Doctoralia compartilha dados de saúde com
Google, TikTok e LinkedIn
Uma investigação do The Markup (veículo
especializado na cobertura de tecnologia nos Estados Unidos) com a Agência
Pública identificou que a plataforma de saúde Doctoralia envia informações
sobre médicos, especialidades e consultas para Google, TikTok e LinkedIn em
diferentes países da América Latina, como Brasil, Colômbia e México. O The
Markup já havia detectado o uso de tecnologias semelhantes em sites de
hospitais, serviços relacionados a aborto, testes de HIV e outros tipos de
assistência à saúde nos EUA.
No Brasil, os testes mostraram que, quando um
usuário avançava para o agendamento, os dados sobre médico, data e horário da
consulta também eram enviados ao Google. Na Colômbia, o experimento constatou
que, se um usuário na cidade de Cartagena, por exemplo, marcasse com um
profissional, as mesmas informações seriam redirecionadas ao LinkedIn. Já se a
pessoa estivesse em Bogotá ou no México, as informações seguiriam para o
TikTok.
A análise do tráfego de dados no Brasil,
realizada pela Pública e pelo Markup, consistiu em acessar a Doctoralia e
monitorar, por meio das ferramentas de desenvolvedor do Google Chrome, as
requisições feitas pela plataforma médica durante a navegação. Da busca por uma
especialidade de saúde ao agendamento de uma consulta, foram observadas
diferentes etapas para identificar quais dados eram enviados, para quais
domínios e em que momento. A análise no Brasil permitiu verificar que as
informações eram transmitidas ao Google durante esse percurso.
A lógica por trás dessas tecnologias é usada
na publicidade digital: são os chamados pixels de rastreamento, isto é, códigos
embutidos nas páginas e invisíveis ao usuário. Eles permitem que empresas
acompanhem a navegação (por exemplo, onde a pessoa clica, os assuntos pelos
quais se interessa, o que compra) em determinados sites e enviem informações
para plataformas de publicidade. Assim, esses dados podem ser utilizados para
identificar interesses e direcionar anúncios.
O rastreamento começa antes mesmo de o
usuário fornecer informações como nome ou endereço de e-mail. Os rastreadores
podiam associar a navegação a identificadores únicos, que empresas de
tecnologia podem usar para vincular aquela atividade de navegação a perfis que
elas já tenham em seus bancos de dados. Informações produzidas em contextos
potencialmente sensíveis, como a busca por atendimento médico, ajudam a
identificar o perfil de quem utiliza essas plataformas.
Dados do relatório “Paciente Digital”,
lançado pela própria Doctoralia, mostram que, em 2024, foram mais de 9 milhões
de consultas agendadas por mês no Brasil na plataforma. Mulheres eram maioria
entre usuários (63%). Entre as especialidades mais buscadas, estão ginecologia
e obstetrícia (12%), psiquiatria (9%) e dermatologia (8%).
As buscas por atendimento e informações de
saúde também estão relacionadas a mercados que movimentam grandes volumes de
publicidade. Um estudo da Ilumeo, empresa de inteligência de dados fundada no
ecossistema da Universidade de São Paulo (USP), mostra que, no caso dos
produtos de skincare, a decisão de compra muitas vezes acontece nas redes
sociais, e não no consultório: 71% dos consumidores escolhem produtos sem
orientação profissional e 57% experimentam produtos que conheceram por meio das
redes.
<><> O que dizem as plataformas
A Doctoralia afirmou que as ferramentas
mencionadas na investigação são utilizadas para medir o desempenho das próprias
campanhas publicitárias da plataforma de saúde. A empresa ainda negou utilizar
essas ferramentas para vender dados pessoais e afirmou que não recebe
pagamentos de plataformas de publicidade em troca destas informações.
A empresa também informou que está realizando
uma revisão técnica e jurídica detalhada das questões levantadas pela
reportagem, incluindo as configurações técnicas, e que pretende tomar as
medidas consideradas adequadas a partir dos resultados dessa análise.
O Google afirmou que possui “políticas
rigorosas e de longa data contra a coleta de informações privadas de saúde ou a
veiculação de anúncios baseados em informações sensíveis” e disponibiliza
ferramentas para ajudar os clientes a evitar a coleta de dados de saúde.
O LinkedIn declarou que suas políticas
“proíbem a instalação” de sua principal ferramenta de rastreamento, a Insight
Tag, em páginas que coletam dados sensíveis, e que a empresa não deseja obter
esse tipo de dado. O TikTok não respondeu ao pedido de resposta da reportagem.
Apesar das políticas das plataformas de
tecnologia, nos EUA há diversos registros de transmissão de dados sensíveis por
parte de empresas de assistência à saúde, o que tem motivado uma série de
processos judiciais e procedimentos regulatórios.
<><> Buscas médicas e
preferências de consumo
O risco não está apenas nas informações
diretamente transmitidas, mas também na possibilidade de que esses dados sejam
associados a ferramentas capazes de acompanhar o comportamento de uma mesma
pessoa ao longo do tempo. Rafael Zanatta, co-diretor da Data Privacy Brasil e
integrante de um conselho consultivo ligado à Agência Nacional de Proteção de
Dados (ANPD), chama a atenção para essa possibilidade:
“Obviamente, existe o risco de um
rastreamento permanente baseado em identificadores únicos e na construção de
perfis dos quais as pessoas não têm conhecimento. […] Isso poderia representar
uma violação massiva de direitos fundamentais”.
Usuário da Doctoralia, um ginecologista de
São Paulo conversou com a Pública, sob condição de anonimato. Ele alerta que o
caminho percorrido por uma paciente até chegar ao atendimento pode fornecer
indícios sobre situações que ainda não foram compartilhadas com outras pessoas.
“Mesmo sem um diagnóstico declarado, o próprio caminho percorrido na busca por
assistência médica pode fornecer pistas sobre algumas questões de saúde que
deveriam permanecer na esfera privada da paciente”, afirma o médico.
Ele exemplifica que uma busca por
ginecologia, obstetrícia ou reprodução pode estar relacionada a uma tentativa
de engravidar, a uma possível gestação, infertilidade, escolha de um método
contraceptivo ou preocupação após uma relação sexual de risco, entre outros
motivos. Para ele, a expectativa de confidencialidade na relação entre paciente
e profissional também deveria ser considerada no ambiente digital.
O médico destaca também que uma suspeita nem
sempre se traduz em diagnóstico. Uma paciente pode pesquisar determinado
assunto por inúmeras razões, e a busca não significa necessariamente que ela
tenha a condição pesquisada. O problema é quando essa possibilidade é
transformada por um algoritmo em uma característica atribuída àquela pessoa.
Uma informação equivocadamente processada e
interpretada pela tecnologia também pode produzir efeitos reais. O
ginecologista dá o exemplo de uma mulher que faz buscas sobre uma possível
gravidez antes de contar a outras pessoas. Se, depois disso, ela começar a
receber anúncios relacionados à gestação em diferentes dispositivos, uma
informação que pretendia manter privada pode se tornar visível para outras
pessoas.
Há ainda o risco de exploração comercial de
momentos de vulnerabilidade. Uma pessoa diante de uma gestação inesperada,
tentando engravidar há muito tempo ou preocupada com a possibilidade de ter uma
doença pode estar mais suscetível a promessas de produtos e tratamentos sem
respaldo científico: “O problema não é receber o anúncio, mas utilizar uma
condição de saúde ou de vulnerabilidade para que isso defina o tipo de
publicidade que essa paciente vai receber”, diz o médico.
Na avaliação de Chiara de Teffé, professora
de Direito Digital da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a proteção
prevista pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) não se restringe a
diagnósticos e prontuários. “Informações comportamentais podem receber proteção
reforçada quando, pelo contexto e pela forma de tratamento, revelarem ou
permitirem inferir aspectos da saúde”, afirma.
Para a ANPD, quando informações relacionadas
à saúde são tratadas, devem ser observadas as hipóteses específicas previstas
no artigo 11 da LGPD para não haver riscos como desvio de finalidade, uso
incompatível com a expectativa do titular, acesso indevido a dados sensíveis e
utilização das informações para finalidades comerciais diferentes daquelas que
justificaram sua coleta.
A interpretação, entretanto, não é
consensual. Em nota enviada à reportagem, o Conselho Federal de Medicina (CFM)
afirma que “não há sigilo médico em agendar uma consulta” e “não há nenhum tipo
de dado sensível quando o paciente procura um especialista”. O conselho
entende, no entanto, que a questão deve ser analisada principalmente sob a
perspectiva da LGPD e reconhece que ainda não existe regulamentação específica
do CFM para plataformas digitais de agendamento.
A Agência Nacional de Saúde Suplementar
(ANS), por sua vez, afirma que plataformas independentes de agendamento não
estão submetidas diretamente à fiscalização da agência apenas por exercerem
intermediação tecnológica. Ao mesmo tempo, reconhece que “a especialidade
médica procurada e outras informações de agendamento podem revelar aspectos da
saúde de uma pessoa”.
O debate também envolve a dimensão de gênero.
Para Chiara de Teffé, mulheres, pessoas LGBTQIA+, pessoas com deficiência e
pacientes com doenças estigmatizadas podem sofrer impactos desproporcionais
quando informações sobre seus comportamentos são utilizadas para segmentação ou
direcionamento publicitário.
O caso da Doctoralia também não é isolado no
ecossistema da publicidade digital. O The Markup identificou anteriormente
situações em que tecnologias de rastreamento transmitiram informações
relacionadas à saúde para empresas. Em 2022, uma investigação da organização
mostrou que o Facebook recebia informações sensíveis sobre consultas realizadas
em sites de hospitais nos EUA. O caso resultou em processos judiciais e levou
hospitais a alterar suas práticas.
Para o ginecologista ouvido pela Pública, a
diferença entre esses casos e a publicidade convencional é fundamental. “Quando
alguém busca um médico, um exame ou uma clínica, está buscando cuidado,
orientação, ajuda. Então existe uma expectativa legítima de privacidade.”
Quando essa informação passa a ser interpretada comercialmente, “uma
necessidade de saúde acaba virando uma oportunidade comercial”, ele diz.
Fonte: Por Aline Melo, Colin Lecher, The
Markup | Edição: Maria Martha Bruno, em Agência Pública

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