quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Mendonça afastou diretor da PF três dias depois que Dino autorizou operação contra seus aliados

A Polícia Federal (PF) deflagrou nesta segunda-feira (14) uma operação que tem como principal alvo de buscas o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), aliado do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). A coluna apurou que a operação tinha sido autorizada pelo ministro Flávio Dino na sexta-feira, 5 de setembro. Três dias depois, na terça-feira, 8, o ministro André Mendonça decidiu afastar o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

Mendonça tinha determinado o afastamento alegando que tinha sido monitorado pela corporação devido a relatórios juntados pelo ministro Alexandre de Moraes. Na quarta-feira, 9, o ministro Flávio Dino restabeleceu Rodrigues no cargo e, posteriormente, o presidente do STF, Edson Fachin, cassou ambas as decisões que afastaram Rodrigues. Fachin também pediu explicações a Rodrigues que negou ter monitorado o ministro ou a ilegalidade dos relatórios.

Portanto, a ação deflagrada hoje já estava autorizada há 9 dias e acabou retardada pela crise no STF e pelo afastamento de Andrei Rodrigues pedido por Mendonça na semana passada. O nome de Cezinha de Madureira também apareceu recentemente em mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e reveladas pelo jornalista Paulo Motoryn no ICL Notícias e na newsletter Noites Húngaras. Segundo o conteúdo revelado, o deputado teria atuado na articulação de um encontro entre Vorcaro e André Mendonça, realizado em São Paulo, em março de 2025.

Essa é a terceira fase da Operação Transparência e investiga suspeitas de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro em negociações relacionadas a processos que tramitam em tribunais superiores. Ao todo, a PF cumpre quatro mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e em São Paulo.

Outro alvo da PF é a advogada Valéria Rodrigues Linhares, companheira do deputado Cezinha. Ela foi detida em 25 de agosto no aeroporto de Congonhas com R$ 510 mil em dinheiro vivo na bagagem de mão. Valéria se preparava para embarcar para Brasília quando o dinheiro foi identificado durante a inspeção da bagagem. Segundo as informações divulgadas sobre o caso, ela afirmou que apresentaria posteriormente documentação para comprovar a origem dos valores.

Segundo a corporação, as investigações indicam que integrantes do grupo investigado teriam negociado com terceiros o pagamento de valores elevados, condicionados ao resultado de processos judiciais.

“As investigações apontam que integrantes do grupo teriam negociado com terceiros o pagamento de valores expressivos, condicionados ao resultado de processos em curso, a pretexto de influir em decisões judiciais”, informou a PF. O parlamentar ainda não se manifestou sobre a operação.

A Operação Transparência teve início em dezembro de 2025, inicialmente para investigar possíveis irregularidades na destinação de emendas parlamentares.

•        PF apura rede suspeita de vender influência em processos de Mendonça e Kassio no STF

A Polícia Federal investiga uma rede suspeita de comercializar influência em processos no Supremo Tribunal Federal (STF) que envolviam atuação junto aos gabinetes dos ministros André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Gilmar Mendes. Mensagens obtidas pela PF mostram o deputado federal Cezinha de Madureira (PSD-SP) dizendo que faria um pedido diretamente a Kassio e que já havia conversado com interlocutores chamados “Andre e Antonio Carlos”, enquanto recebia memoriais destinados também a Mendonça e Gilmar.

A investigação levou o ministro Flávio Dino a autorizar buscas contra Cezinha e a sociedade de advocacia de sua mulher, Valéria Rodrigues Linhares. A PF apura suspeitas de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Segundo a decisão, Cezinha, que não é advogado, seria responsável por fazer “despachos” em gabinetes do Judiciário.

A PF afirma ter identificado uma estrutura formada pelo deputado, sua mulher e a advogada Mariângela Fialek, conhecida como “Tuca”. Mariângela seria responsável por captar e formalizar causas e elaborar memoriais; Valéria cuidaria dos contratos de honorários e cessões de crédito; e a Cezinha caberia o suposto contato pessoal e direto com ministros de tribunais superiores.

Segundo a representação policial reproduzida por Dino, o padrão se repetiria nos episódios analisados: Mariângela encaminhava uma peça ou memorial ao parlamentar; Cezinha respondia que havia “falado”, “despachado” ou “pedido”, ou informava que seria atendido pelo ministro; a advogada cobrava notícias sobre o resultado; e, paralelamente, eram formalizados contratos com pagamentos vinculados ao êxito das ações.

<><> “Vou pedir a ele”

Um dos principais episódios apontados pela PF ocorreu em 12 de junho de 2025 e envolveu a Reclamação 76.831, em tramitação no Supremo.

Naquele dia, Mariângela enviou a Cezinha um memorial e chamou a atenção para a necessidade de “pedir vista”. O deputado respondeu que seria atendido às 16h. A advogada então perguntou se ele estaria com Kassio Nunes Marques naquele horário.

Cezinha respondeu que já havia falado no dia anterior com “Andre e Antonio Carlos” sobre o assunto. Depois, explicou que Kassio havia marcado uma conversa por vídeo para as 16h:

“Ministro Kassio / Entendeu? / Ai vou pedi a ele”.

Na sequência, afirmou que já havia avisado “aquela pessoa” de que existia um tema a tratar e que enviaria o número do processo antes da conversa com Kassio. Cezinha disse ainda que o encontro serviria para verificar se precisava “pedir expressamente”.

Para a investigação, essas expressões indicam, nesta fase preliminar, que o parlamentar não se limitaria ao encaminhamento de documentos, mas se comprometia a formular um pedido pessoal ao julgador em benefício de partes representadas por advogadas ligadas a ele.

A PF ainda tenta descobrir quem eram “Andre e Antonio Carlos” e quem era “aquela pessoa” mencionada pelo parlamentar. A decisão não identifica esses interlocutores.

Seis dias depois da conversa, Mariângela encaminhou a Cezinha três documentos: “Memorial Rcl 76831 – Min. Nunes Marques.pdf”, “Memorial Rcl 76831 – Min. André Mendonça.pdf” e “Memorial Rcl 76831 – Min. Gilmar Mendes.pdf”.

A investigação ressalta que Mariângela não era a advogada original da reclamação. Ela recebeu substabelecimento em 12 de junho, justamente a data em que os documentos começaram a ser enviados ao parlamentar.

Não há, porém, elemento na decisão que permita afirmar que o “Andre” mencionado por Cezinha seja André Mendonça.

<><> PF busca o outro lado das conversas

A busca autorizada por Dino pretende justamente obter o outro lado dessas conversas. Até agora, a PF dispõe principalmente do conteúdo extraído do celular de Mariângela, apreendido em dezembro de 2025.

Os investigadores dizem ainda desconhecer o conteúdo dos contatos mantidos diretamente por Cezinha com ministros e terceiros. Entre os pontos que pretendem esclarecer estão o teor e o resultado das tratativas com “Andre e Antonio Carlos”, o conteúdo da conversa por vídeo marcada para as 16h e a identidade de “aquela pessoa” citada pelo deputado.

A polícia também quer saber com quem Cezinha teria realizado os contatos descritos nas mensagens pelas expressões “despachei sim”, “assunto reforçado agora”, “ligou e falou direto” e “deixa eu ir lá sentir”. Busca ainda identificar outros processos que possam ter sido objeto de intermediação, além dos fluxos financeiros e do destino dos honorários de êxito.

Em outro processo relatado por Nunes Marques, a Reclamação 79.545, a investigação encontrou um contrato de R$ 500 mil, com pagamento previsto depois do julgamento. Em uma conversa posterior, Mariângela perguntou a Cezinha se ele havia despachado no caso. O parlamentar respondeu:

“Despachei sim / Ontem”.

Também foi identificado um contrato relacionado à Reclamação 81.608 que previa a cessão de R$ 1 milhão em honorários para a sociedade de advocacia de Valéria. Um contrato relacionado ao mesmo caso previa outros R$ 2 milhões em caso de sucesso, definido como a concessão da liberdade ao cliente. Nunes Marques também era o relator desse processo.

Em agosto de 2025, Cezinha enviou uma imagem de visualização única e escreveu “Já falei”. Mais tarde, diante de uma resposta protocolar do gabinete de Nunes Marques a um pedido de audiência, Mariângela reclamou. Cezinha respondeu: <><> “Calma” e “Deixa eu ir lá sentir”.

“Comercialização de influência”

Na representação, a PF afirma que a investigação busca esclarecer a existência, a extensão e a estabilidade de uma “estrutura destinada à comercialização de influência” junto a ministros do STF, do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Segundo os investigadores, essa suposta influência estaria associada a “remuneração vultosa”, ajustada por contratos de honorários e cessões de crédito celebrados por advogadas ligadas ao deputado — uma delas, sua própria mulher.

Dino considerou haver uma “densa plataforma indiciária” e afirmou existirem “razões de sobra” para autorizar as buscas. Para o ministro, os fatos podem envolver um deputado que, embora não seja advogado, aparentemente utilizava a condição parlamentar para transmitir a terceiros a percepção de que tinha influência sobre magistrados de tribunais superiores.

Dino acrescentou que a “elevada remuneração” encontrada na investigação parece afastar, nesta fase, a hipótese de mero ato político.

A PF ressalva expressamente que Mendonça, Nunes Marques, Gilmar ou qualquer outro magistrado não são investigados. Segundo a representação, não há nos elementos reunidos até agora indício de que ministros tenham solicitado, aceitado ou recebido vantagens indevidas, nem de que tenham proferido decisões contrárias ao direito.

Os magistrados aparecem na investigação, segundo a própria PF, apenas como possíveis destinatários da influência que os investigados alegariam possuir. A polícia resume o objeto da apuração como a possível “mercancia da influência por quem a ofereceu e a precificou”, e não a atuação dos ministros apresentados a terceiros como pessoas passíveis de influência.

Dino determinou que os aparelhos apreendidos sejam submetidos a perícia. Caso as novas diligências revelem algum elemento indicativo de conduta atribuível a magistrado, a PF deverá comunicar o ministro e a Procuradoria-Geral da República, sem adotar medidas por iniciativa própria.

•        PF encontrou transferência de R$ 10 mil em articulação por proteção do PCC para Vorcaro

A Polícia Federal identificou uma transferência de R$ 10 mil em meio a uma articulação para fazer chegar a Daniel Vorcaro, enquanto estava preso, um recado sobre uma rede de proteção relacionada pelos investigadores ao Primeiro Comando da Capital (PCC). O dinheiro foi enviado por Manoel Mendes Rodrigues, o Manolo, integrante da “A Turma”, ao advogado André Luís Chagas Bergeralck, depois de os dois discutirem uma forma de avisar o banqueiro de que havia uma “força por trás” capaz de ajudá-lo.

A informação consta de documentos da investigação do caso Master que estavam sob sigilo e no gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). O material veio a público após a retirada do sigilo dos autos e reúne conversas, ligações e movimentações financeiras analisadas pela PF.

“A Turma” era uma espécie de milícia privada que atuava para Vorcaro. Segundo a investigação, o grupo reunia personagens ligados às forças de segurança, à milícia e ao jogo do bicho e era usado para obter informações, monitorar investigações e intimidar pessoas consideradas adversárias do banqueiro.

A transferência ocorreu em 28 de novembro de 2025. No dia anterior, Manolo havia encaminhado a Bergeralck áudios e uma mensagem sobre o apoio articulado para Vorcaro e escrito: “Nós temos q dar um jeito de chegar um recado”.

O advogado perguntou onde Vorcaro estava e afirmou: “Eu posso entrar”. Manolo respondeu que ainda não e explicou: “Primeiro ele tem que entender que tem uma força por trás que pode ajudar ele”. Depois acrescentou: “Mas isso tem que ser rápido”.

Na tarde seguinte, Manolo retornou uma ligação de Bergeralck. Os dois conversaram por aproximadamente cinco minutos. Na sequência, Manolo transferiu R$ 10 mil ao advogado.

O relatório registra o pagamento na mesma sequência das conversas sobre como levar o recado a Vorcaro, mas não atribui uma finalidade específica aos R$ 10 mil. Também não há, nos documentos analisados, indicação de que o dinheiro tenha sido repassado ao PCC ou de que o próprio banqueiro tenha determinado a transferência.

A movimentação financeira, no entanto, aparece dentro de uma articulação que a PF descreve como uma “possível mobilização de integrantes ou pessoas relacionadas” ao PCC para prestar apoio a Vorcaro durante sua passagem pelo sistema penitenciário paulista.

<><> “Ele é amigo nosso”

A articulação ocorreu depois que Vorcaro foi transferido para o CDP de Guarulhos. Na noite de 24 de novembro, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, informou Manolo sobre a transferência do banqueiro. Nos dias seguintes, os dois passaram a discutir formas de auxiliá-lo.

Em 26 de novembro, depois de uma conversa de mais de 24 minutos entre Manolo e Mourão, este último encaminhou um áudio de um homem não identificado. Segundo a PF, o conteúdo tratava de ações destinadas a proteger Vorcaro no sistema carcerário e de informações que seriam levadas ao banqueiro por meio de um advogado.

O homem dizia estar pedindo ao “advogado do clube” para orientar Vorcaro e explicava o que deveria acontecer quando o banqueiro deixasse o Regime de Observação e passasse ao convívio com os demais presos.

“Vou passar meu nome lá”, afirmou. Em outro trecho, disse que Vorcaro deveria se apresentar “pra quadrilha lá”.

No dia seguinte, Manolo mencionou o “01 do time” e escreveu “3 letras”. Em áudio, afirmou que poderia ir a São Paulo conversar com o “01 de São Paulo”, a quem chamou de amigo, para pedir assistência a Vorcaro dentro da unidade. “Aí o partido, aí o resultado vem de cima”, disse.

Destinado à chamada “Sintonia Tiradentes”, o texto pedia apoio ao “companheiro Daniel Bueno Vorcaro” e dizia que o banqueiro era “amigo nosso” e “apoia a nossa quadrilha e a nossa regional em diversos sentidos”. O pedido era para que Vorcaro fosse orientado e recebesse apoio no cotidiano da unidade.

Mourão preparou então um recado destinado ao banqueiro. Disse ter feito “um pedido para os amigos que temos” e afirmou que as pessoas responsáveis pela unidade já estavam cientes e iriam apoiá-lo “em tudo” que precisasse.

Foi esse material que chegou a Manolo e depois foi encaminhado a Bergeralck, dando início à conversa sobre como avisar Vorcaro da existência de uma “força por trás”. No dia seguinte ocorreu a transferência dos R$ 10 mil.

<><> Vorcaro já havia mandado “alinhar com o PCC”

A menção ao PCC nas conversas envolvendo Vorcaro e seus operadores antecede a prisão do banqueiro.

Em 2024, durante uma operação para recuperar a conta da atriz Monique Alfradique no Instagram, que havia sido invadida, Mourão informou a Vorcaro que estava com “os meninos na linha” e havia avisado aos responsáveis pelo ataque que “a turma vai atrás deles”.

“E irei atrás de um por um”, escreveu Mourão.

Depois da recuperação da conta e diante de informações sobre transferências via Pix realizadas pelos golpistas, foi o próprio Vorcaro quem mencionou diretamente a facção em uma orientação a Mourão: “alinha com o pcc rsrs”.

Ao analisar a conversa, a PF afirmou que Mourão aparentava manter algum tipo de contato, direto ou indireto, com pessoas ligadas a organizações criminosas, o que permitiria esse tipo de interlocução.

O episódio mostra que, mais de um ano antes da prisão, Vorcaro já tratava com Mourão sobre uma possível interlocução com o PCC. Em novembro de 2025, o mesmo operador aparece novamente nas conversas analisadas pela PF, desta vez na busca por apoio ao próprio banqueiro dentro da prisão.

<><> Mourão recebia R$ 1 milhão por mês

A relação entre Mourão e Vorcaro também era financeira. Segundo a PF, “Sicário” constava de uma lista de despesas para receber R$ 1 milhão por mês ao longo de 2024 e 2025, sem contar valores classificados como bônus. A investigação encontrou comprovantes de transferências para a King, empresa ligada a Mourão.

A relação continuava ativa às vésperas da prisão. Em 10 de novembro de 2025, Vorcaro autorizou mais R$ 1 milhão para a King Participações Imobiliárias. Sete dias depois, foi preso pela PF.

Os documentos não vinculam esses pagamentos milionários à posterior busca por apoio dentro do CDP. Eles mostram, porém, que Mourão mantinha uma relação financeira regular com a estrutura de Vorcaro, já havia recebido do banqueiro a orientação para “alinhar com o PCC” e, depois da prisão, participou das tratativas que a PF relacionou à facção.

Manolo também já mantinha relações comerciais com o entorno da família Vorcaro. A PF encontrou conversas sobre negócios imobiliários envolvendo ele, Bergeralck e Henrique Vorcaro antes da prisão de Daniel. As tratativas incluíam três imóveis no Rio de Janeiro, com área total de 113 mil metros quadrados.

Ao concluir a análise desse conjunto de mensagens, a PF afirmou ter identificado registros que indicam a “possível mobilização de integrantes ou pessoas relacionadas” ao PCC para prestar apoio a Vorcaro durante sua custódia. Para os investigadores, as conversas mostram tanto tentativas de transmitir recados ao banqueiro quanto referências a um “aparente suporte” que seria disponibilizado dentro do sistema carcerário.

Mourão foi preso pela Polícia Federal em março de 2026. Ele tentou tirar a própria vida enquanto estava sob custódia da corporação em Belo Horizonte e morreu dois dias depois no Hospital João XXIII. A PF investigou as circunstâncias da morte e concluiu posteriormente que não houve participação de terceiros.

 

Fonte: ICL Notícias

 

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