'Consequências imprevisíveis' para eleição:
como imprensa internacional noticiou sessão tumultuada do STF
A sessão
extraordinária do Supremo Tribunal Federal (STF) de terça-feira
(15/09) que analisou a situação do ministro Alexandre de Moraes foi destaque na
imprensa internacional. A sessão terminou sem
deliberação sobre Moraes.
O
jornal britânico The Guardian destacou o caso em uma reportagem intitulada
"Conflito
feroz irrompe no Supremo Tribunal do Brasil às vésperas da
eleição presidencial".
"A
Suprema Corte do Brasil foi lançada no que especialistas consideram a maior
crise desde o retorno da democracia, na década de 1980, à medida que dois
magistrados rivais entram em confronto às vésperas da eleição presidencial, com
consequências imprevisíveis para a maior democracia da América Latina",
afirma o Guardian.
O
jornal britânico afirma que a disputa "de forte teor político" veio à
tona na sessão "transmitida ao vivo para milhões de lares
brasileiros".
"O
embate judicial — que, em muitos aspectos, reflete a disputa eleitoral entre o
presidente de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, e seu rival de
extrema-direita, Flávio Bolsonaro — coloca frente a frente Moraes, um
praticante de artes marciais de cabeça raspada e temperamento combativo, e
Mendonça, pastor presbiteriano e o único membro abertamente evangélico da
corte."
No Agregador de
Pesquisas da BBC News Brasil, Flávio Bolsonaro e Lula aparecem
empatados nas simulações sobre segundo turno.
O
jornal destaca que Moraes foi indicado pelo ex-presidente Michel Temer para a
vaga no STF, mas diz que ele é "amplamente associado" a Lula devido à
sua "atuação bem-sucedida na acusação contra o pai de Flávio Bolsonaro, o
ex-presidente Jair Bolsonaro, por tramar um golpe fracassado após perder a
eleição de 2022 para o veterano de esquerda".
Agora,
faltando menos de três semanas para o pleito, Moraes e Mendonça "entraram
em guerra" e o escândalo do Banco de Master ganhou "proporções
chocantes".
"A
crise parece propensa a prejudicar as chances de Lula conquistar um quarto
mandato histórico, dada a associação generalizada que o público faz entre ele e
Moraes, em razão do envolvimento do magistrado na prisão de Jair
Bolsonaro", afirma a reportagem do Guardian.
O
jornal espanhol El País noticiou que a sessão extraordinária de terça ficará
marcada "pelos insultos e ofensas trocados entre seus ministros".
"A
audiência foi suspensa sem que os juízes sequer abordassem a espinhosa questão
da análise das acusações de corrupção contra um de seus colegas e decidissem se
abririam um inquérito", afirma o El País.
"As
expectativas eram altas porque o tribunal, em seus 135 anos de história, nunca
havia investigado um de seus próprios membros, e porque o Brasil realizará
eleições altamente disputadas em menos de três semanas."
O
jornal espanhol também disse que "qualquer pessoa que quisesse podia
acompanhar o processo ao vivo, pois o Supremo Tribunal Federal do Brasil, um
dos tribunais mais transparentes do mundo, transmite suas sessões pelo
YouTube".
O El
País também afirma na sua reportagem que as consequências do escândalo Master
na eleição de 4 de outubro "permanecem incertas".
"Oitenta
e cinco por cento dos eleitores afirmam que, independentemente do que aconteça
com o escândalo, isso não mudará seu voto", diz o El País.
"O
problema é que as pesquisas mostram uma disputa tão acirrada que, salvo alguma
surpresa, os votos de uma pequena fração do eleitorado seriam suficientes para
dar a vitória ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou ao senador [Flávio]
Bolsonaro."
O
jornal Washington Post publicou em seu site uma notícia da agência de notícias
Associated Press que afirma que o STF adiou a decisão sobre Moraes a poucos
dias da eleição.
"O
Supremo Tribunal Federal do Brasil suspendeu nesta terça-feira as deliberações
em um caso envolvendo um de seus ministros, que está agitando o período que
antecede as eleições presidenciais do país, em outubro", afirma o texto,
sugerindo que uma decisão sobre Moraes poderá ser tomada só em dezembro.
"Isso
adiaria a decisão para muito depois da eleição, na qual o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente,
despontam como os candidatos mais competitivos", diz.
"Os
dois ministros do Supremo Tribunal Federal [Moraes e Mendonça], no centro de
uma crise sem precedentes na mais alta corte do país, são vistos como estando
em extremos opostos do espectro político polarizado do Brasil."
A
agência de notícias para o mercado financeiro Bloomberg noticiou o caso em uma
reportagem intitulada: "Supremo Tribunal do Brasil adia decisão sobre
Moraes e lança incerteza sobre a eleição".
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Como Flávio Dino 'sequestrou o debate' em sessão do
Supremo que acabou sem decisão
O julgamento
de terça-feira (15/9) no Supremo
Tribunal Federal (STF) foi suspenso sem que nenhuma decisão
fosse tomada pelos ministros da Corte.
A
sessão foi convocada pelo presidente, ministro Edson Fachin, para análise da
petição 16.662, sobre o relatório da Polícia Federal (PF), no âmbito do Caso Master, relacionado
ao ministro Alexandre de Moraes.
Mas o
plenário não chegou a analisar a petição. Passaram o dia debatendo uma questão
de ordem apresentada pelo ministro Gilmar Mendes por sugestão de Flávio Dino.
A
proposta era unificar o julgamento de terça com o que está marcado para a
quarta-feira (23/9), sobre a petição 16.704, baseada em relatório de
inteligência da PF que sugere irregularidades na condução do caso Master pelo
relator, ministro André Mendonça.
O
ministro Flávio Dino pediu vista, interrompendo o julgamento que ainda não tem
data para voltar.
Mas o
pedido de vista, que ocorre quando se precisa de mais tempo para analisar a
questão, ocorreu porque, segundo Dino, Fachin não tomou"providências"
pela ordem no tribunal.
"Ministro
Fachin, com todo o respeito, se vossa excelência não toma providência, eu vou
pedir vista", afirmou. "O poder de polícia da sessão compete à vossa
excelência."
A
intervenção de Dino ocorreu durante uma discussão iniciada por Gilmar Mendes,
que interrompeu Mendonça, enquanto ele respondia ao agradecimento de Paulo
Gonet pela confiança na PGR.
"Só
para fazer então referência ao doutor Paulo, eu tento ser justo. Ninguém
gostaria de estar aqui. Estamos aqui por dever de ofício e a gente pode até
avaliar se não deveria ter feito isso, talvez hoje, conhecendo os
fatos...", dizia Mendonça.
"É
impressionante a desfaçatez desse sujeito", interrompeu Mendes. O tom da
discussão subiu e o presidente da corte não conseguiu arrefecer os ânimos.
Dino
então disse que tomaria uma providência e pediu vista.
"Vossa
excelência está assistindo a isso há horas e está transformando o Supremo nas
próximas semanas, quiçá meses, neste debate. Se vossa excelência vai assistir a
isso, eu não vou. Porque eu sou funcionário público deste país e tenho respeito
a ele", disse Dino. "Eu tenho que interromper essa situação."
O
presidente da corte não reagiu. Dino seguiu, chamou a sessão de
"desastrada" e disse que Fachin estava condenado a marcar
"dezenas de outras sessões" como a desta terça.
"E
por que, ministro Flávio?", questionou Fachin.
"Presidente....As
mensagens do ministro Fux, as mensagens do ministro Kássio, as mensagens
relativas ao ministro André... Nós vamos parar onde? Eu imaginava que vossa
excelência tinha pensado nisso", disse Dino, o que poderia ser
interpretado como relacionar os ministros a possíveis mensagens trocadas com o
banqueiro Daniel Vorcaro.
"Mensagem
comigo não tem. Nunca vi esse cidadão na minha vida. Nunca tive relação com
ele. Só se você está se baseando nesses inquéritos que surgem do nada",
interrompeu Fux.
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'Escrutínio da atuação de Fachin'
O
pedido de vista de Dino foi determinante para a sessão acabar sem nenhuma
conclusão, mas não foi o único momento do dia em que ele "sequestrou"
o debate na corte, como avalia Ana Laura Barbosa, professora de Direito da
FGV-SP e do Insper.
"E
eu não acho necessariamente que reconhecer uma conexão entre essas ações [as
petições de Mendonça e de Moraes] justificaria que elas fossem julgadas
conjuntamente. Ainda assim, fato é que esse argumento foi o que justificou o
questionamento do ministro Flávio Dino, que praticamente sequestrou o debate do
tribunal", diz ela.
Para a
professora, o julgamento deixou de ser sobre a anulação ou
não do relatório da PF que liga Moraes a Vorcaro — "que
era a questão central" — para se tornar uma análise sobre Fachin.
"Tornou-se,
me parece, mais um escrutínio da atuação do ministro Fachin, por via de questão
de ordem, do que propriamente um escrutínio da questão que era central na
deliberação que tinha sido agendada para hoje."
Ao
longo da sessão, que durou o dia inteiro, Dino discutiu com o presidente da
corte e reclamou da falta de rito do julgamento: "É escolhido caso a caso.
Cada um vai ao supermercado e escolhe o rito", disse, ao defender que
fosse estabelecido um único rito para os dois julgamentos, tanto o que envolve
Moraes, quanto o que envolve Mendonça.
Ele
também sugeriu que a corte encaminhasse ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva
(PT) e ao ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, uma manifestação
sobre ameaças de novas sanções americanas a ministros do tribunal.
Ele leu
manchetes de reportagens publicadas durante a sessão na corte sobre possíveis
novas punições dos Estados Unidos a Alexandre de Moraes.
Moraes
foi incluído em julho do ano passado pelos Estados Unidos na lista de
estrangeiros punidos com a Lei Global Magnitsky. As punições incluem o bloqueio
de bens e contas no país, além da proibição de entrada em território americano.
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'Momento mais corrupto da história'
Dino
classificou o momento em que o Brasil vive como o "mais corrupto da
história" do Judiciário brasileiro. Ele disse isso quando defendeu que
presidentes dos tribunais não podem retirar processos dos relatores sorteados,
criticando a decisão de Fachin.
Para
João Pedro Pádua, professor de Direito da Universidade Federal Fluminense
(UFF), as personalidades quase opostas de Dino e Fachin dão espaço para que
Dino se sobressaia, ao menos nas sessões televisionadas.
"O
ministro Edson Fachin é um ministro mais introvertido", diz. "Ele era
um professor de carreira, advogava em questões muito mais complexas e técnicas.
Então ele tem um perfil claramente muito menos expansivo", afirma.
Já
Dino, segundo Pádua, é quase uma antítese disso.
"O
ministro Flávio Dino foi governador de Estado, foi senador durante muitos
mandatos. Ele tem uma característica de embate político. Não quer dizer que ele
seja um melhor juiz do que Fachin, mas quando você o vê em sessão pública ao
vivo, parece que ele se sobressai muito mais, porque ele está na arena que lhe
favorece."
Para
Renan Melo, professor de Direito do Mackenzie, Dino teve protagonismo no
julgamento desta terça por ter mostrado "certa robustez ao contrapor o
presidente da Corte".
"Ele
foi bastante firme, desde o início, ao questionar a autorização da presidência
para fazer apartes, ao suscitar a questão de ordem, ao pedir a palavra muitas
vezes... de fato foi uma atuação bastante expansiva do ministro Flávio
Dino."
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Questões em aberto
A
questão de ordem votada na terça também propôs o sorteio de novo relator para o
Caso Master, cujo relator era Mendonça, mas hoje está sob a relatoria do
ministro Fachin.
Também
pediu a identificação e a certificação, nos autos, de todos os magistrados
mencionados nas investigações relacionadas ao Banco Master que apresentem
indícios de recebimento indevido de valores do banco.
Fachin,
Cármen Lúcia, Luiz Fux e Mendonça rejeitaram a questão de ordem. Cristiano
Zanin e Alexandre de Moraes votaram com Gilmar Mendes, pela unificação dos
julgamentos.
O
desfecho do julgamento deixou muitas questões em aberto.
Não
está claro, por exemplo, se o plenário julgará no dia 23 as acusações
levantadas por Moraes contra Mendonça por supostos abusos na condução dos
inquéritos que apuram fraudes bilionárias no Banco Master e no INSS. Por
enquanto, o caso continua na pauta.
Além
disso, também há dúvidas sobre o que acontecerá com a questão de ordem que
tenta unificar os dois casos, se o placar realmente acabou empatado, já que
Dino, antes de pedir vista, havia votado por unificar.
Após
pedir mais tempo para apreciar a questão de ordem, o ministro tem até 90 dias
para liberar o caso para análise do plenário — a data exata será marcada por
Fachin.
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O que está nas mãos de Dino
Dino
tinha entrado diretamente no fogo cruzado entre Moraes e Mendonça na
quarta-feira passada (9/9) ao reverter a decisão de Mendonça que afastava o
diretor da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues.
Assim
como seus dois colegas da corte, que ganharam protagonismo com grandes
investigações criminais como o Inquérito das Fake News e o caso Banco Master,
Dino também se tornou poderoso ao acumular a relatoria de investigações com
alto impacto na política.
No seu
caso, o ministro é o relator de inquéritos que investigam desvios em emendas
parlamentares, ou seja, com o potencial de atingir centenas de deputados
federais e senadores.
As
emendas são recursos federais que os congressistas podem destinar para
investimentos em suas bases eleitorais. Esses valores dispararam, saltando de
cerca de R$ 10 bilhões há dez anos para R$ 40 bilhões em 2026. E, com isso,
aumentaram também os indícios de desvios.
Foi
justamente pela relatoria desses casos que Dino entrou na crise entre Mendonça
e Morais.
No
domingo (13/9), Dino retirou o sigilo dos documentos do caso que apura o
possível direcionamento de emendas parlamentares no Estado de São Paulo para o
financiamento do filme Dark Horse, que conta a história do
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Os
documentos fazem parte de uma das investigações que tramitam atualmente no STF
relacionadas ao financiamento do filme.
No
despacho, Dino determinou que o STF centralizasse o inquérito que tramitava na
Polícia Civil do Estado de São Paulo.
Na
mesma decisão, Dino também ordenou o levantamento do sigilo dos autos e dos
atos investigativos já documentados, sob o fundamento de que é necessário
garantir transparência e prevenção contra vazamentos seletivos.
Dino
afirmou que, após analisar o material produzido pela investigação da Polícia
Civil de São Paulo, os elementos indicam um possível "sofisticado esquema
de destinação e desvio de recursos públicos", principalmente de emendas
parlamentares federais.
O
ministro ainda mandou a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo entregar à
Polícia Federal todo o material bruto extraído de celulares apreendidos, além
dos aparelhos, computadores e documentos recolhidos.
Entre
os alvos da investigação de Dino estão o deputado federal Mário Frias (PL-SP),
produtor executivo de Dark Horse e ex-secretário de Cultura do
governo Bolsonaro, e Karina Gama, dona da Go Up, produtora do longa.
Ambos
foram alvo de uma operação policial na semana passada para apurar o suposto
desvio de recursos públicos oriundos de emendas parlamentares repassadas, por
meio de termos de fomento, a organizações da sociedade civil.
Frias é
acusado de ter repassado R$ 2 milhões a Gama, que é dona ao mesmo tempo da
produtora Go Up Entertainment e de uma organização à frente de projetos
sociais, o Instituto Conhecer Brasil (ICB).
O
deputado nega as acusações e diz ter documentos e notas para comprovar a
licitude da ação.
Fonte: BBC News Brasil

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