STF não decide sobre Alexandre de Moraes e
crise se prolonga
A crise inédita do
Supremo Tribunal Federal (STF) persiste, sem qualquer sinal de solução à vista,
a menos de três semanas das eleições nacionais.
A
sessão histórica realizada nesta terça-feira (15/9) para deliberar sobre a
possível abertura de uma investigação sobre a relação do ministro Alexandre de
Moraes e do banqueiro Daniel Vorcaro foi suspensa por pedido de vista (mais
tempo para analisar o caso) do ministro Flávio Dino, sem que a
Corte começasse a analisar a questão principal.
Os debates foram
marcados por bate-bocas entre os ministros e a falta de
definições.
Na
visão do criminalista João Pedro Pádua (UFF), a suspensão do julgamento deixou
a Corte em situação ainda mais frágil.
"Ficar
sem decisão me parece, institucionalmente, o pior dos mundos", disse.
Professora
de Direito Constitucional da PUC-SP, Gabriela Zancaner diz que o saldo da
sessão é "muito negativo" para o STF e lamentou "os bate-bocas
desnecessários" entre os ministros.
"Eu
acho que, politicamente, vai demorar muito tempo para o Supremo Tribunal
efetivamente se recuperar de tudo isso. Nós vamos ter que enfrentar reformas
políticas no Supremo Tribunal Federal porque a situação não vai se contornar de
maneira fácil depois do que a gente viu hoje."
A
sessão foi tomada por uma longa discussão sobre uma questão de ordem levantada
pelo ministro Gilmar Mendes sobre como o julgamento deveria ser conduzido.
O
decano da Corte questionou a decisão do Fachin de se autointitular relator da
petição que trata das suspeitas contra Moraes, caso que originalmente estava no
gabinete de André Mendonça.
Então,
Mendes defendeu que esse caso deveria ser unificado com outra petição, que
trata das acusações de atuação ilegal de Mendonça como relator do caso Banco
Master, e depois ser sorteado livremente entre os demais ministros do STF para
definição de um novo relator.
Com
isso, os dois casos seriam julgados conjuntamente, numa outra sessão, defendeu.
Além disso, a proposta de Mendes indicava que todos os magistrados citados como
possíveis beneficiários de pagamento no caso Master teriam também que ser
incluídos nesse caso para futura análise do STF.
O
pedido apresentado por Gilmar foi elaborado com Dino — durante o julgamento, os
dois se revezaram com Moraes nas críticas a uma suposta atuação seletiva de
André Mendonça.
Na
visão dos três, o relator do caso Master ignorou menções a outros ministros do
STF no material levantado nas investigações sobre a fraude bancária e focou em
Moraes, visando impactos eleitorais.
Mendonça
chamou as acusações de levianas e negou qualquer motivação eleitoral. Foi ele,
como relator do caso Master, que solicitou à Polícia Federal, no final de
agosto, um relatório que identificou Moraes como destinatário de mensagens
suspeitas enviadas por Vorcaro, banqueiro que está preso e é suspeito de
fraudes bilionárias.
Depois,
ele encaminhou o relatório a Fachin, solicitando a convocação do plenário para
deliberar o caso.
Ao
rebater as críticas, Mendonça disse que apenas solicitou que a PF identificasse
o remetente de mensagens suspeitas de Vorcaro, sem mirar Moraes
especificamente.
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Ataques abertos entre ministros
O
placar sobre a questão de ordem levantada por Gilmar caminhava para terminar
empatado. Estavam a favor da proposta, além do decano, Dino, Moraes e Cristiano
Zanin.
Por
outro lado, ficaram contra os ministros Fachin, Mendonça, Luiz Fux e Cármen
Lúcia, enquanto Nunes Marques e Dias Toffoli não participaram porque se
declararam impedidos (mais informações ao longo da reportagem).
Ainda
antes, porém, de Fux e Cármen Lúcia proferirem seus votos, Dino pediu vista
após mais uma intensa discussão em que Mendes acusou Mendonça de
"desfaçatez" e o chamou de "sujeito, investido de um sentimento
policialesco, junto com seus delegados".
"Desfaçatez
de vossa excelência", gritou André Mendonça em resposta.
Dino,
então, disse que pediria vistas e criticou Fachin por não conseguir, na sua
visão, conduzir adequadamente os trabalhos da Corte. Segundo ele, não seria
correto continuar com esse julgamento por dias, às vésperas das eleições
nacionais, marcadas para outubro.
Agora,
Dino tem até 90 dias para liberar o caso para análise do plenário — a data
exata será marcada por Fachin.
"Eu
tenho que interromper esta situação porque nós temos uma questão de ordem. Nós
não temos condições de deliberar. O clima é daí para pior, e a sociedade está
assistindo a algo diferente do rito que a lei manda", disse Dino, ao pedir
vista.
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Placar caminha para empate e indefinição
O
desfecho do julgamento acabou deixando muitas questões em aberto.
Não
está claro, por exemplo, se o plenário julgará no dia 23 as acusações
levantadas por Moraes contra Mendonça por supostos abusos na condução dos
inquéritos que apuram fraudes bilionárias no Banco Master e no INSS. Por
enquanto, o caso continua na pauta.
Além
disso, também há dúvidas sobre o que acontecerá com a questão de ordem que
tenta unificar os dois casos, se o placar realmente acabar empatado.
Mas,
para professores de direito ouvidos pela reportagem, Fachin, como presidente da
Corte, poderá desempatar o placar quando o julgamento for retomado.
Antes
da sessão, Nunes Marques era visto como um ministro que tenderia a votar ao
lado de Mendonça, contra o grupo de Moraes. Caso isso se confirmasse, evitaria
o empate.
Horas
antes do início do julgamento, porém, veículos de imprensa noticiaram mensagens
vazadas do celular apreendido de Vorcaro que indicariam que o advogado Kevin
Marques, filho do ministro, teria recebido pagamentos do Master.
Nunes
Marques negou qualquer ilegalidade por parte do filho, mas disse que não
participaria do julgamento por ser, atualmente, presidente do Tribunal Superior
Eleitoral (TSE).
"Na
condição de presidente do TSE, eu não me sinto confortável para participar
desse julgamento e afirmo o meu impedimento", disse.
O
ministro afirmou que sua missão de "assegurar o equilíbrio nas eleições de
2026" é, neste momento, mais importante do que seu papel neste julgamento.
Dias
Toffoli também se declarou impedido, mas acompanhou toda a sessão
presencialmente.
A
posição era esperada, já que ele havia se declarado suspeito para julgar o caso
Master, após o desgaste causado pela revelação de que ele teria vendido a parte
que detinha em um resort no Paraná para um fundo ligado ao banco.
Ao
final do julgamento, Dino, Moraes, Gilmar e Toffoli saíram primeiro do plenário
juntos e conversando, enquanto Mendonça aguardou para deixar o local depois e
saiu sem conversar com os demais ministros, cabisbaixo.
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Cármen Lúcia pede desculpas à população
A
sessão do STF foi realizada após duas semanas de uma guerra de decisões e
ofícios entre ministros, que envolveu a retirada do sigilo de grandes
investigações e até mesmo a remoção e a recondução do diretor-geral da Polícia
Federal, Andrei Rodrigues, ao cargo.
Última
a votar, Cármen Lúcia fez um discurso pedindo desculpas por não ter ajudado a
acalmar os ânimos de colegas.
A
ministra manteve uma postura contida em todo o julgamento e assistiu às brigas
entre os colegas muitas vezes com as mãos sobre o rosto, incrédula. Ela disse
estar "muito triste" com todo o desgaste do STF.
"Se,
como juíza desta Casa, devesse ter me conduzido com uma postura diferente, para
ter ajudado para evitar isso, estou pedindo desculpas a vossa excelência e a
todos os colegas por não ter ajudado a que a gente ter superado isso",
disse.
"Peço
desculpas ao povo brasileiro por talvez ter esperado de mim uma postura
diferente. Mas acho que todos aqui queriam a mesma coisa: tentar resolver. E as
questões não foram resolvidas", continuou.
"Houve
uma espetacularização desses casos e dessa sessão mesmo, que não faz mal apenas
ao Supremo e ao Judiciário, mas ao país. O país espera de nós uma tranquilidade
que não conseguimos dar."
Um dos
embates marcantes da sessão ocorreu quando Moraes disse que teria testemunhas
contra Mendonça, que atestariam que o ministro tentou conduzir acordos de
delação do caso Master para incluir acusações contra ele.
"Mentira,
mentira", rebateu Mendonça.
Em
outro momento, Gilmar acusou o colega de agir de maneira
"político-eleitoral" ao pedir à PF que identificasse mensagens no
âmbito do caso Master, que investiga fraudes no sistema financeiro.
"Evidente
condução político-eleitoral", disse Gilmar, com o dedo levantado.
"Isso não se faz. Pessoas decentes não fazem isso".
"Não
aponte o dedo para mim. Não está falando com qualquer um", disse então
Mendonça. "Respeite este tribunal."
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O que é pedido de vista e o que acontece agora no caso
Alexandre de Moraes?
O
ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), pediu vista na sessão
plenária desta terça-feira (15/09), que avalia se o ministro Alexandre de
Moraes será investigado por sua relação com Daniel Vorcaro, dono do Banco
Master.
Um
pedido de vista ocorre quando um ministro pede mais tempo para analisar o caso
antes de votar. Com isso, o julgamento fica suspenso.
Atualmente,
pelas regras internas do STF, um ministro tem no máximo 90 dias corridos para
usar seu pedido de vista — mas a devolução do caso pode ocorrer antes, se o
ministro assim decidir.
Esse
prazo começa a contar da data de publicação da ata do julgamento.
Caso os
90 dias transcorram sem uma devolução feita pelo ministro, o julgamento fica
liberado automaticamente.
Mas,
após a devolução do pedido de vista, cabe ao presidente do plenário — ou da
Primeira ou Segunda Turma, caso o julgamento esteja acontecendo em alguma delas
— colocar o julgamento na pauta de alguma data.
Ou
seja, quando Dino devolver o pedido de vista, caberá ao presidente do STF,
Edson Fachin, colocar o tema para julgamento novamente.
Dino
fez o pedido de vista após um bate-boca entre ministros e chamou a sessão desta
terça-feira de "desastrada". Sua solicitação se refere à petição
16662, que trata das supostas conversas entre Moraes e Vorcaro.
Em
dezembro de 2022, o STF decidiu impor um limite para a devolução do pedido de
vista. Antes disso, não havia prazo, o que gerava críticas de analistas por esse
tipo de solicitação "travar" por tempo indeterminado julgamentos
importantes.
Entenda
abaixo outros termos mencionados na sessão desta terça-feira.
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Loman
"Loman"
é uma sigla para Lei Orgânica da Magistratura Nacional.
Essa
lei estipula regras sobre a atuação de juízes, incluindo trechos específicos
sobre os ministros do STF.
A Loman
foi citada em diversas ocasiões em meio à crise que vive o STF atualmente, sob
a sombra do caso Master.
Quando pediu a
anulação do relatório da Polícia Federal (PF) solicitado pelo ministro André
Mendonça e que trouxe acusações contra Alexandre de Moraes, o
procurador-geral da República, Paulo Gonet, citou o artigo 33 da Loman.
Esse
artigo afirma que, quando houver indício de crime cometido por um magistrado, a
polícia deve remeter os autos ao tribunal ou órgão competente para o
julgamento.
Segundo
Gonet, considerando também a Constituição Federal e o regimento interno do STF,
essa competência seria do plenário da Corte, composto por todos os seus
ministros.
Por
isso, para o procurador-geral, Mendonça teria errado ao determinar a
investigação de outro integrante da Corte sem levar essa questão a plenário.
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PET
"PET"
nada mais é do que a sigla para petição, uma classe processual — ou seja, um
tipo de processo judicial.
São
exemplos de classes processuais também a Ação Direta de Inconstitucionalidade
(ADI) e a Ação Penal (AP).
As
petições são um tipo de solitação mais genérica no STF que não têm relação com
ações em andamento. Ou seja, é um enquadramento mais versátil para pedidos que
não se enquadram em classes processuais mais específicas.
Na
crise atual do STF, há várias PETs importantes, como a 16662, que trata da
suposta relação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro; e a 16704, que
trata das acusações de Alexandre de Moraes contra André Mendonça.
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Questão de ordem
A
questão de ordem é apresentada por algum ministro da Corte para discutir a
própria condução dos trabalhos por um colegiado — ou seja, um grupo composto
por vários ministros, como são as Turmas e o plenário —, e não o tema do
processo em si.
Ou
seja, a questão de ordem visa esclarecer algum ponto sobre o rito processual ou
propor algo para ele.
Por
exemplo, nesta terça-feira, os ministros avaliaram uma questão de ordem
apresentada por Gilmar Mendes, que propôs juntar as análises das acusações
contra Moraes com aquelas contra Mendonça.
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Sessão extraordinária
As
sessões extraordinárias do plenário são reuniões convocadas fora dos dias e
horários em que normalmente ocorrem — nas tardes de quarta e quinta-feira —
para a apreciação de temas urgentes ou de grande volume processual.
Foi o
caso da sessão desta terça-feira, um dia atípico para os ministros da Corte se
reunirem em plenário. Também está prevista uma sessão plenária em 23 de
setembro, uma quarta-feira, para se analisar acusações contra André Mendonça.
Fonte: BBC News Brasil

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