terça-feira, 15 de setembro de 2026

Luiz Mott – algumas recordações desorganizadas

Conheci Luiz Mott no hall de um elegante hotel de Maceió e, confesso, o encontro fez meus joelhos tremerem. Apesar de minha limitada memória visual, até hoje tenho aquela cena gravada, fundo, em minhas lembranças. Era uma esplendorosa manhã de um dia ensolarado do mês de novembro de 1981. Eu tinha 33 anos, Luiz Mott, 36. Apesar do cenário tranquilo e aprazível, o meu susto foi pra lá de justificado.

Aquele encontro, que jamais esqueci, ocorreu durante o I Simpósio Nacional sobre o Quilombo dos Palmares, organizado por Décio Freitas, autor do clássico Palmares: a guerra dos escravos, por determinação do reitor João Azevedo, da Universidade Federal de Alagoas. Para o encontro, o historiador sulino convidara um mundaréu de gente: embaixadores africanos; intelectuais de maior e menor coturno; personagens do movimento negro, da política nacional, do meio cultural e alguns destacados estudiosos da escravidão, que, então, eram poucos.

Foi maciça a presença de estudantes e de populares nas conferências, vistas também como um ato de resistência à ditadura militar e parte da organização do movimento negro. Sem ser convidado, o Serviço Nacional de Informação enviou seus olheiros, que produziram acurada informação sobre o evento, hoje de indiscutível valor informativo. [CONFIDENCIAL, 7/12/1981.] No dia 20 de novembro, realizou-se visita à serra da Barriga, onde se acredita tenha se dado a última resistência geral palmarina. Fiquei impressionado pela limitada extensão do platô da serra.

<><> Encontro inesquecível

Os acadêmicos convidados ao encontro se apresentavam, à medida que recebiam suas pastas e se encontravam no hall ou na área exterior do elegante hotel, localizado diante de um mar maravilhoso. Foi ali que conheci, entre outros estudiosos da escravidão no Brasil, Clóvis Moura, autor de Rebeliões da senzala: revoltas, quilombos etc., livro pioneiro em sua leitura do passado escravista, publicado em 1959. Simpático e sorrindo, ele me estendeu a mão e se apresentou: “Clóvis Moura, sociólogo, São Paulo”. [MOURA, 1959.]

Respondi: “Mestre, uma honra conhecê-lo, li diversos livros seus”. E agreguei, como era praxe: “Mário Maestri, historiador, USU, Rio de Janeiro”. Lisonjeado, escutei que lera um livrinho meio torto que publicara sobre os quilombos no Rio Grande do Sul, em uma editora sulina pra lá de local. Foi ali que iniciamos nossa longa amizade, cimentada por idêntica visão de mundo, interrompida apenas com seu falecimento em 2003. Pude conhecer e estreitar amizade com o saudoso mestre Manuel Correia de Andrade, entre outros colegas.

O antropólogo e historiador Luiz Mott, professor da Universidade da Bahia, fora convidado ao encontro devido ao seu precioso artigo sobre a escravidão nas fazendas de gado do Piauí colonial, escrito a partir de farta documentação arquival, publicado em 1979. Sua investigação assentou um duro golpe na apologia então corrente da doçura da escravidão naquela região e do não uso do trabalhador escravizado na criação pastoril – “Os índios e a pecuária nas fazendas de gado do Piauí colonial”. [MOTT, 1979.]

Décadas mais tarde, um brilhante orientando meu, Solimar Oliveira Lima, expandiu a senda aberta por Luiz Mott, em 1979, em sua tese de doutoramento, dedicada às fazendas públicas piauienses, de 2005 – Braço forte. Trabalho escravo nas Fazendas da Nação no Piauí (1822-1871). [LIMA, 2010.] Luiz Mott voltaria, em 2010, de forma mais ampla, à economia colonial do Piauí, no livro Piauí colonial: população, economia e sociedade, de 2010. [MOTT, 2010.]

<><> Primeira impressão

Mas voltemos ao Simpósio, naquele luminoso 26 de novembro de 1981, em Maceió, capital da, no passado, capitania das Alagoas. Luiz Mott se aproximou de mim, com a pastinha debaixo do braço. Não era alto, vestia uma camisa estampada baiana e, se não me falha a memória, era um pouco gordinho. Estendemos as mãos e ele se adiantou na esperada apresentação acadêmica protocolar.

“Luiz Mott, UFBA, homossexual”. Como dizemos no Sul, “quase caí do cavalo”. Não sabia se era sério ou brincadeira. Lembro-me apenas de que o timbre que emprestava à sua voz correspondia, em algo, à apresentação. Corajoso, mantive o sangue frio e iniciamos uma conversação sobre o encontro e outros temas, que se seguiu nos dias e anos seguintes. Desde logo, Luiz Mott se revelou um homem carismático, de inteligência e cultura singulares, um pouco mordaz.

Explico meu susto. Apesar de quase sete anos de exílio, no Chile, no México e na Bélgica, e alguns mais de militância política, nasci e me criei em Porto Alegre, dos anos 1950 a 1970. Estudei no Colégio Anchieta, dos jesuítas, masculino, sem uma miserável professora que fosse. Para não dizerem que minto, houve uma, no final do Científico, creio que irmã de um padre, quase uma freira e feia de morrer.

Eu tinha minhas raízes profundas assentadas na mais lídima cultura gaúcha! As centenas de meus colegas anchietanos eram machos. Machíssimos, sem direito à mais mínima frescura ou trejeitos, no falar,  andar, vestir. A maior ofensa era ser chamado de bicha! Uma tal acusação resultava em briga feia, mesmo se o oponente fosse grandão! Havia que lavar, no sangue, a calúnia infamante!

No Anchieta, tinham fama de afeminados apenas um e outro padre e assemelhados. Lembro-me de um orientador espiritual que, ao sermos chamados para colóquio, levávamos na mão o compasso, com a ponta de aço à mostra. Eram, em verdade, pedófilos, mais ou menos sob controle. Havia no Colégio, tido como de elite, apenas um e outro colega negro, que, até onde pude ver, não sofreram agressões racistas, ao menos abertas, que eventuais afeminados  sofreriam! Caso houvesse entre nós!

Muito logo compreendi a apresentação corajosa de Mott, feita de supetão, que desarmou o intelectual gaúcho que se achava pra lá de prafentex. Sobretudo os membros do movimento gay, recentemente organizados, partiam para assumir, publicamente, sua identidade, contra ventos e marés. Abriam o caminho para a atual melhor e menos traumática aceitação geral da homossexualidade masculina. Eram a vanguarda de uma batalha longa e dolorosa, com destaque para os combatentes na vanguarda, na qual sempre se encontrou o meu amigo Luiz Mott.

Nos anos seguintes, fiz um curso acelerado e de alta qualidade sobre a homossexualidade masculina e feminina, ministrado à distância por Luiz Mott, por cartas, documentos e nos eventos e encontros acadêmicos em que nos encontrávamos. Mas, para não esfriar o motor das recordações, passo a relatar uma das tantas histórias que entremeiam nosso quase meio século de amizade sem interrupção. Para não mentir, diria quase sem interrupções.

Durante o “Mensalão”, Luiz Mott mergulhou, como tantos outros, em uma crise radical de anti-lulismo, registrada em detalhes em sua página do Facebook, que me suportei com dificuldade. Isso, apesar de ter votado no homem apenas em 1989 e jamais ter deixado de desancá-lo politicamente, pela esquerda. E, em 2026, voltarei a votar nulo, mesmo que a vaca tussa! Mandei mensagem a Luiz Mott dizendo que rompia a nossa amizade no Face, mantendo-a no mundo real.

Mas voltemos a Maceió, 1981. Muito conversamos no encontro, em um grupo meio fechado, no qual se encontravam Mott, Clóvis, Décio, eu e dois ou três outros simposiastas que os anos, a distância, falecimentos e um mundo em ladeira abaixo afastaram de nós. Mas o quarteto continuou interagindo, volta e meia, para o bem e para o mal, quando nos encontrávamos.

Anos mais tarde, em 1995, quando do tricentenário da morte de Zumbi dos Palmares, Décio, Clóvis, Mott e eu nos envolvemos em um rebuscado affaire — a polêmica sobre a eventual homossexualidade de Zumbi. Por levantar a hipótese horrenda, Luiz Mott sofreu agressões de todo tipo, sobretudo de intelectuais e militantes negros em crise de homofobia. Mostrou-se, então, o homem corajoso que sempre foi.

Eu defendi que faltava informação positiva sobre a sexualidade de Zumbi, fosse qual fosse, um personagem histórico sobre o qual quase nada sabíamos e sabemos de positivo. Zumbi – ou NZumbi – era um título militar, e não o nome próprio do último general palmarino. Um camponês, ao pé do serro da Barriga, me contou tradição oral na qual se referia a “Zumbi Sueca”, ou termo próximo. Minha posição levou o amigo Luiz Mott a se aborrecer um pouco comigo.

Avancei, ao contrário, documentação primária probatória sobre a homossexualidade na África negra pré-colonial, com destaque para o litoral angolano, que estudara de forma acurada. Como se fosse necessário. Mas, na época, era, sim, preciso. Intelectuais negros sugeriram e afirmaram, até mesmo, que o “pecado nefando” fora introduzido no continente negro por portugueses e europeus pervertidos! Antes, todos os negro-africanos eram castamente heterossexuais.

 <><> Gays africanos desde sempre

No jornal O Dia, do Rio de Janeiro, de 19 de maio de 1995, badalado intelectual negro atacou Luiz Mott e propôs, apoiado em duas citações destrambelhadas de intelectuais europeus dos tempos coloniais, que o “onanismo e a sodomia” teriam sido introduzidos pelos europeus na África Negra. Ou seja, a garotada africana não batia uminha que fosse antes de aprenderem com os europeus pervertidos a complexa operação de autossatisfação sexual!

Essa história tem sua história. Luiz Mott reunia e publicitava os nomes de grandes lideranças e figuras históricas que sabia ou se acreditava terem sido homossexuais. Talvez em Maceió, nos reunimos, os quatro, em uma mesa de bar. Na ocasião, Décio Freitas e Clóvis Moura avançaram, brincalhões, elementos que eventualmente corroborariam a  afirmação de Luiz Mott sobre a homossexualidade de Zumbi.

Senti a imprudência dos meus dois amigos já falecidos em tratar aquela questão sem seriedade, fortalecendo a hipótese de Luiz Mott, que a publicou, na época, sem maior repercussão. A proposta resultou em acirrada polêmica, em 1995, explorada pela imprensa conservadora para travar a discussão sobre o terceiro centenário da destruição de Palmares e  morte de Zumbi.

Sem sangue frio, Décio Freitas acusou Luiz Mott de invencionice e negou uma possível homossexualidade do chefe palmarino. Afirmou que Zumbi se casara “com uma mulher branca chamada Maria”, com a qual tivera “cinco filhos”, o que hoje sabemos ser parte da sua literal invenção de uma biografia de Zumbi, pra lá de fantasiosa, com a qual procurou, creio, impulsionar uma nova edição de seu importante livro. [FREITAS, 1995.]

Para encerrar a discussão, em 1995, Euzébio Assumpção, historiador negro, com trabalho pioneiro sobre as charqueadas, compartilhava comigo a hipótese da eventual alta incidência de práticas homossexuais nos quilombos e nas senzalas dos saladeiros, resultante das elevadas taxas de masculinidade daquelas comunidades. Proposta que publicamos e, gratias Deo, passou em brancas nuvens! [ASSUMPÇÃO, 2013; MAESTRI, 1988.]

Talvez jamais tenhamos informação precisa sobre a sexualidade do último comandante palmarino. Porém, a polêmica deixou a descoberto uma então enorme cultura homofóbica entre o movimento negro, certamente compartilhada por enorme parte da população branca e parda, que teve, na época, Luiz Mott como o principal e quase único alvo, por meio de jornais, conferências, ameaças de agressão e agressões.

Nos anos seguintes, quando se generalizaram os estudos sobre a sexualidade na Colônia e no Império, não se abordou sistematicamente a sexualidade da população escravizada propriamente dita. Ao contrário, foram feitos esforços hercúleos para apresentar uma fantasiosa normalidade e doçura na vida sexual dos cativos no Brasil, que teriam tido acesso a “famílias escravas” numerosas, semi ou mesmo estáveis, com papai, mamãe e filhinhos, como manda o figurino.

<><> Voltando a Maceió

Em 1981, apenas se armava no horizonte o confronto sem piedade que se abriria na Academia e fora dela entre os que defendiam e os que impugnavam as reconstruções sobre o que definiríamos como “escravidão feliz”, impugnadas por Décio, Clóvis e Jacob Gorender e outros corajosos colegas, como o saudoso Théo Lobarinhas Piñeiro.

Eu, academicamente, segui interessado em ampliar minha investigação sobre o escravismo colonial, que estendi, a seguir, para melhor compreendê-lo, ao estudo das formas servis de submissão na África e nas comunidades do litoral do Brasil, assim como às formações escravistas greco-romanas. Luiz Mott, sem abandonar de todo seus antigos amores, privilegiou acadêmica, política e socialmente a luta pela história e organização do movimento homossexual no Brasil.

Em 1988, quando do I Centenário da Abolição da Escravidão, dirigindo a coleção Malungo para a editora Ícone de São Paulo, publiquei um livro de artigos de Luiz Mott intitulado Escravidão, homossexualidade e demonologia, hoje quase uma raridade bibliográfica, vendidos por preços elevadíssimos em livrarias virtuais. [MOTT, 1988.]

Em 1993, Luiz Mott publicaria seu maravilhoso livro Rosa Egipcíaca: uma santa africana no Brasil, reeditado, em 2023, pela Companhia das Letras. [MOTT, 1993.] Este texto volumoso, verdadeiramente abençoado, foi escrito a partir de exaustiva investigação documental, por um pesquisador seguro e infatigável, virtuoso na arte de escrever. O que não explica totalmente a excelência do trabalho.

O livro não poderia ter sido escrito sem um conhecimento exaustivo, por parte do autor, da religião, dos cultos, dos santos, das orações e de toda uma imensa parafernália religiosa católica. Informação quase esotérica que Luiz Mott dominou durante os seus anos de seminarista e de quase sacerdote dominicano. Escolha da ordem que nos diz muito sobre nosso Luiz Mott, a quem, acredito, horrorizaria, se prosseguisse na vocação, tornar-se franciscano e sair pelo mundo de sandálias e hábitos rotos.

Em Rosa Egipcíaca, quanto à linguagem, Luiz Mott seguiu a lição do mestre Gilberto Freyre, ao descrever a escravidão nordestina, mas sem as licenças do pernambucano com a realidade histórica. O longo texto se apresenta como descrição de inspiração barroca envolvente, em uma narrativa quase romanesca, mas sempre fiel à reconstrução histórica. Rosa Egipcíaca faz parte dos dez livros nacionais que quero que sejam enterrados comigo, para o caso de haver vida após a morte.

Em 1981, no fim do I Simpósio sobre o Quilombo de Palmares, ao nos despedirmos, ou, talvez, alguns anos mais tarde, fizemos um acordo. Luiz Mott me mandaria artigos sobre a escravidão com que se deparasse e eu, em troca, mandaria as notícias dos jornais regionais sobre crimes homofóbicos, termo não usado naquele então, para a coleta nacional empreendida pelo Grupo Gay da Bahia.

O pedido se justificava, de um lado e do outro. Nos anos 1980, não tínhamos amplos noticiários televisivos, internet, PDF, iPhone e a parafernália atual sem a qual acreditamos não poder viver. A informaçãofluía com dificuldade, dependendo muito das relações interpessoais. Para mim, o acordado não punha problemas nem me exigia trabalho.

Sobretudo em Porto Alegre, em inícios dos anos 1990, pus-me à obra, com uma tesoura na mão. Eu era leitor obsessivo de jornais. No Sul, lia diariamente o Correio do Povo, Zero Hora, Folha da Tarde e o Jornal do Brasil, nos finais de semana, além de resumo, hebdomadário de Le Monde francês, então um grande jornal, não o lixo atual.

Para cumprir o prometido, bastava ler as páginas policiais que eu saltava habitualmente. E, ao começar a fazê-lo, minha surpresa e, mesmo, horror foram imensos. Uma sucessão quase ininterrupta de crimes e agressões homofóbicas, banalizados pela mídia relegados às notícias criminais. Ataques gratuitos a homossexuais masculinos. Mortes de travestis, de jovens, de adultos e de velhos senhores noticiados como “solteiros”, por michês que matavam os clientes para roubá-los, por serem homossexuais, de os terem seduzido e por aí vai.

Mandava para Luiz Mott os recortes sobre as barbaridades noticiadas pela imprensa sulina. E, naqueles anos, os crimes de sangue no Sul não eram habituais, já que o Estado não perdera ainda, de todo, uma relativa civilidade construída sob os bons ventos econômicos e políticos da República Velha positivista sul-rio-grandense. Civilidade que chegava, sempre, em menor grau, quando se tratava de trabalhadores, de negros e de pardos pobres, de marginalizados e, logicamente, de bichas.

Luiz Mott não me mandou muitos artigos e documentos sobre a escravidão. Enviou-me poucos artigos sob a escravidão e o endereço de sua irmã, Maria de Lúcia de Barros Mott, gentil historiadora e feminista, que escrevera pioneiro artigo, em 1979, sobre as crianças negras escravizadas durante o Império, que muito me serviu. [MOTT M.L., 1979.]

Em 1988, quando dos cem anos do fim da escravidão, Maria de Lúcia lançou o livro Submissão e resistência: a mulher na luta contra a escravidão. [MOTT M.L., 1988.] Encontrei-me com ela apenas uma ou duas vezes e trocamos poucas cartas, antes de seu falecimento aos 62 anos. Hoje, teria 77 anos.

<><> Arquivo morto

Recebi de Luiz Mott, de sua autoria, textos e artigos brilhantes, militantes e sensíveis, alguns mimeografados, sobre a homossexualidade masculina, os travestis, o lesbianismo etc. Se encontram, hoje, meio perdidos na pasta “Grupo Gay da Bahia”, em meu “arquivo morto”, a espera de organização.

Volta e meia, Luiz Mott e eu nos encontrávamos em congressos. Florence, minha companheira, italiana nascida na Bélgica, em família operária, se apaixonou pela educação e gentileza de Luiz Mott, já que ainda não se habituara à rusticidade e prepotência da classe média brasileira, fora as exceções de rigor.

Mantivemos contato por correspondência, como se fazia naqueles anos em que não se conheciam as mensagens eletrônicas e as chamadas interurbanas eram caríssimas. Nos últimos meses, ao organizar minha correspondência, reli parte das, em alguns casos, longas, provocadoras e delicadíssimas cartas de Luiz Mott.

Encerro essas minhas lembranças contando uma segunda derrapagem minha com o querido amigo Luiz Mott. Um certo dia, recebi correspondência do Grupo Gay da Bahia agradecendo pelos meus envios sistemáticos de recortes de jornais sobre as violências homofóbicas sulinas. Como outros correspondentes não haviam tido a minha assiduidade, anunciavam que eu seria, caso aceitasse, declarado “amigo” – não sei se esse era o título – do Grupo Gay da Bahia.

No dia seguinte, escrevi agradecendo e renunciando à homenagem, sob alguma desculpa. Já via colegas maldosos, que conheci às pencas em minha hoje longa vida acadêmica, propondo que eu abandonara minha companheira e ingressara no Grupo Gay da Bahia. Meu comportamento me enche, hoje, de vergonha. Sirvo-me deste texto em homenagem aos oitenta anos pra lá de bem vividos do meu queridíssimo amigo para pedir perdão por essa minha outra literal gaúchada!

 

Fonte: Por Mário Maestri, em A Terra é Redonda

 

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