A nova questão social tem gênero
A
história do trabalho feminino costuma ser contada como uma longa marcha de
entrada das mulheres no mercado de trabalho. As mulheres, porém, nunca
estiveram fora do trabalho. O que mudou foi a maneira pela qual produção e
reprodução da vida foram organizadas, separadas e reconhecidas pela economia,
pelo Estado e pelos direitos sociais.
Na sociedade agrária, produção e reprodução
estavam amplamente entrelaçadas. A casa, roça, criação de animais, preparo dos
alimentos, costura, pequeno comércio e cuidado das crianças, idosos e doentes
faziam parte de uma mesma unidade econômica. No Brasil escravista, essa
integração assumiu forma brutal, com as mulheres negras escravizadas
trabalhando na agricultura, ruas, cozinhas e como quitandeiras, lavadeiras e
amas de leite, entre outras atividades. Produziam mercadorias e sustentavam a
reprodução cotidiana da vida.
Somente com o primeiro Censo Demográfico,
realizado no ano de 1872, o registro de que as mulheres representavam 45,5% da
força de trabalho, concentradas sobretudo na agricultura e nos serviços
domésticos. Cerca de 20% estavam em atividades ligadas à costura e 5,3% na
indústria têxtil. Em 1940, contudo, apareciam como apenas 15,9% da população
economicamente ativa. Parte dessa queda refletia mudanças censitárias que
deixaram de contabilizar como economicamente ativas as mulheres dedicadas aos
cuidados e trabalho doméstico não remunerado.
A industrialização introduziu uma ruptura
histórica. A fábrica, o escritório e o estabelecimento comercial concentraram a
produção mercantil. O domicílio foi reduzido à identificação do espaço familiar
de sociabilidade, cuidados e reprodução humana. A sociedade industrial separou,
portanto, produção e reprodução que não eram precisas no antigo e longevo
agrarismo.
A partir dessa separação formal que se ergueu
grande parte da cidadania trabalhista do século XX. Trazida da europa, a pauta
sindical e de partidos progressitas concentrou-se na defesa dos direitos
sociais e trabalhistas como na defesa de jornada máxima de trabalho, salário
mínimo, férias, previdência circunscritos ao emprego assalariado realizado fora
de casa.
Inegavelmente, os sindicatos e partidos
progressistas tiveram um papel decisivo nessa conquista civilizatória que foi
incorporada à agenda pública com a legislação social e trabalhista ao longod o
século XX. Como se tratou de uma importante agenda, porém concentrada no
trabalho da produção, localizado fundamentalmente no estabelecimento, passou a
simbolizar ocupações predominantemente masculinas.
Enquanto as lutas sociais disputavam salário,
jornada e proteção no mundo visível da produção, permanecia menos reconhecido o
trabalho que assegurava a reprodução da força de trabalho. Quem cozinhava? Quem
limpava? Quem cuidava das crianças, idosos e doentes? Majoritariamente, as
mulheres.
Com isso, constituiu-se uma cidadania laboral
de duas velocidades. De um lado, os direitos sociais e trabalhistas
concentrados sobre a produção remunerada e reconhecida pelo Estado, fortemente
concentrada na população adulta masculina, De outro, a grande parte do trabalho
de reprodução da vida permanecia visto como gratuito, invisível e fora da
representação coletiva, basicamente assentada na população feminina.
Embora a desigualdade de gênero não tenha
nascido daí, não se pode deixar de reconhecer que a arquitetura institucional
da sociedade industrial contribuiu para consolidá-la. Heleieth Saffioti
percebeu cedo essa contradição. O desenvolvimento capitalista não levaria
automaticamente à igualdade entre homens e mulheres.
No capitalismo periférico brasileiro, a
incorporação feminina ocorreu de forma desigual e subordinada, concentrada nas
ocupações mais precárias e mal remuneradas. A partir dos anos 1970,
urbanização, queda da fecundidade, escolarização, acesso às universidades e
mobilização feminista ampliaram a presença feminina no trabalho remunerado.
Entre 1980 e 2010, por exempo, o nível de ocupação das mulheres passou de 25,9%
para 43,9%.
Mas o aumento do emprego feminino não foi
acompanhado por redistribuição equivalente das responsabilidades domésticas e
de cuidado. Consolidou-se, assim, a dupla jornada e com isso, a desigualdade
permanecida. Em 2025, por exemplo, a taxa de participação feminina situava-se
em torno de 52,8%, enquanto a masculina ultrapassava 72%. Cerca de 47,2 milhões
de mulheres estavam fora da força de trabalho. Entre as que haviam interrompido
a busca por emprego, 32% apontavam responsabilidades domésticas e de cuidado como
motivo principal. Para as mulheres com filhos de zero a três anos, a proporção
chegava a 87%. A taxa de desemprego feminino permanecia em torno de 6,2%,
contra 4,2% entre os homens, alcançando 7,5% entre mulheres negras.
Neste primeiro terço do século XXI nota-se
como a sociedade de serviços hiperconectada da era digital vem desfazendo
parcialmente a separação espacial criada pela industrialização. A digitalização
desloca novamente parte da produção para dentro do domicílio. O trabalho remoto
leva o escritório para casa. Em 2026, cerca de 24% dos servidores federais
estavam em alguma modalidade de teletrabalho, sendo 68,4% no modelo híbrido,
31,1% em teletrabalho integral e 0,5% trabalhando no exterior. Ao mesmo tempo, psicólogos,
professores, consultores e programadores prestam serviços digitalmente,
enquanto pequenos produtores transformam cozinhas em unidades conectadas a
plataformas de entrega e vendedores atuam pelas redes sociais com youtubers e
criadores de conteúdo transformando quartos e salas em locais de produção.
Outros trabalhadores permanecem nas ruas, mas
já não são organizados pela fábrica. Motoristas, entregadores e prestadores de
serviços são conectados, avaliados e muitas vezes comandados por plataformas e
algoritmos. Não se trata de retornar à sociedade agrária, mas a urgência de
reconhecer o surgimento de algo novo, com a produção e a reprodução humana
voltando a compartilhar espaços e tempos, cada vez mais articuladas por redes
digitais, plataformas, dados e algoritmos.
A fábrica concentrava trabalhadores. A
plataforma os dispersa. A fábrica tornava visível quem comandava o trabalho. O
algoritmo pode ocultar esse comando. A fábrica delimitava com maior clareza a
jornada. A conectividade pode fazê-la atravessar o dia inteiro. E a casa, que a
industrialização colocou fora do centro da cidadania laboral, volta a ser
espaço de produção mercantil.
No século XX, a força dos sindicatos e
partidos progressistas nasceu da capacidade de compreender a sociedade
industrial e transformar o trabalhador concentrado na fábrica em sujeito
coletivo de direitos. No século XXI, sua renovação dependerá de compreender
para onde o trabalho se deslocou. Ele está na casa, na rua, na tela, na
plataforma, na nuvem e no algoritmo.
Se sindicatos e partidos progressistas
permanecerem estruturados apenas em torno do emprego formal, do estabelecimento
fixo e do empregador claramente identificado, poderão defender conquistas
indispensáveis do passado, mas terão dificuldade crescente para representar o
trabalho do presente. A nova agenda precisa partir de outro princípio, os
direitos devem acompanhar quem trabalha, não permanecendo presos ao local onde
o trabalho é realizado.
Isso significa representação coletiva para
trabalhadores de plataformas e autônomos economicamente dependentes, com
direito à desconexão, a transparência dos algoritmos que distribuem tarefas,
avaliam desempenho e determinam remuneração. Também o direito social e
trabalhista da proteção previdenciária para trajetórias
descontínuas,portabilidade de direitos,
negociação coletiva nas plataformas e direitos sobre os dados produzidos
pela própria atividade laboral.
Mas essa renovação será incompleta se repetir
o erro histórico da sociedade industrial e deixar o cuidado fora da questão
trabalhista. Creches, escolas em tempo integral, atendimento às pessoas idosas
e com deficiência, saúde e serviços comunitários precisam ser tratados também
como infraestrutura econômica da sociedade de serviços. Combater a desigualdade
de gênero deixa de ser pauta lateral e passa ao centro da nova questão do
trabalho.
Durante séculos, as mulheres viveram
justamente na fronteira entre produção e reprodução, mercado e casa, trabalho
pago e não pago. Por isso, sua experiência histórica oferece uma chave
privilegiada para compreender o futuro. Há aqui, sobretudo, uma oportunidade de
renovação para sindicatos e partidos progressistas. A desigualdade de gênero
não pode continuar sendo tratada como capítulo complementar da agenda
trabalhista. Ela precisa participar da reconstrução dessa própria agenda.
No século XX, a agenda progressista levou
direitos ao mundo da produção, com os sindicatos e partidos progressistas
ajudando disseminá-los para dentro da fábrica. No século XXI, ele precisam
fazê-los atravessar seus portões e alcançar a casa, a rua, a plataforma, a
nuvem e o algoritmo para incorporá-los também à reprodução da vida.
A sociedade industrial construiu direitos ao
redor do emprego. A sociedade de serviços hiperconectada precisa construí-los
ao redor de quem trabalha e de quem sustenta a vida. Essa parece ser a nova
fronteira da igualdade de gênero, a nova questão social do século XXI.
Fonte: Por Marcio Pochmann, em A Terra é
Redonda

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