Luiz Mott – algumas recordações
desorganizadas
Conheci Luiz Mott no hall de um elegante
hotel de Maceió e, confesso, o encontro fez meus joelhos tremerem. Apesar de
minha limitada memória visual, até hoje tenho aquela cena gravada, fundo, em
minhas lembranças. Era uma esplendorosa manhã de um dia ensolarado do mês de
novembro de 1981. Eu tinha 33 anos, Luiz Mott, 36. Apesar do cenário tranquilo
e aprazível, o meu susto foi pra lá de justificado.
Aquele encontro, que jamais esqueci, ocorreu
durante o I Simpósio Nacional sobre o Quilombo dos Palmares, organizado por
Décio Freitas, autor do clássico Palmares: a guerra dos escravos, por
determinação do reitor João Azevedo, da Universidade Federal de Alagoas. Para o
encontro, o historiador sulino convidara um mundaréu de gente: embaixadores
africanos; intelectuais de maior e menor coturno; personagens do movimento
negro, da política nacional, do meio cultural e alguns destacados estudiosos da
escravidão, que, então, eram poucos.
Foi maciça a presença de estudantes e de
populares nas conferências, vistas também como um ato de resistência à ditadura
militar e parte da organização do movimento negro. Sem ser convidado, o Serviço
Nacional de Informação enviou seus olheiros, que produziram acurada informação
sobre o evento, hoje de indiscutível valor informativo. [CONFIDENCIAL,
7/12/1981.] No dia 20 de novembro, realizou-se visita à serra da Barriga, onde
se acredita tenha se dado a última resistência geral palmarina. Fiquei impressionado
pela limitada extensão do platô da serra.
<><> Encontro inesquecível
Os acadêmicos convidados ao encontro se
apresentavam, à medida que recebiam suas pastas e se encontravam no hall ou na
área exterior do elegante hotel, localizado diante de um mar maravilhoso. Foi
ali que conheci, entre outros estudiosos da escravidão no Brasil, Clóvis Moura,
autor de Rebeliões da senzala: revoltas, quilombos etc., livro pioneiro em sua
leitura do passado escravista, publicado em 1959. Simpático e sorrindo, ele me
estendeu a mão e se apresentou: “Clóvis Moura, sociólogo, São Paulo”. [MOURA,
1959.]
Respondi: “Mestre, uma honra conhecê-lo, li
diversos livros seus”. E agreguei, como era praxe: “Mário Maestri, historiador,
USU, Rio de Janeiro”. Lisonjeado, escutei que lera um livrinho meio torto que
publicara sobre os quilombos no Rio Grande do Sul, em uma editora sulina pra lá
de local. Foi ali que iniciamos nossa longa amizade, cimentada por idêntica
visão de mundo, interrompida apenas com seu falecimento em 2003. Pude conhecer
e estreitar amizade com o saudoso mestre Manuel Correia de Andrade, entre outros
colegas.
O antropólogo e historiador Luiz Mott,
professor da Universidade da Bahia, fora convidado ao encontro devido ao seu
precioso artigo sobre a escravidão nas fazendas de gado do Piauí colonial,
escrito a partir de farta documentação arquival, publicado em 1979. Sua
investigação assentou um duro golpe na apologia então corrente da doçura da
escravidão naquela região e do não uso do trabalhador escravizado na criação
pastoril – “Os índios e a pecuária nas fazendas de gado do Piauí colonial”.
[MOTT, 1979.]
Décadas mais tarde, um brilhante orientando
meu, Solimar Oliveira Lima, expandiu a senda aberta por Luiz Mott, em 1979, em
sua tese de doutoramento, dedicada às fazendas públicas piauienses, de 2005 –
Braço forte. Trabalho escravo nas Fazendas da Nação no Piauí (1822-1871).
[LIMA, 2010.] Luiz Mott voltaria, em 2010, de forma mais ampla, à economia
colonial do Piauí, no livro Piauí colonial: população, economia e sociedade, de
2010. [MOTT, 2010.]
<><> Primeira impressão
Mas voltemos ao Simpósio, naquele luminoso 26
de novembro de 1981, em Maceió, capital da, no passado, capitania das Alagoas.
Luiz Mott se aproximou de mim, com a pastinha debaixo do braço. Não era alto,
vestia uma camisa estampada baiana e, se não me falha a memória, era um pouco
gordinho. Estendemos as mãos e ele se adiantou na esperada apresentação
acadêmica protocolar.
“Luiz Mott, UFBA, homossexual”. Como dizemos
no Sul, “quase caí do cavalo”. Não sabia se era sério ou brincadeira. Lembro-me
apenas de que o timbre que emprestava à sua voz correspondia, em algo, à
apresentação. Corajoso, mantive o sangue frio e iniciamos uma conversação sobre
o encontro e outros temas, que se seguiu nos dias e anos seguintes. Desde logo,
Luiz Mott se revelou um homem carismático, de inteligência e cultura
singulares, um pouco mordaz.
Explico meu susto. Apesar de quase sete anos
de exílio, no Chile, no México e na Bélgica, e alguns mais de militância
política, nasci e me criei em Porto Alegre, dos anos 1950 a 1970. Estudei no
Colégio Anchieta, dos jesuítas, masculino, sem uma miserável professora que
fosse. Para não dizerem que minto, houve uma, no final do Científico, creio que
irmã de um padre, quase uma freira e feia de morrer.
Eu tinha minhas raízes profundas assentadas
na mais lídima cultura gaúcha! As centenas de meus colegas anchietanos eram
machos. Machíssimos, sem direito à mais mínima frescura ou trejeitos, no
falar, andar, vestir. A maior ofensa era
ser chamado de bicha! Uma tal acusação resultava em briga feia, mesmo se o
oponente fosse grandão! Havia que lavar, no sangue, a calúnia infamante!
No Anchieta, tinham fama de afeminados apenas
um e outro padre e assemelhados. Lembro-me de um orientador espiritual que, ao
sermos chamados para colóquio, levávamos na mão o compasso, com a ponta de aço
à mostra. Eram, em verdade, pedófilos, mais ou menos sob controle. Havia no
Colégio, tido como de elite, apenas um e outro colega negro, que, até onde pude
ver, não sofreram agressões racistas, ao menos abertas, que eventuais
afeminados sofreriam! Caso houvesse entre
nós!
Muito logo compreendi a apresentação corajosa
de Mott, feita de supetão, que desarmou o intelectual gaúcho que se achava pra
lá de prafentex. Sobretudo os membros do movimento gay, recentemente
organizados, partiam para assumir, publicamente, sua identidade, contra ventos
e marés. Abriam o caminho para a atual melhor e menos traumática aceitação
geral da homossexualidade masculina. Eram a vanguarda de uma batalha longa e
dolorosa, com destaque para os combatentes na vanguarda, na qual sempre se
encontrou o meu amigo Luiz Mott.
Nos anos seguintes, fiz um curso acelerado e
de alta qualidade sobre a homossexualidade masculina e feminina, ministrado à
distância por Luiz Mott, por cartas, documentos e nos eventos e encontros
acadêmicos em que nos encontrávamos. Mas, para não esfriar o motor das
recordações, passo a relatar uma das tantas histórias que entremeiam nosso
quase meio século de amizade sem interrupção. Para não mentir, diria quase sem
interrupções.
Durante o “Mensalão”, Luiz Mott mergulhou,
como tantos outros, em uma crise radical de anti-lulismo, registrada em
detalhes em sua página do Facebook, que me suportei com dificuldade. Isso,
apesar de ter votado no homem apenas em 1989 e jamais ter deixado de desancá-lo
politicamente, pela esquerda. E, em 2026, voltarei a votar nulo, mesmo que a
vaca tussa! Mandei mensagem a Luiz Mott dizendo que rompia a nossa amizade no
Face, mantendo-a no mundo real.
Mas voltemos a Maceió, 1981. Muito
conversamos no encontro, em um grupo meio fechado, no qual se encontravam Mott,
Clóvis, Décio, eu e dois ou três outros simposiastas que os anos, a distância,
falecimentos e um mundo em ladeira abaixo afastaram de nós. Mas o quarteto
continuou interagindo, volta e meia, para o bem e para o mal, quando nos
encontrávamos.
Anos mais tarde, em 1995, quando do
tricentenário da morte de Zumbi dos Palmares, Décio, Clóvis, Mott e eu nos
envolvemos em um rebuscado affaire — a polêmica sobre a eventual
homossexualidade de Zumbi. Por levantar a hipótese horrenda, Luiz Mott sofreu agressões
de todo tipo, sobretudo de intelectuais e militantes negros em crise de
homofobia. Mostrou-se, então, o homem corajoso que sempre foi.
Eu defendi que faltava informação positiva
sobre a sexualidade de Zumbi, fosse qual fosse, um personagem histórico sobre o
qual quase nada sabíamos e sabemos de positivo. Zumbi – ou NZumbi – era um
título militar, e não o nome próprio do último general palmarino. Um camponês,
ao pé do serro da Barriga, me contou tradição oral na qual se referia a “Zumbi
Sueca”, ou termo próximo. Minha posição levou o amigo Luiz Mott a se aborrecer
um pouco comigo.
Avancei, ao contrário, documentação primária
probatória sobre a homossexualidade na África negra pré-colonial, com destaque
para o litoral angolano, que estudara de forma acurada. Como se fosse
necessário. Mas, na época, era, sim, preciso. Intelectuais negros sugeriram e
afirmaram, até mesmo, que o “pecado nefando” fora introduzido no continente
negro por portugueses e europeus pervertidos! Antes, todos os negro-africanos
eram castamente heterossexuais.
<><> Gays africanos desde sempre
No jornal O Dia, do Rio de Janeiro, de 19 de
maio de 1995, badalado intelectual negro atacou Luiz Mott e propôs, apoiado em
duas citações destrambelhadas de intelectuais europeus dos tempos coloniais,
que o “onanismo e a sodomia” teriam sido introduzidos pelos europeus na África
Negra. Ou seja, a garotada africana não batia uminha que fosse antes de
aprenderem com os europeus pervertidos a complexa operação de autossatisfação
sexual!
Essa história tem sua história. Luiz Mott
reunia e publicitava os nomes de grandes lideranças e figuras históricas que
sabia ou se acreditava terem sido homossexuais. Talvez em Maceió, nos reunimos,
os quatro, em uma mesa de bar. Na ocasião, Décio Freitas e Clóvis Moura
avançaram, brincalhões, elementos que eventualmente corroborariam a afirmação de Luiz Mott sobre a
homossexualidade de Zumbi.
Senti a imprudência dos meus dois amigos já
falecidos em tratar aquela questão sem seriedade, fortalecendo a hipótese de
Luiz Mott, que a publicou, na época, sem maior repercussão. A proposta resultou
em acirrada polêmica, em 1995, explorada pela imprensa conservadora para travar
a discussão sobre o terceiro centenário da destruição de Palmares e morte de Zumbi.
Sem sangue frio, Décio Freitas acusou Luiz
Mott de invencionice e negou uma possível homossexualidade do chefe palmarino.
Afirmou que Zumbi se casara “com uma mulher branca chamada Maria”, com a qual
tivera “cinco filhos”, o que hoje sabemos ser parte da sua literal invenção de
uma biografia de Zumbi, pra lá de fantasiosa, com a qual procurou, creio,
impulsionar uma nova edição de seu importante livro. [FREITAS, 1995.]
Para encerrar a discussão, em 1995, Euzébio
Assumpção, historiador negro, com trabalho pioneiro sobre as charqueadas,
compartilhava comigo a hipótese da eventual alta incidência de práticas
homossexuais nos quilombos e nas senzalas dos saladeiros, resultante das
elevadas taxas de masculinidade daquelas comunidades. Proposta que publicamos
e, gratias Deo, passou em brancas nuvens! [ASSUMPÇÃO, 2013; MAESTRI, 1988.]
Talvez jamais tenhamos informação precisa
sobre a sexualidade do último comandante palmarino. Porém, a polêmica deixou a
descoberto uma então enorme cultura homofóbica entre o movimento negro,
certamente compartilhada por enorme parte da população branca e parda, que
teve, na época, Luiz Mott como o principal e quase único alvo, por meio de
jornais, conferências, ameaças de agressão e agressões.
Nos anos seguintes, quando se generalizaram
os estudos sobre a sexualidade na Colônia e no Império, não se abordou
sistematicamente a sexualidade da população escravizada propriamente dita. Ao
contrário, foram feitos esforços hercúleos para apresentar uma fantasiosa
normalidade e doçura na vida sexual dos cativos no Brasil, que teriam tido
acesso a “famílias escravas” numerosas, semi ou mesmo estáveis, com papai,
mamãe e filhinhos, como manda o figurino.
<><> Voltando a Maceió
Em 1981, apenas se armava no horizonte o
confronto sem piedade que se abriria na Academia e fora dela entre os que
defendiam e os que impugnavam as reconstruções sobre o que definiríamos como
“escravidão feliz”, impugnadas por Décio, Clóvis e Jacob Gorender e outros
corajosos colegas, como o saudoso Théo Lobarinhas Piñeiro.
Eu, academicamente, segui interessado em
ampliar minha investigação sobre o escravismo colonial, que estendi, a seguir,
para melhor compreendê-lo, ao estudo das formas servis de submissão na África e
nas comunidades do litoral do Brasil, assim como às formações escravistas
greco-romanas. Luiz Mott, sem abandonar de todo seus antigos amores,
privilegiou acadêmica, política e socialmente a luta pela história e
organização do movimento homossexual no Brasil.
Em 1988, quando do I Centenário da Abolição
da Escravidão, dirigindo a coleção Malungo para a editora Ícone de São Paulo,
publiquei um livro de artigos de Luiz Mott intitulado Escravidão,
homossexualidade e demonologia, hoje quase uma raridade bibliográfica, vendidos
por preços elevadíssimos em livrarias virtuais. [MOTT, 1988.]
Em 1993, Luiz Mott publicaria seu maravilhoso
livro Rosa Egipcíaca: uma santa africana no Brasil, reeditado, em 2023, pela
Companhia das Letras. [MOTT, 1993.] Este texto volumoso, verdadeiramente
abençoado, foi escrito a partir de exaustiva investigação documental, por um
pesquisador seguro e infatigável, virtuoso na arte de escrever. O que não
explica totalmente a excelência do trabalho.
O livro não poderia ter sido escrito sem um
conhecimento exaustivo, por parte do autor, da religião, dos cultos, dos
santos, das orações e de toda uma imensa parafernália religiosa católica.
Informação quase esotérica que Luiz Mott dominou durante os seus anos de
seminarista e de quase sacerdote dominicano. Escolha da ordem que nos diz muito
sobre nosso Luiz Mott, a quem, acredito, horrorizaria, se prosseguisse na
vocação, tornar-se franciscano e sair pelo mundo de sandálias e hábitos rotos.
Em Rosa Egipcíaca, quanto à linguagem, Luiz
Mott seguiu a lição do mestre Gilberto Freyre, ao descrever a escravidão
nordestina, mas sem as licenças do pernambucano com a realidade histórica. O
longo texto se apresenta como descrição de inspiração barroca envolvente, em
uma narrativa quase romanesca, mas sempre fiel à reconstrução histórica. Rosa
Egipcíaca faz parte dos dez livros nacionais que quero que sejam enterrados
comigo, para o caso de haver vida após a morte.
Em 1981, no fim do I Simpósio sobre o
Quilombo de Palmares, ao nos despedirmos, ou, talvez, alguns anos mais tarde,
fizemos um acordo. Luiz Mott me mandaria artigos sobre a escravidão com que se
deparasse e eu, em troca, mandaria as notícias dos jornais regionais sobre
crimes homofóbicos, termo não usado naquele então, para a coleta nacional
empreendida pelo Grupo Gay da Bahia.
O pedido se justificava, de um lado e do
outro. Nos anos 1980, não tínhamos amplos noticiários televisivos, internet,
PDF, iPhone e a parafernália atual sem a qual acreditamos não poder viver. A
informaçãofluía com dificuldade, dependendo muito das relações interpessoais.
Para mim, o acordado não punha problemas nem me exigia trabalho.
Sobretudo em Porto Alegre, em inícios dos
anos 1990, pus-me à obra, com uma tesoura na mão. Eu era leitor obsessivo de
jornais. No Sul, lia diariamente o Correio do Povo, Zero Hora, Folha da Tarde e
o Jornal do Brasil, nos finais de semana, além de resumo, hebdomadário de Le
Monde francês, então um grande jornal, não o lixo atual.
Para cumprir o prometido, bastava ler as
páginas policiais que eu saltava habitualmente. E, ao começar a fazê-lo, minha
surpresa e, mesmo, horror foram imensos. Uma sucessão quase ininterrupta de
crimes e agressões homofóbicas, banalizados pela mídia relegados às notícias
criminais. Ataques gratuitos a homossexuais masculinos. Mortes de travestis, de
jovens, de adultos e de velhos senhores noticiados como “solteiros”, por michês
que matavam os clientes para roubá-los, por serem homossexuais, de os terem seduzido
e por aí vai.
Mandava para Luiz Mott os recortes sobre as
barbaridades noticiadas pela imprensa sulina. E, naqueles anos, os crimes de
sangue no Sul não eram habituais, já que o Estado não perdera ainda, de todo,
uma relativa civilidade construída sob os bons ventos econômicos e políticos da
República Velha positivista sul-rio-grandense. Civilidade que chegava, sempre,
em menor grau, quando se tratava de trabalhadores, de negros e de pardos
pobres, de marginalizados e, logicamente, de bichas.
Luiz Mott não me mandou muitos artigos e
documentos sobre a escravidão. Enviou-me poucos artigos sob a escravidão e o
endereço de sua irmã, Maria de Lúcia de Barros Mott, gentil historiadora e
feminista, que escrevera pioneiro artigo, em 1979, sobre as crianças negras
escravizadas durante o Império, que muito me serviu. [MOTT M.L., 1979.]
Em 1988, quando dos cem anos do fim da
escravidão, Maria de Lúcia lançou o livro Submissão e resistência: a mulher na
luta contra a escravidão. [MOTT M.L., 1988.] Encontrei-me com ela apenas uma ou
duas vezes e trocamos poucas cartas, antes de seu falecimento aos 62 anos.
Hoje, teria 77 anos.
<><> Arquivo morto
Recebi de Luiz Mott, de sua autoria, textos e
artigos brilhantes, militantes e sensíveis, alguns mimeografados, sobre a
homossexualidade masculina, os travestis, o lesbianismo etc. Se encontram,
hoje, meio perdidos na pasta “Grupo Gay da Bahia”, em meu “arquivo morto”, a
espera de organização.
Volta e meia, Luiz Mott e eu nos
encontrávamos em congressos. Florence, minha companheira, italiana nascida na
Bélgica, em família operária, se apaixonou pela educação e gentileza de Luiz
Mott, já que ainda não se habituara à rusticidade e prepotência da classe média
brasileira, fora as exceções de rigor.
Mantivemos contato por correspondência, como
se fazia naqueles anos em que não se conheciam as mensagens eletrônicas e as
chamadas interurbanas eram caríssimas. Nos últimos meses, ao organizar minha
correspondência, reli parte das, em alguns casos, longas, provocadoras e
delicadíssimas cartas de Luiz Mott.
Encerro essas minhas lembranças contando uma
segunda derrapagem minha com o querido amigo Luiz Mott. Um certo dia, recebi
correspondência do Grupo Gay da Bahia agradecendo pelos meus envios
sistemáticos de recortes de jornais sobre as violências homofóbicas sulinas.
Como outros correspondentes não haviam tido a minha assiduidade, anunciavam que
eu seria, caso aceitasse, declarado “amigo” – não sei se esse era o título – do
Grupo Gay da Bahia.
No dia seguinte, escrevi agradecendo e
renunciando à homenagem, sob alguma desculpa. Já via colegas maldosos, que
conheci às pencas em minha hoje longa vida acadêmica, propondo que eu
abandonara minha companheira e ingressara no Grupo Gay da Bahia. Meu comportamento
me enche, hoje, de vergonha. Sirvo-me deste texto em homenagem aos oitenta anos
pra lá de bem vividos do meu queridíssimo amigo para pedir perdão por essa
minha outra literal gaúchada!
Fonte: Por Mário Maestri, em A Terra é
Redonda

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