A Engenharia do Real: quem decide o que é
verdade na crise do STF?
A crise no STF revelou algo maior que uma
disputa entre ministros. Na era dos grandes acervos digitais, a verdade não
chega pronta à sociedade. Ela é extraída, indexada, pesquisada, selecionada,
interpretada, publicada e, por fim, lançada em arquiteturas algorítmicas que
disputam atenção e relevância. O caso Banco Master permite observar, quase por
dentro, como um fragmento autêntico atravessa sucessivas camadas de mediação
até adquirir força política. A nova guerra informacional pode não precisar
fabricar a realidade. Basta disputar quais partes dela terão o poder de se
tornar visíveis.
<><> O celular não fala
A crise que atravessa o Supremo já não gira
apenas em torno do que Daniel Vorcaro fez, disse ou escreveu. Ela alcançou uma
questão anterior: quem teve acesso a quê para formar sua própria versão dos
fatos. Às vésperas da sessão extraordinária marcada para 15 de setembro,
Cristiano Zanin pediu acesso à íntegra do material extraído do celular do
ex-controlador do Banco Master. A Procuradoria-Geral da República fez o mesmo e
advertiu que um “acesso assimétrico ao acervo informativo” comprometeria a
paridade entre os ministros. O conflito parece jurídico. Não é apenas. Por
baixo dele existe uma questão de poder que a era digital tornou incontornável:
quando nenhuma pessoa é capaz de observar sozinha toda a massa de informação
disponível, quem define a parcela do real a partir da qual cada decisão será
tomada?
O celular apreendido pela Polícia Federal em
18 de novembro de 2025 oferece uma resposta incômoda. Ele não revelou
diretamente ao país aquilo que passou a circular meses depois. Primeiro, seu
conteúdo foi extraído por ferramentas forenses e preservado com um valor de
hash destinado a permitir a verificação de integridade. Depois, diante de uma
requisição do ministro André Mendonça, investigadores receberam 72 horas para
apresentar informações sobre pessoas mencionadas em registros já localizados no
aparelho. O relatório produzido em 27 de agosto reconhece expressamente que a
análise não era exaustiva e que novos relatórios poderiam surgir caso dados
inicialmente considerados sem relevância adquirissem significado no decorrer da
investigação.
Essa distinção é decisiva. O relatório não é
o celular. Tampouco é uma reprodução neutra e integral de tudo o que existia
nele. É um produto analítico construído sobre um acervo muito maior. Para
responder à pergunta recebida, a PF trabalhou sobre dados previamente
processados, categorizados e indexados, utilizando ferramentas que permitiam
filtrar arquivos e realizar buscas por palavras-chave sem varrer exaustivamente
todo o conteúdo. Nada disso, por si, indica manipulação ou irregularidade. É
justamente assim que grandes volumes digitais se tornam operacionalmente
inteligíveis. O problema começa quando a sociedade confunde o resultado de uma
busca com a totalidade do universo pesquisado.
É aí que o celular de Vorcaro deixa de ser
apenas uma peça de investigação e se transforma numa janela para o poder
contemporâneo. Entre aquilo que aconteceu e aquilo que conseguimos conhecer
existem instrumentos, critérios, perguntas e escolhas de relevância. O
dispositivo armazena vestígios. Não produz sozinho seu significado. Para que um
dado se torne evidência, uma evidência se torne relatório e um relatório se
torne realidade pública, uma infraestrutura inteira precisa entrar em
movimento. O celular não fala. Alguém precisa fazê-lo falar. E a primeira
disputa pelo real começa exatamente aí.
<><> A máquina que transforma
informação em relevância
O problema começa quando a quantidade de
informação supera a capacidade humana de observá-la diretamente. Um celular
contemporâneo pode concentrar anos de mensagens, imagens, documentos, registros
de localização, arquivos temporários e metadados. Nenhum investigador lê esse
universo como quem percorre um caderno. Para torná-lo inteligível, é preciso
transformá-lo em estrutura pesquisável. No caso Vorcaro, a Polícia Federal
trabalhou com ferramentas como o IPED e o Cellebrite Reader, capazes de
organizar, indexar e filtrar grandes massas de dados. A tecnologia não cria os
vestígios, mas determina as condições técnicas pelas quais eles poderão ser
encontrados.
Essa distinção é fundamental. Integridade e
visibilidade não são a mesma coisa. Um arquivo pode permanecer perfeitamente
preservado e, ainda assim, jamais aparecer numa determinada análise porque
nenhuma busca o alcançou, nenhuma categoria o destacou ou nenhuma relação
tornou sua importância perceptível naquele momento. O próprio relatório da PF
reconhece essa possibilidade ao registrar que elementos inicialmente
considerados sem relevância poderiam adquirir significado posteriormente. O
dado existe antes de ser relevante. A relevância nasce de uma relação entre o
acervo, a pergunta e o método utilizado para procurá-lo.
É nesse ponto que a tecnologia deixa de ser
apenas instrumento e passa a integrar a produção do conhecimento institucional.
Não porque o software pense no lugar do investigador, mas porque grandes
acervos só se tornam cognitivamente manejáveis depois de serem organizados por
sistemas que definem formas de busca, agrupamento e recuperação. Toda
investigação digital contemporânea depende dessa redução de complexidade. Sem
ela, a abundância de dados produziria cegueira, não conhecimento.
Isso não transforma uma ferramenta forense em
árbitro da verdade. Tampouco reduz uma investigação a comandos de pesquisa. O
investigador interpreta, compara, testa hipóteses e pode retornar ao corpus
inúmeras vezes. Mas existe uma consequência política difícil de ignorar: num
mundo de informação excessiva, aquilo que não se torna encontrável corre o
risco de permanecer socialmente inexistente.
A crise no STF começa a revelar exatamente
esse deslocamento. Antes de uma prova entrar num processo, antes de um
documento chegar à imprensa e muito antes de uma sociedade formar convicção
sobre ele, existe uma etapa silenciosa na qual o real precisa ser convertido em
relevância. É ali, na passagem entre tudo o que está armazenado e aquilo que
será efetivamente visto, que começa a engenharia do real.
<><> Quando o fragmento vira
realidade
Quando o sigilo da Petição 16.662 foi
levantado, em 1º de setembro, o relatório deixou de pertencer apenas ao
circuito investigativo e entrou numa segunda máquina de seleção: o espaço
público. O documento era o mesmo. O que mudou foi a pergunta. Para a investigação,
interessava identificar relações, registros e possíveis conexões. Para o
jornalismo, era necessário decidir quais elementos mereciam manchete, quais
personagens deveriam ocupar o centro da narrativa e qual sequência permitiria
ao leitor compreender centenas de páginas em poucos minutos.
Foi então que um único acervo começou a
produzir realidades públicas distintas. Uma cobertura destacou os encontros de
Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes. Outra concentrou atenção nas
referências ao procurador-geral Paulo Gonet e ao diretor-geral da Polícia
Federal, Andrei Rodrigues. Outras organizaram mensagens, ofertas, pedidos e
deslocamentos numa cronologia capaz de transformar registros dispersos em uma
história inteligível. Nenhuma dessas operações exige falsificação. Exige
escolha. E toda escolha de relevância ilumina uma parte do documento enquanto
necessariamente deixa outras na sombra.
Esse mecanismo é constitutivo do jornalismo.
Nenhuma redação publica um universo documental inteiro em sua complexidade
original. Investigar, editar e narrar significa selecionar. O problema surge
quando o produto final da seleção passa a ser percebido como se fosse a própria
totalidade da realidade que lhe deu origem. Um fragmento verdadeiro pode ser
perfeitamente autêntico e ainda assim representar apenas uma pequena região de
um conjunto muito maior. A verdade de uma parte não a transforma automaticamente
na verdade do todo.
Há aqui uma mudança de natureza. No
relatório, um registro existe ao lado de dezenas ou milhares de outros
elementos. Na manchete, ele adquire hierarquia. Recebe título, contexto,
imagem, posição e repetição. Torna-se saliente. Depois, entra num ambiente
ainda mais competitivo, formado por buscadores, redes sociais, agregadores,
sistemas de recomendação, comentários e reações políticas. O jornalismo decide
o que publicar. A plataforma participa de decidir o que circulará, em que ordem
e diante de quais públicos. O cidadão recebe o resultado dessa sucessão de
escolhas sem enxergar a maior parte delas.
Não há evidência pública suficiente para
afirmar que determinado conteúdo do caso Master tenha sido artificialmente
privilegiado por um algoritmo específico, e seria irresponsável fazê-lo. A
questão é estrutural. Hoje, praticamente toda informação de grande repercussão
entra em ecossistemas cuja distribuição é mediada por sistemas computacionais
orientados por critérios de relevância, interesse e engajamento. A seleção
humana encontra a seleção algorítmica, e a realidade pública passa a ser
produzida na interação entre ambas.
É nesse ponto que o caso deixa de ser apenas
uma crise do Supremo. O que estava armazenado num telefone foi extraído,
tornado pesquisável, selecionado, interpretado e publicado. Agora passa a
competir por atenção. Cada etapa reduz um universo maior a um conjunto menor de
elementos visíveis. O fragmento não precisa ser falso para reorganizar a
percepção. Basta tornar-se mais presente que o restante da realidade da qual
foi retirado.
<><> A guerra que não precisa
mentir
Durante anos, o debate público sobre guerra
informacional foi reduzido à oposição entre verdade e mentira. Fake news,
boatos, montagens, perfis falsos e narrativas fabricadas passaram a ocupar o
centro das políticas de enfrentamento à manipulação. O problema é que essa
lente enxerga apenas a forma mais rudimentar da disputa. Uma operação de
influência não precisa inventar um fato quando pode selecionar um fato
verdadeiro, retirá-lo de um universo maior, lançá-lo no momento de maior
vulnerabilidade e fazê-lo ocupar sozinho o campo de visão.
A autenticidade pode aumentar a potência de
uma mensagem. Um documento oficial, uma conversa real, uma fotografia legítima
ou um registro extraído de um aparelho carregam uma autoridade que a mentira
precisa simular. O conflito se desloca então da fabricação para a administração
da relevância. O que aparece primeiro, o que se repete, o que recebe contexto,
o que perde contexto, o que permanece invisível e aquilo que passa a
representar o conjunto tornam-se variáveis de poder. A batalha não ocorre
necessariamente sobre a existência do fato. O objeto da disputa passa a ser seu
significado político.
É por isso que o caso Banco Master exige uma
leitura mais sofisticada do que a velha gramática da desinformação. Não existe,
até aqui, base documental para afirmar que a divulgação do material de Daniel
Vorcaro componha uma operação psicológica coordenada. Fazer essa afirmação
seria substituir investigação por especulação. O que o caso revela é outra
coisa, mais estrutural e talvez mais importante: uma arquitetura na qual
fragmentos autênticos podem atravessar sucessivas máquinas de seleção até
adquirir capacidade de reorganizar reputações, instituições e correlações de
força.
Essa lógica pertence ao terreno das operações
psicológicas contemporâneas porque seu alvo último não é simplesmente a
informação. É a percepção. O objetivo estratégico não precisa ser convencer
milhões de pessoas de uma mentira específica. Pode consistir em alterar aquilo
que elas percebem como urgente, suspeito, ameaçador ou relevante. A eficácia
está menos em determinar uma conclusão do que em organizar o ambiente dentro do
qual certas conclusões se tornam mais plausíveis que outras. O poder atua sobre
probabilidades.
É nesse ponto que guerra híbrida e psicologia
algorítmica se encontram. Plataformas não precisam ordenar que alguém pense de
determinada maneira. Instituições não precisam controlar todas as narrativas.
Jornalistas não precisam participar de qualquer conspiração. Basta que sistemas
diferentes, movidos por objetivos distintos, produzam sucessivamente seleção,
hierarquia e repetição. O resultado pode ser um ambiente cognitivo no qual uma
parte verdadeira da realidade ocupa tamanho espaço que todo o restante se torna
difícil de perceber.
A forma mais avançada da guerra informacional
talvez não seja aquela que fabrica uma realidade falsa. É aquela capaz de
disputar, dentro da própria realidade, qual verdade terá força suficiente para
representar todas as outras.
<><> Quem decide o que é verdade?
A pergunta do título parece pedir um nome. Um
ministro, uma instituição, uma redação, uma plataforma. Mas essa é justamente a
armadilha. Na arquitetura contemporânea da informação, raramente existe um
único centro capaz de decidir sozinho o que uma sociedade reconhecerá como
verdade. O poder está distribuído pelas estruturas que transformam existência
em visibilidade, visibilidade em relevância e relevância em percepção.
Um software estrutura as possibilidades de
pesquisa de um acervo. Um investigador formula perguntas. Uma instituição
estabelece acesso, sigilo e publicidade. Um jornalista escolhe o que merece
manchete. Uma plataforma organiza circulação e atenção. O cidadão interpreta
aquilo que finalmente chega até ele. Nenhum desses atores controla sozinho o
processo. Mas todos participam da produção da realidade pública.
É isso que torna a crise do STF maior que
seus personagens. A disputa atual não envolve apenas o conteúdo encontrado no
celular de Daniel Vorcaro. Ela expõe uma questão própria de sociedades
governadas por volumes de informação que nenhum indivíduo consegue dominar
integralmente. Quanto mais dados existem, maior se torna a dependência de
sistemas capazes de selecionar aquilo que será visto. E quanto maior essa
dependência, mais estratégica se torna a capacidade de definir os critérios da
seleção.
Para países do Sul Global, essa questão toca
diretamente a soberania. Não basta possuir bancos de dados, servidores ou
legislação nacional se as condições materiais de acesso, interpretação e
circulação da informação permanecem submetidas a infraestruturas que a
sociedade pouco compreende ou controla. Soberania informacional significa
também conservar capacidade política, técnica e cognitiva para saber como uma
realidade foi organizada antes de chegar ao debate público.
Esse problema não se resolve substituindo uma
autoridade por outra. Tampouco pela fantasia de uma informação sem mediação.
Toda sociedade seleciona, interpreta e hierarquiza. A questão democrática é
outra: quem participa dessas escolhas, sob quais regras, com quais
possibilidades de auditoria e com que grau de consciência sobre seus efeitos.
O celular de Vorcaro talvez desapareça em
breve do centro da conjuntura. Outros escândalos surgirão. Outros arquivos
serão extraídos, outras mensagens serão publicadas, outras crises ocuparão as
telas. A estrutura permanecerá.
Na era algorítmica, o poder não pertence
apenas a quem possui a informação. Pertence também a quem participa das
máquinas que decidem o que, entre tudo aquilo que existe, conseguirá adquirir
relevância suficiente para se tornar realidade política.
A disputa decisiva do nosso tempo talvez não
seja apenas entre verdade e mentira. Ela começa antes, na fronteira silenciosa
entre tudo aquilo que é real e aquilo que teremos condições de enxergar.
Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em
<Código Aberto>

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