O Ungido: obscurantismo religioso partidário
e vazamentos seletivos pautando a política
O Brasil enfrenta uma eleição decisiva entre
projetos de sociedade opostos. De um lado, o único candidato do campo
progressista de esquerda que busca a reeleição sustentado por propostas de
inclusão social, redução de desigualdades, distribuição de renda, maior
tributação dos ricos, aumento real do salário mínimo e soberania nacional. Do
outro, uma ampla frente da extrema direita e da direita oportunista que defende
um projeto ultraliberal que prioriza o mercado e o capital em detrimento das
políticas públicas. A diferença crucial está na concepção de Estado. O campo
progressista de esquerda defende um Estado capaz de promover desenvolvimento
sustentável, distribuir renda e garantir direitos; os ultraliberais apostam na
redução severa da presença estatal, contenção de gastos sociais e transferência
de funções ao mercado, o que, na prática, aprofunda desigualdades, fragiliza
serviços públicos e faz a maioria da população arcar com o custo de uma
política que preserva privilégios e concentra renda e patrimônio.
É nesse cenário eleitoral tensionado que se
aprofunda uma crise de grandes proporções, explorada pela extrema direita e
transformada em munição eleitoral pelos candidatos da direita oportunista para
desviar o foco do que realmente está em disputa. A sucessão de vazamentos
excessivamente seletivos referentes a inquéritos submetidos à relatoria do
ministro André Mendonça, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, tem alimentado a
crise e ocupa o mote da discussão pública. Sob a condução de Mendonça, as
relatorias dos casos Master e Dark Horse ganharam repercussão política
interessada em favor de Flávio Bolsonaro, enquanto questões essenciais à vida
dos brasileiros e os projetos de país em confronto desaparecem do debate
eleitoral. Chama atenção a disparidade no tempo dedicado por Mendonça à análise
dos materiais e na condução das diligências envolvendo investigados na Operação
do Banco Master, em movimentos que variaram conforme o perfil e o alinhamento
político dos envolvidos.
No âmbito da crise no STF estão as infames
decorrências do caso “Banco Master”, propulsor de um escândalo financeiro de
proporções gravíssimas para o país, em meio à intrincada rede de relações
políticas e institucionais construída pelo ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro. O
escândalo revela camadas ainda mais profundas de podridão, em uma trama na qual
dinheiro, poder, influência e relações nos mais altos círculos da República se
entrelaçam de maneira perturbadora, fazendo de Vorcaro uma espécie de “Epstein dos
trópicos”. Sua atuação no sistema financeiro abrangia diferentes operações
fraudulentas, entre elas a venda de títulos de alto risco e letras financeiras
sem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos a fundos de pensão de servidores
públicos estaduais e municipais.
Fez também repasses de vultosas somas de
dinheiro ao senador Flávio Bolsonaro para o financiamento de um filme, cuja
prestação de contas sobre os gastos da produção cinematográfica, prometida pelo
senador, jamais foi apresentada. Embora Flávio tenha inicialmente negado o
recebimento dos valores, veio posteriormente à tona que cerca de US$ 12,3
milhões — aproximadamente R$ 69 milhões — foram transferidos para o fundo
Havengate Development Fund LP, sediado no Texas. Coincidentemente, esse fundo é
administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto. Atualmente,
Eduardo Bolsonaro vive numa mansão de luxo alugada, avaliada em cerca de R$ 6
milhões, em Southlake, no Texas. Longe das obrigações de um mandato e sem que
se conheça uma atividade profissional que justifique tamanho padrão de vida,
desfruta de uma rotina confortável, bancada por recursos cuja origem merece ser
esclarecida.
Além dos milhões repassados por Vorcaro para
a produção do que chegou a ser apontado como o filme mais caro do planeta, a PF
investiga, em operação autorizada pelo ministro Flávio Dino, o percurso de R$ 2
milhões em emendas parlamentares destinadas pelo deputado federal Mario Frias
(PL-SP), ex-ministro do governo Jair Bolsonaro, ao Instituto Conhecer Brasil
(ICB), entidade comandada pela empresária Karina Ferreira da Gama, responsável
pela produção do filme “Dark Horse”.
Convém assinalar que Vorcaro também construiu
vínculos, por diferentes caminhos e circunstâncias, inclusive com 5 ministros
do STF: André Mendonça, Kássio Nunes Marques, Alexandre de Moraes, Luiz Fux e
Dias Toffoli. Em torno do Banco Master, formou-se uma teia de relações que
alcançou o coração da Suprema Corte. E nas últimas semanas, a crise no Supremo
ganhou repercussões ainda mais preocupantes, quando em 8 de setembro, por meio
de uma decisão monocrática, o ministro André Mendonça determinou o afastamento
preventivo de Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e de Leandro
Almada da Costa, diretor de Inteligência Policial da corporação. Vale destacar
que o ministro Mendonça não faz a menor questão de disfarçar a devoção
partidária à família de quem lhe concedeu a cadeira no STF. Para o jurista e
colunista Wálter Maierovitch, em declaração ao UOL News, a decisão foi
“inconstitucional, arbitrária e ilegal”. Em tempo recorde, Luiz Fux e Kássio
Nunes Marques votaram pela manutenção da medida, formando maioria para
referendar a decisão de Mendonça. Em sentido oposto, o ministro Gilmar Mendes
adotou uma postura mais cautelosa ao pedir vista.
Em meio às turbulências provocadas pela
liminar de André Mendonça, cuja oportunidade política e eleitoral é impossível
de ignorar, ficou cada vez mais claro o que estava em jogo. A decisão
nitidamente política se sobrepôs à decisão constitucional, além de atingir
frontalmente a estabilidade institucional e processual do país. Ao colocar na
cena o afastamento de Andrei Rodrigues, diretor nomeado pelo presidente Lula,
Mendonça trouxe para o picadeiro do circo que montou, o presidente do país. No
mesmo dia, a Advocacia Geral da União contestou o afastamento determinado por
Mendonça e sustentou que o ministro havia invadido uma prerrogativa
constitucional do presidente da República ao interferir na permanência do
diretor-geral da Polícia Federal.
Na sequência dos acontecimentos que abalaram
o país, o ministro Flávio Dino reagiu à decisão de Mendonça e em 9/9 determinou
a reintegração de Andrei Rodrigues e Leandro Almada da Costa. Ao analisar o
pedido apresentado por Andrei Rodrigues em processo que já tramitava no STF,
Dino apontou violações ao devido processo legal, desrespeito a prerrogativas
exclusivas do Ministério Público e riscos à segurança institucional e às
investigações em andamento. A reação do ministro expôs a gravidade da decisão
anterior. Não se tratava apenas do afastamento de dois servidores de alto
escalão da PF, mas de uma intervenção com potencial para atingir diretamente o
funcionamento de investigações em curso e a própria autonomia institucional da
corporação. A demora do presidente da Corte Suprema em enfrentar a dimensão da
crise acabou exigindo uma reação emergencial de Flávio Dino que, ao fim e ao
cabo, levou o ministro Edson Fachin a tomar decisões imprescindíveis diante da
grave crise institucional.
Em 9 de setembro, o presidente Lula, por meio
de uma declaração republicana publicada nas redes sociais e elogiada inclusive
por juristas identificados com a direita, foi direto ao ponto ao exigir total
transparência. Diante da gravidade do caso, defendeu que não haja vazamentos
seletivos capazes de interferir na disputa eleitoral e reivindicou a quebra
completa do sigilo das investigações envolvendo todos os personagens do caso
Master, “seja quem for, doa a quem doer”. A mensagem foi cirúrgica: se há irregularidades,
que sejam conhecidas por todos; se há culpados, que respondam por seus atos; e
se há inocentes, que também tenham o direito de demonstrar isso diante da
sociedade. Lula agiu com maestria frente à grave situação e, sobretudo, sobre a
armação provocativa do ministro terrivelmente bolsonarista.
À medida que essa crise foi ganhando novas
dimensões, entidades empresariais e comerciais divulgaram um “Manifesto à Nação
Brasileira” em 9/9, cobrando do plenário da Corte uma resposta pública e
imediata. Diante dessas pressões dirigidas à presidência do STF, o ministro
Edson Fachin, no decurso do mesmo dia 9/9, finalmente saiu do estado de
letargia e começou a colocar em movimento os mecanismos institucionais para
conter a crise. Fachin suspendeu as decisões de André Mendonça e Flávio Dino
sobre o afastamento e a reintegração de Andrei Rodrigues e Leandro Almada,
mantendo-os nos seus respectivos cargos. Também retirou de Alexandre de Moraes
a relatoria do inquérito das fake news e marcou para 15 de setembro uma sessão
extraordinária do plenário para analisar o relatório que revelou mensagens
enviadas por Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes. Em 10/9, Fachin pediu a
retirada de sigilo das investigações do Caso Master. Todavia, com a abertura do
sigilo, ainda em parte até essa data, a população brasileira e, principalmente,
a fração dos eleitores que ainda permanece iludida diante do assustador
histórico que envolve a família Bolsonaro, descobriu que Flávio Bolsonaro está
sendo investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de
divisas.
Contudo, somente essas medidas do presidente
da Corte Constitucional não são suficientes para passar a limpo a condução dos
processos referentes ao Banco Master e ao Dark Horse, ambos sob a relatoria de
André Mendonça, cuja permanência à frente dos casos é questionável diante das
suspeitas que recaem sobre sua atuação e da necessidade de que ele próprio seja
investigado. A sucessão de vazamentos seletivos e a falta de transparência
ampliaram a desconfiança em torno de processos que, pela gravidade dos fatos e
pelo número de personagens envolvidos, deveriam estar submetidos ao mais amplo
grau de transparência possível. Um novo desdobramento reforçou essa preocupação
pelo fato de Mendonça ter encaminhado aos demais ministros somente parte das
investigações envolvendo o Caso Master.
A dimensão dessa lacuna ficou evidente em 11
de setembro, quando a Procuradoria-Geral da República (PGR) encaminhou
manifestação ao presidente do STF, Edson Fachin, reivindicando que o acesso às
investigações relacionadas à Petição 15.556 e à Operação Compliance Zero seja
amplo e sem qualquer restrição. Já o ministro Cristiano Zanin solicitou a Edson
Fachin acesso integral ao material extraído do celular de Daniel Vorcaro. A
medida pretende permitir que Zanin examine o conjunto das informações que integram
as investigações do caso, em meio à análise das questões que deverão chegar ao
Plenário da Corte e às manifestações apresentadas pela Procuradoria-Geral da
República. O ministro Alexandre de Moraes também enviou ofício a Fachin
cobrando essa mesma medida. Destacou que faltam 180 peças específicas no
material disponibilizado e reiterou a necessidade de liberação integral dos
documentos, acompanhada de uma contagem formalmente certificada pela Diretoria
de Tecnologia da Informação do STF. Após pedido da PGR, Fachin deu 24 horas
para Mendonça retirar sigilo de documentos do caso Master. Diante dessa
solicitação, André Mendonça retirou o sigilo de novos documentos e processos
que integram o caso Master. Entre esses estão os que envolvem o senador Flávio
Bolsonaro (PL), Ciro Nogueira (PP), Cláudio Castro (PL), Jaques Wagner (PT) e
Thiago Miranda.
O acúmulo dessas intercorrências torna
imprescindível, portanto, que a relatoria de Mendonça seja transferida para
outras mãos. Caso contrário, os conflitos, que ora afetam o STF, poderão
perdurar, repercutindo, inclusive, nos rumos do processo eleitoral. O
enfraquecimento do STF interessa apenas a Flávio Bolsonaro e a seus aliados na
Corte, jamais às forças progressistas, que defendem uma Suprema Corte
fortalecida, independente e capaz de preservar a credibilidade e a confiança da
sociedade. Perante essa conjuntura preocupante, permanece urgente a
reivindicação de Lula pela quebra absoluta dos sigilos das investigações,
alcançando todos os envolvidos, sem exceção. A postura de cada ministro deverá
ser republicana, sem favorecimentos a quem quer que seja e sem qualquer
possibilidade de proteção seletiva diante dos atos que estão sendo
investigados.
Nesse horizonte conturbado, é preciso dizer
com todas as letras que há uma ofensiva da direita oportunista e da extrema
direita em curso, auxiliada por decisões do ministro Mendonça que provocam
suspeitas e aprofundam a instabilidade institucional. Ao ser alçado pelo
bolsonarismo à condição de suposto guardião da Justiça, o ministro André
Mendonça acabou por corroer a própria credibilidade do STF ao relegar a
imparcialidade a segundo plano. Suas decisões extrapolaram os limites de sua
atuação ao interferir na condução das investigações, selecionar os agentes
responsáveis por executá-las e ter manejado o sigilo dos autos conforme
conveniências que, em vez de jurídicas, revelam nítido viés político. Em igual
medida, é necessário que Alexandre de Moraes seja investigado pelas suspeitas
de envolvimento com Vorcaro.
Essa investida institucional, porém, não se
limita aos embates no interior do STF. Ela se articula também no campo político
e eleitoral, buscando mobilizar a base bolsonarista e ampliar a radicalização
às vésperas do pleito. As manifestações da extrema direita bolsonarista no 7 de
setembro evidenciaram a intenção de tensionar os poucos dias que antecedem as
eleições, alimentando um ambiente de radicalização perigoso para o processo
democrático. Essa ofensiva, porém, não se restringe à disputa institucional:
ela mobiliza também a religião como instrumento de convencimento eleitoral,
transformando a fé em argumento político e buscando conferir legitimidade
divina a personagens e projetos de poder. Na manhã do dia 7, antes do comício
na Paulista, Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas participaram de um culto ao
lado do pastor Valdemiro Santiago, conhecido pelas controvérsias envolvendo
suas práticas religiosas e pedidos de contribuições financeiras. No mesmo
terreno desse obscurantismo, Michelle Bolsonaro voltou a defender o ministro
André Mendonça, a quem atribuiu a condição de “escolhido e ungido do Senhor”. A
cena expõe a promíscua mistura entre religião, política e poder institucional.
A fé é instrumentalizada para a disputa eleitoral e um ministro da Suprema
Corte passa a ser apresentado como escolhido por forças divinas. Em uma
República laica, essa apropriação religiosa da política deveria causar absoluto
estranhamento.
Há alguns meses, parece não existir outro
assunto senão as decisões do STF e os ministros supostamente vinculados a
Vorcaro. É preciso virar o disco. O debate eleitoral precisa voltar ao centro
da pauta, e com extrema urgência. Afinal, o que está em jogo são os destinos do
país e as condições de vida de milhões de brasileiros, em face do iminente
risco apontado pelos institutos de pesquisa, a eleição para a Presidência da
República de um candidato sobre o qual recaem graves suspeitas de corrupção,
lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Fonte: Por Elisabeth Lopes, em Brasil 247

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