de violência ou vulnerabilidade porque não tem renda, emprego
ou para onde ir. Então vamos ampliar qualificação, emprego, empreendedorismo,
microcrédito e educação financeira", afirmou. "A política mais
importante é a proteção da vida e proteger é dar condições para ela recomeçar.
É ter segurança, saúde, renda, uma casa e uma rede que não solte a mão dela. É
esse cuidado completo que nós queremos fortalecer no próximo governo",
completou.
<><> Apoio e qualificação
José Roberto Arruda (PSD) garantiu que, caso
eleito, as mulheres terão total apoio em seu governo. "Teremos cursos de
qualificação e capacitação profissional, incentivo ao empreendedorismo e acesso
à moradia própria. Inclusive, vou retomar o programa do lote urbanizado, e a
escritura será no nome da mulher", informou. "Para aquelas que tenham
sido vítimas de violência, além de tudo isso, teremos ainda acesso a crédito
facilitado para que possam conseguir a autonomia financeira. E combater a
violência contra a mulher será uma prioridade. Para isso, vou implantar três
novas Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher (Deams), funcionando 24
horas, nas regiões de Planaltina, Samambaia e Santa Maria", acrescentou.
"Vamos instituir a Patrulha Maria da
Penha Inteligente, com monitoramento e alertas georreferenciados, em tempo
real, com acionamento imediato da vítima e o envio automático da viatura mais
próxima, em situações de descumprimento de medidas judiciais. Para acolher as
vítimas, vamos ampliar a rede de atendimento existente com a construção de duas
novas Casas Abrigo de alta segurança, com atendimento psicossocial, assistência
jurídica e acompanhamento pedagógico às crianças", destacou Arruda.
<><> DF Delas
Leandro Grass (PT) disse que no seu governo,
50% do secretariado será composto de mulheres. Além disso, ele vai lançar o
programa DF Delas, que vai reunir segurança, cidade e economia. "Nas ruas,
vamos colocar iluminação de LED nos caminhos mais utilizados por elas, como de
casa até o ponto de ônibus. À noite, o ônibus vai poder parar fora do ponto, se
for mais seguro pra ela descer, e vamos colocar botão de apoio nos terminais
para caso de assédio. Na economia, teremos microcrédito só para as empreendedoras,
com prioridade para que elas possam vender para o governo; e horta comunitária
tocada por mulheres, com apoio da Emater", afirmou.
"A ação mais importante, para mim, é o
Pacto Contra o Feminicídio. Isso vai sair nos 100 primeiros dias de governo.
Vamos juntar governo, Judiciário, Ministério Público, Defensoria e a Polícia
para encontrarmos as melhores soluções para garantir a segurança das mulheres,
como na execução das medidas protetivas. Assim que a mulher faz uma denúncia, o
caso tem que ser classificado pelo risco, a medida protetiva é fiscalizada de
perto, e o agressor pode até usar tornozeleira eletrônica, com alerta direto
para polícia. Na minha gestão, vamos ter Deam funcionando 24 horas em mais
lugares", enfatizou Grass.
<><> Prioridades
Paula Belmonte (PSDB) disse que as políticas
para as mulheres estarão presentes em diferentes áreas de seu governo, da
segurança pública à saúde, educação, assistência social, autonomia econômica e
geração de emprego e renda. "Entre as prioridades, está o enfrentamento à
violência contra mulheres e meninas. Vamos fortalecer a rede de proteção,
melhorar a integração entre segurança pública, saúde e assistência social,
ampliar as ações de prevenção e garantir um atendimento mais rápido e acolhedor
às vítimas. Também queremos avançar no uso de tecnologia e inteligência para
identificar situações de risco e proteger mulheres ameaçadas", listou.
"Na saúde, queremos ampliar a presença
das equipes de Saúde da Família e dos agentes comunitários de saúde dentro das
comunidades e das casas, porque esse acompanhamento próximo também pode ajudar
a identificar sinais de violência e situações de vulnerabilidade. Na área
econômica e social, vamos incentivar qualificação profissional,
empreendedorismo, acesso ao emprego e políticas que deem condições para que as
mulheres tenham autonomia financeira, especialmente aquelas em situação de
vulnerabilidade ou violência. Também considero fundamental investir na
prevenção desde cedo. Por isso, programas como o Escola Iluminada, que prevê
melhorar a iluminação das escolas públicas e de seus arredores, também fazem
parte dessa política de proteção. Uma cidade mais iluminada, segura e bem
cuidada protege especialmente mulheres, meninas e crianças", elencou
Paula.
<><> Propostas
As propostas de Kiko Caputo (Novo) às
mulheres concentram-se em cinco frentes: proteção contra a violência, prevenção
ao feminicídio, autonomia econômica, apoio às mães cuidadoras e atenção
integral à saúde. "Vamos fortalecer a rede de proteção às vítimas de
violência, conectando assistência social, saúde, forças de segurança e sistema
de Justiça. A proposta inclui a articulação entre Casa da Mulher Brasileira,
Centros Especializados de Atendimento à Mulher (Ceams), delegacias, Defensoria
Pública, Ministério Público e Judiciário. O atendimento deverá evitar que a
vítima tenha de repetir o relato em diferentes órgãos. Outra frente é a criação
de uma Estratégia Distrital de Prevenção ao Feminicídio, com identificação
precoce de situações de risco, integração das medidas protetivas e resposta
mais rápida das instituições", disse.
"Proponho também a Jornada DF Mulher
Autônoma, que reunirá qualificação profissional, acesso ao emprego,
empreendedorismo, crédito e educação financeira, além de conectar as
oportunidades às vocações econômicas de cada região do Distrito Federal. Mulheres
também estão entre os públicos prioritários das ações destinadas a reduzir
barreiras para a entrada ou o retorno ao mercado de trabalho. Vamos criar a
Rede Distrital de Apoio às Mães Cuidadoras, que vai oferecer acolhimento,
orientação jurídica e apoio psicossocial, além de articular saúde, assistência,
educação, trabalho e direitos humanos. Na saúde, a proposta é criar uma linha
regionalizada de cuidado integral da mulher, abrangendo prevenção,
rastreamento, diagnóstico precoce, tratamento e acompanhamento especializado
nas diferentes fases da vida", complementou Kiko.
<><> Rede de proteção
Ricardo Cappelli (PSB) ressaltou que o mais
importante no que diz respeito às políticas para mulheres é o fortalecimento da
rede de proteção. "A cada 15 dias, uma mulher é vítima de feminicídio no
Distrito Federal. Elas pedem socorro, mas não são ouvidas. Apenas no ano
passado, 29 mulheres foram assassinadas no Distrito Federal. Nós precisamos
mudar essa situação, trabalhando com inteligência, fortalecendo o núcleo de
inteligência e prevenção da Polícia Civil, fortalecendo as delegacias
especializadas de atendimento à mulher e fortalecendo e ampliando as casas de
apoio às mulheres no Distrito Federal", destacou.
"O governo que está aí construiu casas
(de acolhimento), mas que não têm profissionais dentro. Nós vamos colocar os
profissionais, equipes multidisciplinares para cá. Acabar com essa epidemia de
violência contra a mulher na nossa cidade", afirmou.
>>>> Mulheres em números nas
eleições do DF
2026
# 662 candidatos
233 mulheres (35,20%)
429 homens (64,80%)
# 2.253.132 eleitores
1.219.697 mulheres (54,13%)
1.033.430 homens (45,87%)
2022
# 896 candidatos
316 mulheres (35,27 %)
576 homens (64,29%)
# 2.203.045 eleitores
1.191.528 mulheres (54,09%)
1.011.516 homens (45,91%)
>>>> Palavra de especialista -
Por Larissa Guedes, advogada especializada em gênero e raça, mestre em estado,
governo e políticas públicas pela Faculdade Latino-americana de Ciências
Sociais (FLACSO)
A presença das mulheres nos espaços de poder
é uma questão de democracia e de qualidade das políticas públicas. Mulher no
poder não deve ser um detalhe simbólico, como se coubesse a nós o papel de
coadjuvante social, de laranja e de personagem secundário. Nós somos a maior
parte do eleitorado e isso deve se traduzir, na mesma proporção, na nossa
presença onde as decisões são tomadas.
É importante entender que não existe mulher
como um ser único, nós somos plurais, existem mulheres negras, periféricas,
indígenas, quilombolas, LGBTQIA , mães, cuidadoras, etc. E as desigualdades
produzem necessidades diferentes em nossas vidas.
Então, quanto mais mulheres nos espaços de
decisão, maior a chance de que essas experiências sejam consideradas e
resolvidas. A presença feminina no poder não garante, automaticamente,
políticas melhores, mas a ausência sem dúvidas enfraquece o debate e limita a
diversidade de experiências que chegam até a decisão política. Quando a mulher
deixa de ser figurante e passa a ser protagonista, ela deixa de ser um objeto
na política que passa a decidir quais problemas viram prioridade, quanto se
investe, quais soluções se constroem, por qual caminho que deve se seguir.
Por isso, a discussão não pode ser só sobre
quantas mulheres são eleitas. Precisamos olhar para quem ocupa os espaços de
poder e decisão dentro das instituições, seja ela qual for, porque a democracia
não é só o direito de votar, que a gente garantiu há muitos anos. É ter uma
condição real de participação na construção das decisões que afetam a nossa
vida, principalmente para ser maioria do Brasil. Então, se somos mais da metade
do eleitorado e a gente continua sendo minoria nos espaços de poder, isso é uma
contradição democrática.
Fonte: Correio Braziliense

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