terça-feira, 15 de setembro de 2026

BRICS: 20 anos em prol da paz, do desenvolvimento e do futuro compartilhado

Reunidos em Nova Déli neste fim de semana, 12 e 13 de setembro, os líderes do bloco discutem como converter a crescente influência do Sul Global em capacidade efetiva de decisão, financiamento e coordenação internacional.

A 18ª Cúpula ocorre sob o tema “Construindo resiliência, inovação, cooperação e sustentabilidade”. Segundo a Declaração de Nova Déli, aprovada no sábado (12), os países reafirmaram o compromisso com uma ordem internacional mais representativa, a reforma do sistema multilateral e o aprofundamento das relações políticas, econômicas, financeiras e culturais.

A reunião também marca uma mudança de escala. Formado inicialmente por Brasil, Rússia, Índia e China, com a posterior entrada da África do Sul, o BRICS deixou de ser apenas um fórum de grandes economias emergentes e passou a reunir um conjunto mais amplo de países, interesses regionais e prioridades de desenvolvimento.

Essa ampliação trouxe maior peso econômico, demográfico, territorial, energético e diplomático. Ao mesmo tempo, aumentou a complexidade das negociações internas. O futuro do grupo dependerá, em larga medida, de sua capacidade de conciliar diferenças políticas sem deixar de proporcionar benefícios para todos os seus membros.

O próprio tema da reunião expressa uma necessidade concreta: criar instrumentos capazes de proteger os países em desenvolvimento contra crises, guerras comerciais, chantagens financeiras e interrupções deliberadas nas cadeias de suprimento.

O avanço do grupo demonstra que muitos países não aceitam mais escolher entre isolamento e submissão. Eles procuram diversificar parceiros, ampliar sua autonomia e participar da elaboração das regras que afetam suas economias, seus recursos naturais e suas populações.

<><> Do lado certo da história, Xi Jinping defende BRICS como eixo de reforma da ordem global

No discurso proferido durante a primeira sessão da 18ª Cúpula do BRICS, em Nova Déli, o presidente chinês propôs o BRICS como vanguarda em quatro áreas: desenvolvimento inovador, manutenção da paz e da estabilidade, aprendizagem mútua entre civilizações, bem como reforma e aperfeiçoamento da governança global.

Xi afirmou que os integrantes do grupo precisam permanecer do lado certo da história e conduzir o sistema internacional em direção a maior justiça e equidade. Ele também definiu o BRICS como a plataforma de cooperação mais influente entre mercados emergentes e países em desenvolvimento.

A formulação usada por Xi coloca o bloco diante de desafios que ultrapassam a coordenação econômica. Na visão apresentada pelo presidente chinês, o BRICS deve participar diretamente da reorganização das instituições internacionais, da construção de mecanismos de segurança e da definição de regras para tecnologias e espaços ainda pouco regulados.

Suas propostas apontam para a tentativa de consolidar o BRICS como um polo de articulação do Sul Global em um cenário marcado pela disputa entre grandes potências e pelo enfraquecimento dos consensos multilaterais.

Segundo o presidente chinês, o BRICS se consolidou como a plataforma mais influente do mundo para a cooperação entre mercados emergentes e países em desenvolvimento. Esta afirmação não constitui apenas um diagnóstico preciso da geopolítica atual, mas reflete uma jornada de duas décadas de sucessos expressivos.

O BRICS transformou-se em uma força geopolítica viva, demonstrando notável vitalidade e dinamismo. O acerto das teses de Xi Jinping reside na capacidade de alinhar as metas dos membros às aspirações de justiça e equidade de todo o Sul Global, estabelecendo um novo paradigma para a governança mundial.

<><> Duas décadas de solidariedade e resiliência

Os últimos 20 anos foram marcados por aquilo que o presidente Xi definiu como um período de autossuficiência, fortalecimento individual e união em todos os momentos, bons e ruins. Diante de severas crises globais — desde a instabilidade financeira e os impactos macroeconômicos da pandemia até os desafios urgentes das mudanças climáticas —, o BRICS manteve-se firme.

Essa resiliência decorre do respeito mútuo e do incentivo para que cada nação explore caminhos de desenvolvimento adequados às suas próprias condições nacionais. O bloco passou por uma expansão histórica, estruturou mecanismos abrangentes de cooperação multilateral e inaugurou uma nova etapa de desenvolvimento de alta qualidade. Em um mundo onde o Sul Global se fortalece rapidamente e a marcha em direção à multipolaridade é imparável, o BRICS ergue-se como um bastião de estabilidade.

Uma das propostas mais lúcidas de Xi Jinping estabelece que o BRICS deve ser o pioneiro no avanço do desenvolvimento impulsionado pela inovação. Em uma era de transformação acelerada, assumir a iniciativa tecnológica não é uma opção, mas uma necessidade soberana.

A China, estando na vanguarda da revolução digital, apresentou propostas concretas para o bloco: fortalecimento da cooperação em Inteligência Artificial (IA), incentivando o desenvolvimento de código aberto, a abertura e o compartilhamento de dados e tecnologias; criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, um convite aberto à participação ativa de todos os membros do grupo; iniciativa para promover a nova industrialização por meio da IA, visando estreitar os laços nas cadeias industriais e de suprimentos globais.

Essa abordagem chinesa contrasta com o isolacionismo tecnológico de certas potências ocidentais. O foco de Beijing é a democratização do conhecimento e a aplicação prática da tecnologia para solucionar problemas reais de desenvolvimento.

<><> Defesa inabalável da paz e da segurança coletiva

Enquanto correntes contrárias de unilateralismo, protecionismo e jogos de poder de soma zero ganham força, a China propõe que o BRICS seja o pioneiro na promoção da paz e da estabilidade. Xi Jinping instou o grupo a rejeitar firmemente a mentalidade da Guerra Fria, o confronto entre blocos e qualquer forma de interferência nos assuntos internos ou violação da soberania de outros Estados.

O acerto dessa visão reside em combater tanto os sintomas quanto as causas profundas dos conflitos. O compromisso explícito da China em trabalhar com os demais membros para desempenhar um papel fundamental na promoção da paz e da tranquilidade em regiões historicamente tensionadas, como o Oriente Médio e a região do Golfo, demonstra o peso diplomático que o BRICS adquiriu. O bloco não é apenas uma aliança econômica; é uma força geopolítica construtiva voltada para a paz, o desenvolvimento compartilhado, a nova governança global e o multilateralismo.

O déficit em paz, desenvolvimento, segurança e governança exige respostas firmes. Por isso, Xi Jinping conclamou o BRICS a liderar a reforma e o aprimoramento da governança global. A proposta chinesa defende de forma inequívoca a autoridade das Nações Unidas e a democratização das relações internacionais; um sistema multilateral de comércio, com rejeição absoluta ao protecionismo; a liderança na governança de domínios emergentes, como o ciberespaço, o espaço sideral e as profundezas do oceano.

Ao amplificar a voz do Sul Global nesses fóruns, o BRICS conduz a ordem internacional rumo a uma maior justiça e equidade, posicionando-se firmemente do lado certo da história.

¨      Rumo à terceira “Década de Ouro”

Ao longo de uma jornada extraordinária de duas décadas, a solidariedade permaneceu como a grande força motriz dos BRICS. A exortação de Xi Jinping para que os membros se mantenham sinceros, busquem pontos em comum respeitando as diferenças e lidem adequadamente com as divergências através do diálogo é o bom caminho para consolidar a confiança mútua.

Com o anúncio de que a China assumirá a presidência rotativa do BRICS e sediará a próxima cúpula, após as cúpulas do Brasil (2025) e da Índia (2026), abre-se uma perspectiva promissora.

Com as propostas de Xi Jinping e o peso político e econômico da China, o grupo se capacita a construir novos consensos e embarcar em sua terceira “década de ouro”.

Justificam-se, portanto, as expectativas positivas no mundo quanto ao futuro compartilhado, em que a prosperidade e o progresso não sejam privilégios de poucos, mas um direito de todos os povos.

¨      China pede que Sul Global enfrente ameaças à segurança

A China pede aos países do Sul Global que enfrentem conjuntamente as ameaças tradicionais e não tradicionais à segurança, afirmou o presidente chinês Xi Jinping durante a sessão do BRICS+ neste domingo (13), em Nova Déli.

“É necessário promover conjuntamente a governança da segurança e enfrentar coletivamente tanto as ameaças tradicionais quanto as não tradicionais à segurança”, afirmou Xi Jinping, conforme as declarações divulgadas pela China Central Television.

Durante a sessão, Xi também afirmou que o Sul Global deve defender conjuntamente a ordem jurídica internacional.

“Os países do Sul Global precisam defender conjuntamente a ordem jurídica internacional e respeitar princípios fundamentais das relações internacionais, como igualdade soberana, não interferência nos assuntos internos e resolução pacífica de disputas”, afirmou.

<><> Cinco iniciativas

O presidente da China apresentou cinco iniciativas para aprofundar a cooperação em inteligência artificial (IA), comércio e investimentos, economia digital, manufatura inteligente e formação de profissionais científicos e técnicos.

A primeira iniciativa trata de uma IA aberta e acessível. Xi afirmou que a China pretende construir uma plataforma aberta de IA para os países-membros, apoiar a cooperação no desenvolvimento de grandes modelos de linguagem e promover um ecossistema aberto de IA.

A segunda iniciativa busca facilitar o comércio e os investimentos.

“A China propõe construir uma parceria do BRICS em zonas econômicas especiais, lançar um portal inteligente e coordenar políticas relevantes”, afirmou Xi Jinping.

Xi também apresentou uma iniciativa de cooperação nas indústrias digitais. Ele afirmou que a China promoverá a criação de uma plataforma em nuvem para a indústria digital destinada aos países parceiros, além de organizar treinamentos em habilidades digitais, intercâmbios técnicos e interações empresariais.

A quarta iniciativa é voltada à cooperação em manufatura inteligente.

“A China está pronta para ajudar os países do BRICS a construir fábricas inteligentes e desenvolver um sistema de padrões e normas”, afirmou o presidente.

A quinta iniciativa trata do desenvolvimento de profissionais das áreas científica e de engenharia. Xi propôs a criação de uma aliança de formação para engenheiros, a realização de treinamentos conjuntos, o estabelecimento de reconhecimento mútuo de padrões de qualificação e o lançamento de um programa de intercâmbio de jovens com foco em ciência e inovação.

<><> Segurança financeira

Xi Jinping pediu aos países do Sul Global que reformem e aprimorem a arquitetura financeira internacional.

“Os países do Sul Global precisam […] reformar e aprimorar a arquitetura financeira internacional”, afirmou Xi.

Durante a sessão, Xi também pediu a aceleração da criação de um sistema global de governança da inteligência artificial baseado em amplo consenso internacional.

“[É necessário] acelerar a formação de um sistema de governança da inteligência artificial acordado globalmente e garantir que as novas tecnologias iluminem o caminho para a prosperidade compartilhada”, afirmou o presidente chinês.

<><> Nova Presidência Chinesa do BRICS

A cúpula do BRICS foi realizada em Nova Déli nos dias 12 e 13 de setembro.

A 18ª Cúpula do BRICS foi realizada em Nova Déli nos dias 12 e 13 de setembro, sob a presidência da Índia. Após o encontro, os líderes adotaram a Declaração de Nova Déli, que estabelece as diretrizes para a futura cooperação entre os países-membros.

O BRICS é uma associação intergovernamental criada em 2006 por Brasil, Rússia, Índia e China, com a entrada da África do Sul em 2011. Vários outros países ingressaram no BRICS desde 2024. A Índia exerce a presidência rotativa do BRICS neste ano. A 19ª Cúpula do BRICS acontecerá na China em 2027.

¨      BRICS participa ativamente da construção de uma ordem mundial mais justa e multipolar, diz Putin

Os países do BRICS participam ativamente da construção de uma ordem mundial mais justa e multipolar, afirmou neste domingo (13) o presidente russo Vladimir Putin.

“Hoje, o BRICS é uma poderosa força motriz por trás do fortalecimento das relações internacionais e do verdadeiro multilateralismo, e participa ativamente do processo de construção de uma nova ordem mundial mais justa e multipolar”, afirmou Putin durante a sessão do BRICS+ realizada no âmbito da Cúpula do BRICS em Nova Déli, conforme as declarações divulgadas pela agência Sputnik.

O BRICS defende que todos os países tenham oportunidades iguais e irrestritas de crescimento econômico e social, preservando suas culturas e tradições nacionais únicas, afirmou Putin.

“A associação BRICS sempre defendeu e continua defendendo que todos os países, sem exceção, tenham oportunidades iguais e irrestritas para um crescimento econômico e social estável e equilibrado e para garantir o bem-estar de suas populações, preservando simultaneamente suas culturas e tradições nacionais únicas e seguindo seus próprios modelos soberanos de desenvolvimento”, afirmou Putin durante a sessão do BRICS+, realizada no âmbito da cúpula.

¨      Presidente da Indonésia diz que país não se submeterá às imposições das potências mundiais

A Indonésia não quer se submeter às imposições de uma ou duas potências mundiais e defende o fortalecimento da independência dos países em desenvolvimento, afirmou neste domingo (13) o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto.

“Não gostamos de receber ordens de uma ou duas potências. Precisamos ser resilientes e, então, nos tornaremos realmente independentes”, afirmou Prabowo Subianto durante uma sessão da Cúpula do BRICS+ em Nova Déli, conforme as declarações divulgadas pela agência Sputnik.

A base da independência é a capacidade do Estado de garantir as necessidades básicas da população, incluindo alimentação, energia, educação e oportunidades para melhorar o bem-estar, observou.

Prabowo Subianto pediu aos participantes do BRICS que unam suas capacidades nacionais para fortalecer a segurança alimentar e energética. O presidente destacou que os países da associação representam cerca de metade da humanidade e que cada um deles possui suas próprias forças.

O presidente indonésio defendeu o fortalecimento do papel do Sul Global na formação da ordem internacional e a criação de um sistema multilateral que leve em consideração os interesses tanto dos Estados fortes quanto dos mais vulneráveis.

¨      Presidente do Egito diz que país está pronto para aproveitar seu potencial em projetos conjuntos do BRICS

O Egito está pronto para aproveitar seu potencial e sua localização estratégica privilegiada para lançar projetos conjuntos com os países do BRICS nas áreas de energia, alimentação, transporte, tecnologia e investimentos, afirmou neste domingo (13) o presidente egípcio, Abdel Fattah Sisi.

“O Egito reafirma sua disposição de continuar trabalhando com os membros e parceiros do BRICS, bem como de utilizar seu potencial e sua posição estratégica para ampliar a cooperação em energia, alimentos, transporte e logística, tecnologia e investimentos”, afirmou Sisi durante a sessão da Cúpula do BRICS+ em Nova Déli, conforme as declarações divulgadas pela agência Sputnik.

Sisi pediu aos países do BRICS que passem do alinhamento de prioridades comuns para a implementação de projetos concretos.

“O sucesso de nossa parceria não se limita à definição de prioridades, mas exige a implementação de projetos e investimentos específicos”, afirmou.

O BRICS é uma associação intergovernamental criada em 2006 por Brasil, Rússia, Índia e China, com a entrada da África do Sul em 2011. Vários outros países ingressaram no BRICS desde 2024. A Índia exerceu a presidência rotativa do BRICS neste ano.

 

Fonte: Por José Reinaldo Carvalho, em Brasil 247

 

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